31/12/2021

Podcast “Ciência e Futebol” da Portugal Football School | Efeito da idade relativa

Anteontem, dia 29 de dezembro de 2021, foi lançado o 32.º episódio do podcast “Ciência e Futebol” da Portugal Football School, da Federação Portuguesa de Futebol (figura 1). Neste último episódio de 2021, tive a honra de ser o convidado e analisar, com o Alexandre Pereira, a problemática do “efeito da idade relativa” no futebol e no futsal, com particular referência à manifestação do fenómeno em Portugal.

 

Figura 1. Logotipo do Portugal Football School, um projeto da Federação Portuguesa de Futebol.

 

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O convite surgiu na sequência do artigo recentemente publicado, em conjunto com a professora Anna Volossovitch, da Faculdade de Motricidade Humana, na revista Science and Medicine in Football: Relative age effect among U14 football players inPortugal: do geographical location, team quality and playing position matter? De resto, esta publicação já havia sido apresentada aqui no Linha de Passe. 

Como vai sendo apanágio por estas bandas, deixo-vos uma síntese dos conceitos, ideias e evidências que foram referidos no diálogo, sob a forma de perguntas e respostas.

 

O que é o “efeito da idade relativa”?

O “efeito da idade relativa” diz respeito a um conjunto de vantagens que um indivíduo possui numa determinada atividade humana, como consequência de ter nascido mais cedo num dado período de seleção, correspondendo, normalmente, ao ano civil (de 1 janeiro a 31 de dezembro). Nos jogos desportivos coletivos, o efeito traduz-se numa distribuição assimétrica de jogadores num grupo geracional, com uma sobrerrepresentação de elementos nascidos nos primeiros meses do ano e uma sub-representação de elementos nascidos nos últimos meses do ano.

 

Que vantagens podem ter os elementos relativamente mais velhos numa geração?

Maiores probabilidades de desenvolver, física e cognitivamente, mais cedo; mais experiência geral e específica, incluindo treino formal ou prática deliberada; criação de melhores expectativas nos treinadores; mais apoio/encorajamento social, entre outras.

 

Que relação existe entre “efeito da idade relativa” e a “maturação biológica”?

Apesar de serem muitas vezes confundidos, trata-se de dois construtos distintos. Embora possam estar relacionados, porque quem nasce cronologicamente mais cedo, tende também a maturar mais cedo, nem sempre isso acontece: há jogadores nascidos em janeiro que maturam mais tarde que jogadores nascidos em dezembro do mesmo ano.

 

Qual o panorama atual em termos de investigação em torno do “efeito da idade relativa”?

Há uma enorme quantidade de investigação sobre a prevalência do fenómeno em diversas amostras (modalidades desportivas, escalões etários e níveis competitivos), contudo, há uma escassez de estudos, de cariz multifatorial, com o propósito de relacionar o “efeito da idade relativa” com outros tópicos, nomeadamente a identificação e seleção de talentos no futebol/futsal (Sarmento et al., 2018). Nos últimos três anos, o panorama melhorou qualquer coisa, mas ainda há um longo caminho a percorrer para encontrar soluções mais assertivas para aplicar na prática.

 

Em Portugal, constatou-se que o “efeito da idade relativa” é mais pronunciado no futebol masculino, mas também foram evidenciadas algumas tendências no futebol feminino e no futsal (Figueiredo et al., 2021; Portugal Football Observatory,2021). É expectável que a magnitude do efeito aumente ou diminua a curto prazo?

Atualmente, estão claros dois pontos acerca da magnitude do “efeito da idade relativa”: (1) tende a ser mais forte em desportos mais populares e em níveis de prática/competição mais elevados; (2) é um tópico que tem sido alvo de investigação sistemática há mais de 30 anos e, apesar de todas as soluções adiantadas pelos investigadores, o efeito tem perdurado e, em alguns casos, até se tornou mais forte. O estudo do Portugal Football Observatory (2021) mostrou-nos que, nos últimos anos, tem havido um ligeiro decréscimo da probabilidade de selecionar jogadores do primeiro trimestre, relativamente ao último trimestre do ano, no futebol masculino (figura 2). Quanto ao futsal infantojuvenil e ao futebol feminino, sabemos que, por um lado, que a Federação Portuguesa de Futebol quer dar sequência ao aumento do número de praticantes registado nos últimos anos e, por outro lado, as evidências da influência do “efeito da idade relativa” e da “maturação biológica” já começaram a ser abordadas em cursos de treinadores/scouts. Se o objetivo é desenvolver o futsal e o futebol feminino no sentido de os aproximar da realidade do futebol masculino, então a tendência imediata é para que magnitude do efeito aumente.

 

Figura 2. Evolução do “efeito da idade relativa” no futebol infantojuvenil masculino, em Portugal, na última década (Portugal Football Observatory, 2021).

 

O facto de o efeito ser mais sentido nos escalões mais baixos (Sub-7 e Sub-9) no futsal e no futebol feminino, pode ser encarado como um sinal de alarme?

Sim. Tem sido verificado um “efeito de cascata” ao nível da idade relativa que, na generalidade, só começa a atenuar a partir dos escalões Sub-16 ou Sub-17. Se os dados demonstram a existência de um “efeito da idade relativa” nos escalões Sub-7 e Sub-9, é expectável que ocorra uma transferência desse efeito para os grupos etários seguintes, o que pode ser agravado com o aumento da popularidade e da competitividade no futsal e no futebol feminino.

 

No âmbito do Torneio Interassociações Sub-14 Lopes da Silva, que diferenças geográficas foram encontradas em Portugal?

