20/03/2020

Artigo do mês #3 – março 2020

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

- 3 -
Autores: Jorge Arede, António Paulo Ferreira, Pedro Esteves, Oliver Gonzalo-Skok, & Nuno Leite
Título: Train smarter, play more: insights about preparation and game participation in youth national team
Revista: Research Quarterly for Exercise and Sport
País: Portugal
Referência:
Arede, J., Ferreira, A. P., Esteves, P., Gonzalo-Skok, O., & Leite, N. (2020). Train smarter, play more: insights about preparation and game participation in youth national team. Research Quarterly for Exercise and Sport. doi: 10.1080/02701367.2019.1693012 (link)

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês #3 - março 2020.

Apresentação do problema
No basquetebol, tal como noutros jogos desportivos coletivos, a preparação para uma competição internacional ocorre em períodos temporais limitados e, geralmente, com um calendário de treinos e jogos bastante concentrado. Neste quadro de constrangimentos, é fundamental selecionar os jogadores mais capazes para preparar os jogos competitivos, com o objetivo de se alcançar o melhor resultado possível. A análise da relação entre a preparação física e os desempenhos em treino e jogo, para predizer a prontidão dos jogadores para treinar e competir, é uma tarefa absolutamente indispensável para o corpo técnico. Embora o tópico tenha sido já investigado em contexto de clube, ao nível de seleções nacionais, a literatura ainda é escassa.

Diversos estudos têm demonstrado que o desempenho físico (e.g., distância percorrida) e a performance técnica (e.g., lançamentos/remates) estão associados ao resultado do jogo. Adicionalmente, evidências prévias mostraram que a preparação envolvendo o sistema cardiorrespiratório e a produção de força pelos membros inferiores influenciam a capacidade de trabalho de alta intensidade que replica a natureza intermitente dos desportos de equipa. Contudo, há ainda alguns resultados contrastantes, indicando, por exemplo, uma fraca associação entre a carga de treino e o desempenho em competição (Gastin et al., 2013).

Portanto, a inexistência de estudos científicos a explorar a relação entre exigências do treino e as exigências do jogo, ao nível das seleções nacionais, faz como que haja um caminho a percorrer no sentido de auxiliar as equipas técnicas a melhorar, por um lado, a seleção dos jogadores e, por outro lado, a própria planificação do processo de treino para as competições internacionais. Os objetivos da presente investigação foram: (i) examinar a relação entre a preparação física e os padrões de atividade, bem como as respostas percetivas durante sessões de treino (n = 19) e jogos particulares/amigáveis (n = 3); e (ii) identificar quais as exigências de movimento e as respostas percetivas das sessões de treino e dos jogos particulares que melhor predizem o estatuto dos jogadores (titular vs. não titular), durante um Campeonato Europeu Sub-16 da FIBA.

Métodos
Amostra: 12 jogadores de basquetebol (idade = 16.02 ± 0.40 anos) selecionados para a seleção nacional de Portugal Sub-16, de forma a participar num estágio de preparação (julho de 2018) para o Campeonato Europeu da categoria.

Procedimentos de recolha de dados: Os dados foram recolhidos no decurso de 19 sessões de treino e 3 jogos particulares (figura 2). A preparação física foi avaliada 3 semanas antes do estágio da seleção nacional num campo de basquetebol indoor (pavilhão desportivo). As variáveis de movimento foram captadas por meio do sistema WIMU PRO (Realtrack Systems, Almeria, Spain). Após o Campeonato Europeu, os jogadores foram divididos em duas categorias – titulares e não titulares –, com base no estatuto evidenciado e nos minutos de jogo acumulados durante a competição.
Figura 2. Cronologia da recolha de dados (Arede et al., 2020).

Variáveis do estudo: A variável dependente do estudo foi o estatuto dos jogadores. As variáveis independentes foram dividas em preparação física (teste intermitente de recuperação Yo Yo – nível 1; salto com contramovimento; teste de agilidade “T”; índice de assimetria dos membros inferiores), exigências de movimento (distância percorrida; acelerações de alta intensidade; desacelerações de alta intensidade; número de impactos corporais; carga individual de treino; pico de velocidade; pico de aceleração; pico de desaceleração), resposta percetiva ao esforço (escala de Borg CR10), dor muscular (Visual Analogue Scale) e estatísticas específicas de jogo (minutos; pontos; assistências; roubos de bola; blocos; ressaltos; eficiência).

