30/12/2012

De 2012, entre bolsas e valores, para 2013

2012. Um ano marcado por crises, austeridades, revoltas e fins do mundo. Ainda cá estamos, dizem os especialistas para enfrentar mais crises, austeridades, revoltas, mas sem fins do mundo. Acabaram-se as profecias maias.
 
Bolsas. Cada vez menores. Não em tecido, mas em moeda corrente. Parecem mais pesadas, porém a ilusão deriva da matéria do dinheiro. O peso é inversamente proporcional ao seu valor, daí que 2 Euros pesem mais do que 200. O engraçado da coisa é que andamos com as bolsas ou os bolsos cada vez mais pesados, embora tenhamos menor poder de compra. É a crise.

 
Valores. Uma crise que se designa por “económico-financeira”. Guardo para mim que são os valores que se enterram. Administradores de grandes empresas repartem milhões em prémios ou bonificações, resultantes de excedentes, enquanto famílias debatem-se heroicamente para poder comer. Como é um fenómeno à escala planetária, entendo que é a humanidade que está crise. Saber de enredos de senhores de poses a fazer coleções de carros de alta cilindrada, com milhares, milhões ou biliões a passar ou a morrer de fome, é algo que nos devemos de, no mínimo, envergonhar. Uns riem-se maliciosamente dos que pior ficam, uns revoltam-se, a maioria assobia para o lado.
 
2013. As expectativas pessimistas. Se o Homem sonha, a obra nasce, então se o Homem projeta pesadelos, o que de lá virá? As trevas? Há quem nos minta e refira que vai ser melhor; há quem nos queira comprar com o retorno de subsídios, que na prática não nos traz quaisquer benefícios; há quem nos coloque a mão na consciência e nos desperte para o facto de ainda podermos fazer algo por nós próprios. Que nos relembre que somos livres, não de pagar menos impostos, mas de sermos melhores para a sociedade, para uma humanidade em decadência.
 
Para todos, um magnífico 2013. Que os seus dias nos façam partilhar os valores e o bom senso, que jamais qualquer política, crise ou austeridade nos poderá retirar dos(as) bolsos(as).

09/12/2012

O Jesus da nova Era quer fazer discípulos


Ponto prévio: nada tenho contra Jorge Jesus.
 
Em tempos houve um Jesus – o Messias – que fez os seus discípulos para disseminarem a Sua palavra. Esse Jesus é figura central no Cristianismo. Atualmente, temos um outro Jesus – o Mestre da Tática, como se autoproclama – que diz que a preparação estratégica do Benfica diante do Barcelona vai fazer seguidores. Não sou eu que o digo, podemos ler aqui as palavras do mestre. Este é figura central do panorama futebolístico português.

 Foto: O mestre da tática - Jorge Jesus. Fonte: http://www.record.xl.pt

Ora, ou sou eu que sou muito limitado, porque não percebi que a equipa do Barcelona manteve a sua identidade e qualidade, ou então é o “mestre” Jesus que é um gabarola, porque aquele Barcelona esteve a anos-luz da máquina de jogar futebol que todos conhecemos. A isto não estará alheio as ausências de elementos como Iniesta, Xavi, Fàbregas, Dani Alves, Busquets, Jordi Alba, Piqué e Messi do onze inicial. Portanto, o sucesso (que é muito relativo, pois também não triunfou) que a abordagem da equipa do Benfica teve neste desafio foi extremamente influenciado pela qualidade da oposição que, quer queiramos ou não, não era o verdadeiro FC Barcelona.
 
Para além disso, o FC Barcelona já tinha o primeiro posto do grupo assegurado. Sim senhor, os milhões são importantes, mas o contexto do jogo, ao invés do que sucedeu para os jogadores benfiquistas, não constituiu um grande estímulo emocional para o coletivo “culé”. Mesmo que os jovens da cantera catalã quisessem “mostrar serviço” a Tito Vilanova, não possuem o mesmo nível competitivo de Iniesta, Xavi ou Fàbregas. Precisasse o Barcelona de vencer o jogo e estou em crer que Jesus não estaria por agora a “vender” uma abordagem estratégica como se fosse o Santo Gral. Aliás, viu-se a aflição de 10 jogadores do Benfica (excetuando o guardião Artur) a correrem atrás de Messi, quando este encetou uma das poucas tentativas de progressão com bola de que dispôs. Paremos essa jogada a meio e observemos os espaços vazios nas costas da linha defensiva encarnada. Estivessem lá os outros artistas…
 
Teve o seu mérito, mas é essencial que percebamos o contexto do jogo e esse foi, sem dúvida, determinante para a ocorrência dos eventos a que assistimos. Que o siga, quem não quis ver; que o perdoe, quem já conhece a peça.

27/11/2012

Conferência-debate promovida pelo JD Monchiquense

O clube Juventude Desportiva Monchiquense irá promover uma conferência-debate no próximo dia 30-novembro-2012, pelas 21h30, relativa ao tema "A importância do exercício físico e da prática desportiva". A entrada é gratuita e o evento decorrerá no edifício-sede do clube na vila de Monchique.
 

Como é referido do blog oficial do JDM: "O painel de conferencistas é composto pelos seguintes elementos: Dr. Raul Pacheco (Director do Departamento de Medicina Desportiva do Instituto Português do Desporto e Juventude), Prof. Rui Batalau (docente universitário e investigador; Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), Prof. José Borges (Coordenador do Departamento Técnico da Associação de Futebol do Algarve) e Pedro Martins (atleta olimpíco na modalidade de badminton), o debate será moderado pelo jornalista Nuno Costa (Sportv).".
 
Portanto, mais uma excelente oportunidade para enriquecermos os nossos conhecimentos acerca de um tema tão importante, como negligenciado, por grande parte da sociedade contemporânea.
 
Compareçam!
 
Mais informações em: http://jdmonchiquense.blogs.sapo.pt/

01/11/2012

"Tiki Taka" a fazer escola no distrital do Algarve

Salvo as devidas comparações entre o FC Barcelona e outra qualquer equipa, o seu estilo de jogo, designado por "tiki taka", inspira muitas mentes no futebol, desde profissionais a amadores, passando pelos jovens em processo de formação.
 