O “efeito da idade relativa” foi examinado em 7 edições consecutivas deste torneio (2013–2019) e foi comprovado que as probabilidades de selecionar jogadores nascidos no primeiro trimestre (janeiro–março) foram significativamente superiores nas associações distritais das zonas Norte e Centro-Norte do país, comparativamente às associações regionais das Ilhas (Almeida & Volossovitch, 2021). Designadamente, a probabilidade de selecionar jogadores relativamente mais velhos aumentou 76.3% na zona Norte e 87.3% na zona Centro-Norte, em relação às Ilhas (figura 3). Nas zonas Centro-Sul e Sul também foram selecionados mais jogadores do primeiro trimestre, mas a comparação com as associações regionais das Ilhas não revelou diferenças estatisticamente significativas. Curiosamente, é nas ilhas em que a população residente é menor no nosso país, porém, não foi na zona de maior densidade populacional e com a maior porção de população residente em Portugal que o “efeito da idade relativa” obteve mais expressão (i.e., zona Norte). Os fatores demográficos são importantes, mas interagem com fatores socioculturais e económicos para determinar variações geográficas na magnitude do “efeito da idade relativa”.

 

Figura 3. Portugal dividido em 5 zonas geográficas, cada incorporando 4 ou 5 associações regionais/distritais de futebol (Almeida & Volossovitch, 2021).

 

Os treinadores da formação, ao convocar/recrutar os maiores, mais fortes e mais rápidos, potenciam o “efeito da idade relativa”?

É um facto. No Torneio Lopes da Silva, as equipas que alcançaram as melhores posições no certame foram compostas, significativamente, por mais jogadores nascidos no primeiro semestre do ano, em comparação com as seleções distritais que ficaram menos bem classificadas (Almeida & Volossovitch, 2021). Não é apenas uma questão de competitividade, é também cultural. Por norma, no futebol de formação, os treinadores começam a sua carreira nos escalões mais jovens, mas a maioria ambiciona chegar ao futebol sénior ou a um escalão etário mais velho. Um treinador de Sub-10, por exemplo, ganha menos, é menos mediático e, tal como os treinadores dos seniores, é avaliado pelos resultados desportivos e não pelo produto formativo. Por consequência, os processos de identificação e seleção de talentos surgem desvirtuados pelas expectativas intrínsecas dos treinadores, alastrando-se ao processo de treino e de competição, uma vez selecionados/recrutados os jovens jogadores. O que está em causa é a prontidão para competir no imediato e não o potencial a desenvolver a médio/longo prazo.

 

Perdem-se talentos em Portugal, eventualmente no Mundo, por causa deste “efeito da idade relativa”?

Infelizmente, sim, devido a práticas seletivas sem qualquer tipo de controlo de fatores como o “efeito da idade relativa” e a “maturação biológica”. Muitos jogadores relativamente mais jovens numa geração, ou que apresentam uma maturação mais tardia, não são recrutados tão frequentemente para academias de topo ou entidades formadoras, jogam menos nos seus clubes por questões físicas, reúnem menos expectativas dos treinadores e não têm tanto apoio social e suporte parental, por aí fora. Não lhes são dadas as condições e o tempo necessários para que o seu potencial se desenvolva e manifeste. Temos casos de jogadores da nossa seleção A que “escaparam” à malha de recrutamento dos principais clubes portugueses durante a sua formação e, hoje em dia, exibem desempenhos de excelência no futebol de elite: Bruno Fernandes e Diogo Jota, ambos nascidos no segundo semestre do ano.

 

O problema deste efeito reflete-se mais no não recrutamento ou no abandono?

Em ambos. O não recrutamento para academias de excelência ou seleções condiciona bastante o acesso ao futebol profissional, contudo, o “efeito da idade relativa” não desaparece em clubes não certificados, em centros básicos de formação de futebol ou escolas de futebol (Figueiredo et al., 2021; Portugal Football Observatory, 2021). Foi evidenciado que, nestes contextos, o abandono da modalidade é real, sobretudo entre os 12 e os 16 anos de idade, predominantemente em jovens nascidos no segundo semestre (figura 4).

 

Figura 4. Distribuição dos nascimentos por escalão etário nos abandonos do futebol masculino (Portugal Football Observatory, 2021).

 

A solução passa pelos clubes, na medida em que são eles quem recruta, ficando para as seleções a tarefa de escolher os melhores de cada momento?

Os clubes e as academias são os principais responsáveis pelo desenvolvimento do talento no futebol e no futsal. Reduzir o “efeito da idade relativa” passa, em primeira instância, pela consciencialização e pela vontade dos clubes, até porque, em muitos casos, este efeito instala-se em idades precoces (Sub-7, Sub-8 e Sub-9), em que a maturação física ainda nem sequer é um fator muito relevante. A disparidade entre o número de jogadores relativamente mais velhos e os seus pares mais novos tende a aumentar em níveis de desempenho mais elevados, como acontece nas seleções distritais e nacionais, em que o recrutamento já surge enviesado à partida. Dada a variedade de contextos associada aos clubes desportivos no nosso país, não creio que soluções definidas estritamente por parte dos clubes possam dar uma resposta cabal para o problema. Neste particular, a entidade que tutela o futebol em Portugal – a Federação Portuguesa de Futebol – tem um papel fundamental na concertação de esforços para atenuar o “efeito da idade relativa”, podendo, eventualmente, socorrer-se das associações distritais para responder, de forma adaptada, a situações mais específicas que ocorram localmente.

 

Que soluções podem ser adotadas para contrariar o “efeito da idade relativa”?

Webdale et al. (2020) efetuaram um estudo de revisão para aferir os pontos fortes e fracos das soluções que têm sido propostas pela comunidade científica. Estes autores constataram que nenhuma das soluções ou intervenções sugeridas resolvem na íntegra os efeitos nefastos deste fenómeno. A maioria das soluções apresentadas são teóricas e poucas foram testadas experimentalmente. Então, quais as estratégias que parecem ser mais promissoras?