Análise estatística: (1) correlação de Pearson para determinar as relações entre a preparação física e as exigências de movimento em sessões de treino e em jogos particulares; (2) decisões baseadas na magnitude (dimensões de efeito) para classificar, qualitativa e quantitativamente, as diferenças entre titulares e não titulares; (3) testes t para amostras independentes para apurar diferenças entre variáveis nos dois grupos de jogadores; (4) análise discriminante para identificar as variáveis que melhor predizem o estatuto dos jogadores em competição.

Principais resultados
A análise comparativa das exigências de movimento entre sessões de treino e jogos particulares revelou correlações quase perfeitas (r = 0.99) nas variáveis distância percorrida, acelerações de alta intensidade, desacelerações de alta intensidade, impactos corporais e carga individual de treino.

Os não titulares realizaram melhores performances no teste intermitente de recuperação Yo Yo – nível 1 e no teste de agilidade “T”, enquanto os titulares apresentaram menor assimetria nos membros inferiores e melhor desempenho no salto com contramovimento. À exceção da dor muscular pós treino, os jogadores não titulares obtiveram valores mais elevados nas atividades de movimento e nas respostas percetivas, tanto nas sessões de treino, como nos jogos particulares. Os titulares, porém, foram melhores na maioria das estatísticas de jogo, excluindo blocos e ressaltos.

Por fim, o modelo resultante da análise discriminante identificou algumas variáveis de jogos particulares (desaceleração de alta intensidade, roubos, eficiência e minutos), a dor muscular pós treino e a altura do salto com contramovimento como sendo os fatores que diferenciaram os jogadores que atuaram mais minutos (vs. aqueles que jogaram menos), nas partidas do Campeonato Europeu da FIBA.

Implicações práticas
Ao se preparar uma competição internacional importa dispor de dados de índole diversa, que possibilitem uma avaliação holística, ou multidimensional, de todos os jogadores em observação (ou já selecionados). Neste contexto, fatores técnicos e táticos, que não aqueles estritamente associados às exigências de movimento, são cruciais para determinar o tempo de jogo competitivo individual (figura 3).


Figura 3. Seleção de Portugal em competição no Campeonato Europeu Sub-16 da FIBA, em 2018.
(fonte: Twitter da Federação Portuguesa de Basquetebol)

As estatísticas específicas obtidas em jogos particulares internacionais, designadamente as de caráter ofensivo, diferenciaram os jogadores que tiveram mais minutos no Campeonato Europeu. Possuir inteligência de jogo e capacidades percetivo-motoras mais refinadas são plausíveis para explicar o facto de jogadores mais utilizados não terem a necessidade de percorrer maiores distâncias, comparativamente aos menos utilizados. Por outras palavras, os titulares são mais eficientes, o que, de forma alguma, deve ser confundido com displicência.

Os jogadores de basquetebol com maior capacidade de salto tendem a exibir habilidades ofensivas e de recuperação de posse de bola mais eficazes, embora isso também acarrete danos musculares mais pronunciados decorrentes das sessões de treino. Esta última evidência deve ser acautelada pelos treinadores no processo de preparação dos jogadores e da equipa para a competição.

Conclusão
O estatuto adquirido por jovens jogadores de basquetebol no Campeonato Europeu de Sub-16 foi influenciado por diversos indicadores recolhidos em fases distintas de preparação para a competição. Algumas variáveis afetas à performance em jogos particulares internacionais, a dor muscular pós treino e a altura de salto com contramovimento discriminaram os titulares dos não titulares no evento. Desta maneira, os indivíduos que saltam mais alto, que apresentam melhores estatísticas e mais minutos em jogos particulares podem ter uma probabilidade mais elevada de ser titulares no Campeonato Europeu, ainda que fiquem aquém dos não titulares nas exigências de movimento manifestadas em treino e em jogos de preparação.


P.S.:
1-  A maioria das ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;
2-  A leitura deste texto não dispensa a leitura integral do artigo em questão;
3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada no Research Quarterly for Exercise and Sport.

07/03/2020

International Journal of Performance Analysis in Sport (Vol. 20/2020)

Corria o ano de 2019 quando fui convidado pela professora Anna Volossovitch, da Faculdade de Motricidade Humana – Universidade de Lisboa, para fazer a validação por peritagem de um sistema de observação e análise de cabeceamentos no futebol. A tarefa, integrante do projeto da tese de doutoramento do treinador finlandês Jani Sarajärvi, foi cumprida com entusiasmo.