No passado dia 27 de outubro de 2012 soprou uma pequena brisa de "tiki taka" na serra de Monchique, no jogo que opôs o JD Monchiquense e o ACR Alvorense 1º Dezembro, a contar para a 4ª jornada da I Divisão Distrital. O jogo terminou empatado a 3 bolas, sendo este o 2-0 para a equipa serrana (visitados). Ora confiram:
 

 

25/10/2012

The Open Sports Sciences Journal (Vol. 5)

Após cerca de 15 meses que compreenderam a elaboração do projeto, definição do design experimental, seleção e recrutamento da amostra, recolha e tratamento dos dados, escrita, correções, revisões e mais correções e revisões, eis que é finalmente publicado o produto final.
 
O artigo Manipulating task constraints in small-sided soccer games: Performance analysis and practical implications, em que contei com o inestimável e precioso apoio dos professores António Paulo Ferreira e Anna Volossovitch (FMH – UTL), compõe a edição especial “Training Control and Performance Assessment in Sport” do The Open Sports Sciences Journal (Volume 5).
 
Foto: Perspetiva dos jogos reduzidos (Gr+3v3+Gr).
 
Aqui no Linha de Passe registo com enorme satisfação a ocasião, disponibilizando o respetivo resumo (abstract) e o link onde poderão aceder, gratuitamente, a este e a outros artigos científicos da autoria ou coautoria de investigadores nacionais e internacionais conceituados na área das Ciências do Desporto, em particular na análise do desempenho e no desenvolvimento da excelência no desporto (Ricardo J. Fernandes, Júlio Garganta, José Maia, Isabel Mesquita, Maria Teresa Anguera, Carlos Lago-Peñas ou Mark Williams).
 
Abstract
Since an awareness of key task constraints can be extremely beneficial for coaches, the lack of scientific background about the effects of altered game rules/conditions on individual or team performances during soccer practice is surprising. The aim of the present study was to analyze the influence of different small-sided game (SSG) playing rules (“free-form”, “two touches” and “four passes to score”) on the offensive performance of young soccer players. Eight U-13 male soccer players were divided into two balanced teams. The experimental protocol consisted of three testing sessions separated by one-week intervals. In each session, teams faced each other in the three SSG conditions (3vs.3+goalkeepers) during periods of ten minutes interspersed with five minutes of passive recovery. Simple (i.e. Duration of ball possession, Players involved, Ball Touches, Passes, Shots, and Result of the Offensive Sequence) and composite (i.e. Players involved/ Duration, Ball Touches/Duration, Passes/Duration, Ball Touches/Players involved, Passes/Players involved, Passes/Ball Touches, and Goal/Shots) performance indicators were used to characterize the offensive performance of both teams. Results revealed that the factor “playing rule” had a significant effect on simple and composite indicators (p < 0.05). It was concluded that manipulating task constraints, such as game rules, can direct practitioners towards intended behaviors, and consequently promote skill acquisition and improve performance in youth soccer. Further research is needed to extend the knowledge about the modification of playing rules in team sports practice.
 
Keywords: Constraints-led approach, performance, rules modifications, small-sided games, technical component, youth soccer.

 
 
Aproveito ainda o ensejo para, mais uma vez, agradecer à direção do clube Juventude Desportiva Monchiquense, na pessoa do atual presidente, e a todos os jovens que, a título de jogador ou colaborador, tornaram este trabalho possível.

18/10/2012

A ausência de um “10” na seleção portuguesa

Para quem, nos anos mais recentes, viu Rui Costa ou Deco a jogar pela seleção portuguesa, de imediato reconhecerá a falta que faz um jogador com características de um “10” no meio-campo de Portugal.
 
Foto: Rui Costa a atuar por Portugal (retirado de www.google.pt).

Até ao momento, as quatro jornadas da qualificação para o Mundial 2014 – isto sem esquecer o magnífico Euro 2012 realizado pela seleção – demonstraram que, por muita qualidade que possam ter João Moutinho, Raúl Meireles e Miguel Veloso (os habituais titulares), nenhum deles é verdadeiramente um “10”.
Destaco, acima de tudo, predicados como a criatividade, a espontaneidade e a inteligência de jogo que distinguem os grandes craques que envergam ou envergaram a camisola “10”. Em conjunto, estes atributos possibilitam que um “10” saiba encontrar (e concretizar eficazmente) soluções para problemas contextuais do jogo que poucos (ou nenhum) companheiros de equipa conseguiriam discernir e executar. São estes jogadores que jogam e fazem jogar uma equipa; contagiam um jogador menos evoluído, técnica ou taticamente, a praticar um futebol vistoso e, simultaneamente, objetivo. São estes jogadores que melhor entendem os ritmos de jogo: quando é preciso circular mais a bola para recuperar ou pacientemente conduzir a equipa adversária a entrar em desequilíbrios defensivos; ou quando é necessário acelerar processos para aproveitar desequilíbrios já presentes na estrutura defensiva oponente (ataque rápido ou contra-ataque). São estes jogadores que só sabem jogar bem!
Sem desprimor para qualquer um dos excelentes médios que figuram nas opções iniciais de Paulo Bento, não temos um “10” em Portugal. A ausência das ideias de um “10” ficou por demais evidente diante da Rússia e da Irlanda do Norte. E que jeito daria um Rui Costa ou um Deco a Cristiano Ronaldo e a Nani nas alas. As cotações (leia-se, performances) destes jogadores na seleção subiriam em flecha.
Por último, não posso deixar de fazer figas para que as gerações futuras do futebol português sejam mais prendadas que esta no que toca à matéria de um “10”: uma espécie em vias de extinção que urge preservar e… saber formar.

03/10/2012

Treino de guarda-redes: A metodologia no Deportivo

É na posição de guarda-redes (GR) que encontramos um vasto leque de ações que se distingue bastante dos comportamentos específicos dos designados "jogadores de campo". Por conseguinte, é lógico que o processo de treino corresponda às particularidades do rendimento dos indivíduos que atuam nesta posição peculiar.
 
Através do jornal Record - edição online - tive a feliz oportunidade de conhecer a metodologia de treino que José Sambade Carreira - treinador de GR - utiliza no clube mais português da Liga BBVA: o RC Deportivo de La Coruña.
 


