26/12/2015

O intervalo nos jogos desportivos coletivos: Estratégias para maximizar a performance na segunda parte

«Como maximizar a performance dos jogadores nos jogos desportivos coletivos (JDC)?»

Esta é a pergunta que todos os treinadores devem fazer continuamente ao longo das suas carreiras. As práticas mudam, os métodos e as estratégias também e compete ao treinador ir estando a par das últimas tendências e da investigação que é realizada na área das Ciências do Desporto. Se há práticas que há décadas se encontram inalteráveis são as que ocorrem durante os intervalos na maioria dos JDC (andebol, futebol, râguebi, hóquei em campo, hóquei em patins, etc.). Os jogadores recolhem aos balneários, ingerem alguns hidratos de carbono e água/bebidas isotónicas, eventualmente recebem alguns cuidados médicos e, grosso modo, ouvem as indicações estratégico-táticas e as dicas motivacionais dos treinadores.

Em 2003, quando fui voluntário no World Congress on Science and Football, na Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa), tive a feliz oportunidade de assistir a uma apresentação do investigador das Ilhas Faroé Magni Mohr, que visava a importância de reaquecer no intervalo de um jogo de futebol. Nunca, como praticante, me tinham mandado reaquecer antes de entrarmos para a segunda parte. Recentemente, já em 2015, num artigo publicado na conceituada revista Sports Medicine, Mark Russell e colaboradores fizeram uma síntese das evidências existentes sobre o tema e propuseram algumas estratégias a implementar, no intuito de manter ou maximizar o desempenho dos jogadores nas segundas partes.

O racional teórico deste artigo de revisão reporta decréscimos em diversos aspetos da performance dos jogadores e das equipas nas etapas iniciais da segunda parte. Por exemplo, 20% dos futebolistas têm o seu período menos intenso de jogo nos 15 minutos subsequentes ao intervalo (Mohr et al., 2005). Para além disso, foi observado um aumento significativo do risco de lesão nos primeiros 20 minutos da segunda parte. Segundo os investigadores, os efeitos nocivos do intervalo no desempenho inicial dos jogadores na segunda parte devem-se a algumas alterações fisiológicas, decorrentes da natureza passiva das práticas propostas pelos treinadores. Assim, tende a verificar-se decréscimos nas temperaturas muscular e do core, alterações no equilíbrio ácido-base e na resposta glicémica.

De acordo com Russell et al. (2015), o intervalo concede uma oportunidade adicional para os treinadores otimizarem a performance da equipa na segunda parte. Contudo, para que isso suceda, não se pode restringir o tempo disponível a instruções estratégico-táticas. Tomemos em consideração o modelo proposto pelos autores (figura 1).

Figura 1. Modelo teórico de estratégias sugeridas para um intervalo de 15 minutos
(Russell et al., 2015; clique para ampliar).


Este modelo compreende um período de 2 minutos para regressar ao balneário/cabine da equipa. Os jogadores devem tentar manter a temperatura corporal e, para isso, as estratégias passivas incluem vestir casacos térmicos, colocar um cobertor sobre as pernas ou, se for possível, aclimatizar o balneário para atenuar a perda de calor corporal. Três minutos, no máximo, constituem o tempo do jogador, que pode incluir alguns cuidados médicos. Em seguida, o treinador tem 2 minutos para instruções estratégico-táticas à equipa e que pode envolver análise de vídeo. Outros 2 minutos podem ser utilizados para conceder feedbacks individuais aos jogadores. Atenção, porque a utilização de vídeos pode induzir respostas hormonais desejadas ou indesejadas. Por exemplo, mostrar a execução correta de ações do jogador/equipa estimula o aumento da concentração da testosterona; no entanto, a visualização de jogadas/ações bem sucedidas dos jogadores adversários incrementa a resposta de stress.

A 6 minutos do reinício da partida, os jogadores devem preparar o seu equipamento e consumir uma pastilha de cafeína. A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central e, quando tomada ao intervalo, pode ser eficaz para o desempenho desportivo subsequente. Ryan et al. (2013) observaram melhorias na performance de cycling, quando uma pastilha com 300 mg de cafeína foi ministrada 5 minutos antes do exercício. Posteriormente, os autores propõem 3 minutos de reaquecimento (estratégia ativa para manutenção da temperatura corporal). O reaquecimento pode incluir exercícios de intensidade moderada (agilidade, mobilidade, jogos reduzidos/condicionados) e breves exercícios de alta intensidade para modificar favoravelmente o pole hormonal antes da segunda parte. Para terminar o reaquecimento, Russell et al. (2015) sugerem a utilização de Post-Activation Potentiation, isto é, alguns exercícios pliométricos para preparar a atividade contrátil dos músculos mais solicitados no decurso do jogo. Finalmente, o intervalo deve incorporar a ingestão de hidratos de carbono. Embora os efeitos de hidratos de carbono de diferentes índices glicémicos ainda necessitem de ser investigados, é plausível que hidratos de carbono de baixo índice glicémico prolonguem as concentrações de glucose sanguínea que, normalmente, sofrem um declínio ao longo das segundas partes das partidas.

Portanto, o intervalo deve ser encarado como uma oportunidade para aplicar estratégias específicas que visem manter ou maximizar a performance no decurso da segunda parte. Conforme foi referido pelos próprios autores, o modelo proposto procura complementar, e não substituir, os protocolos já existentes na maioria dos JDC. Ainda assim, pode ser adaptado em função da idade dos praticantes, do nível de rendimento desportivo e das condições de trabalho existentes num determinado clube.

Continuação de boas festas para todos!