Passados alguns meses, recebi novo contacto para colaborar no primeiro artigo do projeto – Analysis of headers in high-performance football: evidence from the English Premier League –, visando a submissão numa revista científica internacional. Escusado será dizer que o grosso do trabalho já estava executado, mas tentei contribuir da melhor forma possível para que o intento fosse bem-sucedido. Apesar da minha modesta participação, e volvidos os habituais meses de revisões para cá e para lá, recebemos a boa nova da publicação no International Journal of Performance Analysis in Sport, no passado dia 4 de março de 2020 (figura 1).

Figura 1. Cabeçalho, título e autores do artigo.

Em traços gerais, o estudo objetivou reunir informação sobre as situações de jogo em que os cabeceamentos são executados no futebol de alto rendimento, no caso, na FA Premier League. Além disso, também acumulou o propósito de caracterizar como é que os cabeceamentos são executados em diferentes situações de jogo (figura 2). Sem detalhar as inúmeras relações que foram avaliadas entre as variáveis propostas na investigação, a simples análise da distribuição de frequências demonstrou que (1) a maioria dos cabeceamentos levou à perda da posse de bola, (2) quase metade foram executados em situações de bola parada, especialmente, em pontapés de baliza e lançamentos laterais e (3) uma quantidade substancial de cabeceamentos foi executada para prevenir o avanço espacial da equipa adversária, aquando da realização de ataques rápidos ou contra-ataques recorrendo a passes longos.
Figura 2. Ação do cabeceamento no futebol (fonte: worldfootball.net).

Embora os cabeceamentos e os duelos aéreos sejam ações frequentes no jogo de futebol, e os jogadores devam ser preparados para lidar, eficazmente, com esses contextos, a questão mais imediata que se coloca aos treinadores é a seguinte: será que vale a pena privilegiar a adoção de métodos ou estilos de jogo que impliquem que a bola esteja constantemente em trajetória aérea?

Para os mais interessados na matéria, recomendo a leitura do artigo na sua totalidade. Entretanto, deixo o resumo original:

Abstract
This study aimed to gather information about game situations where headers in high-performance football were performed and to characterise how headers were executed in different game situations. A multidimensional observational system was designed to characterise the header situation and technical execution. A sample of 920 headers were randomly collected from the English Premier League 2017–2018 season, using InStat Scout® website platform. Frequency analysis of headers showed that (1) most led to ball losses; (2) almost half was performed during set plays, especially in goal kicks and throw-ins; (3) a substantial amount was executed to prevent spatial progress of opponents when employing direct attacks with long passes. Chi-square analyses revealed significant associations (p < 0.05) between the following variables: header purpose and player position (large effect size – ES), movement and jump type (medium ES), game state and player movement, game state and jump type, space of occupation and opponent players as well as header type, header purpose and jump type, header purpose and opponent players, pass and jump type, pass and opponent players, and pass and player position (small ES). Based on the current findings, coaches are strongly encouraged to design representative training environments for headers considering position-specific needs, and to promote practice tasks and game strategies for maintaining/regaining ball possession after a player’s intentional header.

Key words: soccer; performance analysis; heading; situational variables; technical component.

Reference
Sarajärvi, J., Volossovitch, A., & Almeida, C. H. (2020). Analysis of headers in high-performance football: evidence from the English Premier League. International Journal of Performance Analysis in Sport, 20. doi: 10.1080/24748668.2020.1736409 (link)

Finalmente, tenho de destacar o enorme prazer que me suscitou colaborar com o Jani Sarajärvi e com a professora Anna Volossovitch (orientadora da tese de doutoramento) no presente trabalho, representando o Centro de Investigação em Ciências do Desporto e Educação Física (CIDEF), do ISMAT – Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.

01/03/2020

Indefinição nas missões táticas defensivas no 1-4-4-2: quem equilibra no corredor lateral?

Com o SC Braga ainda em vantagem no Funchal (0-1), diante do CS Marítimo, veio à baila a velha questão de quem equilibra defensivamente no corredor lateral quando a estrutura tática de base é o 1-4-4-2. É o avançado? É o médio interior/ala? É o médio de cobertura, vulgo “trinco”? E se não houver ninguém a aumentar a pressão defensiva, aproxima o central adjacente para efetuar cobertura defensiva ao lateral em inferioridade?

