20/12/2014

A utilização de jogos reduzidos/condicionados no treino de futebol: Que evolução?

Os jogos reduzidos/condicionados (JRC) são meios de treino simplificados que preservam as características específicas do futebol, enquanto desporto de invasão. Deliberadamente ou não, os JRC sempre fizeram parte do treino, porém, a evolução da sua utilização nunca foi identificada no tempo.

Se refletirmos um pouco sobre o assunto parece ser muito complicado, senão mesmo impossível, desenhar um perfil histórico da estruturação de JRC no treino ao longo dos tempos, por este mundo fora. Neste sentido, no âmbito da formação «A utilização de JRC no treino de futebol», que teve lugar em Vila Franca de Xira, entre maio e julho passados, procurei fazer um breve exercício através da ciência e do que se escreve acerca destes meios de treino.

Basicamente, fui ao Google Académico e, por década, contabilizei o n.º de referências, tendo como palavras-chave “jogos reduzidos” (small-sided games), “jogos condicionados” (conditioned games) e “futebol” (terminologias britânica e americana: association football; soccer). Os resultados constam no gráfico 1.

Gráfico 1. A utilização de JRC no treino de futebol: nº de referências por década.

A utilização de JRC no treino de futebol parece ter sofrido uma evolução exponencial. Cada vez mais os treinadores, os dirigentes e os investigadores reconhecem a importância da utilização destes meios de treino, bem como os benefícios que acarretam quando estruturados e aplicados de forma lógica. Pena é que, em muitos locais do globo, ainda persista a tendência de recorrer predominantemente a exercícios de carácter geral e analítico para melhorar a performance competitiva ou ensinar/desenvolver competências específicas do jogo.

As evidências são, hoje em dia, bastante elucidativas. Basta, para o efeito, pesquisarmos um pouco.

23/11/2014

Um golo destes é para recordar... para sempre!

Na pele de treinador vemos um jogador fazer isto:


Questiono: que mérito tem a equipa técnica numa situação destas? Nenhum, mas que ficará para sempre na nossa memória, isso é indiscutível.
  
PS Os palavrões provêm da emoção de quem assiste a uma obra-prima destas. Não sendo, por isso, desculpáveis, espero que haja compreensão para com quem gentilmente filmou o jogo.

08/11/2014

A qualidade da posse de bola na construção do golo

Na sequência do texto anterior «A gestão dos ritmos de jogo no futebol», tive a felicidade de ver, em direto, o primeiro golo do jogo Liverpool x Chelsea, da 11ª jornada da FA Premier League 2014/2015.

Imagem: Liverpool x Chelsea: um clássico em Inglaterra.
(fonte: http://www.onlinevision-bd.com)

Não há melhor forma de gerir os ritmos de jogo que não passe pelo controlo da posse de bola. Isso implica que, individualmente, os jogadores sejam competentes na relação com a bola (ação) e com o envolvimento (perceção) e que, coletivamente, os processos ofensivos estejam afinados entre os diversos elementos da equipa. Nesta situação em particular, ao recuar no espaço de jogo, o Liverpool induziu o Chelsea a aumentar o espaço entre linhas e o índice de dispersão dos seus jogadores (reparem que a pressão dos avançados não é acompanhada pelo controlo da profundidade pelo setor defensivo). Perante a ausência de coberturas defensivas e de equilíbrios efetivos por parte dos visitantes, os jogadores do Liverpool progrediram no terreno de jogo, gerando uma situação de superioridade numérica no seu meio-campo ofensivo. Ainda que com alguma fortuna, valeu um golo. Vejamos o lance:


Para a história, ficam as características desta magnífica sequência ofensiva:

  • Duração (s): 65
  • Número de jogadores envolvidos: 10 (apenas Balotelli não intervém sobre a bola)
  • Número de toques sobre a bola: 55
  • Número de passes: 24
  • Número de remates: 1
  • Eficácia do remate: 100%.

Isto é jogar bom futebol.