Referências
Mohr, M., Krustrup, P., & Bangsbo, J. (2005). Fatigue in soccer: A brief review. Journal of Sports Sciences, 23(6), 593-599.
Russell, M., West, D. J., Harper, L. D., Cook, C. J., & Kilduff, L. P. (2015). Half-time strategies to enhance second-half performance in team-sports players: A review and recommendations. Sports Medicine, 45(3), 353-364.
Ryan, E. J., Kim, C-H., Fickes, E. J., Williamson, M., Mullher, M. D., Barkley, J. E., Gunstad, J., & Glickman, E. L. (2013). Caffeine gum and cycling performance: A timing study. Journal of Strength and Conditioning Research, 27(1), 259-264.

03/12/2015

As novas tendências do futebol contemporâneo

Recentemente, a UEFA publicou o seu relatório técnico anual referente à edição 2014/2015 da Champions League. Baseando-se em evidências factuais dos 125 jogos disputados, o grupo de observadores técnicos da UEFA indicou algumas das tendências mais notórias nas equipas de sucesso. O subtítulo «pressão, intensidade e risco» dá o mote.

Pressão defensiva. A pressão defensiva em zonas avançadas do terreno de jogo é uma característica de equipas bem-sucedidas na Champions. Pressionar alto, restringindo linhas de passe e encurtando os espaços dos adversários, para além de condicionar a construção de jogo da formação oponente, permite recuperar a posse de bola em zonas passíveis de gerar, no imediato, situações de finalização. É, portanto, um «dois em um».

Intensidade. De acordo com os dados fornecidos, em 75 das 125 partidas, o tempo real de jogo ultrapassou os 60 minutos. Por exemplo, no mundial do Brasil, em 2014, apenas 9 dos 64 jogos obtiveram registo semelhante. Segundo este relatório, «os treinadores devem estar cientes de que os jogadores necessitam de estar física e mentalmente aptos para lidar com intensidades elevadas durante períodos longos de tempo» (p. 28). A intensidade, por si só, tem muito que se lhe diga. Atentemos à Tabela 1.

Tabela 1. Distâncias médias percorridas pelas equipas da UEFA Champions League, na época 2014/2015 (UEFA, 2015; p.f., clique para ampliar).

Nove das equipas na metade superior da tabela foram eliminadas na fase de grupos, enquanto 3 das 4 semifinalistas constam na metade inferior da tabela. Como já foi alvo de análise num texto anterior deste blogue, a organização coletiva é muito mais relevante que a intensidade (física) por si.

Risco e gestão do risco no processo ofensivo. Os observadores aludem à importância da subida dos laterais nos respetivos corredores (largura e profundidade) para criar desequilíbrios ofensivos no terço defensivo contrário. No entanto, a gestão do risco é essencial e, por isso, os poucos jogadores utilizados para (re)equilibrar defensivamente (3 ou 4) devem ser competentes na leitura do jogo, na ocupação do espaço e eficazes nas suas ações, no intuito de evitar transições ofensivas nefastas para a sua baliza.

A crescente preponderância das transições. 20.6% dos golos concretizados em situações de «bola corrida» decorreram de transições rápidas. Este paradigma foi também evidente na equipa vencedora: o FC Barcelona. O sucesso da equipa já não dependente exclusivamente da sua habilidade para controlar a posse de bola e aproveitar as desconcentrações do conjunto oponente; as saídas em transições rápidas para, posteriormente, utilizar as valências ofensivas dos seus atacantes no 1v1, é uma nova tendência (variável) a adicionar na equação do sucesso dos catalães.

O conceito de «flexibilidade tática». Atualmente, as equipas são capazes de alterar a sua estrutura/matriz organizativa, durante o jogo ou competição, no intuito de surpreender as equipas adversárias. De acordo com os observadores, apenas um terço das equipas participantes mantiveram o seu sistema de jogo ao longo da sua campanha.

Os guarda-redes modernos são autênticos líberos. A clássica tarefa de defender a baliza já não é o único pressuposto para classificar um guarda-redes contemporâneo como bem-sucedido. Não é por acaso que os observadores técnicos da UEFA utilizam o termo «sweeper-keeper» (guarda-redes líbero). A tendência atual é para os guarda-redes participarem na etapa de construção do processo ofensivo (veja-se, por exemplo, os expoentes máximos da escola alemã: Neuer e ter Stegen). A competência a jogar com os pés, em construção, a intervir nas saídas de zonas de pressão defensiva adversária com critério, i.e., fazendo com que a sua equipa dê seguimento ao processo ofensivo, é um aspeto chave do futebol contemporâneo. Ademais, em processo defensivo, e com a linha defensiva cada vez mais avançada no espaço de jogo, os guarda-redes também têm de jogar mais afastados da linha de golo. A leitura de jogo, a capacidade de antecipação e a qualidade técnica com os pés, são particularidades cruciais nestes líberos modernos. 

A elevadíssima precisão do passe. O vencedor da competição, à semelhança do Bayern Munique, obteve 90% de passes precisos. A ação que estabelece redes de comunicação ofensiva entre companheiros de equipa, quando executada corretamente em diversos contextos ou fases do jogo, determina o sucesso. Neste particular, é ainda destacado o papel do «playmaker» (vulgo jogador 10), considerado como uma espécie cada vez mais rara no futebol atual.