Neste caso, o objetivo é trabalhar a velocidade específica dos GR que, como José Sambade explica, deve surgir, dentro do microciclo semanal, na penúltima ou última sessão de treino antes da situação competitiva (i.e., jogo). O racional, a diversidade e os materiais empregues suscitou a minha atenção pela sua adequabilidade e criatividade. Isto é treinar em especificidade e com qualidade. As diversas formas de manifestação da velocidade - sobretudo, os tempos de reação simples e complexo e a velocidade de execução - solicitados em inúmeros contextos passíveis de ocorrem em competição.

De um ponto de vista mais teórico, trata-se da Abordagem Baseada nos Constrangimentos efetivamente aplicada. Um exemplo excelente de como o treinador desportivo deve manipular a tarefa, com criatividade e engenho, no intuito de estabelecer uma estreita correspondência entre os fatores de treino a desenvolver/aperfeiçoar e o perfil de rendimento do(s) jogador(es) em competição. Creio que é por aí que passa grande parte da capacidade de evolução dos treinadores de futebol que, antes de pensarem nas suas estruturas de planeamento, deveriam colocar de parte os exercícios estanques e estéreis que tantos livros técnicos recomendam.

26/09/2012

Subaproveitado! O estranho caso de Nolito

O extremo espanhol Nolito, proveniente do FC Barcelona e atualmente ao serviço do SL Benfica, é um dos casos mais flagrantes de subaproveitamento no futebol português. Não é de agora, já se estende desde a época passada, mesmo quando o jogador teimava em se mostrar decisivo em diversos jogos consecutivos.

 Foto: Nolito em ação no SL Benfica (fonte: http://11-contra-onze.blogspot.com).

Na minha perspetiva, é o melhor extremo do plantel encarnado; muitos discordarão, pois há Sálvio, Gaitán, Bruno César, Enzo Pérez e Ola John. Respeito, mas mantenho-me firme no meu julgamento. Nolito não se restringe à típica ação de extremo de assumir duelos individuais (1x1) para desequilibrar a organização defensiva adversária. A sua perceção e leitura do envolvimento, bem como a sua capacidade de executar com qualidade, consubstanciados numa cultura tática acima da média, determinam que o jogador explore predominantemente espaços interiores com eficácia, sobretudo partindo do corredor esquerdo em deslocamentos diagonais. Fá-lo, essencialmente, através de combinações táticas diretas e indiretas pouco habituais de se observar por parte dos seus companheiros de posição.
 
Neste particular, é evidente a tendência de Nolito para procurar Pablo Aimar (um jogador altamente capaz de compreender e corresponder à comunicação despoletada pelos seus companheiros de equipa), no intuito de executar essas ações coletivas, culminando com deslocamentos de rotura passíveis de colocar o espanhol em ótimas circunstâncias para assistir ou finalizar para golo. Para além de explorar com frequência tais combinações táticas imbuídas de lógica e objetividade, Nolito dribla bem, assiste com critério, envolve-se em tarefas defensivas quando o contexto assim solicita, tem um espírito competitivo notável e, para complementar, sabe finalizar.
 
Não entendo a gestão que é feita na sua utilização; o tempo total de jogo é escasso face a tamanha qualidade e competitividade. Custa-me ainda ver o nome do jogador constantemente associado a outros clubes na imprensa desportiva nacional. O ter de sair para estar mais próximo da família soa-me a estapafúrdio; Lisboa não é assim tão longe da sua terra natal.
 
Manuel Agudo Durán “Nolito” merece ser valorizado e devidamente aproveitado pela equipa técnica do Benfica. Não há muitos como ele e Pep Guardiola sabia-o muito bem quando o tentou demover de deixar a equipa catalã.

02/09/2012

Ensinar a jogar futebol dos 6 aos 10 anos de idade: Uma tarefa “sensível” para o treinador

NOTA PRÉVIA: O texto presente neste "post" foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 69, Junho / Julho 2012).
 
Figura: Capa da Revista AF Algarve, n.º 69 Junho / Julho 2012 (Download pdf aqui).
 
Introdução
A iniciação na modalidade desportiva preferida, aquela em que se ocupa grande parte dos tempos livres a praticar com os amigos, é sempre um período marcante na formação do jovem atleta. Nos dias que hoje correm, este processo de iniciação é tudo menos tardio. No futebol, por exemplo, assistiu-se recentemente a uma reorganização dos escalões etários com o surgimento dos Traquinas (Sub-9) e dos Petizes (Sub-7). A resposta por parte de entidades desportivas, como clubes e escolas de futebol, não se fez esperar e a abertura de tais classes tornou a iniciação à prática formal de futebol mais precoce. É indiscutível: as crianças começam a treinar e a competir progressivamente mais cedo, adquirindo certas competências específicas e gerais em idades mais jovens. Quase escusado será referir que o treinador assume um papel relevante neste processo, constituindo, antes de mais, uma referência de inestimável valor aos olhos dos mais pequenos. Posto isto, o objetivo deste breve artigo é discutir o modus operandi do treinador no ensino do jogo a crianças entre os 6 e os 10 anos idades.
 
Treinador: o propiciador!
É muito comum o pensamento de que um treinador nestes escalões etários se deve limitar a ensinar/treinar habilidades técnicas e breves aspetos táticos e a desenvolver capacidades coordenativas e condicionais. A meu ver, esta abordagem é redutora, pois as preocupações do treinador devem ir muito além do mero ensino do passe, da receção, da contenção, do apoio ou do drible do Zidane; o treinador deve, antes, propiciar condições para que as habilidades se manifestem. Por exemplo, num jogo reduzido de 3x3 (três contra três) com miúdos de 7 anos, é frequente observarmos o chamado “jogo nuvem”, isto é, a aglomeração das crianças ao redor da bola. O comportamento mais habitual do treinador é parar a situação de jogo, explicar que assim não conseguem jogar futebol e que se devem afastar (aclaramento). Discordo totalmente! É precisamente nestes contextos que o “artista do grupo” vai executar um ou dois dribles, passar pela equipa adversária e marcar golo. Portanto, o treinador estará a propiciar que o potencial do miúdo se manifeste e que as outras crianças percebam como alcançar o êxito, o que não impede que sejam transmitidas algumas “dicas” pontualmente.
 
