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14/07/2026

International Journal of Sports Medicine (2026) | Impacto da COVID-19 na saúde dos jogadores de futebol: Revisão sistemática e meta-análise

Há projetos científicos que nascem de uma curiosidade pessoal. Outros surgem de uma conversa entre colegas. E há aqueles, muito mais raros, que começam com um e-mail inesperado.

No dia 4 de setembro de 2024 recebi um convite do Prof. Ricardo da Costa, editor da International Journal of Sports Medicine, para liderar um artigo de revisão sobre um tema muito específico: a COVID-19 e o futebol. Confesso que a primeira reação foi de hesitação. Depois de refletir sobre o convite, percebi que só faria sentido aceitá-lo se conseguisse reunir uma equipa com experiência e competências complementares. 

Reunido o grupo, composto por mim (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Rui Freitas (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, Portugal), José Afonso (Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Portugal), Pedro Vargas (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes; Escola Superior de Saúde Jean Piaget Algarve, Portugal), Alberto Pompeo (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), Everton Cirillo (Universidade Estadual de Londrina, Brasil), Rodrigo Ramírez-Campillo (Universidad Andrés Bello, Chile) e Filipe Casanova (CIDEFES, Universidade Lusófona, Portugal), chegou o momento de definir o rumo do projeto. Numa primeira fase, equacionámos a realização de uma revisão de escopo. Contudo, essa hipótese não reuniu o consenso da revista, que manifestou preferência por uma revisão narrativa ou, idealmente, por uma revisão sistemática. Depois de uma boa dose de ponderação, optámos pelo percurso metodologicamente mais exigente: uma revisão sistemática com meta-análise. Sabíamos que essa decisão implicaria um investimento muito superior em termos de tempo e rigor metodológico, mas também que resultaria numa síntese científica substancialmente mais robusta. 

Nunca tinha coordenado uma revisão sistemática com meta-análise enquanto primeiro autor. Além disso, apesar de já ter publicado alguns trabalhos relacionados com a pandemia no futebol, esta investigação inseria-se muito mais no domínio da Medicina do Desporto do que nas minhas linhas habituais de investigação, centradas na análise do jogo e no desempenho em futebol. Naquela altura encontrava-me também envolvido em vários projetos científicos, conciliando-os com a atividade profissional e a vida familiar. Pouco depois, surgiram ainda os problemas de saúde do meu pai, que tornaram este período particularmente difícil. Aceitar este convite significava assumir um compromisso de grande responsabilidade, sem qualquer garantia de publicação. 

Seguiram-se meses de leitura e análise de centenas de artigos científicos, aplicação rigorosa das recomendações PRISMA 2020, avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos e realização daquela que foi a primeira meta-análise que tive a oportunidade de liderar como autor principal. O produto deste esforço acaba de ser publicado na InternationalJournal of Sports Medicine, uma revista científica internacional alemã de referência na área da Medicina do Desporto (Q1; Impact Factor: 2.3; CiteScore 2025: 4.5; Figura 1).

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo publicado na revista International Journal of Sports Medicine.

 

Mais do que estudar os efeitos da infeção por SARS-CoV-2, procurámos distinguir as alterações provocadas pela própria doença daquelas decorrentes das restrições impostas durante a pandemia, como as interrupções competitivas, as alterações nos treinos e as profundas mudanças na preparação dos jogadores. Para o efeito, analisámos 9 estudos, abrangendo mais de 1500 futebolistas de diferentes níveis competitivos. Esta revisão sintetiza, pela primeira vez, a evidência disponível sobre os efeitos fisiológicos da COVID-19 no futebol. Os resultados sugerem que, apesar de terem sido observadas alterações transitórias, sobretudo ao nível respiratório, a maioria dos indicadores fisiológicos permaneceu dentro de valores clinicamente normais. Ainda assim, a reduzida qualidade da evidência atualmente disponível recomenda prudência na interpretação destes resultados. 

Este foi, muito provavelmente, o projeto científico mais exigente em que estive envolvido até hoje. Não apenas pela complexidade metodológica, mas também porque me obrigou a sair da minha zona de conforto e a aprofundar conhecimentos numa área científica diferente daquelas em que habitualmente desenvolvo investigação. No final, fica a satisfação de termos correspondido ao desafio lançado pela própria revista e de contribuir com uma síntese que poderá servir de referência para futuras investigações e para a preparação de eventuais situações semelhantes.

O resumo e as palavras-chave constam na Figura 2.

  

Figura 2. Abstract do estudo publicado na revista International Journal of Sports Medicine (clique para ampliar).

 

Reference

Almeida, C. H., Freitas, R., Afonso, J., Vargas, P., Pompeo, A., Cirillo, E., Ramirez-Campillo, R., & Casanova, F. (2026). The impact of COVID-19 on soccer players’ health: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Sports Medicine. Advance online publication. https://doi.org/10.1055/a-2896-9130

28/06/2026

Artigo do mês #78 – junho 2026 | Modelos de jogo no treino de futebol: uma perspetiva da dinâmica ecológica

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 78 -

Autores: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K.