24/10/2014

A gestão dos ritmos de jogo no futebol

Hoje em dia, a expressão «ritmo de jogo» é amplamente utilizada no futebol. Ainda que frequentemente não seja empregue com critério, surge associada à velocidade de circulação da bola, à velocidade de deslocamento dos jogadores, à velocidade de progressão/recuperação posicional da equipa no terreno de jogo e, claro está, à sobejamente conhecida intensidade de jogo.

O ritmo de jogo em si, por ser mais complexo, não é sinónimo de nenhum dos parâmetros supramencionados. Uma equipa pode circular rápido a bola e a velocidade de deslocamento dos seus jogadores ser baixa, por exemplo, numa situação de superioridade numérica. Nesta mesma lógica, uma equipa pode circular rápido a bola no meio-campo defensivo, no intuito de manter a posse de bola, e praticamente não haver progressão do coletivo no espaço de jogo. Portanto, o ritmo de jogo é um estado temporário de um sistema (jogo) que congrega duas equipas e que reúne a interação de variáveis de índole tática, técnica, fisiológica e, até mesmo, psicológica.

Imagem: Luka Modric, um jogador exemplar na gestão dos ritmos de jogo.
(fonte: bleacherreport.com).

Para efeitos práticos, o treinador deve preparar a sua equipa para gerir da melhor maneira os ritmos de jogo: «Quando, como e por quê acelerar? Diminuir o ritmo com que objetivo?». Para que isto suceda, os jogadores devem exercitar relações de cooperação e oposição no treino, através de jogos reduzidos/condicionados e formas jogadas, com a particularidade de serem estimulados a agir/decidir com inteligência. Na minha perspetiva, agir/decidir inteligentemente pressupõe: (i) nunca esquecer os objetivos primordiais do jogo (marcar golo na baliza adversária e evitar que o adversário introduza a bola na nossa baliza); (ii) perceber com celeridade o que o envolvimento oferece/possibilita (ler o jogo); (iii) dar qualidade às relações estruturais e funcionais pretendidas pelo treinador; (iv) compreender a natureza e as circunstâncias inerentes à competição em curso (campeonato, taça, eliminatória a duas mãos, etc.); e, (v) respeitar sempre a equipa adversária e o público presente no campo/estádio.

Finalizo com a demonstração prática daquilo que, para mim, é uma gestão inteligente dos ritmos de jogo:


Aos 71 minutos (a 9 do final do tempo regulamentar), a equipa branca vencia por uma diferença de golos confortável, num jogo de campeonato distrital de juvenis. Após a recuperação da posse no meio-campo defensivo, a bola é colocada no guarda-redes no sentido de abrandar o ritmo de jogo. O guarda-redes opta por variar o centro de jogo e coloca a bola no lateral esquerdo; este último é forçado a atuar de imediato, perante a pressão defensiva do adversário e fá-lo com um passe correto ao primeiro toque. Gera-se uma potencial situação de combinação tática direta e dá-se uma aceleração considerável do ritmo de jogo pelo corredor esquerdo. O processo ofensivo termina em golo.

O controlo do jogo passa por isto: saber alterar os ritmos de jogo, em função dos constrangimentos impostos pela equipa adversária, mas tendo sempre como referência o objetivo da modalidade: o golo.

09/10/2014

Porque estão os esquerdinos sobrerrepresentados em certos desportos?

Há uns dias, numa busca casual, deparei-me com um artigo apelativo de dois investigadores turcos. Akpinar e Bicer (2014) fizeram uma extensa revisão da literatura acerca da lateralidade no desporto e procuraram identificar os motivos pelos quais os indivíduos esquerdinos (ou canhotos) estão sobrerrepresentados em certas modalidades.

Em primeira instância, os autores constataram que a incidência de indivíduos canhotos nas modalidades desportivas de interação (i.e., jogos desportivos coletivos) tende a ser frequentemente superior à incidência de canhotos na população geral. Por exemplo, 13% dos jogadores da NBA, na época 2013/2014, eram canhotos; em média, 28.5% dos jogadores de equipas de andebol são canhotos; o Arsenal, na época 2013/2014, tinha 36% de jogadores esquerdinos na sua equipa principal de futebol. Todos estes valores são superiores aos valores relativos de 8-10% de canhotos, observados em diversos estudos transculturais para a população em geral.