Vejamos o golo inaugural do jogo, aos 5 minutos, concretizado pelo jovem Trincão:


A equipa do Marítimo – claramente com um 1-4-4-2 definido –, face à entrada da bola no seu corredor lateral esquerdo, não fez “saltar” nenhum jogador na oposição ao portador da bola (Trincão), possibilitando à entrada do seu meio-campo defensivo uma situação de inferioridade numérica (1v2). Bem o Braga a atrair/concentrar a posição dos médios adversários no corredor central para progredir por fora (figura 1).

Figura 1. Início da situação de inferioridade numérica (1v2) do Marítimo, no seu corredor lateral esquerdo.

Com a bola descoberta, Rúben Ferreira foi recuando para temporizar e manter o setor defensivo alinhado. Ajuda? Nunca houve e Trincão – inteligente –, foi avançando para fixar os apoios de Rúben (figura 2).

Figura 2. A situação de superioridade/inferioridade manteve-se próximo da área de penálti da equipa da casa.

No momento certo, Trincão passou a bola a Ricardo Esgaio, colocando Rúben Ferreira a correr atrás do prejuízo. O problema foi que a indefinição nas missões táticas defensivas se manteve nos últimos 15 metros e, em particular, no setor defensivo insular. Como último recurso, a cobertura defensiva que era suposto ser realizada pelo central não ocorreu e a inferioridade numérica (1v2) perpetuou-se (figura 3).

Figura 3. Rúben Ferreira nas lonas, sem apoio de qualquer companheiro de equipa.

Ricardo Esgaio devolveu a Trincão que, com ângulo de remate aberto, finalizou em golo uma situação incrível de superioridade/inferioridade numérica que principiou na zona do meio-campo e teve uma duração de cerca de 8 segundos, sem qualquer ajustamento tático por parte dos jogadores do Marítimo (figura 4). Em alta competição, esta passividade é fatal.

Figura 4. Dois contra um até ao remate final (e golo) de Trincão.

É por estas e por outras que se diz, com propriedade, que a estrutura tática de base (i.e., a distribuição dos jogadores pelo terreno de jogo), é o menos relevante num contexto em que noção de oposição é fundamental. As dinâmicas comportamentais que se estabelecem numa equipa é que ditam se esta estará mais próxima ou distante de alcançar o sucesso. Neste âmbito, as missões táticas, a coordenação interpessoal, os ajustes e as combinações são treináveis, devendo este processo ponderar a multiplicidade de circunstâncias e problemas que o oponente pode suscitar em competição.

25/02/2020

Artigo do mês #2 – fevereiro 2020

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

- 2 -
Autores: Javier Fernandez-Navarro, Carlos Ruiz-Ruiz, Asier Zubillaga, & Luis Fradua
Título: Tactical variables related to gaining the ball in advanced zones of the soccer pitch: Analysis of differences among elite teams and the effect of contextual variables
Revista: Frontiers in Psychology
País: Espanha
Referência:
Fernandez-Navarro, J., Ruiz-Ruiz, C., Zubillaga, A., & Fradua, L. (2020). Tactical variables related to gaining the ball in advanced zones of the soccer pitch: Analysis of differences among elite teams and the effect of contextual variables. Frontiers in Psychology, 10, 3040. doi: 10.3389/fpsyg.2019.03040 (link)

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês #2 - fevereiro 2020.

Apresentação do problema
No âmbito da análise da performance do futebol não é novidade que a maioria dos estudos tem centrado a investigação em torno do processo ofensivo, designadamente, incidindo nos comportamentos individuais e/ou coletivos conducentes à concretização do golo. Nos últimos anos, porém, a fase defensiva começou a ser alvo de análise, sobretudo, no que à caracterização dos métodos empregues por equipas de elite diz respeito. Sabe-se, por exemplo, que equipas mais bem-sucedidas tendem a recuperar a posse de bola em menos tempo após a perderem para a equipa adversária (Vogelbein et al., 2014) e que equipas visitadas (i.e., jogar em casa), equipas em desvantagem no marcador e equipas qualitativamente mais fortes tendem a recuperar a bola em zonas mais adiantadas do terreno de jogo (Almeida et al., 2014).

De facto, a caracterização dos estilos de jogo defensivo adotados pelas equipas é bastante útil para descrever e compreender as diferentes abordagens táticas em competição, bem como os seus efeitos práticos. Contudo, para que esse intento seja alcançado na plenitude, é necessário integrar diversas variáveis contextuais e de performance na mesma análise. Deste modo, tendo como referência para a avaliação tática das equipas os processos defensivos iniciados no meio-campo defensivo adversário, este estudo visou: (1) examinar os comportamentos defensivos de equipas de futebol quando recuperam a posse de bola em zonas adiantadas do campo, analisando eventuais diferenças entre elas; e, (2) avaliar o efeito de variáveis contextuais nos comportamentos defensivos.