País: Inglaterra

Data de publicação: 27-maio-2026

Título: Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective

Referência: Jones, G., Kubayi, A., Stone, J. A., & Davids, K. (2026). Game models in football coaching: an ecological dynamics perspective. International Journal of Performance Analysis in Sport, 1–18. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2026.2679371

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 78 – junho de 2026.

 

Apresentação do problema

No futebol, o Modelo de Jogo é habitualmente entendido como uma estrutura que sustenta a forma de jogar de uma equipa e integra a filosofia do treinador, as características dos jogadores, os princípios táticos, a metodologia de treino e a identidade do clube (Plakias, 2023). Historicamente, tem servido para formalizar padrões de jogo, definir estruturas posicionais e orientar comportamentos em posse de bola, sem posse de bola e nas transições (Costa et al., 2011; Garganta, 1997; Guilherme, 2004). 

Apesar da sua utilidade, os Modelos de Jogo tradicionais podem assumir uma natureza excessivamente prescritiva. Quando reduzem o jogo a comportamentos previamente definidos, correm o risco de limitar a adaptação dos jogadores à variabilidade do contexto competitivo (Araújo & Davids, 2016; Ribeiro et al., 2019; Wellock, 2026). Práticas muito centradas na repetição de padrões podem diminuir a exposição à complexidade informacional do jogo e comprometer o desenvolvimento de decisões flexíveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2015; Davids et al., 2022). 

A dinâmica ecológica oferece uma alternativa conceptual, ao compreender o rendimento como resultado da interação entre jogador e ambiente. Nesta perspetiva, os princípios táticos não funcionam como instruções rígidas, mas como convites funcionais para a ação (Ribeiro et al., 2019). Os jogadores devem aprender a reconhecer affordances, isto é, oportunidades de ação que emergem em função das capacidades do jogador, dos colegas de equipa, dos adversários, do espaço e das condições do jogo (Silva et al., 2014; Travassos et al., 2013; Vilar et al., 2012). 

À luz desta perspetiva, o Modelo de Jogo pode ser repensado como uma estrutura flexível de suporte, e não como um guião determinista. Em vez de prescrever sequências fixas, deve ajudar os jogadores a adaptar-se a constrangimentos dinâmicos e a informação em mudança, de maneira a favorecer a autonomia, a flexibilidade tática e a capacidade de resposta (Goes et al., 2019; He et al., 2023; Jordet et al., 2020). Esta visão deve ainda considerar os constrangimentos socioculturais do clube, incluindo valores, tradições e identidade coletiva (O’Sullivan et al., 2025; Woods et al., 2020). 

Assim, o artigo propõe uma perspetiva ecológica dos Modelos de Jogo como estrutura conceptual para orientar a conceção da prática. O objetivo não é abandonar a ideia de Modelo de Jogo, mas torná-lo mais funcional, representativo e adaptativo, no intuito de potenciar a relação perceção-ação, a auto-organização coletiva e a aprendizagem dos jogadores em contextos próximos da competição.

 

Repensar os modelos de jogo tradicionais: para uma abordagem adaptativa do jogo

A crescente complexidade do rendimento no futebol conduziu ao desenvolvimento dos Modelos de Jogo como forma de estruturar o jogo em princípios, fases e momentos que orientam a forma de jogar das equipas (Ribeiro et al., 2019). Apesar da sua ampla utilização, o conceito permanece pouco consensual na literatura e é frequentemente confundido com outros, como “estilo de jogo” (Game Style ou Playing Style), o que pode originar interpretações e aplicações inconsistentes na prática (Hewitt et al., 2016; Plakias, 2023). Acresce que a adoção de modelos assentes em tradições históricas ou identidades pouco definidas pode comprometer a sua adequação às características dos jogadores e às exigências contemporâneas da competição. A este propósito, o antigo treinador da Premier League inglesa, Sam Allardyce, recordou a sua passagem pelo West Ham United F.C.:

 

Assim que fui nomeado treinador, em 2011, instalou-se de imediato o grande debate sobre se iria seguir a “forma de jogar do West Ham”, algo que ninguém conseguia definir. Ainda assim, fosse ela qual fosse, diziam que eu não a praticava. Os adeptos estavam a ser levados a acreditar que, historicamente, o clube tinha um estilo de jogo muito próprio, semelhante ao do Barcelona, o que era um completo disparate.

(The Guardian, 2015)

 

A experiência relatada por Sam Allardyce evidencia o risco de adotar filosofias de jogo assentes em tradições ou identidades históricas pouco definidas. O problema não reside na existência de um Modelo de Jogo, mas na sua eventual desadequação às características dos jogadores e às exigências competitivas do momento (Tamarit, 2015; Tee et al., 2018). Nesta perspetiva, a dinâmica ecológica não rejeita a identidade ou a filosofia de jogo, mas defende que estas devem evoluir em função do contexto e das necessidades da equipa (Davids et al., 2013; He et al., 2023). Assim, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto rígido de comportamentos pré-definidos para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação contínua dos jogadores e da equipa.