Esta evidência é interessantíssima e suscitou a necessidade de obter uma resposta plausível para o facto. Porque é que tal sucede? Pois bem, de acordo com a pesquisa efetuada por Akpinar e Bicer (2014), foram colocadas duas hipóteses explicativas:

a) Hipótese da superioridade inata: baseada em vantagens decorrentes de predisposições percetivas e neuropsicológicas dos canhotos (e.g., tempos de reação mais curtos, melhor capacidade de antecipação) e de adaptações anatómicas (cérebros mais simétricos, com conexões mais amplas e eficientes entre os dois hemisférios);

b) Hipótese da frequência negativa: vantagem dos esquerdinos derivada da menor experiência dos adversários em lidar com estruturas de movimentos menos frequentes, ou seja, determina uma menor afinação dos oponentes destros às ações produzidas pelos indivíduos canhotos (desvantagem no desenvolvimento de abordagens estratégico-táticas).

Por outro lado, nos desportos coletivos, a presença de sujeitos esquerdinos pode oferecer uma panóplia de soluções ao treinador que não devem ser descuradas. O ponta direito no andebol, por exemplo, ao ser canhoto aumenta substancialmente o ângulo de abordagem à baliza (remate) e, consequentemente, as possibilidades de marcar golo. No futebol, a presença de um extremo canhoto, permite que o treinador opte por jogar ou com extremos invertidos (procura de zonas interiores do espaço de jogo), ou de uma forma mais clássica, com os extremos a procurar a profundidade pelos corredores laterais para cruzar. Portanto, possuir canhotos num plantel/equipa aumenta o leque de opções estratégico-táticas do treinador. Claro que isto depende da especificidade de cada modalidade.

Imagem: O canhoto Diego Maradona no Nápoles (fonte: Getty Images).

Depois, é a beleza e a «magia» que um jogador canhoto oferece ao jogo/modalidade. Quem não conhece os nomes Di Stefano, Maradona, Maldini, Roberto Carlos, Rivaldo, Giggs, Messi, Robben, Özil, Van Persie, Di Maria, David Silva, Gareth Bale, James Rodríguez, entre muitos outros? E o mais curioso é que, no que respeita a modalidades desportivas individuais (e.g., ginástica), não se verificou qualquer sobrerrepresentação de sujeitos esquerdinos. Então, serão estes indivíduos mais talhados para contextos de interação (cooperação e oposição)? Talvez a ciência, um dia, nos esclareça a dúvida.

Referência
Akpinar, S., & Bicer, B. (2014). Why left-handers/footers are overrepresented in some sports? Montenegrin Journal of Sports Science and Medicine, 3(2), 33-38.

26/09/2014

O escolhido é Fernando Santos. E agora: que opções?

Depois de nos depararmos com o pior cenário possível no arranque da fase de qualificação para o Euro 2016, com a derrota caseira diante da pior equipa do grupo (Albânia), Paulo Bento foi demitido. Não estavam reunidas as melhores condições de trabalho e a Federação Portuguesa de Futebol tomou uma decisão. Dizem que o timing não foi o melhor, porém «mais vale tarde que nunca».

O treinador escolhido para o cargo foi Fernando Santos. Confesso que, para mim, foi um alívio não anunciarem o brasileiro Tite ou o italiano Mancini. Se havia melhores opções (certamente escassas), piores eram às dezenas. E agora, qual é o projeto? No imediato, qualificar a seleção para o Euro 2016, em França, mas simultaneamente renovar um conjunto de elementos há muito conformado.

Aliás, penso que o pior pecado de Paulo Bento foi conceder estatuto (de selecionável) a jogadores que, nos respetivos clubes, não justificavam sequer a presença no lote de pré-selecionáveis. E é como refere Rui Vitória: um selecionador deve ter uma visão mais alargada. Quem representa a seleção deve fazê-lo com orgulho e motivação e, acima de tudo, deve justificar a convocatória com o trabalho apresentado no seu clube.

