30/12/2013

Um feito em 31

Faz hoje 31 anos que nasceu.
 
Lembro-me de nós, em crianças, a correr atrás da bola e a andar de bicicleta na pista do cerro do alto de São Roque. Recordo-me, mais que tudo, das aventuras. A vida, por essa altura, era uma aventura… feliz! Passados que estão 20 anos, somos tudo e não somos nada. Eu, por exemplo, gosto de jogar futebol, mas jamais entrarei num estádio repleto de adeptos entusiastas para me ver jogar; gosto de treinar jovens, mas estou a milhentas léguas de possuir a competência e o conhecimento de José Mourinho; gosto de “arranhar” na guitarra, mas fascina-me quem sabe “solar” de cima a baixo, e de forma melódica, nas cordas do instrumento. Ele não, tem jeito para a escrita; aliás, muito jeito para a escrita. Talento puro. Todos veem isso, mas ninguém se parece importar muito. Os «muito bons» comentados no facebook, as palmadinhas nas costas acompanhadas de singelos «escreves bem, pá!», são simpáticos, porém, manifestamente insuficientes.
 
Tenho para mim que uma arte somente adquire expressão quando é mostrada ao mundo, quando é exposta para todos podermos apreciar. Que beleza teria o Mosteiro dos Jerónimos envolto em tecido negro? O que falta é isso mesmo: mostrar ao mundo, sob a forma de obra. Um livro publicado far-lhe-ia alguma justiça, mas não toda. Infelizmente, é muito mais fácil criticar e/ou subestimar; é mais cómodo. É precisamente por esse motivo que as pessoas são melhores depois de mortas; dão menos trabalho.
 
Revolta-me poder fazer pouco. Talvez o pouco de alguns, um dia, possa ser suficiente para lhe prestar o devido reconhecimento, colocando à margem os incautos egocentristas que não veem, ou fazem, maliciosamente, de conta que não veem. Provas? Têm-nas no blogue Terra Ruim, em prosa ou em poesia; é à vontade do freguês.
 
Um dia, digo eu.
 
E porque a vida é um caminho, que se faz caminhando, espero que bem aprecie esta “aventura” escrita:
 
Imagem: Capa de Patagónia Express de Luis Sepúlveda (Porto Editora, 2011).

Parabéns, amigo Eduardo Duarte!

28/12/2013

Periodização do treino de jovens no futebol: O indivíduo para além do processo


NOTA PRÉVIA: O presente texto foi publicado no número mais recente da Revista AF Algarve (n.º 75, Outubro / Novembro 2013).

Imagem: Capa da Revista AF Algarve, n.º 75, Outubro / Novembro 2013 (download pdf aqui).


No futebol de formação, a aprendizagem do jogo, nas suas dimensões técnica, tática e estratégica, não é um processo de curto prazo. A aquisição e o aperfeiçoamento das ações técnicas, o desenvolvimento do raciocínio tático e a vivência dos condicionalismos estratégicos devem ocorrer por etapas, evitando as mais que habituais pressões exteriores de “executar rápido, bem, aqui e agora”. A crença no imediatismo gera usualmente insucesso; o insucesso conduz à saturação; a saturação culmina na desistência e no abandono precoces do processo de treino e competição (Stafford, 2005).

Uma vez que o jogo de futebol tem por base uma estrutura de rendimento complexa, é natural que as crianças/jovens sejam submetidos a situações de jogo ou competição exigentes dos pontos de vista físico, cognitivo e emocional. Contudo, as exigências que são colocadas aos miúdos devem ser muito bem equacionadas e geridas pelos treinadores. Um contexto de pouca exigência não estimula o desenvolvimento das competências dos jovens praticantes; por outro lado, um contexto de elevada exigência, sempre no limite, tende a desrespeitar os processos biológicos de crescimento e maturação dos indivíduos, levando à inevitável saturação. Deste modo, uma conveniente periodização do treino por parte do treinador pode acautelar situações de desistência e potenciar os efeitos formativos decorrentes da prática numa perspetiva a médio/longo prazo.

Neste âmbito, é consensual entre especialistas a existência de alguns cuidados a ter na seleção do padrão de periodização a adotar no treino de crianças/jovens. Tomemos em consideração os seguintes:

· O modelo de periodização deve ser adaptado à vida escolar (Matveiev, 1982, Tschiene, 1983, citados por Mota, 1988; Stafford, 2005), bem como à vida familiar da criança/jovem (Stafford, 2005). A grande maioria dos jovens praticantes de futebol no nosso país não está inserida em academias profissionais de futebol. Para além disso, a percentagem de jogadores que atingem o alto rendimento é irrisória. Enquanto agentes formadores de cidadãos, os treinadores não devem ignorar esta realidade;

· O que está em causa não é propriamente o rendimento, mas sim a criação dos pressupostos desse rendimento (Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008); logo, a criança/jovem não precisa, ao longo do ciclo anual, de atingir picos ou níveis otimizados de forma desportiva (Tschiene, 1983, Weineck, 1983 e Carvalho, 1985, citados por Mota, 1988);

· No período preparatório (pré-época), o objetivo do treino não é tentar o desenvolvimento da forma desportiva que serve para vencer o campeonato, porque o preço a pagar será uma perda de motivação por parte do jovem praticante (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Seirul-lo, 1998);