 

Fundações teóricas

A dinâmica ecológica assenta em conceitos como os constrangimentos (constraints), as affordances e o desenho representativo da prática (Representative Learning Design), que permitem compreender o rendimento no futebol como um fenómeno dinâmico e auto-organizado, resultante da interação contínua entre jogadores e ambiente (Araújo & Davids, 2016; Davids et al., 2008; Newell, 1986).

 

·     Compreendendo os constrangimentos

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o comportamento dos jogadores emerge da interação entre constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente (Newell, 1986; Davids et al., 2008). Em vez de prescrever soluções táticas, o treinador manipula estes constrangimentos para criar contextos de prática que favoreçam a exploração, a adaptação e a emergência de comportamentos funcionais (Chow et al., 2015; Renshaw & Chow, 2019). 

No futebol, esta abordagem permite compreender o Modelo de Jogo como uma estrutura flexível e dinâmica. A manipulação de princípios táticos, responsabilidades posicionais, condições de jogo ou características dos jogadores proporciona a emergência de oportunidades de ação representativas da competição (Araújo et al., 2022; Pinder et al., 2011).

 

·     Affordances e comportamento adaptativo

Na perspetiva da dinâmica ecológica, as affordances correspondem às oportunidades de ação que emergem da interação entre o jogador e o ambiente e variam em função dos constrangimentos da tarefa (Araújo & Davids, 2009; Gibson, 1979). Neste enquadramento, o Modelo de Jogo deixa de constituir um conjunto de instruções rígidas para assumir o papel de uma estrutura flexível que apoia a adaptação dos jogadores às exigências do jogo, sem deixar de respeitar princípios táticos comuns. A tomada de decisão passa a assentar na perceção da informação relevante em cada momento, com base em relações entre perceção e ação que facilitam a transferência comportamental do treino para a competição (Araújo & Davids, 2016; Araújo et al., 2017; Button et al., 2021; Jordet et al., 2020).

 

·     Desenho representativo da prática

Na perspetiva da dinâmica ecológica, o treino deve privilegiar a adaptação às exigências do jogo, em detrimento da repetição de soluções técnicas ou táticas previamente definidas (Davids, 2024). Neste âmbito, o Modelo de Jogo orienta a conceção da prática e as intenções dos jogadores, sem prescrever comportamentos fixos. Por exemplo, um treino mais direcionado após transições ofensivas não deve assentar apenas na repetição de contra-ataques previamente ensaiados, mas na criação de tarefas representativas que desafiem os jogadores a reconhecer e explorar oportunidades de ação em função do espaço, do tempo e da oposição (Duarte et al., 2012; Seifert et al., 2014).

 

·     O feedback do treinador como desafio à aprendizagem

O feedback do treinador deve orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante do jogo, em vez de prescrever soluções ou corrigir erros de forma isolada (Davids et al., 2008; Correia et al., 2019). Através de questões, desafios ou pistas, o treinador promove a exploração de diferentes soluções e reforça a capacidade de resolução de problemas em contextos representativos da competição (Juarrero, 2023; Otte et al., 2020). Conforme ilustrado na tabela 1, esta abordagem transforma o feedback num instrumento pedagógico que apoia a aprendizagem e concretiza o Modelo de Jogo sem limitar a autonomia dos jogadores (Woods et al., 2020).

 

Tabela 1. Fase de organização ofensiva (construção e finalização): princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

·     Uma perspetiva ecológica da análise do desempenho

Tradicionalmente, a análise do desempenho no futebol tem privilegiado indicadores isolados, como a posse de bola, a eficácia de passe ou o número de remates. Embora úteis, estas métricas nem sempre captam a natureza dinâmica e relacional do jogo (Bradley et al., 2014; Sarmento et al., 2022). A perspetiva da dinâmica ecológica propõe uma análise centrada nas interações entre jogadores e contexto, o que permite compreender de que forma os comportamentos táticos emergem durante a competição (Araújo et al., 2022; O'Sullivan et al., 2026). 

Desta maneira, indicadores coletivos como a ocupação do espaço, a sincronia entre jogadores ou a posição do centroide da equipa podem oferecer informação mais representativa sobre a coordenação coletiva e apoiar o aperfeiçoamento contínuo do Modelo de Jogo (Folgado et al., 2014; Frencken et al., 2011).

 

Para um novo Modelo de Jogo

Com base nos princípios da dinâmica ecológica, os autores propõem um novo enquadramento conceptual para o Modelo de Jogo, entendido como um sistema dinâmico de affordances que emergem da interação contínua entre jogadores, constrangimentos e contexto competitivo (Araújo et al., 2007; Chow et al., 2015; Renshaw et al., 2019). A Figura 2 representa o jogo como um fluxo contínuo de momentos interdependentes, afastando-se da visão tradicional que divide o jogo em fases discretas e sequenciais.