Na ordem do dia está também a renovação da seleção portuguesa. Não acredito em cortes dramáticos com o passado. Uma renovação, para ser sustentável, deve ser progressiva e muito bem ponderada. Com esta premissa em mente, decidi propor um lote de jogadores passíveis de, por um lado, assegurar a presença no Euro 2016 (o objetivo imediato) e, por outro lado, garantir a renovação progressiva da equipa. Não estou à espera que esta proposta seja unânime, longe disso; contudo, procura responder à noção que tenho de «coletivo» e à dinâmica que acredito que seria possível implementar com estas individualidades.

Figura. Seleção portuguesa num sistema de jogo 1-4-3-3, com 2 ou 3 opções por posição.
(p.f., clique para ampliar)

1 – Rui Patrício (Sporting), Beto (Sevilha) e Anthony Lopes (Lyon)
2 – Cédric Soares (Sporting), João Cancelo (Valência) e Diogo Figueiras (Sevilha)
3 – Luís Neto (Zenit) e Rúben Vezo (Valência)
4 – Pepe (Real Madrid) e José Fonte (Southampton)
5 – Fábio Coentrão (Real Madrid), Antunes (Málaga) e Eliseu (Benfica)
6 – William Carvalho (Sporting), André Almeida (Benfica) e Danilo Pereira (Marítimo)
8 – João Moutinho (Mónaco), Adrien Silva (Sporting) e André Gomes (Valência)
10 – Danny (Zenit), João Mário (Sporting) e Bernardo Silva (Mónaco)
7 – Nani (Sporting), Rafa Silva (Braga) e Ivan Cavaleiro (Deportivo)
9 – Hélder Postiga (Deportivo), Éder (Braga) e Tomané (Guimarães)
11 – Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Vieirinha (Wolfsburg) e Ricardo Horta (Málaga)

Outros jogadores equacionados: Pedro Tiba (Braga), Rúben Neves (Porto), André Silva (Porto) e Gonçalo Paciência (Porto).

De momento, as minhas opções seriam estas. Independentemente de outras escolhas que possam vir a ser formuladas por Fernando Santos, quero, desde logo, desejar os maiores sucessos desportivos para a nova equipa técnica da seleção.


Força Portugal!

17/09/2014

Benfica 0 x 2 Zenit (Champions League): A diferença esteve em… Jardel

Quando uma equipa ganha, ganham todos; quando perde, perdem todos também. Esta velha máxima dos desportos coletivos não inviabiliza, porém, que não se responsabilize individualmente, em particular, quando nos referimos a contextos de alto rendimento.

Na primeira jornada da fase de grupos da UEFA Champions League, o Benfica recebeu e foi derrotado, por 0-2, pelo vice-campeão russo FC Zenit, do treinador português André Villas-Boas. Tendo em consideração o potencial da equipa visitante, não é um resultado que possamos estranhar, tal como outro resultado não o seria. A diferença entre os dois coletivos esteve, arrisco-me a dizer, no domínio individual, sobretudo, na figura do defesa central Jardel. Senão, vejamos:


Dois erros técnicos grosseiros na ação de passe que originaram, primeiro, o golo de Hulk (minuto 5) e, depois, a expulsão direta do guardião Artur (minuto 18). O Jardel é voluntarioso, trabalhador, não contesta as opções do treinador e tem registado uma evolução interessante; é daqueles jogadores que todos os treinadores gostam de ter no plantel, contudo, para uma Champions, as suas lacunas técnicas são, não raras vezes, letais. Como pudemos constatar, lacunas destas pagam-se muito caro com equipas de nível superior.

Imagem: Jardel (fonte: www.slbenfica.pt).

Ontem, a discrepância entre os orçamentos das equipas esteve na dimensão técnica do jogo, mais resumidamente, em dois passes falhados de Jardel.

É o determinismo aplicado ao futebol: nada acontece por acaso.

25/08/2014

Barba ensopada de sangue (2012)

Romance escrito por Daniel Galera, um autor brasileiro que não conhecia. O personagem principal é um professor de educação física e treinador de triatlo que procura refúgio em Garopaba, uma cidade balnear de Santa Catarina, após o suicídio do pai.

Imagem: Capa do livro «Barba ensopada de Sangue».