4)  

1)  Agrupar os jogadores por estatuto maturacional, em vez de ser pela idade cronológica (bio-banding);

2)    Utilizar t-shirts ou coletes identificativos do trimestre de nascimento dos jogadores, em treinos de captação/observação, auxilia a tomada de decisão dos treinadores/scouts, atenuando o “efeito da idade relativa”;

3)   Aumentar a consciencialização dos diversos agentes desportivos, através da inclusão destas matérias em cursos ou em ações de formação certificadas para dirigentes, treinadores e scouts;

4)   Incrementar as oportunidades para os jogadores relativamente mais jovens numa coorte continuarem envolvidos no processo durante um período mais longo, mediante a criação das equipas ou campeonatos de futuro, como sucede na Bélgica ou nos Países Baixos.

 

A situação ideal para atenuar os efeitos da idade relativa não depende somente de uma estratégia. Implementar estratégias mistas ou híbridas pode ser muito útil neste âmbito, ainda que pouco tenham sido ponderadas e testadas no terreno, daí a durabilidade e a força deste “efeito da idade relativa”, particularmente no futebol masculino.


Para todos os leitores do Linha de Passe, expresso sinceros votos de saúde e paz para 2022. Tudo o resto virá no seu devido tempo.

 

Referências

Almeida, C. H., & Volossovitch, A. (2021). Relative age effect among U14 football players in Portugal: do geographical location, team quality and playing position matter? Science and Medicine in Football. https://doi.org/10.1080/24733938.2021.1977840

Figueiredo, P., Seabra, A., Brito, M., Galvão, M., & Brito, J. (2021). Are Soccer and Futsal Affected by the Relative Age Effect? The Portuguese Football Association Case. Frontiers in psychology, 12, 679476. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2021.679476

Portugal Football Observatory. (2021). A altura do ano em que se nasce condiciona a oportunidade de ser atleta de formação? (PFO 03 PT). Federação Portuguesa de Futebol. https://indd.adobe.com/view/73c7d01b-3558-4d41-bf88-b471686099e5

Sarmento, H., Anguera, M. T., Pereira, A., & Araújo, D. (2018). Talent identification and development in male football: A systematic review. Sports Medicine, 48(4), 907–931. https://doi.org/10.1007/s40279-017-0851-7

Webdale, K., Baker, J., Schorer, J., & Wattie, N. (2020). Solving sport’s ‘relative age’ problem: a systematic review of proposed solutions. International Review of Sport and Exercise Psychology, 13(1), 187–204. https://doi.org/10.1080/1750984X.2019.1675083

28/12/2021

Artigo do mês #24 – dezembro 2021 | Defender em 4-4-2 ou 5-3-2? Diferenças nos comportamentos táticos coletivos de jovens futebolistas

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

- 24 -

Autores: Low, B., Rein, R., Schwab, S., & Memmert, D.

País: Alemanha

Data de publicação: 2-novembro-2021

Título: Defending in 4-4-2 or 5-3-2 formation? Small differences in footballers’ collective tactical behaviours

Revista: Journal of Sports Sciences

Referência: Low, B., Rein, R., Schwab, S., & Memmert, D. (2021). Defending in 4-4-2 or 5-3-2 formation? Small differences in footballers’ collective tactical behaviours. Journal of Sports Sciences. https://doi.org/10.1080/02640414.2021.1993655

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 24 – dezembro de 2021.

 

Apresentação do problema

No futebol, a estrutura tática de base (ou dispositivo tático) da equipa indica como os jogadores se posicionam no terreno de jogo. Tipicamente, a formação é expressa através de 3 ou 4 números, que representam os setores defensivo, intermédio (que pode ser subdividido em dois) e ofensivo. Por exemplo, o 4-4-2 designa uma disposição da equipa com 4 defesas, 4 médios e 2 avançados, estando os jogadores de cada setor orientados lateralmente no campo. A verdade é que o dispositivo tático desempenha um papel crucial no futebol de competição. Os treinadores ponderam cuidadosamente a estrutura tática a utilizar antes do jogo; os jogadores fazem uso desta informação para compreender os seus esforços individuais na dinâmica coletiva global; é, também, um dos principais aspetos que os analistas procuram identificar na avaliação das equipas adversárias. 

Na última década, foi realizado um número considerável de estudos sobre vários aspetos relativos às estruturas táticas de base das equipas de futebol. A maioria focou-se no impacto físico e técnico das diversas estruturas, ou na respetiva associação estatística com indicadores de sucesso. Noutro grupo de estudos, a metodologia passou por aplicar diferentes técnicas computacionais para melhor identificar os dispositivos táticos das equipas (Beernaerts et al., 2018; Müller-Budack et al., 2019; Perl et al., 2013). Em relação à literatura existente sobre o tema, o presente estudo procurou acrescentar a análise de comportamentos táticos coletivos que derivam dos dados posicionais dos jogadores. 

Neste contexto, muitas equipas podem decidir jogar em 4-2-3-1 antes do jogo (estratégia), porém, os comportamentos subsequentes que ocorrem no decurso da partida não o evidenciam, porque os jogadores executam ações baseadas em adaptações espontâneas às circunstâncias únicas que eles encontram (ato tático). Os efeitos das estruturas táticas de base das equipas nos comportamentos táticos coletivos dos jogadores foram, até ao momento, somente analisados por uma mão cheia de estudos científicos. Memmert et al. (2019) constataram que as equipas que utilizaram o 3-5-2 demonstraram configurações espaciais mais alongadas e ultrapassaram mais defensores com o passe, quando sob pressão, comparativamente ao dispositivo 4-2-3-1. Bialkowski et al. (2014a), por sua vez, comprovaram que, na divisão superior de uma liga profissional de futebol, as equipas tendem a recorrer às mesmas estruturas táticas de base, independentemente de jogarem em casa ou fora, embora ocupem posições mais avançadas no campo na condição de visitadas. Esta circunstância surgiu correlacionada com mais posse no terço ofensivo, mais remates e mais golos. 