  

Figura 2. Representação conceptual do Modelo de Jogo proposto pelos autores, assente nos princípios da dinâmica ecológica (adaptado de Wellock et al., 2026).

 

Neste modelo, os momentos ofensivos, defensivos, de transição e de bola parada encontram-se permanentemente interligados. As transições assumem um papel central, não apenas como mudanças de posse de bola, mas como momentos privilegiados para reorganização coletiva, adaptação comportamental e exploração de novas oportunidades de ação. Os autores designam este espaço central por “Transition Nexus”, definido como um ponto de reajustamento percetivo e atencional perante alterações nas condições do jogo (Correia et al., 2019; Rietveld & Kiverstein, 2014). 

O modelo atribui igualmente relevância às intervenções externas, como o feedback do treinador, as decisões da equipa de arbitragem ou as interrupções do jogo, que podem desencadear novos processos de adaptação. Assim, os princípios táticos deixam de constituir comportamentos rígidos previamente definidos para assumirem o papel de constrangimentos facilitadores, capazes de orientar a coordenação coletiva sem comprometer a autonomia dos jogadores (Araújo et al., 2022; Button et al., 2020). 

Em síntese, os autores defendem que o Modelo de Jogo deve evoluir de um conjunto de padrões táticos prescritos para uma estrutura dinâmica, flexível e adaptativa, capaz de orientar a perceção, a tomada de decisão e a ação dos jogadores em função das exigências emergentes da competição. A aprendizagem passa a assentar na criação de contextos representativos que favoreçam a adaptação contínua dos jogadores às constantes mudanças do jogo (Araújo et al., 2022; Dann et al., 2024; Morris et al., 2022).

 

Conceção de ambientes de treino representativos para um desempenho adaptativo

Depois de apresentado o enquadramento conceptual, foi proposto um conjunto de orientações práticas para operacionalizar um Modelo de Jogo baseado na dinâmica ecológica. Em termos aplicados, são sugeridas 3 estratégias fundamentais: 

1. Conceber tarefas que preservem os principais constrangimentos da competição: os exercícios devem reproduzir os principais problemas que os jogadores enfrentam em competição, por forma a preservar as interações entre jogadores, espaço, tempo e objetivos do jogo (Davids et al., 2017; Duarte et al., 2012; Gray, 2021). Em vez de simplificar excessivamente a tarefa, importa criar contextos que obriguem os jogadores a percecionar informação relevante e a ajustar continuamente o comportamento. Quanto maior for a representatividade da tarefa, maior tenderá a ser a transferência da aprendizagem para a competição. 

2. Relacionar os princípios táticos com situações reais de jogo, em vez de sequências previamente definidas: os princípios táticos devem funcionar como referências para orientar o comportamento individual e coletivo, e não como movimentos obrigatórios ou previamente coreografados. O treino deve expor os jogadores a diferentes problemas do jogo para potenciar a descoberta de soluções adaptadas ao contexto. Promove-se, então, a flexibilidade tática, a autonomia na tomada de decisão e a capacidade de resposta perante situações imprevisíveis. 

3. Utilizar o feedback para orientar a atenção dos jogadores para a informação relevante e para as oportunidades de ação, sem prescrever soluções (Pimenta, 2014): o feedback do treinador deve recorrer preferencialmente a perguntas, pistas ou desafios que orientem a atenção dos jogadores para a informação mais relevante da situação de jogo ou da tarefa (tabela 2). Em vez de indicar exatamente o que fazer, importa ajudar os jogadores a identificar as oportunidades de ação disponíveis e a compreender as consequências das suas decisões. Esta estratégia pedagógica fomenta a aprendizagem, a autonomia e contribui para desenvolver jogadores mais adaptáveis às exigências da competição (Davids et al., 2022; Jones et al., 2021).

 

Tabela 2. Momento de transição defensiva: princípios táticos e intenções baseadas em affordances (adaptado de Jones et al., 2026).

 

Conclusão

O presente artigo propõe uma nova forma de compreender o Modelo de Jogo no futebol; concebe-o como uma estrutura flexível que orienta a ação coletiva sem limitar a capacidade de adaptação dos jogadores às exigências da competição. Segundo a proposta, os princípios táticos deixam de corresponder a comportamentos rígidos e passam a funcionar como referências comuns para a tomada de decisão individual e coletiva. Consequentemente, o papel do treinador também evolui. Para além de definir uma identidade coletiva, importa conceber ambientes de treino representativos, manipular constrangimentos, orientar a atenção dos jogadores através do feedback e criar condições que proporcionem a descoberta de soluções adequadas ao contexto do jogo. Mais do que substituir modelos tradicionais, esta perspetiva encoraja os treinadores e os clubes a repensar o Modelo de Jogo como um instrumento ao serviço da aprendizagem, da adaptação e do rendimento, sem perder a identidade que caracteriza cada equipa.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.

09/10/2014

Porque estão os esquerdinos sobrerrepresentados em certos desportos?