Curiosamente, o seu nome nunca é mencionado no texto, porém, o amigo Bonobo faz questão de o tratar por «nadador». Esta figura procura afastar-se da família, do contexto onde cresceu, para encontrar a sua felicidade ou, pelo menos, motivos que atribuam significado à sua existência. Decide-se a partir para Garopaba, com a cadela do pai Beta, acossado pela história do avô paterno que, presumivelmente, teria sido assassinado nessa localidade nos anos 60 do século XX. No intuito de entender o que aconteceu ao seu avô, acaba por se ir descobrindo a si mesmo. A autoconsciência, a autocrítica e a autodescoberta acompanham-no ao longo de inúmeros episódios pitorescos.

Tu não tá feliz ainda, ô desgraçado?
Posso levar a minha cachorra agora?
Dá o cachorro pra ele, pelo amor de Deus, diz o bigodudo do balcão.
O cachorro é meu, diz o nativo.
Então quero saber se tu é homem pra brigar sem a ajuda das tuas namoradinhas aí.
Quê?

Desconhecia o livro e o autor, mas jamais ficarei arrependido de os ter lido. Notável!

19/08/2014

A sequência ofensiva (coletivo) e a diferença do génio (individual)

O Chelsea FC estreou-se na FA Premier League 2014/2015 com uma vitória (1-3), no terreno do Burnley. Só pelo minuto 20, os 93 minutos da partida valeram a pena.


A sequência ofensiva que dá origem ao golo de André Schürrle apresentou as seguintes características:
· Duração: 50s
· Número de passes: 23
· Número de toques sobre a bola: 54
· Número de jogadores envolvidos: 9
· «O» momento: A assistência de Francesc Fàbregas (20:41) para o golo

A jogada em si é fabulosa; um magnífico exemplo de como o ataque posicional deve ser utilizado para quebrar uma organização defensiva que prima pelo princípio da concentração em bloco baixo. Há inúmeros instantes desta sequência ofensiva em que o Burnley tem os 11 jogadores atrás da linha da bola. O Chelsea foi paciente, promoveu uma circulação rápida da bola, explorou os dois corredores laterais (deu largura ao jogo) e os seus jogadores não se coibiram de executar permutas posicionais para dar soluções ao portador da bola. Depois, há o passe magistral de Fàbregas e que marca a diferença entre o obter ou não obter sucesso no ataque. Um génio é isto mesmo: fazer o que poucos fazem, demonstrando criatividade e virtuosismo associados a uma eficácia tremenda.

Imagem: O génio Fàbregas frente ao Burnley (fonte: www.news.nom.co).

Maravilhoso!

11/08/2014

A influência do tipo/estado do terreno na intensidade do jogo de futebol

Nos meandros do treino de futebol há, entre treinadores, jogadores e dirigentes, um conjunto de crenças que, atendendo à sua longevidade, assumem quase contornos de verdades inquestionáveis. O tipo/estado do terreno de jogo é uma problemática frequentemente debatida, sobretudo na classe dos treinadores, que, regra geral, proclama seguinte:

·  Regar o relvado, seja natural ou sintético, tende a tornar o jogo mais rápido e a aumentar a intensidade do esforço;
·  Deixar a relva crescer muito determina que a bola prenda, proporcionando um jogo mais lento e, supostamente, uma menor intensidade de esforço dos jogadores;
·  Em terra batida, a bola ressalta imenso, dificulta a receção, a condução e o passe e, consequentemente, implica ritmos de jogo e intensidades mais baixas.

Figura. Tipos de terreno de jogo no futebol.

Mesmo que estas perceções façam algum sentido, podem ser consideradas como factos?

Atentemos a dois estudos que foram realizados neste âmbito por Andersson e colaboradores (2008) e Tessitore e colaboradores (2012). No trabalho de Andersson et al. (2008), publicado no Journal of Sports Sciences, surgiu a preocupação de perceber se jogadores de elite suecos apresentavam diferenças nos padrões de movimento, nas habilidades com bola e na impressão subjetiva, atuando em relvados artificiais (sintéticos) ou em relvados naturais. Eis os resultados:

Tabela. Perfil de rendimento relvado em artificial vs. relvado natural.
(Andersson et al., 2008; p.f., clique para ampliar)

De uma forma geral, os valores obtidos foram similares, excetuando nos carrinhos (mais frequentes nos relvados naturais) e nos passes curtos (mais habituais nos relvados artificiais). A impressão dos jogadores revelou que acham mais difícil controlar a bola nos relvados artificiais e que estes induzem maior esforço físico. A impressão global revelou-se mais favorável ao jogo em relvados naturais.