Numa perspetiva global, a investigação em torno desta temática tem recorrido predominantemente a abordagens físicas, técnicas, estatísticas e metodológicas, porém, a análise espaciotemporal das dinâmicas de movimento dos jogadores, enquadrada nos paradigmas dos sistemas complexos, pode contribuir para uma compreensão mais aprofundada de como as estratégias subjacentes à utilização de diferentes estruturas táticas de base afetam os comportamentos táticos subsequentes dos jogadores. Para tornar possível este desígnio, o presente estudo examinou os comportamentos táticos coletivos dos jogadores em duas estruturas táticas de base, 4-4-2 e 5-3-2, mediante uma abordagem experimental. Para assegurar que as condições experimentais representavam, o mais possível, o ambiente que os futebolistas vivenciam em competição, foi proposta uma experiência prática 11v11 (Gr+10v+10+Gr). Os autores visaram confirmar as seguintes hipóteses: 1) maior largura da equipa a defender em 5-3-2, pois há mais jogadores na linha defensiva; 2) e, consequentemente, menor rácio comprimento-largura (i.e., configuração espacial mais achatada).

 

Métodos

Participantes: 69 futebolistas Sub-17 (idade: 16.2 ± 0.8 anos; estatura: 179 ± 8 cm; massa corporal: 66 ± 10 kg), sendo provenientes de 3 clubes. No período do estudo, todos os indivíduos, do género masculino e com uma experiência de treino de 10 ± 2 anos, treinavam um mínimo de 3 vezes por semana, com 1 jogo oficial ao fim de semana. Os participantes de cada clube realizaram uma de 3 sessões experimentais. 

Procedimentos: a experiência foi conduzida num campo de relva artificial (105 x 68 m), preservando as regras oficiais do futebol. Os jogadores de cada clube foram divididos em duas equipas equilibradas pelo respetivo treinador principal, respeitando as posições específicas de cada um. Foi adotado um design cruzado (crossover), contrabalançado para as duas condições: defender em 4-4-2 ou em 5-3-2. Para cada condição, cada equipa realizou 6 ensaios de medidas repetidas (6x6), enquanto a outra equipa desempenhava, concomitantemente, funções ofensivas, resultando num total de 72 ensaios (36 ensaios por condição). Em todos os ensaios, a equipa atacante jogou disposta num 4-2-3-1. Como constrangimentos da tarefa, as equipas começaram cada ensaio em posições predeterminadas no campo, de acordo com instruções inerentes a cada condição: “recuperar a bola dispostos em 4-4-2” ou “recuperar a bola dispostos em 5-3-2” (figura 2). A equipa atacante tinha como objetivo marcar golo. Assim que o jogo desenrolava, os participantes eram livres de se mover no terreno em função do contexto situacional e o ensaio terminava com golo marcado, recuperação da posse de bola pela equipa defensora, ou paragem natural do jogo (e.g., fora-de-jogo, falta da equipa defensora, bola fora). Após cada tentativa, os jogadores regressavam às suas posições iniciais para reatar a experiência. A ordem da estrutura tática de base utilizada foi aleatória para prevenir o “efeito de ordem” e os papeis defensivo e ofensivo das equipas foram alternados.

 

Figura 2. As posições iniciais dos jogadores antes de cada ensaio: (a) equipa defensora em 4-4-2; (b) equipa defensora em 5-3-2; (c) equipa atacante (azul) em 4-2-3-1 e equipa defensora (vermelho) em 4-4-2; (d) equipa atacante (azul) em 4-2-3-1 e equipa defensora (vermelho) em 5-3-2 (Low et al., 2021).

 

Recolha e processamento dos dados: os dados posicionais dos jogadores recolhidos através do sistema de posicionamento local Kinexon, que foi previamente validado e testado para aferir a fiabilidade (Blauberger et al., 2021). Os jogadores utilizaram um colete com o dispositivo transmissor e a bola também foi rastreada através de um chip a uma frequência de 25 Hz. A análise foi complementada pela gravação das 3 sessões experimentais. Os dados foram posteriormente processados em variáveis táticas coletivas, em 5 níveis de organização sistémica:

 

1)  Nível do jogo: distância entre equipas (i.e., distância entre os centroides das equipas; centroide: média das posições dos jogadores de campo); duração (em segundos) de cada ensaio.

2)  Nível coletivo (para equipas defensora e atacante): distância diádica média; comprimento da equipa; largura da equipa; rácio comprimento-largura; controlo do espaço ganho, por passe completado, no terço ofensivo.

3)  Nível grupal: distâncias entrelinhas para a equipa defensora.

4)  Nível diádico: distâncias interpessoais dos jogadores para o adversário mais próximo, para avaliar padrões de marcação.

5)  Nível individual: área de jogo individual (i.e., região espacial mais próxima de um dado jogador comparativamente a todos os outros, computada através de diagramas de Voronoi) para quatro jogadores atacantes do corredor central (médios-centro, médio ofensivo e ponta de lança).

 

A figura 3 fornece uma breve ilustração das variáveis táticas suprarreferidas. Estas variáveis foram complementadas por uma análise de rede para a ação de passe, no intuito de obter uma ideia geral das dinâmicas de circulação da bola, em função do dispositivo tático adotado pela equipa oponente.