· A alta intensidade associada a exercícios específicos e/ou gerais, por motivos biológicos, pode ser nefasta nos níveis base de formação, visto o fator técnica ainda se apresentar pouco consolidado, surgindo a possibilidade de reter o erro. Nestes escalões, a base de um nível futuro elevado de rendimento deve ser lançada através da dominância do incremento do volume (tempo de treino), não por intermédio do aumento da intensidade (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005; Martin et al., 2008);

· O macrociclo anual (época desportiva) pode ser subdivido numa periodização tripla (três períodos), uma vez que oferece possibilidades de organização favoráveis para um processamento variado do ciclo anual, o que vem ao encontro dos interesses escolares das crianças/jovens (Lewin, 1978, Barbanti, 1979, Raposo, 1979, Berger, 1981 e Freitag, 1982, citados por Mota, 1988);

· É benéfico alterar o tipo ou algumas particularidades da periodização de época para época, de modo a fomentar a adaptação a novas estruturas de treino e a estímulos diversificados, em consonância com as exigências e as necessidades próprias de cada praticante e da competição (Stafford, 2005);

· Nos períodos de férias escolares, deve-se propiciar intervalos profiláticos, que providenciem a recuperação e a regeneração necessárias a jovens praticantes em desenvolvimento (Tschiene, 1983, citado por Mota, 1988; Stafford, 2005). Posto isto, será a frequência regular dos habituais torneios de Natal, Carnaval e Páscoa realmente benéfica para o desenvolvimento integral das crianças/jovens? Não serão estes torneios suplementares um fator de saturação para os jovens e para as respetivas famílias?

Um modelo de periodização assente nestas recomendações está especialmente ajustado às culturas ocidentais, até pela sua adequação à realidade no que diz respeito à matriz de estrutura social vigente. Em síntese, um modelo que se enquadre nos estilos de vida das crianças/jovens e das respetivas famílias é um modelo mais centrado e adaptado ao praticante, o que, em última instância, concorre para uma rentabilização e otimização do processo de formação desportiva e cívica através desta nossa modalidade: o futebol.

Referências
Martin, D., Carl, K. & Lehnertz, K. (2008). Manual de teoria do treinamento esportivo. São Paulo: Phorte Editora.
Mota, J. (1988). A periodização do treino com jovens. Horizonte, 4(23): 163-167.
Seirul-lo Vargas, F. (1998). Planificación a largo plazo en los deportes colectivos. Apuntes del curso de Entrenamiento Deportivo. Canarias: Escuela Canaria del Deporte.
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.

15/12/2013

O peso da vitória

As medalhas. Pareciam chocalhos pendurados ao pescoço a tinir a presunção de vitória. O peso encurvara-lhe o dorso e um dia, devido à ação contínua da gravidade, teria de rastejar. E quando rastejasse, olharia para cima para todas as pessoas vulgares; cumprimentá-las-ia, falando para cima, submisso. Não se importava. Viveria assim o resto da sua vida, só para poder dizer que outrora fora campeão.

Imagem: O peso da vitória (fonte: www.cartoonstock.com).

10/12/2013

Afinal, qual é o “grupo da morte” do Mundial 2014?

Sempre que ocorre uma competição internacional de futebol, tanto quanto sei, tem sido vaticinada a existência de um grupo peculiar de equipas designado “grupo da morte”. Usualmente, é o grupo mais equilibrado em termos de desempenho competitivo e, por inerência, aquele que, em teoria, é de desfecho mais imprevisível.

No que diz respeito ao próximo Campeonato do Mundo de 2014, no Brasil, as opiniões dos selecionadores, dos jornalistas e do público em geral não são consensuais. Uns alegam que o grupo da Espanha é o mais forte, outros que é o grupo da Inglaterra e, outros ainda, que é o grupo da Alemanha e de… Portugal.

Figura: Grupos do Mundial 2014, no Brasil (fonte: www.fifa.com).

Ora, a fim de esclarecer qual é, de facto, o “grupo da morte” do próximo Mundial 2014, resolvi fazer um exercício breve e simples: somar os pontos do ranking FIFA (atualização de 28-novembro-2013) das seleções que compõem os 8 grupos do certame. Este ranking tem em consideração as performances recentes das seleções, extensíveis ao período anterior de 4 anos (ver mais especificações aqui). Eis os resultados obtidos:

- Grupo G: Alemanha (1318), PORTUGAL (1172), Gana (849) e E.U.A. (1019) = 4358
- Grupo B: Espanha (1507), Holanda (1106), Chile (1014) e Austrália (564) = 4191
3º - Grupo D: Uruguai (1132), Costa Rica (738), Inglaterra (1041) e Itália (1120) = 4031
- Grupo C: Colômbia (1200), Grécia (1055), Costa do Marfim (918) e Japão (638) = 3811
- Grupo A: Brasil (1102), Croácia (971), México (892) e Camarões (612) = 3577
- Grupo E: Suíça (1113), Equador (852), França (893) e Honduras (688) = 3546
- Grupo F: Argentina (1251), Bósnia-Herzegovina (886), Irão (650) e Nigéria (710) = 3497
- Grupo H: Bélgica (1098), Argélia (800), Rússia (870) e Coreia do Sul (577) = 3345

Portanto, o “grupo da morte” do Mundial 2014 é, de acordo com o ranking atual da FIFA, o grupo G, ou seja, o de Portugal. A meu ver, talvez até seja bom para a nossa seleção. Por sua vez, o grupo teoricamente mais acessível é o grupo H, embora o grupo E – o da França – não tenha assim tantos pontos a mais. Na sequência da subversão das regras do sorteio, com a consequente passagem da Itália para o Pote 2 por troca com a França, calculo que o presidente da UEFA – monsieur Michel Platini – deva ter ficado radiante.

09/12/2013

A estrada da felicidade

«Se és Ernesto, não podes ser honesto».

Ernesto estava farto daquele dizer. O que tinha o seu nome a ver com honestidade ou falta dela? Desde que nascera, tinham-lhe cravado o cunho. Maldito nome! Ao contrário de qualquer ser humano, Ernesto não podia errar, sob pena de se confirmar a sua desonestidade. Aí, o povo venceria; aliás, o mundo venceria e Ernesto não estava disposto a dar razão a quem não tinha ou não lhe fazia uso.

Que se soubesse, ninguém apresentara razão de queixa de sua pessoa. Era pacato, humilde e demasiado trabalhador. Era daqueles que o bom patrão gostava de ter a seu mandato: fizesse o que fizesse, era bem feito! Pelo menos, até ao dia em que desapareceram dinheiros e ferramentas e surgiu a inevitável suspeita. Nenhuma vivalma o vira a roubar, mas como era Ernesto… apontaram-lhe o dedo.

Esmoreceu-lhe a paciência e quis abalar para longe dali. Na vila, dizia-se que havia gentes a partir para trabalhar numas terras férteis das planícies alentejanas. Pagavam bem e davam teto para dormir. Ernesto não era ladrão, nunca o fora, mas, como uma mentira contada mil vezes, torna-se verdade, decidiu-se logo a apanhar a dita camioneta. Os outros, na esperança de melhores dias, comentavam que iriam pela estrada da felicidade. «Encontrá-la-iam?», perguntava-se Ernesto.

Numa bela manhã de novembro, os primeiros raios de sol abrilhantavam a despedida. Por estes dias, a geada andava de mão dada com a madrugada e tudo parecia cristalino. As pessoas, essas, aglomeravam-se no largo da carreira. Estavam sorridentes, porém batiam o dente. Ernesto não sabia se era do frio ou se do nervoso miudinho provindo do desconhecido, da lonjura ou da própria esperança. Então, no outro lado do largo, lá apareceu a viatura, meticulosamente a tempo e horas. «Assim se faz. Tudo em ordem!», alguém soltou evidentemente satisfeito.

O chauffeur, um homem para meia-idade, apresentou-se como Salvador e solicitou aos passageiros que se identificassem. Trinta e três era o número de dissidentes, de foragidos da agrura da serra e da sua pobreza mercante. Abraços, beijos e lágrimas condimentaram a hora do «adeus, até breve!». Ernesto não deixava ninguém de especial, apenas a desonestidade apregoada desde o dia do seu batismo. Para ele, não havia lágrimas, restavam-lhe as memórias, fossem elas boas ou más. E, assim, tomaram a estrada rumo ao que diziam ser a felicidade.

O branco caiado da serra ia ficando cada vez mais minúsculo à medida que se afastavam. Ernesto sorria, contemplando a beleza outonal das suas origens. O verde mesclado com o castanho e o cinzento do asfalto salpicado pelo desfolhar dos plátanos. Do rádio escutava-se o «1, 2, 3, vou nascer outra vez» dos Ritual Tejo; nem a música podia ser mais apropriada. Preocupava-o, contudo, a velocidade com que tudo ficava para trás e o trajeto não era exatamente retilíneo. Os passageiros conversam animadamente, bem agarrados aos pertences que não depositaram na bagageira. A bordo iam vidas, orgânicas e inorgânicas, literalmente. Talvez por isso, e pela velocidade, a camioneta balouçasse nas curvas.

Mais adiante, algures ainda pela serra, o piso atraiçoou a confiança do Salvador e a camioneta não balançou, deslizou para a berma e precipitou-se por um barranco abaixo. Os gritos, os galhos a quebrar, o rodopio, culminado pelo estrondo do embate final, deram lugar ao silêncio e ao vazio. Momentos… Ernesto flutuava, invadido por uma sensação de paz inexplicável. Uma luz – quiçá salvadora – tomou-lhe o destino. E, enquanto outros jaziam a contorcer-se de dor, Ernesto havia encontrado, inadvertidamente, o seu intento… a mais pura das felicidades.

Imagem: A estrada e a beleza outonal da serra de Monchique (6-dez-2013).

20/11/2013

Uma mera crónica sobre Portugal no Mundial 2014

No cenário de crise, descontentamento e tristeza em que estamos inseridos, julgo que Portugal acordou hoje, pelo menos, um bom bocado mais alegre que ontem. A nossa seleção apurou-se para o Mundial 2014 no Brasil. Estamos lá!

Imagem: Festa portuguesa em Solna (fonte: Getty Images).

O playoff com a Suécia
Dois jogos em que a seleção portuguesa foi claramente superior. Estou convicto que a equipa poderia ter ido a Solna mais descansada, pois fez por merecer o 2-0 no Estádio da Luz. A vantagem de 1-0 não era negativa, porém também não dava a tranquilidade que o mister Paulo Bento tanto aprecia. Aliás, este apuramento foi tudo menos tranquilo. À boa maneira “tuga”, não se previne, remedeia-se, desenrasca-se. Ontem, desenrascou-se o apuramento, não sem a dose de sofrimento do costume. Se os jogadores interpretaram convenientemente o que a equipa técnica solicitou, então devo enaltecer os dois planos de jogo (planos estratégico-táticos) elaborados para a eliminatória. Neste particular, o líder Paulo Bento e os seus pares foram competentes, embora continue a achar que poderiam ter sido tomadas outras opções na pretérita fase de grupos.

Cristiano Ronaldo, a Ballon d’Or e os outros
Não sou hipócrita. Em ocasiões anteriores, critiquei Cristiano Ronaldo e defendi a eleição de Messi como o melhor jogador do mundo. Critiquei algumas atitudes do capitão português, sobretudo no Mundial 2010 e, de facto, insurgi-me perante a contestação de alguns portugueses acerca de Ronaldo merecer a Bola de Ouro da FIFA. Hoje, no ano de 2013, estou rendido e lamento não o ter suportado mais anteriormente. Depois de ver Joseph Blatter ridicularizar o nosso capitão, quer queiramos ou não um símbolo de Portugal, depois de ver Ronaldo, consistentemente, a somar dois ou três golos por jogo e a ser por demais decisivo no seu clube e na seleção, só posso ficar rendido às evidências: FIFA Ballon d’Or 2013!

Quem alega que Ronaldo não ganhou nada a época transata, então que se relembre que esta distinção é individual e não coletiva. Franck Ribéry não é evidentemente o melhor do mundo, mas esteve integrado num super Bayern Munique que venceu tudo o que havia para vencer em 2013. No caso de Lionel Messi, coloco em causa a sua regularidade. Este último semestre do ano tem sido fatídico para o argentino. A mudança de treinador e de filosofia de jogo no Barcelona não têm potenciado os seus desempenhos e as sucessivas lesões também não têm contribuído. Por tudo isto, 2013 é ano para Ronaldo. Até a FIFA alargou, em duas semanas, o prazo de votação para o melhor jogador do mundo. Na realidade, seria altamente inteligente permitir que se votasse num jogador sem saber quais as seleções apuradas para o Mundial…

Esta parece ser uma opinião que transcende sentimentos patrióticos exacerbados. Senão, vejamos as palavras do internacional inglês Rio Ferdinand:

Ronaldo acabou hoje com a discussão sobre a Bola de Ouro… Se não ganhar é porque o Blatter fez o ranking.
(19-nov-2013, via Twitter)

Ponto!

A classe de João Moutinho
Se Cristiano Ronaldo é, por agora, o maior, então o João Moutinho vem logo a seguir. Um médio de classe mundial. Ora, sobre Moutinho já havia escrito um texto no Linha de Passe (recordar aqui).

Imagem: O comandante Ronaldo e o maestro Moutinho a caminho do Brasil 2014 (fonte: sportsworldreport.com).

A meu ver, é um jogador importantíssimo na equipa nacional. É a formiga incansável a trabalhar defensivamente (n.º 6), é o grande maestro que serve Ronaldo e os outros atacantes na perfeição (n.º 10) e é o “box-to-box” que, simplesmente, está sempre dentro dos processos coletivos da equipa e a cumprir com critério (n.º 8). Só lamento que atue num clube que não esteja nas competições europeias e que não compita numa liga de topo. Espero que tenha a felicidade de um dia poder jogar num clube europeu tão grande como ele.

E no Brasil?
Certamente que Portugal não irá para sambar. A seleção irá para competir e confio numa boa prestação. Ainda falta muito tempo para o certame e, por isso, apenas refiro as minhas preferências (por ordem decrescente em cada pote) para o sorteio dos grupos do Campeonato Mundial 2014, que se realizará no próximo dia 6 de dezembro:

Pote 1: Suíça, Uruguai, Colômbia, Bélgica, Argentina, Espanha, Brasil e Alemanha.
Pote 2: Honduras, Irão, Costa Rica, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos da América e México.
Pote 3: Argélia, Camarões, Gana, Equador, Nigéria, Costa do Marfim, Chile e França.
Pote 4: pote de Portugal (Holanda, Itália, Inglaterra, PORTUGAL, Grécia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Rússia).

Teoricamente, o grupo mais acessível para Portugal seria com a Suíça (de Joseph Blatter), as Honduras e a Argélia. Ao invés, um grupo complicado seria, por exemplo, com o Brasil, o México e a França. Deixemos agora que o destino faça a sua parte. Venha quem vier, é bola para a frente.

Força, PORTUGAL!

13/11/2013

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade (2013)

Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade é um livro de contos do escritor, meu conterrâneo, António Manuel Venda. Foi recentemente reeditado (3ª edição) pela JustMedia, após ter sido lançado inicialmente pela editora Pergaminho, em 1996. Nesta nova edição, o autor contou com a colaboração de entidades autárquicas do concelho de Monchique, em especial da Junta de Freguesia de Monchique, que teve um papel ativo na promoção e na apresentação do livro junto da população local.

Imagem: Capa de "Quando o Presidente da República visitou Monchique por mera curiosidade" de António Manuel Venda (fonte: planetalgarve.com).

Pessoalmente, enfatizo a criatividade das histórias e a qualidade de expressão escrita do autor. Alguns contos são surreais, mas de uma imaginação soberba. O real funde-se com a fantasia, resultando numa sátira evidente à sociedade contemporânea, mesmo tendo os contos sido escritos há um bom par de décadas. Não deixa de ser irónico em tempos de crise.

A maioria dos contos tem por sede geográfica o concelho de Monchique e, como massa humana, as suas gentes, com destaque para algumas personagens reais.

Ao Zé das Cabras muita gente gritava «Ó das cabras!», e ele respondia sempre «Ó dos cabrões!».
(p.87 in Crónica de Badajoz)

Um simples excerto que me fez regressar, como que por magia, à minha infância e recordar as partes do malogrado Zé das Cabras. Era no Largo dos Chorões, era no Largo de São Sebastião, era na Rua do Porto Fundo, havia sempre um «Ó das cabras!» e o correspondente «Ó dos cabrões», vulgarmente condimentado por outra meia dúzia de palavrões que não vale a pena aqui especificar. Depois, era a risada geral.

Ao acabar de ler um livro, gosto de refletir sobre o que li. Desta feita, por o achar particularmente interessante e muito bem conseguido, foquei-me no título. E se o nosso presidente da república viesse mesmo a Monchique por mera curiosidade?

“Algo quase improvável”, pensei. O prof. Aníbal Cavaco Silva não tem agenda para meras curiosidades. Quiçá estimulado pelo imaginário de António Manuel Venda, talvez cá viesse se ocorresse um evento de proporções calamitosas como, por exemplo, a erupção do tão famigerado vulcão que a Picota encerra (diz-se que foi um vulcão, diz-se que está extinto, mas que eu saiba ninguém comprovou a sua existência). Aí, talvez o presidente da república tirasse um tempo para visitar Monchique; não seria era por mera curiosidade, mas sim por mera formalidade.

Num contexto de normalidade, sem cenários catastróficos, também o imaginei a discursar num palanque colocado no Mirante e a elogiar a magnificência da vila e da serra. A referir Monchique como “uma linda vila verdejante do interior alentejano”. Sim, imaginei a “gaffe” e a sua visão “macro”, não de “macroscópica”, mas de “macroeconómica”, porque o presidente é um homem de dinheiros. Quando se perceciona o mundo de uma lente angular “macro”, qualquer terra do interior, ainda para mais num dos extremos do país, não assume qualquer significado ou ponto de interesse. Algarve ou Alentejo? Dá no mesmo.

Para concluir, endereço os meus sinceros parabéns às freguesias do concelho (Alferce, Marmelete e Monchique) por apoiarem António Manuel Venda a reeditar este seu livro. Monchique, o seu património cultural e o seu potencial humano merecem ser devidamente valorizados. Contudo, como “santos da casa não fazem milagres”, é pena que as pessoas tenham, primariamente, de fugir de cá para verem os seus méritos e o seu talento reconhecidos.

03/11/2013

Viver na (in)certeza

Sorris. Faz-me crer que estás feliz. Escondes-te na intensa luminosidade do dia solarengo e passeias-te anónima, e menos insegura, por entre o denso nevoeiro. Deixas-te perder na angústia dos teus pensamento e, sobretudo, na incerteza voraz que caminha a passos largos na tua direção. Faço de conta que não sei, que não é nada comigo. No fundo, sei: receias e entristeces.

As certezas são escassas e com prazo de validade. Curto, por sinal. Já as incertezas parecem más de contabilizar. São inúmeras, muitas e não estão rotuladas de prazos. A realidade é esta: vivemos numa paisagem de incertezas, querendo assentar pé apenas nas certezas. Contudo, as certezas não dão para todos, somos muitos e nem sempre calham aos mesmos.

No final de contas (“at the end of the day”, como dizem os britânicos), tudo se resume a uma simples questão: Que piada teria a vida se nos baseássemos somente em certezas?

Imagem: Painting journey "(...) walking a path of uncertainty" (fonte: maryecarlisle.wordpress.com). 

26/10/2013

Fundamentos e aplicações em análise do jogo (2013)

Os professores Anna Volossovitch e António Paulo Ferreira (Faculdade de Motricidade Humana – Universidade de Lisboa) publicaram, em abril deste ano, o livro Fundamentos e aplicações em análise do jogo, através da Edições FMH.

Imagem: Capa do livro "Fundamentos e aplicações em análise do jogo" (2013). 

Trata-se de uma coletânea de artigos/capítulos científicos originais e/ou de revisão, elaborados por um conjunto de autores conceituados no âmbito da análise da performance nos Jogos Desportivos (JD). Desde a influência de fatores situacionais do jogo (e.g., local do jogo – casa vs. fora; resultado corrente do jogo – vantagem vs. empate vs. desvantagem; qualidade da oposição – forte vs. fraca) no rendimento das equipas à coordenação interpessoal (cooperação vs. oposição) inerente ao entendimento do ato tático, são abordados inúmeros temas extremamente interessantes e essenciais para o corpo de conhecimentos que qualquer treinador, investigador e estudante deve possuir nesta área das ciências do desporto.

Tenho tido a felicidade de trabalhar de perto com os dois editores, pelos quais nutro uma especial consideração. Pela sua competência pedagógica e técnica, pelo seu sentido crítico e construtivo da investigação produzida na análise do JD, não estaria à espera de outra coisa que não fosse algo de completo, de atual e de qualidade. Devo também destacar a excelência dos contributos dos outros autores para a obra em questão.

Para quem trabalha ou investiga nesta área das ciências do desporto ou, simplesmente, é um curioso pela ciência em torno da análise da performance nos desportos coletivos, vale a pena ler!

13/10/2013

O que é treinar em especificidade no futebol?


“Aqui só se treina em especificidade. É tudo com bola.”

Nos meandros do treino desportivo, em concreto na modalidade de futebol, ainda subsiste a crença, ou o mito, de que qualquer exercício que contenha a bola é específico. A classificação que é feita dos exercícios baseia-se, fundamental, na premissa: tem bola é específico; não tem bola é geral. Como é evidente, esta é uma visão extremamente redutora e limitada do treino e condiciona, de sobremaneira, o processo de preparação de qualquer equipa para a competição.

Imagem: Treinar com bola não significa treinar em especificidade (fonte: hulmefooty.blogspot.com).

Treinar em especificidade implica trabalhar num contexto que replique, o mais aproximadamente possível, a realidade que se irá encontrar na competição, quer seja a um nível mais macroscópico (e.g., organização defensiva), ou mais microscópico (e.g., pontapés de canto defensivos). A bola é essencial, mas não é determinante para o exercício apresentar um caráter específico. Para isso, terá de se acrescentar companheiros de equipa, adversários, objetivos definidos em função da filosofia da equipa técnica e, também, controlar algumas variáveis do foro contextual que possam ser antecipadas, relativamente ao que é expectável ocorrer no compromisso competitivo seguinte (dimensões do espaço, características do terreno, temperatura, qualidade do árbitro, ruído do público, etc.).

No fundo, treinar em especificidade é jogar com propósitos bem definidos. Para o treinador, significará propor situações de jogo, mais ou menos reduzidas (mais ou menos microscópicas), que pressuponham uma interação permanente entre os jogadores (cooperação e oposição) e o seu envolvimento, equacionando inúmeras variáveis passíveis de afetar momentaneamente a organização das ações dos indivíduos e o plano estratégico-tático da equipa. Por exemplo, uma equipa a jogar com menos um jogador, por motivo de expulsão ou lesão, conduz a um reajustamento das missões e das ações táticas dos outros elementos da equipa. Segundo esta lógica, a noção de oposição avançada por Gréhaigne e colaboradores (1997) constitui um ponto central na forma como o jogo e o treino (em especificidade) devem ser perspetivados (figura 1).

Figura 1. Conceitos relacionados com a noção de oposição (adaptado de Gréhaigne et al., 1997).

Contudo, como referem Mesquita e Marcelino, “(…) a capacidade de aplicação no jogo das estratégias e táticas treinadas é limitada, na medida em que apenas se pode prever, e não predizer, a evolução das configurações ofensivas e defensivas, reiterando esta evidência a necessidade de recurso a abordagens heurísticas, capazes de considerar a complexidade da natureza do fenómeno (…).” (2013: 137).

Cada jogo engloba um acrescento de novidade (algo original e único) que, consequentemente, reduz a eficiência dos comportamentos técnico-táticos dos jogadores e das soluções estratégicas da equipa (Gréhaigne et al., 1997). Deste modo, a capacidade de gestão da desordem assume um papel determinante e isso somente se trabalha, melhora, aperfeiçoa e consolida no treino em especificidade, ou seja, através do próprio jogo.

Referências
Gréhaigne, J. F., Bouthier, D., & David, B. (1997). Dynamic-system analysis of opponent relationship in collective actions in soccer. Journal of Sports Sciences, 15, 137-149.
Mesquita, I., & Marcelino, R. (2013). O efeito da qualidade da oposição e do match status no rendimento das equipas. In A. Volossovitch e A. P. Ferreira (Eds.), Fundamentos e aplicações em análise de jogo (pp. 133-152). Cruz Quebrada: Edições FMH.

05/10/2013

Loucura (e)levada ao infinito

Deixou-se envolver pela loucura. Venera quem lhe cuspiu em cima e inferniza os que lhe tentaram arrancar um sorriso feliz da sua face amargurada.

O mundo ficou de patas para o ar; não para aqueles que vivem e subsistem da insanidade, mas para os outros, aqueles que acham que a benevolência ainda pode salvar o mundo. Pura ilusão. Mero devaneio. Quem quer mudar o mundo, pela via do otimismo, do positivismo, sofre; quem não quer nada com o mundo, vive loucamente do sofrimento dos outros, rindo, gozando, apontando o dedo. A crítica sem fundamento. Apenas e só: louca.