Por seu turno, o italiano Tessitore e os seus colaboradores procuraram perceber se, em crianças Sub-9 (Traquinas), o tipo de terreno de jogo influenciava as respostas fisiológicas, expressas através da frequência cardíaca (FC), e as ações técnico-táticas executadas. A investigação foi conduzida em situação de jogo oficial, cujo formato é o F5 (Gr+4v4+Gr, 45x25m), em dois períodos de 15 minutos. Foram analisados 6 jogos do campeonato italiano «Pulcini».

O estudo demonstrou que as respostas fisiológicas (FC) e os padrões de movimento técnico-tático são similares entre a terra batida e o relvado sintético (sem diferenças significativas). Além disso, neste escalão etário, dois períodos de 15 minutos parecem ser adequados para replicar a intensidade de jogo e a natureza intermitente observadas no futebol sénior.

De acordo com as investigações consultadas, podemos concluir que, na maioria das variáveis em análise, os resultados obtidos não foram significativamente distintos em função do tipo de terreno de jogo. No entanto, é crível que diferentes estados do mesmo piso (e.g., encharcado, seco ou húmido) possam influenciar o estilo de jogo adotado pelas equipas. Da breve pesquisa que efetuei, não encontrei nenhum estudo que tenha investigado esta questão. Não havendo ainda dados disponíveis, sugiro que duvidemos das perceções subjetivas que estão, de certo modo, instituídas na modalidade, até porque «verdades inquestionáveis», nos dias que hoje correm, são cada vez mais raras e efémeras.

Referências
Andersson, H., Ekblom, B., & Krustrup, P: (2008). Elite football on artificial turf versus natural grass: Movement patterns technical standards, and player impressions. Journal of Sports Sciences, 26(2), 113-122.
Tessitore, A., Perroni, F., Meeusen, R., Cortis, C., Lupo, C., & Capranica, L. (2012). Heart rate responses and technical-tactical aspects of official 5-a-side youth soccer matches played on clay and artificial turf. Journal of Strength and Conditioning Research, 26(1), 106-112.

07/08/2014

Economia e Alimentação: duas faces da mesma moeda

O povo diz que «Deus distribui o mal pelas aldeias». Talvez a nossa faceta divina ficasse mais saciada com uma distribuição mais equitativa dos recursos, porém, os factos comprovam que a economia mundial é mesmo como a alimentação: para uns serem gordos, outros têm de passar fome.

Imagem: A distribuição dos recursos pelos seres humanos.
( fonte: danieljmitchell.wordpress.com )

13/07/2014

Top 3 - Os melhores golos do Mundial (Brasil 2014)

«O golo é a última determinante do sucesso no futebol.»

As alegrias, as tristezas, as surpresas, as deceções, as revelações e, num sentido lato, o prazer pelo jogo derivam, invariavelmente, da introdução da bola na baliza. Posto isto, e agora que finda oficialmente o Campeonato do Mundo no Brasil, quais foram os melhores golos da competição?

A subjetividade da avaliação é inevitável. Para mim, foram estes:


 Absolutamente fantásticos! 

07/07/2014

Journal of Human Kinetics (Vol. 41/2014)

Diz o povo que «não há duas sem três». Assim foi. Após os primeiros artigos científicos, datados de 2012 e 2013, foi publicado o terceiro, desta feita no volume 41 do Journal of Human Kinetics (JHK), no mais recente mês de junho.

Imagem: Cabeçalho, título e autores do artigo.