Métodos
Amostra: consistiu em 1095 sequências de jogo defensivas iniciadas no meio-campo adversário, recolhidas de 10 jogos da La Liga espanhola, na época 2010/2011. As duas equipas participantes nos jogos foram analisadas, resultando na inclusão de 13 equipas na amostra. A unidade de análise foi a sequência de jogo defensiva, começando quando a equipa atacante (re)conquista a posse de bola no seu próprio meio-campo e finalizando quando a equipa defensora recupera a posse de bola, de acordo com os critérios estipulados pelos autores.

Procedimentos de recolha de dados: os eventos de jogo foram registados através do sistema de rastreio semiautomático Amisco Pro®. Basicamente, este sistema rastreia os movimentos da bola e de todos os jogadores ao longo do jogo, permitindo a reconstrução bidimensional desses movimentos e, posteriormente, a análise das equipas e dos jogadores. Os investigadores tiveram permissão da Amisco para recolher os dados e o estudo foi previamente aprovado pelo Comité de Ética da Universidade de Granada. A fiabilidade intra e inter-observador foi assegurada por dois operadores, obtendo bons valores de acordo para a variável categórica “resultado da sequência de jogo defensiva” (outcome of defensive pieces of play: jogada perigosa concedida; bola recuperada na zona transversal 1; bola recuperada na zona 2; bola recuperada na zona 3; bola recuperada na zona 4; bola recuperada na zona 5; bola recuperada na zona 6; ver figura 2) e para as variáveis contínuas “distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” (distance from least advanced outfield defender to his goal line), “distância entre o jogador em posse de bola para o defensor mais próximo” (distance between the player in possession of the ball to the nearest defender), “comprimento do passe” (pass length), “número de passes” (pass number) e “duração” (duration). As variáveis contextuais utilizadas foram as seguintes: “localização do jogo” (match location: casa ou fora); “resultado corrente do jogo” (match status: a vencer, empatado ou a perder); “qualidade da oposição” (quality of opposition: aferido em função da classificação final: 1.º - 6.º lugar, 7.º - 13.º lugar ou 14.º - 20.º lugar); “período do jogo” (match period: 1-15 minutos, 16-30 minutos, 30-45 minutos mais tempo adicional, 46-60 minutos, 61-75 minutos ou 75-90 minutos mais tempo adicional).


Figura 2. Modo de animação do sistema Amisco Pro, com as 6 zonas transversais representadas (adaptado de Fernandez-Navarro et al., 2020).

Análise estatística: (1) tabelas de contingência considerando as variáveis de performance e contextuais definidas e as diversas equipas incluídas na amostra, com verificação dos valores de p e as respetivas dimensões de efeito consoante o tipo de teste utilizado (variáveis contínuas ou categóricas); (2) análise de cluster para agrupar as variáveis defensivas em grupos passíveis de descrever diferentes estilos de jogo defensivo. Em todas as análises foi adotado um nível de significância de 5% (p ≤ 0.05).

Principais resultados
Os autores mostraram a existência de diferenças significativas entre as equipas observadas nas zonas de recuperação de bola. O FC Barcelona foi a equipa que demonstrou maior probabilidade, em relação à média, de recuperar a bola em zonas mais adiantadas do campo (figura 3), o que comprova que este é um indicador de performance que discrimina as equipas mais bem-sucedidas.


Figura 3. Imagem de marca - o FC Barcelona da atualidade a impor pressão defensiva em zonas adiantadas do terreno de jogo.

As variáveis contextuais “resultado corrente do jogo” e “qualidade da oposição” estabeleceram uma relação significativa com o “resultado da sequência de jogo defensiva”, embora o mesmo não tivesse sido constatado para as variáveis “localização do jogo” e “período do jogo”. Em vantagem no marcador, as equipas recuperaram mais vezes a posse de bola na zona 1, enquanto que, com um resultado desfavorável, recuperaram menos vezes a bola nas zonas 1 e 2 e mais vezes na zona 5 (mais próxima da baliza adversária). Por outro lado, quanto maior for a qualidade da equipa oponente, menor é a probabilidade de recuperar a bola em zonas do campo mais avançadas. Verificaram-se diferenças significativas entre as equipas em todas as variáveis de performance contínuas, à exceção da variável “comprimento do passe”, que especifica o comprimento do último passe executado pela equipa adversária (em processo ofensivo) antes de perder a posse de bola para a equipa em análise (em processo defensivo).