Referência
Union of European Football Associations. (2015). UEFA Champions League – Season review 2014/2015. Retirado de:
http://www.uefa.org/MultimediaFiles/Download/uefaorg/General/02/27/33/33/2273333_DOWNLOAD.pdf

19/11/2015

A atual seleção brasileira: O paradigma de um «gigante adormecido»

Por questões demográficas, sociais e culturais, o Brasil sempre foi e ainda será – especulo eu – o maior «viveiro» de jovens talentos de futebol do mundo. Na sequência desse fator, a equipa nacional brasileira está no topo das seleções com mais títulos à escala planetária: penta-campeã mundial (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), 8 vezes campeã da Copa América (1919, 1922, 1949, 1989, 1997, 1999, 2004 e 2007) e vencedora da Taça das Confederações por 4 vezes (1997, 2005, 2009 e 2013). Porém, se retirarmos a Taça das Confederações da FIFA, a competição mais recente e menos importante das supramencionadas, significa que há quase uma década que a principal seleção brasileira não vence uma grande competição internacional.

Para além disso, apesar dos recentes resultados positivos (Argentina 1 x 1 Brasil e Brasil 3 x 0 Peru) a contar para a fase de qualificação do Campeonato Mundial de 2018, a realizar na Rússia, o tom de contestação ao técnico Dunga tem aumentado de intensidade. Alegadamente, os adeptos do «escrete» nutrem a mesma opinião que eu: tendo em consideração os jogadores ao dispor do selecionador, a qualidade de jogo do coletivo é fraca. O ex-craque Ronaldinho chegou mesmo a afirmar que só vê a seleção quem não tem nada de melhor para fazer. Mesmo assim, o apuramento para o Mundial 2018 não deverá ficar comprometido, tal não é quantidade de opções com enorme qualidade individual.

Imagem: Seleção brasileira 2015 (fonte: www.radiorainhadapaz.com.br).

A atual seleção brasileira é, arrisco-me a afirmar, a prova viva de que um conjunto excelente de jogadores não faz necessariamente uma equipa excecional (o todo é mais do que mera soma das partes). A maioria dos jogadores selecionados jogam nas melhores equipas das principais ligas europeias e, por isso, a suposta falta de «cultura tática» é, quanto a mim, uma ideia bastante redutora. Na antevisão do jogo contra o Peru, Daniel Alves colocou, indiretamente, o dedo na ferida: «O plano de jogo desde o primeiro momento é não sermos tão espectadores na partida, porque pode ser que as coisas não fluam (…)».

A fazer zapping na televisão apanhei algumas imagens de um treino do Brasil e, desconhecendo os objetivos da sessão, perguntei-me o que estavam a fazer. Não consegui perceber se o objetivo do jogo reduzido/condicionado era induzir a criação de situações de finalização, melhorar os processos de circulação de bola ou se era mesmo um jogo de casados contra solteiros, mas com jogadores de nível mundial. Não me conformei e procurei essas imagens na internet, mas não fui bem-sucedido. Contudo, encontrei estas:


Aos 01:35 do vídeo, o «central» Dunga abre no lateral direito, este toca novamente no selecionador que oferece a bola ao adversário Felipe Luís. O lateral esquerdo toca no meio em Luiz Gustavo (?) que, com companheiros soltos e estáticos no corredor central, procura mudar o corredor de jogo para Willian, colocando a bola diretamente para fora (!). O que me parece é que o problema não é a qualidade individual, nem tão pouco a «cultura tática» dos jogadores. De acordo com as imagens que tive oportunidade de observar, e ressalvo que isso pode não traduzir o que se passa noutros treinos, o modo como se operacionaliza e gere o processo de aquisição/aperfeiçoamento de princípios que norteiam a organização (intrassetorial, intersetorial e geral) da equipa é que aparenta ser negligenciado. Quando assim é num grupo de jogadores que apenas se reúne esporadicamente, é muito menos provável que «as coisas fluam», como adverte Daniel Alves. Duvido que o jogador do Barcelona (e os outros) não tenha uma ideia do que é necessário para que as coisas possam fluir. Ele próprio admitiu que «a filosofia no Barça é diferente».

Assim, a correta operacionalização do treino dota um conjunto de jogadores de referências/princípios estruturais e funcionais. Esses princípios, quando bem interpretados pelos jogadores, concedem qualidade ofensiva e defensiva ao jogo coletivo. Descurando o processo que reforça as ligações e confere sentido ao «todo», sobra «a mera soma das partes» e a dependência dos génios individuais. Contra uma Alemanha, por exemplo, um «gigante adormecido» pode não ser suficiente para evitar o descalabro.

05/11/2015

Messi vs. Ronaldo: O caso das grandes penalidades na UEFA Champions League

A grande penalidade é um evento muito peculiar num jogo de futebol, uma vez que a comum interação entre 22 jogadores é temporariamente reduzida a um confronto direto entre o jogador que marca o penalti e o guarda-redes adversário. No âmbito de uma investigação em curso, decidi comparar alguns dados relativos à marcação de grandes penalidades por Lionel Messi (Barcelona) e Cristiano Ronaldo (Real Madrid), exclusivamente na UEFA Champions League, desde a época 2010/2011 até à atual. Apenas foram consideradas as grandes penalidades assinaladas durante o tempo regulamentar dos jogos, ou seja, prolongamentos e desempates por grandes penalidades não foram incluídos.

A justificação para escolher estes jogadores é óbvia: nos últimos sete anos (2008-2014), o melhor jogador do mundo para a FIFA ou foi Messi (2009, 2010, 2011 e 2012) ou foi Ronaldo (2008, 2013 e 2014). Neste sentido, o objetivo deste texto não se prende com esgrimir argumentos sobre qual dos dois é melhor; antes, tem como propósito fazer uma análise comparativa entre dois jogadores que, acima de tudo, já marcaram uma era do futebol mundial. Para nós – adeptos da modalidade – é e será sempre um privilégio afirmar que vimos (in loco ou não) jogar estes 2 craques.