 

Figura 3. Variáveis táticas. (a) centroide da equipa (azul-escuro), medido através da média das coordenadas x e y de todos os jogadores de campo da equipa (azul-claro); a distância entre centroides das equipas representa a distância interequipa. (b) distância para cada oponente por um jogador-exemplo (defesa lateral direito); a linha preenchida representa a distância para o adversário mais próximo. (c) distância diádica média da equipa, obtida pela média das distâncias entre todos os pares dos jogadores de campo (10 jogadores de campo envolvem um total de 45 distâncias). (d) comprimento da equipa, medido pela distância longitudinal entre o jogador de campo mais avançado e o mais recuado da equipa; largura da equipa, obtida pela distância lateral entre os jogadores de campo mais próximos das linhas laterais numa equipa; rácio comprimento por largura (LpW) é o comprimento da equipa por unidade de largura, calculado pela divisão do comprimento da equipa pela sua largura. (e) os centroides grupais ou setoriais (pontos escuros a vermelho, azul e verde) são calculados como a média das coordenadas x e y para os defesas (vermelho-claro), médios (azul-claro) e avançados (verde-claro). As distâncias entre centroides setoriais correspondem às distâncias entrelinhas. (f) áreas individuais dos jogadores (médios-centro, médio ofensivo e avançado) computadas a partir de tesselas de Voronoi. A percentagem de área Voronoi de uma equipa no terço ofensivo (representado pela caixa vermelha) foi monitorizada antes e depois de um passe; a diferença corresponde ao controlo de espaço ganho (Low et al., 2021).

 

Análise estatística: as variáveis táticas foram analisadas estatisticamente mediante modelos de regressão linear mistos no software R. A variável estrutura tática de base foi investigada como efeito fixo e a equipa como efeito aleatório. Os valores a defender em 4-4-2 foram utilizados como referências para todas as variáveis dependentes. O nível de significância adotado foi de 5% (p ≤ 0.05), com intervalos de confiança a 95%. As diferenças nas dimensões de efeito foram expressas em valores estandardizados de Cohen’s d.

 

Principais resultados

Dos 72 ensaios, 66 (92%) resultaram em perda da posse de bola para a equipa atacante. A atacar contra 4-4-2, um ensaio resultou num remate à baliza e, noutro ensaio, a bola embateu no poste. Contra uma defesa em 5-3-2, um ensaio culminou com golo, outro com remate à baliza e dois com remates para fora. Em baixo constam os principais resultados por nível de organização sistémica e análise complementar.

 

·      Nível de jogo

Não houve diferenças na distância interequipa e na duração dos ensaios, em função do dispositivo tático utilizado (4-4-2 ou 5-3-2).

 

·      Nível coletivo (equipa a defender)

A estrutura tática de base revelou um efeito significativo na distância diádica média, com valores mais baixos no 5-3-2 (pequeno efeito), o que traduz uma maior concentração dos defensores a atuar neste dispositivo tático. Para o comprimento da equipa, largura da equipa e rácio comprimento-largura, as diferenças não foram estatisticamente significativas.

 

·      Nível coletivo (equipa a atacar)

Para a equipa atacar, foi constatado uma redução significativa da largura, quando em oposição a equipas a defender em 5-3-2 (pequeno efeito), muito por força do posicionamento dos defesas laterais na linha de 5. Em posse de bola, jogar contra dispositivos táticos distintos não afetou (significativamente) a distância diádica média, o comprimento da equipa, o rácio comprimento-largura e o controlo de espaço ganho.

 

·      Nível grupal

As distâncias intersectoriais foram significativamente mais curtas entre os setores defensivo e ofensivo, e intermédio e ofensivo, a defender em 5-3-2 (efeitos pequenos).

 

·      Nível diádico

Não foi observada qualquer diferença significativa relativamente à distância para o adversário mais próximo, embora tenham sido encontradas alterações nos padrões de marcação a alguns jogadores atacantes: lateral esquerdo, lateral direito, médio-centro esquerdo, médio-centro direito, médio ofensivo e ponta de lança.

 

·      Nível individual

As diferenças nas áreas de jogo individual para os médios-centro, médio ofensivo e ponta de lança das equipas atacantes não foram estatisticamente significativas, quer jogassem contra uma organização defensiva em 4-4-2 ou em 5-3-2. Porém, os médios-centro dispuseram de mais espaço contra uma defensiva em 5-3-2 (dimensão de efeito pequena) e, pelo contrário, o ponta de lança usufruiu de menos espaço contra uma linha de 5 (efeito pequeno), comparativamente a um 4-4-2 adversário.

 

·      Análise de rede (circulação da bola)

Contra um 4-4-2, foram executados mais passes (303 vs. 260 em 5-3-2) e mais passes penetrantes (33 vs. 27 em 5-3-2) pelas equipas atacantes. A uma escala “macro”, houve um maior número de ligações e uma maior densidade na rede a jogar contra uma defesa em 4-4-2, relativamente ao 5-3-2. A uma escala “micro”, os valores de centralidade de intermediação (betweeness centrality) tiveram menos variabilidade atacando perante uma defensiva em 4-4-2. O 5-3-2 proporcionou um elevado grau de centralização do ataque no lateral direito. Além disso, a atacar, foram realizados menos passes para o guarda-redes e canalizado mais jogo pelos laterais perante uma organização defensiva em 5-3-2, comparando com o 4-4-2 (figura 4).

 

Figura 4. Diagrama das redes de passes das equipas atacantes frente a defensivas (a) em 4-4-2 e (b) em 5-3-2. As posições dos vértices/nós representam as coordenadas x e y médias de cada jogador. O tamanho do vértice representa o valor de centralidade de intermediação do jogador. As linhas/arestas representam passes diretos entre dois jogadores e a sua espessura diz respeito à frequência de passes (Low et al., 2021).

 

Aplicações práticas

Os resultados indicaram a existência de pequenas diferenças nos comportamentos tático-técnicos dos jogadores decorrentes da utilização de duas estruturas táticas de base: 4-4-2 e 5-3-2. As hipóteses iniciais de maior largura, e consequentes configurações espaciais mais achatadas, adotando uma estrutura tática de base 5-3-2, não foram confirmadas. O 5-3-2 demonstrou menor dispersão que o 4-4-2, obtida, fundamentalmente, pelo posicionamento longitudinal, o que não se verificou em termos de largura. Assim, de entre os dois dispositivos táticos analisados, o 5-3-2 pode ser considerado como o mais conservador do ponto de vista defensivo. 