Em princípios de 2012, germinou a ideia. Da ideia veio a recolha de dados e, entre abril e maio de 2012, a peritagem do sistema de observação. A análise dos dados e a elaboração do paper deram pano para manga até março de 2013. Nesse mesmo mês, a primeira submissão que traria, dois meses depois, uma rejeição amarga. Cabeça erguida, as respetivas correções feitas e nova submissão em junho de 2013. Passou a fase preliminar de revisão pelo corpo editorial e, em setembro de 2013, recebemos a primeira avaliação positiva e a recomendação de «revisões menores». Em abril de 2014 foi aceite para publicação no JHK e, em junho, foram-nos solicitadas as provas finais. Na sequência desse procedimento, foi garantida a publicação definitiva.

Um processo longo, nem sempre agradável, mas que sabe muito bem quando é concluído com sucesso. Não posso deixar de agradecer, novamente, a colaboração inexcedível e abnegada dos professores António Paulo Ferreira e Anna Volossovitch (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa). Em seguida, são apresentados o resumo original (abstract) do artigo Effects of match location, match status and quality of opposition on regaining possession in UEFA Champions League e o link através do qual poderão aceder, gratuitamente, à versão oficial da revista (ver referência em baixo).

Abstract
The present study aimed to examine the independent and interactive effects of match location, match status, and quality of opposition on regaining possession, analysed by the type and zone of ball recovery, in matches played in the 2011-2012 UEFA Champions League. Twenty-eight matches of the knockout phase were evaluated post-event using a computerized notational analysis system. Multinomial logistic regression analysis was applied to identify the effects of the previously mentioned situational variables on ball recovery type and zone. Match status and quality of opposition main effects were observed for both dependent variables, while main effects of match location were only evident for ball recovery zone. Additionally, the interactions Match location * Quality of opposition and Match status * Quality of opposition were significant for both type and zone of ball recovery. Better teams employed more proactive defensive strategies, since, even when winning, they tried to sustain their defensive success on actions that aimed to gain the ball from the opponents. Results emphasized the tendency for home and losing teams to defend in more advanced pitch zones. Better-ranked teams were also more effective than worse-ranked teams in applying defensive pressure in more advanced pitch positions. The findings of the study suggest that the defensive strategies used by better teams imply more intense and organized collective processes in order to recover the ball directly from the opposing team. Furthermore, defending away from own goal and near the opponent’s one seems to be associated with success in elite soccer.

Key words: Soccer, notational analysis, situational variables, team performance, defensive strategies.


Reference 
Almeida, C. H., Ferreira, A. P., & Volossovitch, A. (2014). Effects of match location, match status and quality of opposition on regaining possession in UEFA Champions League. Journal of Human Kinetics, 41, 203-214. (pdf)

01/07/2014

Bernardo Silva: integrará o «Messizinho do Seixal» a equipa principal do SLB?

A escassos dias do início da época 2014/2015, é uma questão que gostaria de ver esclarecida. Sou um admirador confesso das suas capacidades e o seu talento não me passou despercebido, sobretudo desde que o comecei a ver jogar nos Juniores A (Sub-19) do Benfica. Aliás, não foi por acaso que Fernando Chalana reconheceu haver um «Messizinho» a despoletar no Caixa Futebol Campus; referia-se, claro, a Bernardo Silva.

Imagem: Bernardo Silva a atuar pelo SL Benfica (B e Sub-19) e por Portugal (Sub-19).

O Bernardo, como é apanágio de canhotos que ostentaram/ostentam a camisola 10 (Maradona, Rivaldo, Messi, James Rodríguez, entre outros), possui uma inteligência de jogo rara, aliada a uma capacidade técnica e velocidade de execução acima da média. Embora possa atuar como extremo, é no miolo, na posição 10, que mais faz valer as suas qualidades. Atenção: não há muitos como ele! A criatividade e a espontaneidade são características preciosas no futebol moderno e não se vendem em pacotes nas lojas dos chineses.

Contudo, não é virgem a ideia de que o miúdo não terá espaço na equipa principal do Benfica, pois o modelo de jogo de Jorge Jesus não preconiza o típico «n.º 10». Ainda que esse possa ser um motivo que dificulte a inclusão do jogador, não me parece ser totalmente válido para determinar a sua saída (definitiva ou por empréstimo). Por outro lado, o Jorge Jesus tem a virtude de saber rentabilizar o potencial dos jogadores em que acredita.