Comecemos por Messi (ver figura 1).

Figura 1. Resultado e eficácia das grandes penalidades concretizadas por Messi (n = 10) na UEFA Champions League (2010-2015), em função da zona de remate (Legenda: G = Golo; D = Defendido; F = Falhado). (Por favor, clique para ampliar).

O argentino marcou 7 golos em 10 grandes penalidades, portanto, com uma eficácia de 70%. A única bola que colocou na metade superior da baliza falhou o alvo. As 9 restantes foram colocadas na metade inferior da baliza, sendo duas delas defendidas pelos guarda-redes. A zona preferencial foi o canto inferior direito, embora não se tenha verificado uma propensão para rematar exclusivamente para o lado direito da baliza. Curiosamente, os remates direcionados para o lado esquerdo da baliza (i.e., canto inferior esquerdo e centro inferior esquerdo) – por alguns autores considerado o «lado não natural» para indivíduos esquerdinos (e.g., Chiappori et al., 2002; Noël et al., 2015) – obtiveram eficácia máxima (100%).

A figura 2 exibe os dados relativos ao português Cristiano Ronaldo.

Figura 2. Resultado e eficácia das grandes penalidades concretizadas por Ronaldo (n = 11) na UEFA Champions League (2010-2015), em função da zona de remate (Legenda: G = Golo; D = Defendido; F = Falhado). (Por favor, clique para ampliar).

Num total de 11 grandes penalidades, Ronaldo marcou 9 golos, sendo a eficácia de 81,8%. Comparativamente a Messi, constata-se uma maior dispersão dos remates pelas 8 zonas da baliza. A figura 2 sugere que Ronaldo, para além de ser mais eficaz do que Messi na marcação de grandes penalidades, é também mais imprevisível. Os três penaltis batidos para a metade superior da baliza deram golo. Os restantes 8 foram direcionados para a metade inferior da baliza; 2 foram defendidos pelos guarda-redes contrários e 6 resultaram em golo. A eficácia foi mais reduzida no lado esquerdo da baliza, aquele que é considerado pelos investigadores como o «lado natural» para indivíduos destros (Chiappori et al., 2002). Aliás, a tendência de Ronaldo foi mesmo para rematar para a metade esquerda da baliza adversária (9 em 11), ainda que para zonas distintas.

Para concluir, na Champions League, Ronaldo tem sido mais eficaz que Messi na marcação de grandes penalidades. Se o valor obtido por Messi está dentro das taxas de sucesso reportadas na literatura científica (70-81%), a eficácia de Ronaldo encontra-se ligeiramente acima. A maior eficácia do português pode dever-se ao facto de ser mais imprevisível na zona em que procura colocar a bola. Atualmente, os estudos recomendam que os jogadores direcionem o remate para as zonas altas da baliza, pois a probabilidade da bola ser defendida pelos guarda-redes reduz drasticamente e a taxa de sucesso é por norma mais elevada (López-Botella & Palao, 2007; Bar-Eli & Azar, 2009). O facto de maior interesse prende-se com a eficácia dos 2 craques ser menor quando rematam para o seu «lado natural», tendo em conta a respetiva lateralidade. A amostra recolhida por cada jogador é muito pequena, pelo que este breve exercício não deve ser extrapolado para outras competições.

Referências
Bar-Eli, M. & Azar, O. H. (2009). Penalty kicks in soccer: An empirical analysis of shooting strategies and goalkeepers’ preferences. Soccer & Society, 10(9), 183-191.
Chiappori, P.-A., Levitt, S., & Groseclose, T. (2002). Testing mixed-strategy equilibria when players are heterogeneous: The case of penalty kicks in soccer. The American Economic Review, 92(4), 1138-1151.
López-Botella, M., & Palao, J. M. (2007). Relationship between laterality of foot strike and shot zone on penalty efficacy in specialist penalty takers. International Journal of Performance Analysis in Sport, 7(3), 26-36.
Noël, B., van der Kamp, J., & Memmert, D. (2015). Implicit goalkeeper influences on goal side selection in representative penalty kicking tasks. PLOS ONE, 10(8), e0135423. doi:10.1371/journal.pone.0135423.

25/10/2015

A atualidade da política portuguesa para crianças do 1º Ciclo

A Martins e o Sousa abriram Portas da vivenda, à beira-mar plantada, e correram pelo areal. A correria de mãos dadas foi interrompida ao encontrarem um Coelho que tinha dado à Costa. Pegaram no Coelho e levaram-no de volta a casa. Esfolaram-no e prepararam o refogado a contar com o bicho já parcialmente Salgado da sua jornada tão austera em mar pouco brando. Enquanto cozinhavam o almoço, decidiram ir ao quintal apanhar amoras silvestres para sobremesa. Ainda em êxtase pelo achado do dia, combinaram apanhar apenas com a mão Esquerda. A brincadeira não foi bem-sucedida, pois picaram-se numa Silva; irritados, protestaram ruidosamente. Mais tarde, restabelecidos dos ligeiros ferimentos, apreciaram o repasto com um bom vinho tinto alentejano. Contudo, à medida que as horas passavam, as dúvidas aumentavam: será que mais Coelhos iriam dar à Costa? Será que conseguiriam apanhar amoras com a mão Esquerda sem se depararem com a Silva? Será que ambos se continuariam a dar bem na casa da Costa?

Imagem: David e Golias cartoon (fonte: correntes.blogs.sapo.pt).