A análise de cluster determinou a formação de 4 grupos em função das variáveis de performance e contextuais investigadas (figura 4):
·      Cluster 1 – bloco defensivo próximo da própria baliza (“duração” e “número de passes” elevados e “distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” reduzida);
·      Cluster 2 – bloco intermédio recorrendo a menor pressão defensiva sobre os jogadores atacantes (“comprimento de passe” e “distância entre o jogador em posse de bola para o defensor mais próximo” elevados, e “duração”, “número de passes” e “distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” intermédios);
·      Cluster 3 – bloco intermédio pressupondo pressão intensiva mais frequente sobre os jogadores atacantes (“duração”, “número de passes” e “distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” intermédios, e “comprimento de passe” e “distância entre o jogador em posse de bola para o defensor mais próximo” reduzidos);
·      Cluster 4 – pressão defensiva alta exercida em zonas avançadas do terreno de jogo (“distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” elevada, e “duração”, “número de passes”, “comprimento do passe” e “distância entre o jogador em posse de bola para o defensor mais próximo” reduzidos).

Figura 4. Percentagem de sequências de jogo defensivas iniciadas no meio-campo adversário pelas diferentes equipas, em função dos clusters apurados (Fernandez-Navarro et al., 2020). 

A contribuição relativa das variáveis para a formação de cada cluster permitiu identificar a importância de cada preditor (predictor importance – PI) nesta análise. Eis a importância de cada uma das variáveis preditivas, por ordem decrescente: “duração” da sequência ofensiva adversária (PI = 1.00); “número de passes” permitidos à equipa adversária (PI = 0.88); “distância do defensor menos adiantado para a sua linha de golo” (PI = 0.65); “comprimento do passe” (PI = 0.59); “distância entre o jogador em posse de bola para o defensor mais próximo” (PI = 0.25). A importância relativa das variáveis contextuais para a análise de cluster foi muito baixa (PI ≤ 0.02).

Implicações práticas
Os treinadores de equipas profissionais devem utilizar esta forma de aglutinar variáveis para a aferir o perfil da sua equipa e/ou dos adversários, no que concerne ao comportamento defensivo, para melhor preparar o coletivo para as vicissitudes da competição. Contudo, aquando da análise do desempenho em jogo competitivo, as equipas técnicas devem atentar ao facto de variáveis contextuais poderem afetar os comportamentos defensivos individuais e coletivos.

Conclusão
A análise de diversas variáveis defensivas revelou que as equipas empregam diferentes comportamentos táticos defensivos em competição, desde pressão alta a um bloco baixo próximo da sua baliza. O “resultado corrente do jogo” e a “qualidade da oposição” foram variáveis contextuais que influenciaram as sequências de jogo defensivas iniciadas no meio-campo adversário. Estes resultados contribuem para um melhor entendimento da variabilidade dos comportamentos defensivos das equipas no decurso de um jogo de futebol.


P.S.:
1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;
2-  A leitura deste texto não dispensa a leitura integral do artigo em questão;
3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada no Frontiers in Psychology.

05/02/2020

As velas ardem até ao fim (1942)

Foi o primeiro livro que li do autor húngaro Sándor Márai (1900-1989). Primeiro, achei que a obra, no seu todo, fazia jus a um autêntico ensaio filosófico sobre a amizade. Numa instância posterior, e com uma reflexão mais cuidada, refiz a minha ideia inicial para algo menos redutor: é um autêntico ensaio filosófico sobre a vida (figura 1).

Figura 1. Capa do livro "As velas ardem até ao fim", publicado em Portugal pela editora Dom Quixote.

“Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida, não. O destino entra pela porta que nós mesmos abrimos, convidando-o a passar.” (p. 125)

“Acontece que o momento traz consigo uma possibilidade e isso tem um tempo exacto – e se o momento passou, de repente já não podes fazer nada.” (p. 144)

Qualquer semelhança com as incidências de um jogo desportivo coletivo será pura coincidência? A vida não é mais que uma questão de linhas de passe.

29/01/2020

Artigo do mês #1 – janeiro 2020

Com o novo ano e a nova década chega, também, uma rúbrica que há muito havia ponderado: “o artigo do mês”. Por falta de disponibilidade não concretizei a intenção mais cedo, mas, a partir desta data, será uma realidade todos os meses aqui no Linha de Passe.