Adotar uma defesa com 5 jogadores não implica que se cubra maior largura do campo, pois parece que os jogadores ajustam os seus posicionamentos para reduzir as distâncias interpessoais no setor defensivo. Mais, as equipas atacantes demonstraram maior largura a jogar contra uma defensiva em 4-4-2 (vs. 5-3-2). A explicação adiantada alude à existência ou ausência de oposição mais adiantada no campo – os médios-ala típicos do 4-4-2 clássico. Nestes casos, os laterais adversários tendem a criar espaço, aumentando a dispersão lateral na fase ofensiva do jogo, circunstância que não parece ser tão premente contra um 5-3-2. Aliás, os únicos jogadores que receberam mais passes a jogar contra o 5-3-2 (vs. 4-4-2) foram precisamente os laterais, fruto da inexistência de pressão defensiva por parte de oponentes mais avançados no terreno de jogo. 

Modificar a estrutura tática de base tem consequências nos padrões de marcação, como foi evidenciado pela análise diádica. Os laterais, os médios-centro, o médio ofensivo e o ponta de lança das equipas atacantes, em 4-2-3-1, foram marcados diretamente por jogadores com funções distintas no 4-4-2, em relação ao 5-3-2. Na prática, os treinadores podem manipular o dispositivo tático das equipas como constrangimento da tarefa, já que essa ação tem repercussões nos comportamentos tático-técnicos dos jogadores. De modo a melhor adequar o processo de treino ao jogo competitivo (representatividade da tarefa), a equipa técnica pode ainda emparelhar jogadores oponentes com aptidões diferentes ou similares nas sessões de treino, no intuito de melhor prepará-los, defensiva e ofensivamente, para o tipo de situações 1v1 que é expectável de ocorrer em competição. 

A análise de rede para a ação de passe comprovou que as equipas atacantes tiveram um melhor desempenho contra o 4-4-2: total de passes, total de ligações, densidade da rede e maior descentralização da rede. Estes indicadores ofensivos têm sido associados à obtenção de melhores resultados no futebol. A jogar contra o 5-3-2, as equipas atacantes exibiram uma maior dependência de um jogador (outlier) – lateral direito – para circular a bola. A limitação da variabilidade das oportunidades de passe concedidas à equipa adversária reforça que o 5-3-2 induziu melhores desempenhos defensivos, em comparação com o 4-4-2. Este facto atesta que os treinadores devem trabalhar diferentes estruturas táticas de base para rentabilizar a performance defensiva da sua equipa, condicionando o estilo de jogo adotado pelos oponentes (adaptabilidade estratégica).

 

Conclusão

Este estudo mostrou que duas estratégias defensivas distintas, baseadas em 4-4-2 e 5-3-2, estiveram associadas aos comportamentos táticos subsequentes de jovens futebolistas Sub-17. As ações coletivas sem bola e os comportamentos de passe enfatizaram o 5-3-2 como um dispositivo tático mais conservador que o 4-4-2, na fase defensiva do jogo. Verificou-se uma maior concentração de jogadores em 5-3-2, com maior contribuição do plano longitudinal, já que os avançados recuaram para mais próximo das linhas média e defensiva. Esta distribuição dos jogadores em campo também afetou os comportamentos ofensivos das equipas adversárias, que exibiram menor largura, menor necessidade de executar passes recuados para o guarda-redes e, na generalidade, um desempenho menos conseguido na circulação de bola. 

Os efeitos das duas estruturas táticas de base aparentam ter um maior impacto nos laterais da equipa atacante. Em 5-3-2, por exemplo, estes jogadores foram os principais responsáveis pela menor largura da equipa, receberam substancialmente mais passes e, em particular, o lateral direito foi o jogador com mais influência na circulação da bola. A análise dos comportamentos de marcação ao opositor diretor expôs diferenças, entre o 4-4-2 e o 5-3-2, que não devem ser ignoradas na preparação de uma equipa para competição. Por último, salvaguarda-se que a generalização dos resultados para o futebol profissional, para outros escalões etários e para equipas organizadas noutras estruturas táticas deve ser efetuada com especial cuidado.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Sports Sciences.

04/12/2021

Gralhas (2021), de Eduardo Jorge Duarte

 Apresentação do novo livro de poesia do autor

Junta de Freguesa de Monchique (4 de dezembro de 2021)

 

Foi com muito prazer e honra que aceitei o «desafio» proposto pelo Eduardo Jorge Duarte – o meu amigo Edu –, para apadrinhar a apresentação do seu novo livro de poesia Gralhas (figura 1), publicado pela editora On y va.

 

Figura 1. Capa do livro Gralhas, de Eduardo Jorge Duarte (Ed. On y va).

 

Salvaguardo, contudo, alguns pontos prévios que dão corpo ao facto de classificar esta minha intervenção como um autêntico «desafio»: 

 

1)  Sou suspeito para falar/escrever sobre as obras ou textos do Eduardo, uma vez que sou um amigo de longa data e, também, sou um admirador daquilo que tem produzido. Portanto, à partida, as minhas opiniões surgem enviesadas por estas circunstâncias.

 

2)  Não sou um especialista em literatura, muito menos no que se refere à poesia. Aliás, mantenho uma relação complicada com este género literário desde os tempos do Ensino Secundário, quando as minhas interpretações de poemas de Fernando Pessoa ou Cesário Verde não correspondiam, com alguma frequência, ao que era pretendido pelas professoras de Português.


3)  Apesar de alguma frustração, com essa lacuna aprendi uma lição que só após a publicação de O Intervalo entre o Raio e o Trovão, do Eduardo, em 2019, coloquei em prática: não se pode ler poesia com os olhos que dão para o cérebro racional, isto é, de modo estritamente analítico e literal, mas com os olhos que iluminam a alma e suscitam o sentimento (cérebro emocional). O Eduardo fala-nos disso mesmo no poema intitulado «Poema» (p. 86): «Poema é a arte do sensível/ Que nos resta./ A última coisa que se presta/ Ao impossível».