Não percam os próximos episódios porque eu também não.

15/09/2015

Os triângulos e as combinações táticas indiretas no futebol

Da minha experiência de ensino/treino do jogo de futebol, uma das primeiras ilações que retirei foi acerca da importância de me socorrer de figuras geométricas para desenvolver competências táticas das crianças/jovens. Já no ensino pré-escolar são transmitidas noções geométricas básicas como o triângulo, o quadrado e o retângulo e, numa fase inicial de aprendizagem do jogo (e não só), isso pode ser bastante útil ao treinador.

Já Carlos Queiroz afirmava que o futebol é um jogo de triângulos e, se pensarmos sobre isso, percebemos que o 3v3 (3-versus-3) é a unidade base para a evolução das competências táticas dos jogadores. Uma equipa de três jogadores pode cumprir os três princípios específicos do jogo em posse de bola (penetração/progressão, cobertura ofensiva/apoio e mobilidade) e os três princípios específicos da fase defensiva (contenção, cobertura defensiva e equilíbrio). Para além disso, com três jogadores, o portador da bola passa a ter opções múltiplas (i.e., passar para A, passar para B, driblar/fintar, rematar), em vez das evidentes limitações impostas pelo 2v2.

Três jogadores podem formar um triângulo, dois não; quatro ou mais jogadores podem formar mais do que um triângulo. Com triângulos podemos exigir mais do que simples combinações táticas diretas (i.e., combinações entre 2 jogadores: «tabelinha» e «overlap») e assim surgem as combinações táticas indiretas (envolvendo três ou mais jogadores). As opções múltiplas que o jogo de triângulos oferece são muito mais eficazes para perturbar a estabilidade das organizações defensivas cada vez mais aprimoradas no futebol contemporâneo (figura 1).

Figura 1. A combinação tática indireta (e o triângulo) que dá origem ao único golo do jogo Sunderland vs. Tottenham (13-set-2015).

Como exemplo, pego no magnífico golo de Mason (Tottenham) no passado fim-de-semana e que deu a vitória à sua equipa diante do Sunderland. Num jogo bastante disputado, no qual o nulo imperava, três jogadores (Mason, Harry Kane e Lamela) foram suficientes para ultrapassar as linhas defensivas dos visitados e criar a situação de golo. Três jogadores, um triângulo e a qualidade para interpretar e concretizar a combinação tática indireta.


Futebol é simples.
Mas nada é mais difícil do que jogar futebol de uma forma simples.
(Johan Cruyff)

01/09/2015

Jogadores de equipas futebol de elite não correm mais em situação de competição; correm melhor!

Uma ideia subliminar na mente de grande parte dos adeptos, dirigentes e até mesmo treinadores é que o nível de forma desportiva de um jogador e/ou de uma equipa está intimamente relacionado com a quantidade de distância percorrida em situação de competição. Não é invulgar ouvirmos alusões ao facto de um determinado jogador estar em grande forma porque «está em todo o lado», «tem um enorme pulmão» ou «corre muito».

É, no entanto, uma noção imprecisa, pois o nível de forma de um jogador/equipa não depende apenas da condição física. Sabemos que existe outras dimensões subjacentes ao rendimento desportivo nos jogos coletivos e que não podem ser ignoradas: tática, técnica e psicológica/emocional. Recentemente, a ciência aplicada ao futebol tem-nos fornecido dados extremamente interessantes sobre este assunto.

Por exemplo, Bradley et al. (2013) compararam a performance e a capacidade física de jogadores a atuar em três níveis competitivos em Inglaterra (Premier League, Championship e League 1) e concluíram o seguinte: (a) apesar da condição física ser similar, os jogadores das divisões inferiores percorreram maior distância total e em corrida de alta intensidade do que os jogadores da Premier League; (b) as mesmas equipas percorreram maiores distâncias em alta intensidade numa divisão inferior após despromoção, mas tal não sucedeu quando disputaram uma divisão superior na sequência de uma promoção; (c) os indicadores de performance técnicos (i.e., total de passes, passes para a frente, passes completos, bolas recebidas e média de toques na bola) obtiveram maior expressão na Premier League que nas divisões inferiores. Com base nos resultados, os autores especularam que o desempenho físico dos jogadores é influenciado pelas características dos métodos de jogo implementados pelas equipas. Se na Premier League se observou métodos ofensivos que privilegiavam a posse de bola, nas divisões inferiores os indicadores técnicos sugeriram um recurso mais frequente a bolas longas na fase de transição ofensiva. É perfeitamente plausível que esta disparidade estratégico-tática condicione o desempenho físico dos jogadores, no caso avaliado pelo perfil de corrida.

Num outro estudo, Carling et al. (2014) investigaram o desempenho competitivo de uma equipa profissional (Lille) durante 5 épocas consecutivas, tendo em particular atenção a época 2010/2011, na qual o clube foi campeão de França. Notavelmente, nas duas épocas em que a equipa foi mais bem sucedida, a performance física (avaliada pelo perfil de corrida dos jogadores) caiu em termos de ranking. A título de exemplo, na época em que o Lille foi campeão, a equipa foi apenas a 8ª da Ligue 1 em termos de distância percorrida em corrida de alta intensidade. Estas evidências sugerem que a corrida de alta intensidade per si pode não ser considerada um indicador de performance chave, especialmente se for analisada desconsiderando fatores contextuais e táticos.