Adequar o conteúdo à aptidão da criança
Outra questão fundamental é a adequabilidade do conteúdo a lecionar às aptidões das crianças. De acordo com a Teoria Cognitiva de Jean Piaget, entre os 7 e os 11 anos, o ser humano experiencia o estágio operatório concreto, sendo capaz de lidar com conceitos, números e relações concretas, mas ainda não possui aptidão para efetuar raciocínios lógico-dedutivos. Daí que a explicação de “aclarar em relação à bola, porque assim se jogar melhor futebol” possa, de facto, não ser entendida. Neste sentido, o recurso a analogias concretas tende a ser mais eficaz. Por exemplo: a bola é o sol e os jogadores as nuvens; o que nós (treinadores) queremos é que não haja tantas nuvens à volta do sol para que ele (a bola) possa brilhar. Este tipo de “feedbacks” não deve, no entanto, sobrepor-se ao caráter propiciador do treinador; deve somente constituir um simples complemento.
 
Conclusão
O treinador é um elemento fulcral no processo de formação desportiva. No período entre os 6 e os 10 anos de idade, as crianças apresentam uma grande plasticidade para a aprendizagem, como se fossem autênticas esponjas (absorvem tudo); o treinador deve, todavia, ser suficientemente sensível para, por um lado, não castrar a manifestação do potencial do miúdo na sua relação com a bola e, por outro lado, compreender que existem particularidades no desenvolvimento humano que constrangem a aquisição de competências do jogo. Por isso, o modo como o treinador propicia contextos de aprendizagem e os adequa às aptidões do praticante determina o êxito de uma tarefa altamente complexa: ensinar a jogar futebol.

Referência
Almeida, C.H. (2012). Ensinar a jogar futebol dos 6 aos 10 anos de idade: Uma tarefa "sensível" para o treinador. Revista AFAlgarve, 69, 24-25.

25/08/2012

"Decisão técnica" de Jesus numa lição a jornalistas

Jorge Jesus veio hoje, em conferência de imprensa de antevisão do jogo do SL Benfica no reduto do Vitória de Setúbal, dar uma "lição" - qual professor catedrático (!) - a todos os jornalistas presentes. Eis o momento que registei com enorme curiosidade:
 

  
O homem tem alguma razão naquilo que refere relativamente ao jogador Melgarejo, porém o ato tático não se pode restringir somente ao posicionamento do paraguaio. Melgarejo falhou, é ponto assente. Agora falhar na "decisão técnica"? Provavelmente, o que Jorge Jesus quereria manifestar é que o seu pupilo não executou da melhor forma a ação motora (i.e., a ação técnica). Se partirmos, como ele fez, para o plano decisional entramos inapelavelmente na dimensão tática do jogo.
 
 
Para catedrático e/ou mestre da tática, o mister Jesus deveria ter noção destes conceitos básicos. Escusava de se armar novamente em "artolas" e meter os pés pelas mãos.

23/08/2012

O talento de Messi numa só jogada



Messi, o talento argentino do FC Barcelona. Nunca escondi a profunda admiração que nutro pelo futebolista. Contra o Bayer Leverkusen, na edição transata (2011/2012) da Liga dos Campeões, embora não tenha concretizado golo, demonstrou todo o seu génio numa só jogada. Criatividade, iniciativa, capacidade técnica e velocidade ao serviço do futebol. Desde o compasso de espera à "picadinha" por cima do guarda-redes alemão, passando pela aceleração e pelo drible, tudo parece simples; tudo é anedoticamente fantástico!
 
Definitivamente, Cristiano Ronaldo seria o melhor jogador do mundo, se não houvesse neste mesmo período da história da modalidade um senhor chamado Lionel Messi.

19/08/2012

O meu ídolo? Só um: João Vieira Pinto.

Foi outrora, e durante o período da minha infância, a única personalidade que me levou a colar posters nas estantes do meu quarto. João Vieira Pinto: o menino de ouro na altura, ou o pequeno génio como também era chamado. Um jogador cheio de talento, que muito deu ao Sport Lisboa e Benfica e acabou escorraçado por um senhor ainda a contas com a justiça portuguesa: Vale e Azevedo.

Foto: João Vieira Pinto (fonte: http://epluribusunum1904.blogspot.com).

Para além do Benfica, representou o Boavista, Atlético de Madrid, Sporting e Sporting de Braga. Venceu títulos em todos eles. Na seleção nacional Sub-20 foi bicampeão mundial (1989 e 1991) e na seleção A foi internacional 81 vezes, rubricando exibições de luxo e apontando um total de 23 golos, alguns deles espetaculares.

Atualmente é dirigente na Federação Portuguesa de Futebol. No dia de hoje – 19 de agosto de 2012 – celebra o seu 41º aniversário. Em jeito de homenagem a este enorme talento do futebol português deixo-vos as incidências da partida que mais vividamente brota da minha memória e na qual, claro está, João Vieira Pinto brilhou (Sporting 3 - 6 SL Benfica; campeonato nacional, época 1993/1994).
 

Parabéns e o meu muito obrigado pelo encanto que era ver-te jogar.

13/08/2012

De Londres 2012 para o Desporto em Portugal

A festa dos Jogos Olímpicos terminou ontem em Londres e somente voltaremos a presenciar, direta ou indiretamente, o certame em 2016, a ocorrer na cidade brasileira do Rio de Janeiro.


No rescaldo da participação portuguesa, Vicente Moura (presidente do Comité Olímpico Português) e Mário Santos (Chefe da Missão Olímpica portuguesa) classificaram os resultados obtidos como positivos, estabelecendo uma relação inequívoca com a precariedade que é o desporto em Portugal. Uma medalha de prata e nove diplomas olímpicos não é mau, porém, arrisco-me a afirmar, poderia ser muito melhor.

O investimento no desporto é escasso, a educação física (EF) e o desporto escolar são permanentemente marginalizados comparativamente a outras disciplinas escolares, depois o povo quer medalhas? Exige-se à Telma Monteiro o ouro, quando a judoca americana que a derrotou na 1ª ronda, não possuindo o mesmo talento, dispôs certamente de melhores condições para alcançar êxito na competição. Na maior parte das vezes, o talento por si só não chega; é fundamental oferecer as condições devidas de preparação para que o nível de excelência possa ser alcançado. Neste particular, comparar um atleta português a outro americano é, no mínimo, perverso. Ainda assim, às vezes lá os enganamos.