Há uns dias, numa busca casual, deparei-me com um artigo apelativo de dois investigadores turcos. Akpinar e Bicer (2014) fizeram uma extensa revisão da literatura acerca da lateralidade no desporto e procuraram identificar os motivos pelos quais os indivíduos esquerdinos (ou canhotos) estão sobrerrepresentados em certas modalidades.

Em primeira instância, os autores constataram que a incidência de indivíduos canhotos nas modalidades desportivas de interação (i.e., jogos desportivos coletivos) tende a ser frequentemente superior à incidência de canhotos na população geral. Por exemplo, 13% dos jogadores da NBA, na época 2013/2014, eram canhotos; em média, 28.5% dos jogadores de equipas de andebol são canhotos; o Arsenal, na época 2013/2014, tinha 36% de jogadores esquerdinos na sua equipa principal de futebol. Todos estes valores são superiores aos valores relativos de 8-10% de canhotos, observados em diversos estudos transculturais para a população em geral.

Esta evidência é interessantíssima e suscitou a necessidade de obter uma resposta plausível para o facto. Porque é que tal sucede? Pois bem, de acordo com a pesquisa efetuada por Akpinar e Bicer (2014), foram colocadas duas hipóteses explicativas:

a) Hipótese da superioridade inata: baseada em vantagens decorrentes de predisposições percetivas e neuropsicológicas dos canhotos (e.g., tempos de reação mais curtos, melhor capacidade de antecipação) e de adaptações anatómicas (cérebros mais simétricos, com conexões mais amplas e eficientes entre os dois hemisférios);

b) Hipótese da frequência negativa: vantagem dos esquerdinos derivada da menor experiência dos adversários em lidar com estruturas de movimentos menos frequentes, ou seja, determina uma menor afinação dos oponentes destros às ações produzidas pelos indivíduos canhotos (desvantagem no desenvolvimento de abordagens estratégico-táticas).

Por outro lado, nos desportos coletivos, a presença de sujeitos esquerdinos pode oferecer uma panóplia de soluções ao treinador que não devem ser descuradas. O ponta direito no andebol, por exemplo, ao ser canhoto aumenta substancialmente o ângulo de abordagem à baliza (remate) e, consequentemente, as possibilidades de marcar golo. No futebol, a presença de um extremo canhoto, permite que o treinador opte por jogar ou com extremos invertidos (procura de zonas interiores do espaço de jogo), ou de uma forma mais clássica, com os extremos a procurar a profundidade pelos corredores laterais para cruzar. Portanto, possuir canhotos num plantel/equipa aumenta o leque de opções estratégico-táticas do treinador. Claro que isto depende da especificidade de cada modalidade.

Imagem: O canhoto Diego Maradona no Nápoles (fonte: Getty Images).

Depois, é a beleza e a «magia» que um jogador canhoto oferece ao jogo/modalidade. Quem não conhece os nomes Di Stefano, Maradona, Maldini, Roberto Carlos, Rivaldo, Giggs, Messi, Robben, Özil, Van Persie, Di Maria, David Silva, Gareth Bale, James Rodríguez, entre muitos outros? E o mais curioso é que, no que respeita a modalidades desportivas individuais (e.g., ginástica), não se verificou qualquer sobrerrepresentação de sujeitos esquerdinos. Então, serão estes indivíduos mais talhados para contextos de interação (cooperação e oposição)? Talvez a ciência, um dia, nos esclareça a dúvida.

Referência
Akpinar, S., & Bicer, B. (2014). Why left-handers/footers are overrepresented in some sports? Montenegrin Journal of Sports Science and Medicine, 3(2), 33-38.

02/05/2013

A criança, a atividade/exercício físico e o progresso da nação: Evidências e utopias

Vivemos tempos de austeridade e, portanto, de cortes – muitas vezes indiscriminados – na saúde e na educação. No que apraz à Educação Física (EF), ao exercício físico e ao desporto, os meus principais pilares de intervenção na sociedade, há muito que o descrédito é grande, apesar de as evidências científicas indicarem precisamente o inverso. Menos aulas de EF, possibilidade de terminar com a Atividade de Enriquecimento Curricular no 1º Ciclo e menor investimento público no exercício físico e no desporto constituem uma mescla de rumores e certezas que, de quando em vez, emerge nos órgãos de comunicação social. 

O parágrafo anterior traça o cenário vigente em Portugal. A importância da atividade física, nas suas diversas manifestações, é amplamente negligenciada pelos nossos políticos. Porém, se tivessem vontade de realizar uma breve pesquisa, verificariam que existem inúmeros factos científicos cujos benefícios até lhes poderiam convir no médio ou longo prazo. Adiante, e para que a leitura não tome muito do tempo dedicado pelos nossos governantes à economia, às finanças e às “troikas” deste mundo, recomendaria apenas a leitura de um artigo de revisão. Eis a referência e o respetivo link: 

Haapala, E. A. (2013). Cardiorespiratory fitness and motor skills in relation to cognition and academic performance – A review. Journal of Human Kinetics, 36, 55-68. (pdf) 

Ainda assim, não vá o inglês servir de empecilho para alguns “ditos que não ditos” desejáveis, presto-me a efetuar um breve resumo da informação relevante: 

1)   Níveis mais elevados de condição cardiorrespiratória e de habilidades motoras estão associados a capacidades cognitivas aumentadas. 