Não quero com isto afirmar que a condição física dos jogadores não é importante. É um fator de rendimento que não deve ser negligenciado, mas que deve ser treinado e avaliado em conjunto com os outros fatores do rendimento desportivo, alguns deles até mais decisivos para a obtenção de sucesso no futebol. Neste sentido, um estudo recente de Folgado et al. (2015) abriu-nos novas perspetivas sobre o tema, na medida em que a eficiência dos deslocamentos dos jogadores poderá determinar uma poupança energética no que à distância total percorrida e à distância percorrida em alta intensidade diz respeito. No caso, a eficiência dos deslocamentos não tem que ver com um fenómeno meramente fisiológico, mas sim com o grau de sincronização ou coordenação entre os jogadores da mesma equipa. Entramos, inequivocamente, no domínio tático do jogo.

Embora o objetivo do estudo de Folgado et al. (2015) fosse analisar os desempenhos físico e tático da mesma equipa em períodos de jornadas concentradas ou dispersas, os resultados podem ser utilizados para suposições mais genéricas. Mais concretamente, comparando o tipo de distribuição das jornadas (congestionadas ou não congestionadas), não foram verificadas diferenças no desempenho físico da equipa; contudo, foram observadas percentagens mais baixas de sincronização diádica entre jogadores nos períodos de jornadas concentradas, em deslocamentos de intensidade baixa e moderada.

Quais são as implicações dos resultados dos estudos anteriores para o futebol de alto rendimento? Em primeiro lugar, a distância total percorrida e a distância percorrida em alta intensidade não são indicadores de performance fiáveis no futebol de elite. Em segundo lugar, a proficiência técnica dos jogadores em ações básicas como a receção e o passe é essencial em níveis competitivos superiores. Em terceiro lugar, os treinadores devem saber e reconhecer que os métodos de jogo propostos à equipa (dimensão estratégico-tática) condicionam o desempenho físico. Por último, supõe-se que as equipas de elite apresentam uma maior sincronização entre os seus jogadores, o que implica que o «correr muito» deva ser preterido no treino em prol de um «correr melhor» ou, se preferirem, de forma mais sincronizada (figura 1). No fundo, trata-se de conceder primazia à dimensão tática na sistematização de um processo de treino conducente ao sucesso competitivo.

Figura 1. A sincronização dos jogadores – o «correr melhor» – é um aspeto fundamental no futebol contemporâneo.

Referências
Bradley, P. S., Carling, C., Diaz, A. G., Hood, P., Barnes, C., Ade, J., Boddy, M., Krustrup, P., & Mohr, M. (2013). Match performance and physical capacity of players in the top three competitive standards of English professional soccer. Human Movement Science, 32, 808-821.
Carling, C., Le Gall, F., McCall, A., Nédélec, M., & Dupont, G. (2014). Squad management, injury, and match performance in a professional soccer team over a championship-winning season. European Journal of Sport Science. doi: 10.1080/02640414.2015.1022576
Folgado, H., Duarte, R., Marques, P., & Sampaio, J. (2015). The effects of congested fixtures on tactical and physical performance in elite football. Journal of Sports Sciences, 33(12), 1238-1247.

22/08/2015

Diário de um killer sentimental (2015)

Luis Sepúlveda, aquele que milhares de leitores já elegeram como o mais «português» dos escritores latino-americanos. Não sou eu que o digo, consta na sinopse do novo livro constituído por três «novelas negras»; o regresso do escritor chileno aos policiais.

Imagem: Capa do livro «Diário de um killer sentimental» de Luis Sepúlveda.

Muda o estilo literário, mas a sua escrita continua sempre cativante. É como ir de férias com um guia turístico carismático e conhecedor do envolvimento, sem realmente necessitarmos de sair de casa. Ademais, o modo como Sepúlveda «humaniza» os seus diversos personagens é de mestre. Para mim, Luis Sepúlveda está para a literatura como Andrea Pirlo está para o futebol; é um senhor.

Como não gosto de dar ponto sem nó, eis um breve trecho do livro:

– Achas mesmo que o sexo se presta a confusões? – perguntou Anita passando-lhe uma lima pelos calos.
– Às vezes. Lembro-me de uma história que me contaram uns arrieiros na Patagónia. Há dois anos, uma frente de mau tempo interrompeu as manobras que um regimento de infantaria estava a realizar na fronteira com a Argentina. Os tropas tinham suportado trinta dias e trinta noites a chover sem parar, quando um tenente se aproximou do grupo de arrieiros para lhes perguntar como é que eles aliviavam os tormentos de entre as pernas. Responderam-lhe que da maneira mais conhecida, e que se se sentia muito apertado podiam levar-lhe uma burra para junto do rio. O tenente negou-se, e com um gesto de repugnância acusou-os de pervertidos. Passou outro mês. À chuva juntou-se a neve, e o tenente tornou a encontrar-se com os arrieiros. Com toda a vergonha do facto, pediu que lhe levassem a burra para o pé do rio. Os arrieiros, sem entenderem a causa de semelhante pudor, disseram-lhe que muito bem, que no dia seguinte a burra o esperaria junto do rio, que crescia cada vez mais. Ali esteve também muito pontual o tenente e, depois de ordenar aos arrieiros que virassem as costas, baixou as calças e começou a fornicar com o animal. Então um dos arrieiros virou a cabeça e disse-lhe: «Meu tenente, a burra é para atravessar o rio. As putas estão do outro lado.»

Hilariante!

10/08/2015

Notas soltas sobre a Supertaça 2015/2016: SL Benfica 0 x 1 Sporting CP


1.  O vencedor Sporting: venceu a melhor equipa em campo, aquela que melhores processos (ofensivos e defensivos) apresentou, a que impôs o ritmo de jogo que pretendeu e a que criou mais oportunidades de golo.