Parece ser consensual que a formação desportiva de base deve ser repensada e, acima de tudo, incentivada pelo Estado. A EF e o desporto escolar deveriam desempenhar um papel fulcral neste processo, ao invés é melhor reduzir o tempo destinado à prática de atividade física e desportiva nas escolas; é mais correto que o aproveitamento na EF não conte para a média no ensino secundário, como quem diz: “vão lá às aulas, mas não se esforcem muito para não desgastar o raciocínio para a matemática”. Aqui, apraz-me ridicularizar a situação: se um jovem apresenta um aproveitamento insuficiente na matemática, os pais não se importam de colocar o educando na explicação, muitas vezes paga a peso de ouro. De modo análogo, se um jovem não cumpre os objetivos definidos nas diversas matérias da EF, os pais, conscientemente, deveriam incentivar à prática de um qualquer desporto (natação, ginástica, andebol, karaté, dança, etc.), diminuindo o “analfabetismo motor” do seu rebento. Mas não! O melhor mesmo é não contar para a média do secundário.

Por sinal, ainda recentemente saiu uma notícia no jornal O Público (ver aqui), em que dá para perceber, através de uma pesquisa longitudinal efetuada por uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa (FMH-UTL), que a) os jovens com aptidão cardiorrespiratória saudável tiveram um maior somatório das classificações de português, matemática, ciências e inglês, b) os alunos insuficientemente ativos, ou seja, que não cumprem as recomendações de atividade física diária (pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada e vigorosa), têm maior probabilidade de serem pré-obesos ou obesos, c) o exercício promove a formação de novos neurónios e uma maior interação entre estas células nervosas, que, por sua vez, promovem maior sensibilidade e desenvolvimento cognitivo.

Estas, entre muitas outras, seriam razões mais que suficientes para incentivar à prática desportiva regular desde as idades mais tenras. Como reforça Luís Sardinha (diretor do Laboratório de Exercício e Saúde da FMH), o ideal seria que, por altura do término do 12º ano, os alunos fossem “consumidores educados de exercício físico”, muitos deles, acrescento eu, talvez desportistas nas mais distintas modalidades, porém é algo que se encontra muito longe da realidade em que vivemos.

Portugal só teria a ganhar com mais e melhor desporto: saúde, autoestima, felicidade, produtividade e, lá está, as tão proclamadas medalhas olímpicas. Porque o olimpismo consagra os principais vetores para uma vida sã em sociedade: equilíbrio das qualidades do corpo, da vontade e do espírito; desenvolvimento harmonioso do Homem; ação concertada, organizada, universal e permanente de todos os indivíduos e entidades participantes; entendimento mútuo, amizade, solidariedade e fair play; repúdio pela discriminação independentemente de raça, religião, política ou género sexual.

Urge repensar estratégias; urge valorizar o desporto no nosso país. Todos nós!

29/07/2012

Breve revisão: A grande penalidade no futebol

A marcação de uma grande penalidade é uma circunstância peculiar no decurso de um jogo de futebol. Pode resultar de uma falta ocorrida no interior da grande área ou, como último recurso, determinar o desfecho de um jogo através de uma série de penáltis para cada equipa. Por este motivo, são episódios que assumem proporções altamente mediáticas. Ainda recentemente, o Campeonato Africano das Nações (CAN, 2012), a Liga dos Campeões da UEFA (2011/2012) e uma das meias-finais do EURO 2012 foram precisamente decididos através da marcação de grandes penalidades.

Foto: O penálti de Bruno Alves no duelo das meias-finais do EURO 2012 diante da Espanha (fonte: REUTERS).

Portanto, a grande penalidade não deveria ser um evento a negligenciar na preparação das equipas para a competição, embora muitos treinadores e equipas técnicas descurem esta categoria de bola parada no seu planeamento de sessões e microciclos, lembrando-se esporadicamente de “afinar a pontaria” dos 11 metros quando a ocasião assim o exige, por exemplo, na sessão prévia a jogos da Taça. Do mesmo modo que sempre me disseram que não se deve estudar apenas no dia anterior a um teste, estou ciente de que “bater” penáltis um ou dois dias antes de um jogo a eliminar é manifestamente escasso para melhorar a competência dos atacantes e dos guarda-redes (GRs) nestas situações específicas.

Parece ser consentâneo que a execução e o resultado de uma grande penalidade dependem de estados de equilíbrio/desequilíbrio entre o jogador que remata a bola e o GR, constituindo, por isso, uma interação dinâmica de um contra um (Lopes, Araújo, Peres, Davids, & Barreiros, 2008; Palao, López-Montero, & López-Botella, 2010). Além disso, são inúmeras as variáveis que condicionam a prestação dos dois intervenientes. O conhecimento anterior (observação e análise do adversário), os estados emocionais, a lateralidade do atacante (destro ou canhoto), a localização da partida (em casa ou fora), o resultado corrente do jogo (a vencer, empatado ou a perder), entre outros, são fatores que permanecem em jogo, senão mesmo de forma mais determinante, no curto período em que decorre a grande penalidade. A investigação científica tem procurado algumas respostas, porém a maioria das pesquisas peca por o concretizar fora do contexto ecológico em que a díade atacante vs. GR emerge (Lopes et al., 2008).

Na revisão efetuada por Lopes et al. (2008) sobre esta temática, foi possível sintetizar um conjunto de conclusões comuns a diversas investigações consultadas: (i) as coxas e a perna de apoio do atacante parecem ser fontes de informação relevantes para antecipar a direção do remate por parte dos GRs; (ii) os atacantes não podem alterar a direção do remate, sem prejuízo da performance, quando os GRs se movem entre os 400 e os 300 ms antes do contacto do atacante com a bola; (iii) os GRs que obtêm mais êxito aguardam mais tempo para iniciar a ação de defesa; (iv) os GRs podem influenciar a perceção prévia do atacante para uma determinada zona da baliza e, assim, condicionar a direção do remate; (v) há uma associação forte entre a importância da grande penalidade e a efetividade do desempenho; (vi) há uma associação entre instruções negativas proferidas pelo treinador e a performance do atacante na marcação da grande penalidade.