4)  Longe de procurar realizar uma crítica literária da obra, julgo que facilmente encontrarão pessoas mais competentes para o fazer nesta sala, tentarei falar-vos francamente sobre algumas particularidades de Gralhas, na perspetiva de um mero leitor. Este intento faz jus à visão do autor que, reiteradamente, tem referido que «quando uma obra é lançada, deixa de ser propriedade do autor para se tornar algo do leitor».

 

No que se refere à capa, o título Gralhas, acompanhado por três aves de rebordo escuro, alude aos pequenos corvídeos que habitam a maior parte do território nacional. Porém, no primeiro poema, que de resto dá título à obra, compreendemos que, afinal, se trata de uma palavra polissémica, ou seja, que «possui vários significados contidos numa mesma forma gráfica e fonológica». «Gralhas» enquanto aves passeriformes e «gralhas» enquanto erros numa redação. Do outro lado, a contracapa é um deleite de três parágrafos sobre esta composição de poemas do Eduardo: um «conjunto de todos os estados que a sua atmosfera humana pode conhecer em dias distintos, enquanto procura situar-se no mundo e situar o outro em si mesmo». Por aqui, percebemos logo que a monotonia da palavra, pelo verso, não nos irá importunar ao longo das cerca de 132 páginas que albergam os 116 poemas. 

Uma composição que, na verdade, é um exercício de altruísmo, de empatia e de inteleção. Altruísmo, porque o autor escancara-nos as portas da sua mente, sem nos solicitar nada em retorno: os seus amores e paixões, os seus conflitos internos, os seus momentos de solidão e a força do elo que existe com a sua terra natal – Monchique. Empatia, porque encontra no outro uma projeção de si mesmo, como no poema «Sina» (p. 106): «O velho sou eu,/ Sou eu, sim,/ Com toda a confiança,/ Enrolado no cachecol/ A queixar-me à Polícia de mim./ Quero voltar à criança/ Que me atirava bolas de futebol/ Para dentro do jardim». Inteleção ou inteligência, pelo modo como «brinca» com palavras, conceitos e ideias nos versos de poemas como «Gralhas», «Mecânica lamechas», «Assassinatura», «Um rapaz» ou «Abstracção». 

A fim de aguçar o apetite para o conteúdo da obra, e para não tornar esta exposição demasiado enfadonha, propus-me analisar os 6 poemas que mais impacto tiveram nas vertentes racional e emocional do meu cérebro. No fundo, trago-vos os textos que mais sentido fizeram do ponto de vista lógico, mas que, concomitantemente, mais sentimentos despertaram. Ressalvo que, pelo carácter subjetivo da interpretação, não implica que sejam necessariamente as melhores construções poéticas do livro. E foi aqui que começaram os meus problemas: fui tirando as minhas notas e, no final da primeira leitura, tinha 28 poemas selecionados. Após nova triagem, fiquei com um «Top-10», portanto, ainda aquém do meu propósito. Com algumas reticências pelo meio, cheguei aos meus 6 preferidos: «Gralhas», «Pergunta à Alice», «Minotauro», «Memória», «Assassinatura» e «Aposta».

 

Figura 2. Painel da apresentação do livro Gralhas, na Junta de Freguesia de Monchique: José Gonçalo (presidente da Junta de Freguesia de Monchique), eu, Eduardo Jorge Duarte (autor) e António Manuel Venda (escritor e editor da On y va). Foto de Ana Paula Almeida.

 

Em primeiro lugar, seria impossível não referenciar o poema inaugural: «Gralhas» (p. 9-10). Conta a história de um miúdo que desafiou a liberdade concedida pela professora para redigir um texto sobre o que lhe aprouvesse: «As palavras estavam/ Desenhadas a preto,/ Reunidas em bando,/ Tinham sombras nos bicos,/ Asas nas sílabas,/ Faziam muito barulho,/ Num canto rouco/ Que quase não se deixava perceber./ (…)». A criatividade, transcendendo a liberdade, resultou num desenho de «gralhas» (pássaros), erros assinalados a vermelho pela professora. Este é um poema muito bem elaborado, que joga habilmente com a polissemia e que, no meu ponto de vista, aborda um tema bastante contemporâneo: o facto de o sistema educativo vigente ser considerado por muitos professores e educadores como obsoleto, na medida em que a rigidez de muitos currículos ou tarefas (não todos, obviamente) desvaloriza a diversidade de aptidões, expectativas e ritmos de aprendizagem dos alunos. 

«Pergunta à Alice» (p. 24) é o meu poema preferido da obra. Na ocasião em que o Eduardo publicou o poema numa rede social, eu havia comentado com ele – não sei se está recordado –, que se um dia eu e a Patrícia tivéssemos uma filha, daríamos o nome Alice. Se isso acontecesse, iria imprimir o poema e emoldurá-lo no quadro dela. Permitam-me recitá-lo:

 

Pergunta à Alice

 Alice,

Quem te disse

Que a realidade é coisa oca?

Que sem imagens

Todas as paisagens

São rostos sem palavras na boca?

Foi o relógio ou um coelho atrasado

Quem te encolheu o mundo

E respondeu, apressado,

Que a eternidade dura apenas um segundo?

 

Neste poema, com 10 versos e 44 palavras, o Eduardo consegue evocar a famosa obra infantil As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carroll e, simultaneamente, a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein (1915). Einstein revelou que seria possível tratar, matematicamente, o tempo como a quarta dimensão, formando o tecido espaço-tempo. A presença de objetos com massa curva esse espaço-tempo, sendo tanto maior a distorção quanto maior for a massa do objeto. Por isso, no sol o tempo passa mais devagar que no planeta Terra. Reparem, então, nos últimos 4 versos: «Foi o relógio ou um coelho atrasado/ Quem te encolheu o mundo/ E respondeu, apressado,/ Que a eternidade dura apenas um segundo?»: ao se encolher o mundo de Alice, o tempo flui muito mais rápido: «a eternidade dura apenas um segundo». Na minha opinião, aliarmos todo este racional à simplicidade e à sonoridade do poema, torna-o absolutamente genial. 