2.  O vencido Benfica: uma equipa descaracterizada. Não tem a dinâmica fomentada por Jorge Jesus em épocas transatas e, acredito eu, tão pouco manifesta a que o técnico Rui Vitória ambiciona. A pré-época foi mal estruturada do ponto de vista desportivo, há jogadores a chegar e provavelmente outros sairão, mas os processos estão longe de agradar ou augurar bom prenúncio para o futuro. Por exemplo, há muito tempo que não via o Benfica a aliviar tantas bolas sem nexo para o meio-campo defensivo adversário. Porque será? Enorme a distância intersetorial e inexistência de opções múltiplas ao portador da bola (os apoios ao portador da bola são escassos e/ou pouco ou nada efetivos, mesmo na etapa de construção de jogo).

Imagem: Na Supertaça Cândido de Oliveira, época 2015/2016, o Sporting foi a melhor equipa.
(fonte: zerozero.pt; foto de Carlos Alberto Costa).

3.  Jorge Jesus: é um treinador excelente, diga-se o que se disser dele enquanto pessoa (isso pouco interessa no mundo do futebol). Tem o seu modelo, as suas ideias e sabe fazer com que os jogadores o interpretem e o ponham em prática. Um mês foi suficiente para transformar radicalmente os processos da equipa; quando outros pedem tempo, Jorge Jesus capitaliza os recursos que tem ao seu dispor.

4.  Rui Vitória: pede o tempo que um treinador não pode ter num clube bicampeão. Apreciei alguns processos defensivos, porém, ofensivamente, a equipa é pouco criativa e dinâmica e socorre-se, invariavelmente, de bolas paradas para chegar à grande área adversária. Muito pouco! Não será a chegada de um ou outro suposto craque que irá mudar esta tendência. É o treino e a boa transmissão (e interpretação) de referências, de princípios, que mobilizará o coletivo a expressar uma dinâmica conducente ao sucesso. Rui Vitória tem muito trabalho pela frente. Gostei da sua coragem em lançar jovens jogadores numa partida com elevada carga emocional.

5.  Melhores jogadores do Sporting: Dentro de um coletivo forte e coeso, destacaria os desempenhos de João Mário, Jefferson e Slimani.

6.  Melhores jogadores do Benfica: Como é óbvio, enalteço dois jogadores de caraterísticas mais defensivas: Lisandro López e Júlio César.

7.  Epílogo: «O todo é mais do que a mera soma das partes».

31/07/2015

Análise crítica dos formatos de jogo e dos regulamentos competitivos em vigor no futebol de formação em Portugal

Introdução
É mais ou menos consensual entre os principais agentes desportivos que o jogo competitivo, como elemento fundamental no processo formativo de crianças e jovens, deve estar convenientemente adaptado às características dos praticantes. Apesar disso, inúmeras evidências científicas recentes não abonam muito a favor de alguns formatos de jogo oficiais em vigor em certos escalões etários. Assim sendo, creio que não será descabido recomendar que os diversos agentes envolvidos no futebol português (i.e., treinadores, dirigentes, coordenadores técnicos, árbitros, etc.) reflitam em conjunto sobre esta problemática e, caso entendam necessário, tomem medidas para uma progressão mais adequada dos jovens praticantes pelos formatos de jogo, ao longo de todo o processo formativo (de Petizes, Sub-6, aos Juniores, Sub-19). Em última instância, este artigo visa propor uma série de alterações à competição nos escalões de formação, no intuito de salvaguardarmos o praticante, em particular, enquanto entidade a formar/desenvolver, e a qualidade do futebol português, em geral, a médio/longo prazo.

Formatos de jogo: Que mudanças farão sentido?
A organização dos formatos do jogo de futebol em vigor em Portugal, nos diversos escalões etários, encontra-se expressa na Tabela 1.

Tabela 1. Os formatos de jogo, em vigor em Portugal, no futebol de formação. 
(p.f., clique para ampliar)

Conforme podemos observar, aos 10 anos de idade, as crianças já competem no Futebol 7 (F7: Gr+6v6+Gr) e aos 14 anos, quando tal não sucede logo aos 12 anos, os jovens começam a experienciar o formato de jogo oficial do futebol sénior: o Futebol 11 (F11: Gr+10v10+Gr). Do ponto de vista da formação do jogador, será lógico colocar uma criança de 10 anos a jogar F7 ou um jovem de 12 a competir no F11?

Desde o início do século XXI, as evidências científicas inerentes à comparação de formatos de jogo competitivo no futebol de formação têm-se multiplicado. A título de exemplo, Capranica et al. (2001) compararam a atividade de jovens Sub-12 no F7 (60x40m) e no F11 (100x65m) e verificaram que o número de sprints curtos e de passes foi superior no F7, enquanto o número de desarmes foi significativamente menor, comparativamente ao F11. Estes autores concluíram que o F7 é mais apropriado para crianças pré-adolescentes, pois possibilita um maior envolvimento com a bola. Em 2007, os investigadores britânicos Jones & Drust compararam o perfil de desempenho de crianças Sub-8 nos formatos de jogo F4 (Gr+3v3+Gr, 30x25m) e F8 (Gr+7v7+Gr, 60x40m) e constataram que o número de contactos individuais com a bola foi significativamente superior no F4. Para além da frequência de ações técnicas executadas, a manipulação do número de jogadores também afetou o tipo de ações realizadas. Mais tarde, os gregos Katis & Kellis (2009) compararam os formatos F4 (25x15m) e F7 (40x30m) em jovens Sub-14. O F4 proporcionou um número significativamente mais elevado de passes curtos, remates, desarmes, dribles e golos; por sua vez, no F7 observaram-se mais passes longos e cabeceamentos. Estes resultados, em conjunto com dados de outras investigações, têm comprovado que os formatos de jogo mais reduzidos possuem um enorme potencial no desenvolvimento das capacidades técnicas e táticas individuais e específicas do jogo.