Em concreto, trata-se de uma breve síntese de um artigo científico selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

- 1 -
Autores: Robin C. Jackson & Gavin Comber
Título: Hill on a mountaintop: A longitudinal and cross-sectional analysis of the relative age effect in competitive youth football
Revista: Journal of Sports Sciences
País: Inglaterra
Referência:
Jackson, R. C., & Comber, G. (2020). Hill on a mountaintop: A longitudinal and cross-sectional analysis of the relative age effect in competitive youth football. Journal of Sports Sciences. doi: 10.1080/02640414.2019.1706830 (link)

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês #1 - janeiro 2020.

Apresentação do problema
O efeito da idade relativa (relative age effect, em inglês) é um fenómeno de assimetria na distribuição das idades cronológicas dos participantes de um dado escalão etário, no desempenho de uma atividade num contexto ou domínio específico. Caracteriza-se por uma representação elevada de indivíduos nascidos no início do período de seleção (geralmente, no primeiro trimestre), comparativamente a outros indivíduos nascidos no segundo semestre desse período, em particular, no último trimestre. Os jovens que nascem primeiro tendem a ser, por imperativo da natureza, mais altos e a possuir mais massa corporal do que outros que nascem mais tarde, embora sejam do mesmo grupo etário, criando uma pressão seletiva adicional nos mais novos no que à demonstração de atributos positivos diz respeito. Este tópico tem sido bastante investigado nas últimas décadas, em diversas áreas de intervenção, sendo o desporto infantojuvenil um dos principais alvos de pesquisa (figura 2).

Figura 2. O efeito da idade relativa é um fenómeno presente no desporto infantojuvenil. 
(foto da autoria de Manuel Pereira)

No futebol de formação, a dimensão do efeito do efeito da idade relativa tem sido amplamente estudada; porém, os investigadores não identificaram inequivocamente a sua origem, estando, atualmente, enquadrada no momento de seleção da criança/jovem para uma academia de futebol. Assim, o primeiro propósito desta investigação foi comparar a magnitude do efeito da idade relativa na entrada para uma academia de um clube da Premier League inglesa, com o tamanho desse efeito em crianças Sub-8 a competir numa liga regional que serve de base de recrutamento para academias profissionais de futebol.

A análise da distribuição das datas de nascimento em equipas profissionais sugere que o efeito da idade relativa atenue em faixas etárias mais avançadas. Estudos anteriores evidenciaram, no entanto, que o efeito da idade relativa persiste em equipas de futebol juniores, entre os Sub-15 e os Sub-18, sendo mais robusto em convocatórias para as seleções nacionais do que em equipas Sub-12 e Sub-14 ao nível dos clubes (Helsen et al., 2005). Portanto, falta alguma evidência científica que comprove a reversão do efeito da idade relativa no futebol de formação. O segundo propósito da investigação foi conduzir uma comparação longitudinal das taxas de retenção de indivíduos nascidos mais cedo e mais tarde no período de seleção (semestre 1 vs. semestre 2), numa academia profissional de futebol.

Ao nível do futebol mais básico – grassroots –, de índole regional/distrital, apenas um estudo comparou o efeito da idade relativa nos diferentes escalões etários (Helsen et al., 1998). Os resultados revelaram uma sobrerrepresentação de jogadores mais velhos (nascidos no primeiro trimestre do período de seleção) no grupo entre os 12 e os 16 anos de idade, mas não no grupo entre os 6 e os 10 anos de idade. No artigo em análise, os autores procuraram realizar uma comparação transversal mais abrangente do efeito da idade relativa no futebol regional, envolvendo quase 11000 jogadores de 12 escalões etários, dos Sub-7 aos Sub-18.

Métodos
Participantes: uma academia de categoria 1 da Premier League inglesa acedeu participar no estudo, facultando as datas de nascimento de 191 jogadores recrutados entre 2007 e 2012. Adicionalmente, a mesma academia forneceu uma lista com as datas de nascimento de 10857 crianças/jovens, do escalão Sub-7 ao Sub-18, a competir numa liga regional que serve de base de recrutamento para o clube. O anonimato e a proteção dos dados de todos os participantes foram assegurados no tratamento e na análise dos dados.