Será que acredita no Bernardo Silva?


 Eu acredito!

Em suma, se o Benfica abrir mão deste jovem talento será mais um caso flagrante de desperdício de dinheiro e talento do futebol de formação em Portugal. Afinal de contas, o talento só se manifesta, só se desenvolve e só se aperfeiçoa, se houver oportunidades ao mais alto nível.

27/06/2014

Um olhar sobre as confederações nos oitavos de final dos Campeonatos do Mundo da FIFA

Associadas ao organismo que tutela o futebol à escala planetária – FIFA – surgem 6 confederações continentais:

· AFC - Asian Football Confederation
· CAF - Confédération Africaine de Football
· CONCACAF - Confederation of North, Central American and Caribbean Association Football
· CONMEBOL - Confederación Sudamericana de Fútbol
· OFC - Oceania Football Confederation
· UEFA - Union des Associations Européennes de Football

O exercício que proponho é analisarmos os valores relativos (percentagem) de seleções apuradas, por cada confederação, para os oitavos de final dos campeonatos do mundo da FIFA, organizados entre 1990 e 2014 (gráfico 1).

Gráfico 1. Percentagem de seleções apuradas, por confederação continental, 
para os oitavos de final dos campeonatos do mundo da FIFA, entre 1990 e 2014.
(p.f., clique para ampliar).

A observação do gráfico permite-nos constatar, de imediato, que as equipas europeias predominam, com regularidade, na fase final da prova. Contudo, a preponderância das seleções da UEFA perdeu expressão nestes dois últimos mundiais (África do Sul e Brasil), com um decréscimo das 10 seleções apuradas para os «oitavos» no Alemanha 2006 para as 6 que seguiram em frente nos campeonatos do mundo da África do Sul (2010) e do Brasil (2014).

Em sentido inverso, aparecem as confederações CONMEBOL (América do Sul), CONCACAF (América do Norte, Central e Caraíbas) e CAF (África). Desde o campeonato da Coreia/Japão, em 2002, o número de seleções sul-americanas aumentou paulatinamente das duas até se fixar nas 5 equipas apuradas para os «oitavos» nos mundiais mais recentes. Quiçá este facto seja, em parte, consequência de uma aposta crescente dos clubes europeus no mercado sul-americano; o número de futebolistas oriundos da América do Sul nas principais ligas europeias é reconhecidamente elevado. Este fenómeno é especialmente gravoso para as seleções europeias, porque nos clubes prescinde-se da aposta em jovens talentos da formação em prol de jogadores sul-americanos, muitas vezes de qualidade duvidosa.

O número de seleções da CONCACAF presentes nos «oitavos» dos mundiais tem oscilado entre uma e duas. No Brasil, e pela primeira vez na história dos mundiais, verificou-se o apuramento de três seleções para a fase final do evento (México, Costa Rica e E.U.A.). Estou em crer que este feito assinala uma evolução brutal da modalidade, nas últimas décadas, nos países desta confederação continental. Quanto à confederação africana (CAF), o registo tem sido constante: uma seleção apurada para os «oitavos» em cada mundial. No Brasil, porém, o número dobrou, com a Nigéria e a Argélia a seguirem em frente na prova.

As restantes confederações conhecem traçados distintos. A confederação asiática (AFC) oscilou, nos derradeiros 5 mundiais, entre zero e duas seleções apuradas para os «oitavos» e a Oceania (OFC) praticamente não possui historial nesta fase da competição, excetuando o apuramento conquistado pela Austrália na Alemanha, em 2006. No cômputo geral, o gráfico permite-nos concluir que é real e progressiva a tendência de aproximação do número de seleções apuradas por confederação continental. Esta evidência reflete a expansão e a globalização do futebol nos tempos mais recentes. As discrepâncias que havia antigamente estão a diminuir e os resultados das seleções nesta competição mundial traduzem um maior equilíbrio. Veremos o que acontece daqui a 4 anos, no regresso da grande competição ao velho continente (Rússia).


PS - Relativamente à participação da seleção portuguesa neste campeonato do mundo do Brasil, há um ditado popular que se aplica na perfeição: «o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita».