21/05/2019

Evolução do resultado das grandes penalidades na I Liga Portuguesa, nas últimas 6 épocas desportivas (2013/2014 – 2018/2019)

Finda a época 2018/2019, que consagrou o SL Benfica como campeão nacional, é tempo de fazer balanços, apontar destaques, superar desilusões e preparar o futuro próximo. Eu, como indivíduo interessado, para evitar cair no exagero de obcecado, por esquemas táticos (i.e., situações fixas do jogo ou bolas paradas), continuei a minha demanda na recolha de dados inerentes às grandes penalidades assinaladas na I Liga Portuguesa, a atual Liga NOS.

Figura 1. Grande penalidade convertida por Paulinho no jogo Portimonense SC 3 x 0 CD Nacional, da 25.ª jornada da Liga NOS 2018/2019.

A soma de mais uma época eleva para 6 o número de épocas desportivas analisadas, perfazendo um total de 607 penáltis executados na I Liga Portuguesa desde 2013/2014 até 2018/2019, envolvendo a participação de 26 clubes diferentes. A figura 2 discrimina o resultado das grandes penalidades (valores absolutos) por época desportiva, considerando três consequências possíveis: (1) golo (“goal”); (2) defendido pelo guarda-redes (“saved”) e (3) falhado (“missed”).

Figura 2. Resultados dos penáltis assinalados na I Liga Portuguesa (2013/2014 - 2018/2019).

A época mais recente trouxe um número anormalmente elevado de penáltis assinalados nos últimos anos (n = 116), concretizando-se também muitos golos através de grande penalidade (n = 101; 87,1% de eficácia). A este facto não estará alheia a pronunciada atividade do VAR (“Video Assistant Referee”) em 2018/2019, comparando, naturalmente, com a sua época de estreia na Liga NOS – 2017/2018. O menor valor traduzindo sucesso é encontrado na época 2016/2017, na qual apenas foram alcançados 68 golos da marca dos 11 metros, em 90 conversões (75,6% de eficácia). Se avaliarmos estritamente o êxito dos guarda-redes (Gr) nestes lances, foi em 2015/2016 que houve uma maior percentagem de defesas, com 19,2% de interceções do total de penáltis executados. A partir dessa época observou-se um decréscimo progressivo do número de intervenções bem-sucedidas dos Gr, culminando com o menor valor em 2018/2019 (7,76% de penáltis defendidos). De modo a evitar raciocínios especulativos sobre esta tendência nestas situações fixas do jogo, deixaremos a discussão dos presumíveis motivos para uma publicação futura contendo dados e inferências mais consistentes. Quanto às grandes penalidades falhadas (i.e., fora ou postes/trave), o valor mais elevado foi alcançado na época 2016/2017 (8,9% dos penáltis falhados).

Figura 3. Pedro Trigueira (Moreirense FC) a defender a grande penalidade de Rodrigo (CD Aves), na 33.ª jornada da Liga NOS 2018/2019.

No cômputo geral, as grandes penalidades resultaram em golo em 80,6% das ocasiões (n = 489), 13,3% (n = 81) foram defendidas pelos Gr e 6,1% (n = 37) erraram o alvo. Estes valores diferem ligeiramente dos apurados em investigações anteriores (e.g., Jordet et al., 2007; Palao et al., 2010; White & O’Donogue, 2013; Almeida et al., 2016), na medida em que se reportaram taxas de sucesso de grandes penalidades a variar entre os 70 e os 80,5%, sendo 15-20% defendidas pelos Gr e 5-10% falhadas. Neste caso, a única percentagem dentro dos limites acima indicados corresponde à dos penáltis falhados. Das duas, uma: ou os jogadores responsáveis pela marcação destas bolas paradas são especialistas de gabarito, ou os Gr a atuar no principal escalão de Portugal estão abaixo da média internacional, no que respeita ao acoplamento perceção-ação em contexto de grande penalidade. Fica a dúvida para investigação futura.

Por último, a figura 4 apresenta um gráfico referente às percentagens de golos convertidos através de grande penalidade, por cada época desportiva em análise.

Figura 4. Percentagem de golos marcados de penálti na I Liga Portuguesa, por época desportiva.

Se o valor mais elevado foi registado na época 2013/2014, com 14,6% dos golos obtidos de penálti, o formato do gráfico demonstra que, após um decréscimo até 2015/2016, a percentagem estabilizou em torno dos 9%, voltando a aumentar na época que agora termina (12,23%). Um tema que urge compreender é se as equipas técnicas estarão a dar a devida atenção às grandes penalidades no processo de treino. Nesta linha de pensamento, qual o tempo dedicado à prática da grande penalidade pelos supostos especialistas da equipa e pelos Gr? Se em 100 golos marcados, 12 são de penálti, faz todo o sentido não descurar uma décima parte de uma determinante do sucesso como é a obtenção do golo.

Enfim, meros factos, pensamentos e questões.


Referências
Almeida, C. H., Volossovitch, A., & Duarte, R. (2016). Penalty kick outcomes in UEFA club competitions (2010-2015): the roles of situational, individual and performance factors. International Journal of Performance Analysis in Sport, 16(2), 508-522.
Jordet, G., Hartman, E., Visscher, C. and Lemmink, K. (2007). Kicks from the penalty mark in soccer: the roles of stress, skill, and fatigue for kick outcomes. Journal of Sports Sciences, 25(2), 121-129.
Palao, J. M., López-Montero, M. and López-Botella, M. (2010). Relationship between efficacy, laterality of foot strike, and shot zone of the penalty in relation to competition level in soccer. International Journal of Sport Science, 6(19), 154-165.
White, S. and O’Donoghue, P. (2013). Factors influencing penalty kick success in soccer. In Nunome, H., Drust, B. and Dawson, B. (Eds.), Science and football VII: The proceedings of the seventh world congress on science and football (pp. 237-242). London: Routledge, Taylor & Francis Group.


PS. – No passado dia 18 de maio de 2019, o blogue Linha de Passe completou 14 anos de existência virtual. Tudo começou quando estava na faculdade e jamais imaginaria, volvidos tantos anos, continuar a escrever por estas bandas. As forças ocultas que regem o universo têm conspirado para que o dia 18 de maio, coincidentemente ou não, seja um dia marcante na minha vida, por motivos bem distintos. Não houve oportunidade para escrever especificamente sobre isso, pelo que tentarei no 15.º aniversário se as tais forças ocultas assim o permitirem. Caros amigos e/ou leitores: saúde, sorte e sucesso para todos vós.

08/05/2019

Science and Medicine in Football (Vol. 3/2019)

Cá na terra, o sobejamente conhecido Ti Toino Jorge contornou habilmente as escassas probabilidades de longevidade que, face às vicissitudes da sua vida, sempre lhe foram atribuídas. Na minha humilde perspetiva é, aos 91 anos de idade, um ancião dos tempos modernos, um catedrático da universidade da vida. Certo dia teve a subtileza de admitir que o segredo, se assim se pode designar, para a sua longevidade foi o desafio constante. Dizia que “temos de nos desafiar” porque “parar é morrer”. Serviu de mote para esta nova publicação: o resultado de um desafio a mim mesmo.

O desafio consubstanciou três vertentes fundamentais: (1) envolver uma amostra da principal competição desportiva do mundo, excetuando os Jogos Olímpicos: o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA; (2) publicar numa revista internacional com revisão de pares; (3) efetuar sozinho todos os procedimentos desde o projeto de investigação até à revisão das provas, caso fosse aceite para publicação. Tudo isto resumiu-se numa simples questão: “serei capaz?”. No passado dia 6 de maio de 2019, a publicação online na revista britânica Science and Medicine in Football confirmou que sim (figura 1).

Figura 1. Capa oficial da revista "Science and Medicine in Football".
(fonte: Routledge - Taylor & Francis Group)

Nem tudo foi um mar de rosas. Por exemplo, na primeira opção de submissão não passou do editor, por considerar que a amostra de sequências ofensivas não permitia a generalização dos dados. Depois de 6 ou 7 meses de trabalho termos um produto final que, à partida, é barrado pelo editor de uma revista, sem sequer ser alvo de revisão por pares, é inglório e demasiado frustrante. Perseverança, resiliência e determinação. O próximo passo foi ainda mais desafiante, pois subi a fasquia. Felizmente, foi bem acolhido por ambos os revisores, a quem devo uma palavra de agradecimento pela pertinência das correções/sugestões propostas. Os agradecimentos são extensíveis ao amigo Tiago Salvador, sempre disponível para recolher dados e/ou aferir as fiabilidades intra e interoperador. Fiz questão de deixar esta gratidão patente no artigo final, tal como uma dedicatória a um (pequeno) ser humano que mudou a minha visão do mundo para melhor: o meu filho Carlos Jorge de Almeida.

A investigação em si permitiu identificar algumas tendências ofensivas do futebol moderno, em particular de equipas de elite bem-sucedidas. A capacidade de impor ritmos mais elevados de circulação de bola e de envolvimento coletivo parece ser determinante para romper organizações defensivas cada vez mais sofisticadas. A mera percentagem de posse de bola, carente de objetividade ou propósito, não aparenta estar relacionada com o sucesso numa competição como o Mundial da FIFA. A posse de qualidade, cujo objetivo é criar condições mais propícias para finalizar em golo, sobressaiu como uma tendência relevante das equipas que seguiram para os oitavos-de-final da prova. A variabilidade de soluções táticas ofensivas e a importância dos esquemas táticos, ainda que estes últimos não tenham diferenciado equipas eliminadas de equipa apuradas para a fase seguinte da competição (figura 2), foram também alvo de discussão.

Figura 2. Inferência Baseada na Magnitude para os indicadores de performance estudados (nota: para valores mais afastados da origem - 0 - maiores as diferenças entre equipas eliminadas e qualificadas).

De seguida, apresento-vos o “abstract” (resumo) do artigo que foi produzido sob a chancela do Centro de Investigação em Desporto e Educação Física (CIDEF) do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), em Portimão.

Abstract
This study aimed to compare the offensive sequences that resulted in goals in the group stage of the 2018 FIFA World Cup according to teams’ status: eliminated versus qualified for the knockout phase. Successful offensive sequences performed in the group stage by eliminated (n = 39) and qualified teams (n = 83) were notated post-event using an adapted version of the Offensive Sequences Characterisation System, which includes simple and composite performance indicators. Magnitude-based inferences revealed that performances indicators Passes/Duration, Passes/Ball touches, Players/Duration and Passes/Players were key to differentiate eliminated and qualified teams. Performance profiles emerging from qualified teams suggest the ability to impose a faster game pace (of ball passing and collective involvement) is more relevant to offensive effectiveness in elite football than the mere amount of sport-specific actions performed. Although offensive sequences with more passes, ball touches and duration had a possible positive effect on reaching the knockout phase, the offensive behaviours of qualified teams highlighted the importance of ‘quality possession’. Indeed, offensive sequences involving more players (teamwork) and favouring ball passing instead of individual ball retention seem to facilitate the emergence of goal-scoring events. Considering these findings, professional coaches are encouraged to design playing-form activities aiming to promote team-based offensive strategies, including task constraints to increase the game pace and the frequency of ‘penetrating passes’ into vital playing areas.

Keywords: football, notational analysis, team performance, technical component, contextual variables

Reference
Almeida, C. H. (2019). Comparison of successful offensive sequences in the group stage of 2018 FIFA World Cup: eliminated vs. qualified teams. Science and Medicine in Football. doi: 10.1080/24733938.2019.1613557 (free eprint here)

Como tudo encerra uma lição de vida, estes cerca de 11 meses mostraram-me que, embora seja crucial desafiarmos e superarmos as nossas dúvidas ou barreiras pessoais, o trabalho de equipa é altamente recomendado. Se é verdade que sozinhos podemos chegar mais depressa, acompanhados chegaremos provavelmente mais longe.

Torço para que seja uma leitura aprazível para o leitor ou, para todos os que fazem do futebol e/ou do desporto um modo de vida, que inclua informação útil para a sua atividade profissional.

Até breve!

01/05/2019

Iker Casillas e a vulnerabilidade humana

O futebolista Iker Casillas (na fotografia), profissional do FC Porto, sofreu esta tarde um enfarte agudo do miocárdio na sessão de treino da sua equipa, segundo veiculam os meios de comunicação social portugueses.

Fotografia. Iker Casillas em ação no FC Porto (fonte: bbc.co.uk).

O guarda-redes espanhol, campeão mundial e europeu pela sua seleção, entre inúmeros títulos conquistados pelo Real Madrid CF e pelo FC Porto, não aparenta exibir um dos quaisquer famigerados fatores de risco cardiovascular. Ao nível que compete – elite –, os jogadores são monitorizados diariamente nas unidades de treino e muitas vezes fora dos horários de trabalho, incluindo os períodos de sono. Além disso, são submetidos a exames medico desportivos regularmente e decerto com uma minúcia pouco acessível à população em geral.

Então, indago: como é que raio isto aconteceu? Stress competitivo, sobressolicitação, sobretreino? Esqueçamos clubismos, competitividades exacerbadas e despropositadas. A linha que separa a vida da morte é muito mais ténue do que se imagina; foquemo-nos no que realmente importa na vida.

Votos de rápidas melhoras, campeão!