Diversos estudos científicos demonstraram que os níveis de fitness cardiorrespiratório estão, essencialmente, associados a melhores performances (i) em tarefas que requerem a alocação da atenção e (ii) em testes de memória que envolvem processos de codificação por parte do hipocampo. Na sua revisão, Haapala (2013) cita autores que sugerem um efeito positivo da atividade física nas funções cognitivas, parcialmente causadas por modificações fisiológicas no organismo. Supostamente, tais modificações implicam o aumento de concentrações de fatores neurotróficos cerebrais que facilitam a aprendizagem e preservam as funções cognitivas, através da melhoria da plasticidade sináptica e da sua atuação enquanto agente neuroprotetor. O incremento da circulação sanguínea no cérebro e a melhoria da funcionalidade neuroelétrica também são processos inerentes ao desenvolvimento cognitivo por meio da atividade física regular. Para além disso, sabe-se, de experiências com animais, que exercícios de resistência promovem a angiogénese (i.e., aumento da densidade capilar), enquanto que exercícios de cariz motor propiciam a sinaptogénese (i.e., aumento do número de ligações sinápticas). A melhoria da condição cardiorrespiratória também foi associada a incrementos ao nível da memória relacional. 

Foto: A atividade física nunca é demais durante a infância.

2)   Crianças/jovens (até aos 13 anos) com melhores índices de condição física e de habilidade motora obtêm melhor aproveitamento em testes académicos do que crianças que apresentam índices inferiores.  

Aparecem documentados resultados relativos a tarefas para avaliar o quociente de inteligência (QI), a atenção, o controlo inibitório, a memória de curto prazo e o desempenho académico. O controlo inibitório é o núcleo das mais altas funções cognitivas, designadas de controlo executivo. Entre as crianças, está demonstrado que o controlo inibitório é um preditor relevante do desempenho académico, embora também esteja relacionado com a saúde física e mental em adultos, sendo, por isso, uma componente vital do desenvolvimento cognitivo durante a infância. Sinteticamente, crianças com melhor condição física têm melhor controlo inibitório comparativamente a outras crianças com níveis mais reduzidos. Através de imagens de ressonância magnética, alguns estudos evidenciaram que crianças com níveis de fitness superiores exibem padrões de ativação neural (córtices pré frontal e parietal) e de adaptação cognitiva mais eficientes que crianças com menor condição física. Em termos percetivo-motores, é evidenciado que crianças com habilidades mais refinadas tendem a ter classificações médias mais elevadas. Estudos de intervenção confirmaram uma conexão positiva, embora fraca, entre o treino de habilidades motoras e o incremento da performance académica e da capacidade de leitura em crianças em idade escolar.  

3)   A relação negativa entre a adiposidade e as funções cognitivas podem ser parcialmente explicadas pelo fraco desenvolvimento da condição cardiorrespiratória e da habilidade motora, devido à falta de atividades físicas e mentais desafiantes. 

Nos dias que hoje correm, o flagelo da obesidade infantil tem-se alastrado um pouco por todo o mundo. As crianças estão progressivamente a tornar-se mais sedentárias e mais obesas, uma vez que não atingem os níveis mínimos de condição físico-motora inerentes ao desenvolvimento cognitivo e à preservação da saúde cerebral. Posto isto, é crível que a atividade física, incluindo exercícios aeróbios moderados a vigorosos e tarefas motoras exigentes, constitua um estímulo de treino efetivo para melhorar o funcionamento cognitivo, a performance académica e a saúde cerebral em crianças com excesso de peso. Assim, para além dos benefícios cardiovasculares e metabólicos sobejamente conhecidos, a prescrição adequada de atividade física pode incrementar a saúde e as funções cerebrais. 

Em suma, o caminho a adotar deve privilegiar a promoção da atividade física, do exercício físico e do desporto. Faz todo o sentido aumentar a carga horária de EF e não extinguir a Atividade de Enriquecimento Curricular no 1º Ciclo que, não sendo obrigatória, ainda vai equilibrando a balança no que ao dispêndio energético das nossas crianças diz respeito. No longo prazo, a lógica parece assumir contornos simples. A mais e melhor atividade física, exercício físico e desporto corresponderá uma população mais saudável e cognitivamente mais capaz. A produtividade e a competitividade da nossa indústria e dos nossos serviços aumentarão, o que concorrerá para o tão ambicionado crescimento económico. Talvez tudo se resuma a um pensamento utópico da minha parte. Contudo, ignorarmos todo o corpo de evidências que se vão acumulando, não nos trará quaisquer dividendos no futuro. Antes pelo contrário! 

PS – Grande parte das considerações acima referidas têm por base o artigo de revisão do Haapala (2013). Caso queiram aprofundar o vosso conhecimento sobre o tema e estar a par das referências mais importantes, sugiro que leiam atentamente o artigo.