Segundo estas evidências, a típica desvantagem atribuída aos GRs nestas situações poderá ser atenuada com o treino de um vasto leque de habilidades percetivas, para além da hipersolicitada componente motora. Neste particular, a tomada de decisão do GR pode ser potenciada caso assente num processo permanente e ativo de exploração e seleção de informação relevante que suporte a decisão (Lopes et al., 2008). Do lado do atacante, podem surgir duas estratégias para marcar o penálti: (i) a independente do GR, na qual o jogador parte para a bola com a decisão tomada em relação ao lado para onde irá rematar, focando-se na precisão e potência da ação ou (ii) a dependente do GR, em que o jogador explora e analisa, em frações de segundo, as ações do GR no sentido de decidir o lado para o qual irá rematar e obter sucesso (Lopes et al., 2008; Palao et al., 2010).

Transpondo os factos para o treino desportivo, é importante que o desenvolvimento de habilidades subjacentes à marcação de grandes penalidades não seja colocado de parte no alto rendimento e, sobretudo, nas diversas etapas de formação na modalidade. No cômputo geral, é uma tarefa bastante aprazível desde as idades mais jovens, nas quais a aquisição de habilidades percetivas, cognitivas e motoras assumem especial significado. Em ambos os estudos mencionados, os autores indicaram algumas dicas para explorar na prática. Assim, o treinador deverá: (i) melhorar a tolerância dos jogadores (atacante e GR) à pressão das grandes penalidades, mediante a oposição a adversários com diferentes estratégias; (ii) manipular constrangimentos da tarefa (distância da bola, tamanho da bola, tamanho da baliza, etc.) e constrangimentos do praticante (e.g., aumentar a pressão imposta numa decisão por grandes penalidades, criar rankings de sucesso para todos os jogadores, etc.); (iii) conceder instruções aos GRs para 1) se moverem ao longo da linha de golo, 2) permanecerem estáticos o máximo possível ou 3) definir uma posição inicial ligeiramente para a esquerda ou para a direita e, posteriormente, tentar defender o penálti; para os atacantes 1) assumir diferentes ângulos de aproximação à bola, 2) variar a distância inicial entre o próprio e a bola, 3) rematar com o pé dominante e com o não dominante.

No essencial, o treinador deve propiciar a exploração de diversas estratégias, constrangendo a tarefa e o praticante, a fim de que o mesmo possa estar suficientemente “afinado” para lidar com circunstâncias inesperadas na marcação de uma grande penalidade. A aferição dos resultados pode ser alcançada com a elaboração de uma simples grelha de avaliação com critérios pré-definidos. Eis um exemplo relativo à eficácia: (i) para os atacantes: 8 ou mais golos, em 10 tentativas, é definido como “muito bom”, entre 5 e 7 “médio” e menos de 5 “insuficiente”; (ii) para os GR: 3 ou mais defesas, em 10 remates, é definido como “muito bom”, 2 em 10 “médio” e uma ou zero “insuficiente”.

Referências
Lopes, J. E., Araújo, D., Peres, R., Davids, K., & Barreiros, J. (2008). The dynamics of decision making in penalty kick situations in association football. The Open Sports Sciences Journal, 1, 24-30. (pdf)
Palao, J. M., López-Montero, M., & López-Botella, M. (2010). Relación entre eficacia, lateralidad y zona de lanzamiento del penalti en función del nivel de competición en fútbol. Revista Internacional de Ciencias del Deporte, 4(19), 154-165. (pdf)

09/07/2012

Crescer, com talento, no futebol não é fácil…


(…) nos dias que hoje correm.


A este propósito, deixo-vos as sábias palavras do professor José Neto (2012, p. 36):

E isto é particularmente evidente quando observamos as exigências do tipo comercial (lei do mercado) que coisificam e degradam, até à condição de mera mercadoria, o agente desportivo de alto rendimento, designadamente no futebol. Mas é-o também e, aqui de forma deveras preocupante, no afã despótico de muitos pais e outros agentes que, ao detectarem numa criança sinais de talento, a fazem entrar à força numa espécie de forja de craques, sugando-lhe aquilo que, para ela, é mais importante: o espaço lúdico para crescer. Quando se quer, à viva força, enxertar no homem o craque, este, a acontecer, é à custa do homem que acontece – e, após a fulguração da estrela cadente, o vazio e a solidão. Mas há mais: pouco ou nada educativo é um desporto se este se exprimir exclusivamente nas suas componentes física, táctica, técnica e normativa.

Referência
Neto, J. (2012). Futebol de corpo inteiro. Lisboa: Prime Books.

23/06/2012

O (pequeno) grande João Moutinho

Não é de agora que nutro uma admiração especial pelas capacidades futebolísticas do médio português João Moutinho. Já nos seus tempos no Sporting Clube de Portugal se fazia notar uma competência de jogo, marcada pela cultura tática, qualidade técnica e disponibilidade física, muito acima da média. Neste particular, João Moutinho destoava dos seus companheiros de equipa, assumindo claramente a liderança dos processos no setor do meio-campo.
 

Com a saída para Futebol Clube do Porto, vendido a preço de “maçã podre” (uns meros 10 milhões de Euros), Moutinho melhorou bastante a competitividade, a intensidade de jogo e as demais competências que havia manifestado no seu clube de formação. Neste âmbito, julgo que o trabalho com André Villas-Boas possibilitou que o jogador alcançasse um nível de desempenho mais elevado.

O seu jogo transborda inteligência, não apenas quando a sua equipa detém a posse da bola, mas também quando se encontra em processo defensivo. Defensivamente, desempenha uma função fundamental no meio-campo da sua equipa. É muito forte e imediato na pressão sobre o portador da bola, forçando frequentemente o erro. É muito competitivo na disputa da bola, levando a que recupere muitas vezes a sua posse, através de desarme e, inclusivamente, em situações de jogo aéreo (cabeceamento). Um outro exemplo de que a estatura não é sinónimo de competência no futebol. Ocupa muito bem o espaço de jogo, contribuindo para a) “cortar” linhas de passe interiores, designadamente na direção do seu setor mais recuado, b) compensar a subida dos laterais, cobrindo/equilibrando o espaço na sua retaguarda e c) incrementar a eficácia do processo coletivo da equipa na pressão defensiva sobre o conjunto oponente.