E quando já não houver uma gota de benevolência no mundo, o louco acordará para vida e perceberá que, assim, o mundo perdeu toda a piada. Como a loucura consome qualquer réstia de lucidez, jamais se poderá voltar a pugnar pela benevolência. Então, o louco, desorientado pela ausência de uma bússola com norte, perder-se-á nos confins do tempo, rumo ao infinito.

Imagem: "Alice: Madness Returns matte painting" (fonte: http://lukpazera.blogspot.com).

01/10/2013

Dia Mundial da Música

É hoje, no primeiro de outubro. A efeméride é comemorada desde 1975 pelo International Music Council, “uma instituição fundada em 1949 pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música” (fonte: http://www.calendarr.com/portugal/dia-mundial-da-musica/).

Segundo o escritor francês Georges Braque, “o vaso dá uma forma ao vazio a música ao silêncio”. A música não se limita a moldar-se aos nossos estados de espírito, transcende-os. É impulso, é motivação, é alegria, é tristeza, é barulho, é melodia, é ritmo. Impele-nos para a ação. Sim, “a música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas” (Bono Vox).

No Linha de Passe, o dia é assinalado com o tema Walk, do último álbum de originais dos Foo Fighters.


I'm learning to walk again
I believe I've waited long enough
Where do I begin?

26/09/2013

Cada Carvalho no seu Jardim

A capa do dia de hoje – 26 de setembro de 2013 – do jornal Record traz-nos o seguinte:

Imagem: Excerto da capa do jornal Record de 26-set-2013 (fonte: www.record.xl.pt). 

Depois de alguns casos de “jogador-treinador” no futebol profissional, agora chega a versão “presidente-treinador”. Admiro-me como é que um treinador como o Leonardo Jardim é complacente com isto. Qualquer dia, alegando “redução da despesa”, temos o presidente Bruno de Carvalho (com o seu título de treinador de futebol – Grau I) a acumular funções no clube.

Diz o povo que se quer “cada macaco no seu galho”. No contexto em análise, para que o novo projeto do Sporting CP continue a funcionar convenientemente e a dar os seus frutos, creio que o mais adequado será mesmo colocar “cada Carvalho no seu Jardim”.

24/09/2013

Crime e castigo no país dos brandos costumes (2011)

Um livro de Pedro Almeida Vieira, editado pela Editorial Planeta.
  
Imagem: Capa de "Crime e castigo no país dos brandos costumes", de Pedro Almeida Vieira (2011; fonte: www.wook.pt).

Sinopse
No jardim à beira-mar plantado chamado Portugal consta que sempre viveu um povo sereno e de brandos costumes. Este livro vai desfazer o mito. Na verdade, a História de Portugal mostra que, desde tempos remotos, homens e mulheres mataram por paixão ou por motivos fúteis, bandidos semearam o pânico, houve serial killers, violadores e facínoras da pior espécie, ladrões de igrejas e hereges. Muitos sofreram depois, no corpo, as consequências dos seus actos, perante um Estado que então aplicava a lei de talião: - olho por olho, dente por dente.

E fossem as penas o garrote, a forca ou a fogueira e os facínoras da atualidade não se passeariam tão voluptuosamente por entre nós. Haveria certamente exemplos mais dissuasores para os prevaricadores ou potenciais criminosos, ainda que menos dignos para a condição humana. Que tal cortar as mãos e queimá-las para bom ladrão ver, antes de ter de lidar com a morte na forca? Ainda assim, a dita “lei de talião” também serviu inúmeros interesses muy nobres. Condenou-se à morte uma série de inocentes, que não eram propriamente pobrezinhos, sendo os seus bens e património confiscados pela Coroa e com a "bênção" das mais altas instâncias cristãs. Homens de Deus na pele de inquisidores

Ao longo de trinta narrativas – interessantíssimas, por sinal – pude aprender um lado diferente da História de Portugal. A interpretação dos acontecimentos retratados possibilita-nos adquirir uma noção da dinâmica evolutiva da justiça no nosso país. Em tempos de crises financeiras, económicas e, acima de tudo, de valores, nada melhor que nos recordarmos que piores eras já passaram. Para bem dos nossos pecados, não foi por isso que Portugal deixou de existir e a (jovem) humanidade de evoluir.

09/09/2013

Nenhum olhar (2000)

“O romance (…) que consagrou José Luís Peixoto nacional e internacionalmente”. Um enredo numa aldeia do Alentejo. Uma realidade com décadas, talvez séculos. Homens e mulheres batidos pelo trabalho, pela solidão, pelo sofrimento e abatidos pela morte. A esperança parece não existir e a alegria só a raros espaços. As personagens são vazias de tudo e cheias de nada. A atmosfera é densa, pesada. O destino resume-se à negrura da morte, ao colapso da vida pela dor, pela ausência do olhar.

Imagem: Capa de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto ( fonte: www.quetzaleditores.pt ).