Em «Minotauro» (p. 31), o autor socorre-se da metodologia grega para fazer uma crítica implícita ao homem (género masculino). A história que dá origem aos versos reza que Teseu, um aclamado herói grego, foi a Creta para enfrentar o Minotauro que habitava o labirinto construído por Dédalo: quem nele entrasse, nunca mais sairia e seria devorado pelo Minotauro. Antes de partir, foi ao Oráculo de Delfos para saber se triunfaria. A resposta do oráculo foi que deveria ser ajudado pelo amor para vencer o monstro. É aqui que entra Ariadne, filha do rei Minos. Ela prontificou-se a ajudar se, posteriormente, o herói se casasse com ela em Atenas. Teseu viu em Ariadne a hipótese de ser bem-sucedido na sua missão. Ariadne deu-lhe uma espada e um fio de lã para que Teseu pudesse matar o Minotauro e encontrar o caminho para sair do labirinto. Foi a própria Ariadne que segurou na outra ponta do fio. Teseu venceu o bicho e conseguiu sair do labirinto. Regressou a Atenas com Ariadne: «Quantos de nós enfrentam o touro escondido/ Num palácio de cobardia?/ Que herói desconhecido/ Em nós arriscaria/ Matar por amor a Ariadne o animal/ E encontrar um caminho vicinal/ Para tornar à luz do dia?». Um poema estupendo e que coloca em causa as atitudes e os comportamentos animalescos dos homens, tantas vezes perdidos num labirinto de confusão intrínseca. A mensagem que retiramos do poema é que no amor, na genuinidade e na sinceridade, os homens poderão sair da escuridão e tornar à luz do dia. Como último comentário a «Minotauro», é importante enfatizar que a apreciação crítica aos homens não se esgota no poema. No âmbito da mitologia grega, há quem defenda a premissa que o amor que Teseu sentia por Ariadne tinha o seu quê de conveniente, não se equiparando ao amor dela por ele. 

No poema «Memória» (p. 46), o Eduardo parece dirigir-se a alguém cujo esquecimento tomou o lugar da recordação: «– O que é a memória? –/ Perguntas tu, no ar espesso/ Do pátio, com a trémula incerteza/ Que existe nas miragens». Com a paciência com que se cuida de alguém muito querido, relembra todas as circunstâncias em que respondeu à questão «O que é a memória?». São versos de afeto, dedicação e altruísmo, exacerbados pela invenção das respostas dadas nas ocasiões anteriores: «Enumero os dias, as semanas, os meses,/ Se era Outono, Primavera, Inverno, Verão,/ E o que te conto já não é recordação,/ Mas sim uma invenção do que te disse nessas vezes». Esta aparente contradição tem uma justificação psicofisiológica: o esquecimento não é um antónimo da memória, mas um auxiliar da mesma, uma vez que a nossa capacidade de armazenamento de informação é limitada. A aprendizagem e a invenção implicam o esquecimento de alguns factos antigos ou menos relevantes. 

«Assassinatura» (p. 81) mostra-nos toda a habilidade do Eduardo com as palavras. Como um malabarista mantém 3, 4 ou 5 bolas no ar enquanto rodopia, salta ou se equilibra, o meu amigo pegou nos verbos «Assassinar» e «Assinar» e, em tons de crítica, apontou contra a poesia escrita às três pancadas: «Violência ortográfica, maus-tratos à sintaxe,/ Torturas à semântica, métrica/ Sem ética e sem estética,/ Orações divididas/ Pelas mãos ilegíveis e fingidas/ Do diabo». O horror e a frieza dos atos de um assassino psicopata, na pele de um mau poeta, captados em versos. O clímax do texto surge com a poesia subvertida a uma nova literatura, assinada a sangue: «Assassinava a língua e assinava:/ E assim gatafunhava/ Uma nova literatura,/ Uma espécie de assassinatura». Cá está, a enorme criatividade do autor imiscuída numa crítica acérrima a quem não respeita a língua portuguesa, a poesia e, ainda assim, crava o seu cunho de autor. 

O último poema que abordarei tem como título «Aposta» (p. 114). É um poema de amor, de sorte ou azar e até de dor. No tema «Anel de Rubi», Rui Veloso tenta, ingloriamente, conquistar a amada por via da música: «Mas esse teu mundo era mais forte do que eu/ E nem com a força da música ele se moveu». Em «Aposta», o Eduardo Duarte fá-lo por via da poesia: «Aposto/ Que mesmo que eu tos escrevesse,/ Não ligarias nenhuma./ “As palavras são vento que se esquece”,/ Dirias, e que a poesia te aborrece,/ Por poder ser muita coisa e tu só uma». O remate do poema ocorre, mais uma vez, em grande estilo, expondo a cru as dores que decorrem de um amor sujeito às vicissitudes da sorte (ou do azar): «Aposto/ O tudo e o nada, a sorte e o azar,/ Que na roleta do coração sempre a girar,/ Os poemas viciados no teu ser/ São dores ainda mais fundas a calcar/ A dor de te ganhar e te perder». Brilhante! 

Em suma, e para não corromper mais a subjetividade da vossa interpretação, congratulo o meu amigo Edu com um valente abraço e destaco o papel da editora On y va, na pessoa do nosso escritor e conterrâneo António Manuel Venda. Aceito as críticas de ser suspeito e um leigo na matéria, mas Gralhas é um livro que nos toca a alma e a razão das mais variadas maneiras. É, sem margem para dúvida, uma ótima sugestão de leitura para este Natal e para um futuro que se encontra por escrever. Caros presentes, senhores e senhoras: recomendo vivamente!


Gravação da sessão: https://fb.watch/9HB3pWNvbU/