Deste modo, podemos afirmar que a evolução dos formatos de jogo poderia ser mais faseada e adaptada às capacidades dos praticantes nos diferentes escalões etários. À luz das evidências científicas atuais, fará mais sentido para a formação do jovem praticante de futebol a reorganização da competição como consta na Tabela 2.

Tabela 2. Proposta de reorganização dos formatos de jogo para o futebol de formação em Portugal. 
(p.f., clique para ampliar)

Nesta proposta, o fator tempo é decisivo para a qualidade do processo de formação. Destaco a introdução do F5 (Gr+4v4+Gr) nos Benjamins (Sub-11) e uma transição mais suave do F7 (Sub-13) para o F11 (Sub-17), com a implementação do F9 (Gr+8v8+Gr) no escalão de Iniciados (Sub-15), como já existe em algumas federações territoriais espanholas (Lapresa et al., 2008b). Embora as implicações logísticas possam ser um problema, acredito que seriam perfeitamente ultrapassáveis. Nos Juniores (Sub-19), por se tratar do último escalão de formação, o formato de jogo e suas especificações regulamentares devem ser rigorosamente iguais às existentes no escalão sénior.

Figura 1. A progressão dos formatos de jogo competitivo: duas vias distintas.
(fonte: Lapresa 
et al., 2008a)

Regulamentos competitivos: Como não “cortar” oportunidades?
Além da problemática dos formatos de jogo propostos às crianças/jovens, os respetivos regulamentos, como parte integrante do processo formativo, não devem constituir um fator limitador da participação dos jovens praticantes na competição; pelo contrário, devem maximizar as oportunidades de participação nos jogos para o maior número possível de elementos da equipa. Por outro lado, tal como o Código Civil preconiza direitos e deveres distintos para indivíduos adultos e menores de idade, assim deveriam ser os regulamentos disciplinares subjacentes à competição no futebol infantojuvenil. Infelizmente, não é isso que acontece.

Seguidamente, apresento algumas propostas de alteração dos regulamentos competitivos, no intuito de ajustar a realidade vigente aos propósitos do futebol de formação:

· Alargar as substituições volantes (ilimitadas) ao escalão de Iniciados (Sub-15);
· Aumentar o número de substituições para 5 nos Juvenis (Sub-17);
· Abolir o cartão vermelho até aos Iniciados (Sub-15), inclusive: na minha perspetiva, é inconcebível penalizar as equipas e as crianças/jovens que estão no banco de suplentes por comportamentos de indisciplina ou pelo recurso permanente à falta de um companheiro. Perante um cenário de dupla admoestação (cartão amarelo) ou ordem de exclusão imediata, o jogador prevaricador seria substituído por outro companheiro de equipa, sem possibilidade de voltar a reentrar nesse mesmo jogo, mas mantendo a igualdade numérica entre as equipas;
· Elaborar um regulamento de disciplina específico para o futebol de formação: por exemplo, um jovem defensor que corte a bola com a mão em cima da linha de golo implica que a sua equipa seja triplamente penalizada (grande penalidade, expulsão imediata e, por norma, um jogo de suspensão), tal como no futebol sénior. Como este, outros exemplos poderiam ser dados. Será que este regime severo de penalização/castigo serve a formação de jovens praticantes de futebol?

Conclusão
Este artigo não tenciona transmitir a ideia de que tudo está mal no futebol de formação em Portugal. Não é isso que está em causa, até porque houve determinadas medidas que foram implementadas (por exemplo, a introdução do F7, a adequação da duração das partes de jogo em cada escalão etário, entre outras) que merecem o nosso aplauso. Porém, como em qualquer outra área de intervenção, deve haver sempre espaço para inovarmos e refinarmos processos e procedimentos. Neste âmbito, se pretendemos que a competição contribua para a melhoria qualitativa do processo formativo do jogador, então urge repensar algumas questões relativas aos formatos de jogo e aos respetivos regulamentos competitivos para os diversos escalões etários. Ao invés, se entendemos que a competição no futebol de formação deve assumir contornos de rendimento similares às provas seniores, o mais lógico será mesmo manter a estrutura competitiva tal como está.

Referências
Capranica, L., Tessitore, A., Guidetti, L., & Figura, F. (2001). Heart rate and match analysis in pre-pubescent soccer players. Journal of Sports Sciences, 19, 379-384.
Jones, S., & Drust, B. (2007). Physiological and technical demands of 4v4 and 8v8 games in elite youth soccer players. Kinesiology, 39(2), 150-156.
Katis, A., & Kellis, E. (2009). Effects of small-sided games on physical conditioning and performance in youth soccer players. Journal of Sports Science and Medicine, 8, 374-380.
Lapresa, D. A., Idiakez, J. A., Echevarría, B. G., García, R. E., & Jiménez, M. A. (2008a). Enseñando a jugar “El Fútbol” hacia una iniciación coherente. Logroño: Universidad de La Rioja, Federación Riojana de Fútbol. 
Lapresa, D. A., Jiménez, M. A., García, R. E., Idiakez, J. A., & Echevarría, B. G. (2008b). Análisis descriptivo y secuencial de la fase ofensiva del fútebol 5 en la categoría prebenjamín. Cultura, Ciencia y Deporte, 8(3), 107-116.