Os homens são uma parte pequena do mundo, e eu não compreendo os homens. Sei o que fazem e as razões imediatas do que fazem, mas saber isso é saber o que está à vista, é não saber nada.” (p. 81)

Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.” (p. 120)

E morro devagar. Dissipo-me em cada gesto deste mundo que não me pode oferecer mais nada. Tornei-me uma sombra de mim. Tornei-me uma sombra de uma sombra de uma sombra de mim. Dissipo-me no tempo e no silêncio.” (p. 182)

A terra nunca mais. Tenho pressa. Tudo me espera onde não existo. Nada existe onde não estou e não estou em nenhum lado.” (p. 216) 

03/09/2013

Meia carta no baralho

“Já chega!”. Um desabafo pesaroso que traduz um corpo e uma mente por vezes em ponto de saturação. Se fosse uma carta, estaria a colocar-me fora do baralho. Porém, como qualquer baralho de cartas, o todo perde sentido sem um dos seus elementos constituintes. O todo torna-se obsoleto, em algo desprovido de significado. Só o todo tem força, só o todo é funcional, só o todo pode… efetivamente.

Imagem: O baralho é o todo; somente o todo é funcional.

Se não dou tudo é porque não posso, porque o dia é um artifício que não se estica para além das 24 horas. Dou o que posso e como posso pelo todo e por aquilo que o faz mover: a identidade, o sentimento de pertença e a paixão pelo jogo. Agora sou apenas meia carta, mas não me excluo do baralho. Acredito, porque o todo, afinal, ainda pode fazer sentido e, desta forma, ir a jogo.

29/08/2013

O jovem no futebol de elite: talento e... oportunidade!

Não é novidade que entrar e singrar na elite do futebol nacional e/ou internacional não é um processo simples para o jovem futebolista. Após uma década (ou mais!) ultrapassando obstáculos na formação, lutando arduamente por sobreviver num contexto altamente exclusivo, possuir e manifestar talento não é suficiente. Raramente é suficiente para se afirmar na equipa principal. É preciso ter a sorte de privar com o treinador certo: a alma, quase caridosa, que arrisca o seu emprego para apostar na “prata da casa”. Aquele indivíduo que, conhecedor das qualidades e limitações do jovem, concede o indispensável: a oportunidade!

Não me interpretem mal. Oportunidade não é ser mais um no plantel e jogar 99 minutos/época; é efetivamente apostar, colocando-o a jogar regularmente, ainda que a utilização deva ser bem ponderada. Também não sou extremista e reclame 90 minutos/jogo. Agora, por exemplo, se uma equipa estiver a vencer 3-0 no seu estádio, porque não dar 20/25 minutos de jogo ao jovem talento? A equipa adversária iria dar a volta ao texto e vencer por 3-4? Acho bastante improvável. Este seria sim um bom contexto de… oportunidade.

Sobram os exemplos de jogadores talentosos que passam ao lado de carreiras promissoras, como consequência da falta da oportunidade. Dou por mim a refletir sobre isto. A pensar o porquê de o SL Benfica não ter portugueses na sua equipa inicial; o porquê de João Cancelo não ter oportunidade de jogar na equipa principal (talvez, porque o Maxi Pereira esteja a jogar muito bem); o porquê de Funes Mori ser contratado e o clube ter Nélson Oliveira, com os mesmos 22 anos, emprestado ao Rennes (a propósito, 3 golos em 3 jogos na Ligue 1 francesa); o porquê de termos equipas B na Liga 2 a “rodar” jogadores das equipas principais, ficando os jovens talentos no banco sem jogar (então, afinal, trata-se de um espaço de “rodagem” dos jogadores menos utilizados do plantel principal ou um espaço de “transição” da formação para o futebol sénior de alto rendimento?); o porquê de Josué nunca ter tido oportunidades prévias no seu clube de formação – FC Porto – e agora regressar, com evidente sucesso (i.e., titularidade e golos).

Foto: O jovem João Cancelo em ação pela equipa B do SL Benfica (fonte: www.google.pt). 

Pena é que o futebol não seja apenas isto mesmo: talento e… oportunidade. A oportunidade transforma-se frequentemente em oportunismo. Observe-se o reverso da medalha: o Sporting CP. Um clube que tenta rentabilizar desportivamente o investimento na formação e que, a atentar pelo começo da época 2013/2014, promete ser, novamente, bem sucedido. Mas há os empresários e os tutores e aquilo que move o mundo, o dinheiro. O caso Bruma é um claro exemplo de quando a oportunidade é desperdiçada em prol do oportunismo. Depois do Mundial Sub-20, na Turquia, o jovem jogador tinha tudo para vingar no clube de Alvalade. Faria parte do plantel principal e estou convicto de que seria opção regular de Leonardo Jardim. Supondo que não iria ganhar balúrdios, teria a oportunidade de continuar a ser seguido pelos colossos europeus e, não menos importante, a oportunidade (insisto!) de se afirmar no futebol sénior de alto rendimento. Os Euros por ele pretendidos (ou pelo empresário, ou pelo advogado) viriam como consequência do seu trabalho, do seu talento, mas a oportunidade estava lá. Dizem que foi “mal aconselhado”; infelizmente, parece-me óbvio que sim.

Este é o meu ponto de vista. Em Portugal escasseiam as oportunidades para os jovens portugueses passarem de “futebolistas promissores” a “verdadeiros craques”. Salvo raras exceções (algumas anteriormente mencionadas), a política dos clubes ainda não passa por rentabilizar (desportivamente) o investimento feito na formação e nas academias. Um erro de gestão que só pode ser explicado pela tentativa de rentabilização financeira dos clubes por outros meios, menos dados ao futebol.

Se há formação, se há talento… só falta a oportunidade. Quem ficará a perder?