19/12/2009

Leis da Física aplicadas ao Futebol

Quem está minimamente familiarizado com o futebol conhece algumas pérolas jornalísticas de comentadores, analistas ou pseudo-analistas. Por força da estação do ano em que estamos emerge frequentemente uma apreciação impregnada de vulgaridade e de incorrecção.

No calor do jogo é uma delícia constatar que "(...) quando a bola toca no relvado [molhado] ganha velocidade". O que faria Newton se ouvisse esta afirmação?

Em primeiro lugar, a bola (em trajectória aérea) está sujeita à acção da força gravítica (direcção vertical; sentido de cima para baixo), pelo que se "ganhar velocidade" será sempre em trajectória descendente. Porém, quando a bola toca no relvado gera-se uma força natural resultante do contacto mecânico entre os dois corpos (bola e solo): o atrito. O atrito depende das características das partículas que compõem as superfícies em contacto, da força normal entre os dois corpos (i.e., força que tende a fazer com que uma superfície penetre na outra) e da massa do(s) corpo(s). A fricção inerente ao atrito determina que haja a dissipação de energia sob a forma de energia térmica, ou seja, a bola ao tocar no relvado, esteja molhado ou não, tende sempre a perder energia cinética e a diminuir a sua velocidade.

Deste modo, podemos concluir que a bola quando toca no relvado molhado não ganha velocidade, mas, devido à alteração das características das superfícies de contacto, perde menos velocidade ou sofre uma menor desaceleração. Não sei de fará, empiricamente, muito sentido, mas estou convicto que esta explicação desmistifica a erroneidade patente num comentário estranhamente usual.

07/11/2009

Tecnologia: declínio Vs. ascensão

Tudo será então uma questão de escolhas... a Evolução!

















Contudo, actualmente, “a liberdade joga-se talvez na capacidade de amarmos a própria incerteza do que somos”.

29/09/2009

Saúde, Corpo e Sociedade

A saúde... o que é? Como se pode relacionar tal ideia com o corpo? Como se enquadram estes dois conceitos (saúde e corpo) na sociedade?

Actualmente, as ciências biomédicas esforçam-se por solucionar ‘problemas’ biológicos que estão na origem da doença. À medida que estas ciências evoluem, a esperança média de vida da população tende a aumentar, sendo perfeitamente aceitável que surjam questões como a colocada por Fernando Salvater: “Até onde é lícito ir demasiado longe?”. Na minha humilde perspectiva, reformularia um pouco a pergunta e colocaria-a do seguinte modo: Até onde é necessário irmos demasiado longe? Valerá mesmo a pena?

Naturalmente, cairemos na subjectividade das respostas. Eu terei a minha, o leitor terá a sua e, embora estas possam parecer iguais, nunca o serão verdadeiramente. Quando nascemos somos, no imediato, introduzidos na sociedade. Hoje em dia, sobretudo nas sociedades mais desenvolvidas, a pessoa que nos diz ‘Olá!’ pela primeira vez é um funcionário do hospital (um médico ou um enfermeiro). Mas porquê um médico ou um enfermeiro, porque não a minha avó ou o meu pai? Porque, até durante o parto, há riscos, colocando-se desde logo em prática o conceito de saúde. Salvater, em O Conteúdo da Felicidade, refere que a saúde é imposta à sociedade e assim o é, logo! Desde o nosso nascimento que estamos sujeitos a certos comentários como: “oh bebé, não come isso que faz mal”; “não faças aquilo que cais e ficas mal”; “olha que a saúde não é de ferro” e por aí fora. Enfim, educam-nos na distinção do que é mau e do que é bom, limitam-nos os comportamentos, modulando-os na tentativa de nos tornarem, única e exclusivamente, úteis. Mas, úteis para quê? Para funcionarmos bem, para no futuro mostrarmos rendimento, sermos produtivos e só assim se justifica a saúde como objectivo geral do Estado.

E o prazer do ser humano, não conta? Para o Estado se não for rentável é supérfluo, sem qualquer importância. Pois é, e para o próprio ser humano? O que seria a vida de um Homem sem prazer? De que serve vivermos 90 anos se nos é vedado ou censurado o acesso aos pequenos prazeres que nos põem um sorriso na cara? Valerá a pena? Eu acho que não!

Então, não será esta ideia de saúde um enorme paradoxo no seio da nossa sociedade? O Estado quer-nos bem de saúde para trabalharmos, para sermos alguém, no entanto, segundo Salvater, está-se nas tintas para se vivemos felizes ou não, se temos prazer ou não. Por muito trivial que isto possa parecer, tem fundamento e revela-se um ponto crucial. Fornecem-nos saúde e neglicenciam determinadas necessidades que nos são essenciais – os prazeres. Tudo isto origina, no meu ponto de vista, um círculo vicioso: "Saúde - Doença - Saúde - (...)".