Com a posse da bola, João Moutinho é uma “enciclopédia prática”. É fantástico a “ler” o jogo e consegue dar, quase sem exceção, boa sequência ao ataque da equipa, independentemente do método aplicado. Vemo-lo quer a “baixar” no terreno de jogo para transportar a bola na etapa de construção, quer a executar deslocamentos em profundidade no intuito de desequilibrar a organização defensiva adversária, tanto pelo corredor central, como pelos laterais. Por vezes, faz permutas com companheiros do setor avançado, assumindo sem desdém as respetivas funções. É exímio a marcar o ritmo de ataque da equipa e apresenta uma capacidade de passe excelente, rubricando assistências primorosas para golo. Não arrisca muitas vezes o remate e este é, a meu ver, um aspeto que poderia melhorar: aparecer mais vezes em zonas de finalização e trabalhar a eficácia da ação de remate.

Em seguida, deixo-vos um vídeo que elaborei, com um compacto das ações do João Moutinho no jogo contra a República Checa (21-junho-2012), e que demonstra o que mencionei anteriormente.


O jogador algarvio enche o campo e enche-me as medidas. É o 8 da nossa seleção, mas não revela características exclusivas de um “box-to-box”. Possui ainda qualidades bastante valorizadas em jogadores que atuam nas posições 6 e 10. Na minha perspetiva, vale todos os milhões de Euros da sua cláusula de rescisão. Sem desprimor para o grande clube que é o FC Porto, penso que está na altura de dar salto. Não me engano por muito se afirmar que os colossos europeus – Real Madrid, Barcelona, Bayern Munique, Manchester City, Manchester United, Juventus, AC Milão, Inter de Milão, etc. – não possuem nos seus planteis muitos jogadores como este, o melhor médio do futebol português na atualidade: o (pequeno) grande João Moutinho.

19/06/2012

Dualidade do jogo e os (inoportunos) momentos

O jogo de futebol engloba duas fases distintas: a ofensiva e a defensiva. É nesta dualidade que assenta os processos das equipas, obviamente inerentes à problemática de deter ou não a posse de bola. Creio que esta é a visão mais simples e crua daquilo que sobressai de um jogo: uma equipa ataca, outra defende.

Contudo, e nos anos mais recentes, instaurou-se um pouco por toda a comunidade do futebol a ideia dos momentos. Há quem apregoe à existência de quatro momentos – organização defensiva, organização ofensiva, transição defesa-ataque e transição ataque-defesa – e há quem considere a existência de cinco momentos ao acrescentar as situações de bola parada (i.e., esquemas táticos).

Na minha perspetiva, estas convenções pouco ou nada acrescentam ao que estava anteriormente delimitado tendo como base a dualidade do jogo. Tanto para o processo ofensivo, como para o processo defensivo, pode entender-se a existência de etapas e métodos (Castelo, 2004). As etapas do jogo ofensivo são: construção, criação da situação de finalização e finalização; no jogo defensivo, temos as etapas de equilíbrio defensivo, recuperação defensiva e defesa propriamente dita. Em termos de métodos ofensivos, são vulgarmente conhecidos o contra-ataque, o ataque rápido e o ataque posicional. Ataque rápido e contra-ataque distinguem-se, essencialmente, pelo facto da equipa oponente estar ou não organizada defensivamente. No processo defensivo podemos ter um método individual (marcação individual), à zona, misto ou zona pressionante.

Posto isto, o surgimento dos momentos deu-me uma certa volta à cabeça. O que é um “momento”? Porquê tanto destaque dado às transições, quando na realidade são meras etapas do ataque ou da defesa? Haveria alguma falha de maior para se desconsiderar as etapas e os métodos associados às duas fases antagónicas do jogo? Parece-me que não.
 
Segundo o dicionário de língua portuguesa, um “momento” é 1) breve período de tempo, instante; 2) pouca duração; 3) tempo ou ocasião em que alguma coisa se faz ou acontece; 4) circunstância, lance; etc. Por sua vez, uma “transição” poderá ser 1) ato ou efeito de passar de um lugar, de um estado ou de um assunto para outro; 2) passagem que comporta uma transformação progressiva; etc. Tendo, por exemplo, o momento da transição ataque-defesa percebe-se que é o período de tempo em que uma equipa passa de um estado para o outro, no caso desde o instante da perda da posse de bola até à organização defensiva. Então, porque é que se refere que esta ou aquela equipa é “de transição”? No decurso do jogo as mudanças de estado não são constantes? Todas as equipas experienciam essas transições, embora umas privilegiem a organização, enquanto outras explorem mais as ditas "transições". É aqui que, na minha opinião, esta teoria dos “momentos” peca, tornando-se mais insidiosa do que a anterior. Os momentos confundem-se com os métodos.
 
Tomemos como exemplo os dois golos de Cristiano Ronaldo, diante da Holanda, no passado domingo.


Métodos distintos apoiados na capacidade coletiva da equipa em jogar consoante as circunstâncias do jogo. Se os espaços estão fechados, então circula-se a bola no intuito de criar desequilíbrios que possam ser aproveitados. Se, ao invés, o contexto é propício para o contra-ataque, a equipa deve estar preparada para saber/conseguir tirar proveito rapidamente do desequilíbrio defensivo contrário. É assim que funcionam as equipa de topo e para as quais jamais deveriam ser colados rótulos derivados de designações inoportunas de momentos do jogo.
 
Referências
Castelo, J. (2004). Futebol – A organização dinâmica do jogo. Lisboa: FMH Edições.
Porto Editora, LTA. (2003). Dicionário da língua portuguesa. Porto: Porto Editora.

03/06/2012

Radamel Falcao: a classe em modo “ponta de lança”

O colombiano Radamel Falcao (26 anos), atualmente ligado ao Atlético de Madrid, após passagens bem-sucedidas por River Plate e FC Porto, é um jogador que dispensa apresentações. Despoletou a atenção do velho continente com duas épocas de luxo no FC Porto (51 jogos, 41 golos) e por Espanha continuou a brilhar ao serviço do Atlético, onde viria recentemente a conquistar a segunda UEFA Europe League consecutiva.


Na minha perspetiva, Falcao é tudo o que um “ponta de lança” deve ser e sabe fazê-lo com classe. Para muitos o "ponta de lança" é a referência no ataque de uma formação, posicionando-se, geralmente, entre os centrais adversários e assumindo-se como o principal responsável pelas ações de finalização da equipa. Julgo que é uma conceção vulgarmente aceite pela maior parte da comunidade adepta de futebol. Eu discordo. O futebol moderno exige que o "ponta de lança" transcenda os habituais “jogar entre os centrais” e “marcar golos”.