Procedimentos: através das datas de nascimento, os jogadores foram enquadrados em quartis (trimestres) ou metades anuais (semestres), em função da data de corte para inclusão na liga regional (no caso, 31 de agosto). Foram empregues diferentes testes estatísticos, que não interessa detalhar neste âmbito, para: (1) comparar as distribuições amostrais dos Sub-9 da academia e dos Sub-8 da liga regional, e de cada uma delas com a população geral de Inglaterra e do País de Gales, resultante dos censos efetuados nesses países; e, (2) para examinar o efeito da data de nascimento na progressão dos jogadores dentro da academia, entre os escalões Sub-9 e Sub-15.

Principais resultados
Comparando os Sub-8 da liga regional com a população geral verificou-se que, apesar de a diferença não ser significativa, o efeito apresentou uma dimensão pequena. O rácio de probabilidade Q1:Q4 (i.e., de se selecionar um indivíduo do primeiro quartil em relação a outro do quarto e último quartil) foi 1.4. No entanto, o mesmo rácio para jogadores Sub-9 da academia foi 8.6, sendo que as diferenças apuradas em relação à população geral e aos Sub-8 da liga regional obtiveram significância estatística. Na academia selecionada houve uma clara sobrerrepresentação de jogadores nascidos no quartil 1 (Q1) e uma sub-representação de jogadores nascidos no quartil 4 (Q4), ou seja, o efeito da idade relativa foi mais pronunciado no contexto da academia de um clube profissional (figura 3).


Figura 3. Distribuição das datas de nascimento dos jogadores Sub-9 da academia (preto) e dos Sub-8 da liga regional (cinzento).
(Jackson & Comber, 2020)

A assimetria nos quartis de nascimento – favorecendo os indivíduos nascidos nos quartis Q1 e Q2 –, foi consistentemente observada em todos os escalões etários da liga regional, excetuando nos Sub-18. A dimensão do efeito foi mais elevada nos escalões Sub-7 e Sub-15, alcançando valores considerados como médios.

Em relação às taxas de retenção na academia ao longo do tempo, não houve evidência de uma reversão do efeito da idade relativa. Deste modo, a probabilidade de retenção de indivíduos nascidos no segundo semestre foi menor comparativamente às taxas de retenção de indivíduos nascidos no primeiro semestre do período de seleção.

Implicações práticas
Os dados apresentados demonstram que o efeito da idade relativa é mais acentuado na seleção para academias de clubes profissionais, quando comparado com o que sucede a nível regional (grassroots). Os resultados demonstram que os scouts (olheiros) tendem a confundir o talento com atributos associados à idade cronológica. Por isso, é essencial que, nos momentos de observação de eventuais talentos ou jovens promessas, os treinadores/scouts devam estar conscientes da idade do jogador em relação aos seus pares. A utilização de identificadores (e.g., braçadeiras de cores distintas ou camisolas com os números dos quartis afetos à data de nascimento: de 1 a 4) é uma solução já avançada por alguns clubes/academias. Outra solução viável é promover eventos (torneios, jogos, treinos de captação, etc.) de acordo com o quartil de nascimento, sendo organizados, por exemplo, de três em três meses, começando por jogadores do Q1, depois do Q2 e assim sucessivamente. Esta medida permite mitigar, de alguma forma, as diferenças maturacionais existentes entre crianças/jovens nascidas no mesmo período/ano de seleção.

Conclusão
Os autores concluem o artigo manifestando incredibilidade pelo facto de, após mais de três décadas de pesquisa sistemática sobre o efeito da idade relativa no futebol (e noutros desportos), o efeito persistir e permanecer tão forte nos dias que hoje correm. Neste trabalho foi enfatizado o papel da pressão seletiva como provável moderador do tamanho do efeito da idade relativa no futebol infantojuvenil, ficando patente um efeito mais saliente na academia de categoria 1 de um clube da Premier League, relativamente a uma liga regional britânica. No cômputo geral, os jogadores nascidos no segundo semestre do período de seleção (Q3 e Q4) têm uma montanha muito mais íngreme para escalar no seu percurso rumo à concretização do sonho de se tornarem profissionais de futebol. Esse declive não se esgota no ato de seleção para uma academia de futebol, pois ainda se deparam com a dificuldade acrescida – a tal colina no topo da montanha que consta no título do artigo –, de se manterem na academia à medida que se vão aproximando do dito “sonho”.


P.S.:
1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a Língua Portuguesa;
2-  A leitura deste texto não dispensa a leitura integral do artigo em questão;
3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada no Journal of Sports Sciences.