Não admira que apareçam notícias indicando que mais de 90% da população mundial ande depressiva. Ora, neste facto surge outra problemática associada à sociedade. Impõem-nos saúde, mas para vivermos bem, também nos impõem uma sociedade de medidas, onde a imagem corporal é altamente relevante. Nós podemos ser indivíduos fisiologicamente saudáveis, mas em termos de imagem corporal fora de padrões estipulados pela sociedade. Embora continuemos a ser ‘úteis’, muitas são as situações onde tal utilidade não é aceite. Psicologicamente, ficamos arrasados, doentes e mais cedo ou mais tarde essa doença repercute-se pelo todo como uma praga que nos dilacera, o vai ao encontro do referido por Gómez de la Serna, em O Homem da Barba: “(...) de uma ideia exasperada pode brotar a doença e a hecticidade que mata”.

Assim, concluo deixando uma pergunta no ar: Seremos apenas escravos de uma ideia abstracta estúpida ou, pelo contrário, reis manipulados cuja doença surge em função da saúde como elemento a conquistar?

04/09/2009

Santa ignorância!

A política em Portugal está ao rubro. Em ano de eleições legislativas e autárquicas já se fazem sentir as campanhas dos mais diversos candidatos. Distribuem-se beijinhos, prometem-se "mundos e fundos" e sorri-se a todos os que aparecem pelo caminho. Na realidade, acredito que nas cabeças de alguns candidatos surja algo mais recondito do género: "tirem-me daqui!" ou "o que uma pessoa tem de fazer para poder tomar decisões importantes?". Outros não, gostam das multidões, de aparecer e de mostrar que podemos contar com eles.

Tudo isto me faz confusão. Sem dúvida que um líder tem de ir ao terreno e sentir - na verdadeira acepção da palavra - os problemas, mas nunca num clima de "caça ao voto". Registam-se ideias, vendem-se soluções, muitas vezes infundadas, mas os problemas persistem e caem no vazio do esquecimento. Para além disso, é sempre mais importante retribuir uma boca ao candidato de um partido contrário.

Se duas cabeças pensam melhor do que uma e se quatro mãos trabalham mais do que duas, porque é que raramente observamos todos os partidos políticos empenhados em propostas seriamente benéficas para a população? Será que só as ideias de um partido é que são boas? Não me coibo de pensar que a tomada de decisão na política é, predominantemente, um processo de índole ideológica, sobressaindo determinados interesses individuais, de um grupo ou de uma classe, e que nem sempre vai ao encontro das necessidades da população e, por inerência, do país.

Se há ciências que não entendo, mas não entendo mesmo, são as Ciências Políticas. Como sou um leigo nessa matéria, decerto que pouco ou nada me adianta tentar compreender as dinâmicas relacionais e decisórias que se geram para (des)governar um país, mas chamar este fenómeno de ciência, isto é, passível de ser estudado de forma objectiva e segundo metodologias experimentais rigorosas e fiáveis, ainda me faz parecer mais tolo.

Santa ignorância!

07/07/2009

Reflexões sobre... condução automóvel

Se as capacidades dos seres humanos regridem a partir de certa idade, variável de pessoa para pessoa, sobretudo em termos das capacidades perceptivas e de coordenação motora, porque é que não se fazem exames progressivamente mais frequentes à medida que a idade vai "pesando" na arte de conduzir um automóvel na via pública?

- Depois queixam-se que os velhotes entram nas auto-estradas em contra-mão e têm uma certa propensão para causar acidentes, por vezes mortais.

Se está comprovado que o ser humano aprende mais efectivamente mediante o reforço positivo (elogio, recompensa, etc.), porque é que só se multa em situações de infracção e não se beneficia/distingue pessoas em circunstâncias de desempenho exemplar ou meritório?

- Depois admiram-se que o pessoal ande revoltado por multas por excesso de velocidade (+ 1 Km/h que o permitido) ou desrespeito pelo traço contínuo numa recta de 1 Km.

Se os automóveis estão a evoluir em matéria de segurança, conforto e desempenho e as estradas são progressivamente mais seguras, porque é que os limites de velocidade se mantêm há décadas?

- Depois só se vê pessoal a conduzir, em média, a 140 Km/h na auto-estrada e 110 Km/h nos itinerários complementares e, claro, a ser multado por excesso de velocidade.

03/07/2009

It's Evolution, baby!

O Município de Monchique promoveu, na passada terça-feira, a visita dos alunos da Ginástica Sénior ao Zoomarine. Com todas as freguesias representadas - Alferce, Monchique e Marmelete - surgiu a oportunidade de experienciar as maravilhas do cinema 4D.

Com equipamento a condizer, não faltou quem tentasse matar uma serpente virtual com o belo do cajado. Tecnicamente, o sr. Manuel queria "enfiar o cajado na boca da cobra", por não gostar de tais bichos. Felizmente, ninguém saiu da sessão com um galo na cabeça. Em suma, com ou sem manobras perigosas da assistência, o progresso da tecnologia encantou os meus conterrâneos.

- "Ahhhh, que côsa más linda!"