Acima de tudo, é um jogador que deve provocar o desequilíbrio da organização defensiva adversária e, por isso, deve ser dotado de alguma mobilidade. Mesmo que não seja um jogador capaz de romper por meio da qualidade técnica e da velocidade, deve ser suficientemente ativo e móvel para apoiar companheiros de equipa para, dessa forma, criar os tais desequilíbrios defensivos da equipa oponente, através de combinações táticas. 

Voltemos a Falcao. Primeiro, destaco o sentido posicional altamente apurado, o que está subjacente à inteligência a ler o jogo e que, por sua vez, permite que antecipe ações de companheiros e adversários. Segundo, é exímio a finalizar, seja a cabecear, com o pé direito, com o esquerdo, à meia volta, de bicicleta, colocando a bola em arco, etc. Terceiro, é um jogador dotado de uma mobilidade excelente. “Baixa” para combinar com os parceiros, cai facilmente nos corredores laterais para procurar o espaço vazio e, se tiver que partir para o 1x1 (um-contra-um), possui argumentos técnicos e velocidade para o executar com êxito. Quarto e, sublinho, não menos importante: não tem qualquer problema, nem dificuldade, a assistir um companheiro melhor posicionado para fazer golo.


A frequente ideia de que o “ponta de lança” está lá para “fazer golos” e que, portanto, “é quem assume a finalização”, a meu ver, não pega. O “ponta de lança” é, como qualquer outro jogador, um elemento que contribui para o sucesso do coletivo. Neste particular, assistir um companheiro melhor colocado para finalizar não só é sinónimo de inteligência, como também é sinónimo de qualidade e competência. Radamel Falcao, como referi, é tudo o que um “ponta de lança” deve ser. Permitam-me o atrevimento de acrescentar que Falcao não é um “ponta de lança” é o “ponta de lança”. É classe!

Pergunto-me porque é que em Portugal, com todas as qualidades que são reconhecidas aos técnicos, às academias e aos respetivos prospetores, não surge um “ponta de lança”. Podia ser um meio Falcao, decerto que estaríamos, por agora, muito melhor servidos.

21/05/2012

O Paradigma dos "Extremos Invertidos"

Parece ser cada vez mais usual observar treinadores de futebol de elite a fazer uso de extremos ou médios-ala (caso joguem mais recuados) invertidos. Por extremos (ou médios-ala) invertidos entende-se a opção de colocar jogadores destros de cariz ofensivo a atuar no corredor esquerdo e, inversamente, jogadores canhotos no corredor direito.

Não pretendo fazer uma resenha histórica sobre o assunto, remontando à primeira vez que um treinador se lembrou de quebrar a vulgaridade de canhotos para a esquerda e destros para a direita, contudo, face ao número crescente de casos no futebol de alto rendimento, creio que estamos diante de um novo paradigma: a utilização de “extremos invertidos”.

No Barcelona, em tempos, Guardiola fê-lo com Henry/Messi, mais tarde com Villa/Messi, Pedro/Messi, entre outros. No Real Madrid, José Mourinho fê-lo, durante a presente época, com Ronaldo/Di Maria ou Ronaldo/Özil. Também em 2011/2012, vimos o Bayern Munique de Jupp Heynckes com Ribéry/Robben, o FC Porto de Vítor Pereira com Varela/Hulk, embora Villas-Boas (2010/2011) tivesse recorrido mais à dupla em causa, e o SL Benfica de Jorge Jesus com Nolito/Gaitán ou Nolito/Bruno César. Viajando um pouco mais além, podemos ainda vislumbrar o Shakhtar Donetsk de Mircea Lucesco com William/Douglas Costa. Decerto que outros haverá, mas que aqui não foram mencionados.   


Há quem critique as nuances comportamentais que decorrem desta opção estratégica, alegando que “afunilar” o jogo para o corredor central é benéfico para a formação que defende e que, para além disso, condiciona em demasia as valências de determinados avançados, nomeadamente os “homens de área” ou, conforme célebre tirada do treinador português Paulo Sérgio (recém vencedor da Taça da Escócia), os “pinheiros”.

Esta opção estratégico-tática depende não somente das características dos jogadores que um treinador possui, mas sobretudo da ideia de jogo do próprio treinador. Se há quem prefira ter “pinheiros”, sem mobilidade, para meter bolas no fundo da rede, de facto, os “extremos invertidos” podem não ser a solução mais viável. No cômputo geral, perante aquilo que são as exigências da competição ao mais alto nível, parece-me que traz mais benefícios do que malefícios para a dinâmica ofensiva da equipa.

As diagonais efetuadas pelos extremos fomentam uma série de situações que suplantam a mais que previsível jogada de “ir à linha de fundo para cruzar”. Por exemplo: (i) progredir para o espaço interior (corredor central) em condução ou drible, criando situação propícia para rematar à baliza; (ii) executar diagonal com bola, solicitando o apoio e posterior combinação tática (direta ou indireta) com o avançado ou médio interior, no intuito de desequilibrar a organização defensiva adversária; (iii) diagonal para o espaço interior, em progressão, permitindo a entrada no corredor de origem do lateral ou do médio interior; (iv) diagonal sem bola para a zona de finalização, surgindo, a meu ver, maior possibilidade de obtenção de sucesso na ação de remate, devido a melhor enquadramento do atacante para recorrer ao seu membro inferior dominante.   

Discordo também que tal não possa ser aplicado a equipas que não lutem por títulos. É uma circunstância estratégica treinável, como tantas outras, embora requeira maior cultura tática dos seus protagonistas, desde o avançado, que deve ser dotado de inteligência e mobilidade, passando pelos médios interiores e de cobertura, aos laterais. Não implica apenas progressão vertical, como se os extremos fizessem uso de palas, é um processo muito mais refinado e exigente.

Apesar disso, e a avaliar pelas evidências mais recentes no continente europeu, em que as melhores equipas (realço o Barcelona, o Real Madrid e o Bayern Munique) não descuram o fenómeno, merece toda a nossa reflexão. O paradigma vai sendo outro.