03/01/2020

O ataque posicional, o ataque rápido e o contra-ataque no futebol: o que são e como se diferenciam?

Há algum tempo escrevi um artigo no portal Futebol de Formação (ver aqui), a propósito da barafunda terminológica que subsistia no futebol português. Cerca de dois anos volvidos, nada mudou e a confusão persiste. O mote para o primeiro texto de 2020 (e da década) foi dado num dos últimos jogos domésticos de 2019 quando, na rádio, um comentador aludiu a um “contra-ataque rápido” de uma das equipas que quase resultava em golo.

Pois bem, se há conceitos que são amplamente deturpados no nosso futebol, os métodos de jogo são dos mais marginalizados. Confundem-se com os momentos de transição de fase (defesa-ataque e ataque-defesa), através das famigeradas “transições rápidas”. Baralha-se o método de jogo posicional com a fase de organização ofensiva (ataque), como se o ataque rápido e o contra-ataque não fossem métodos legítimos para atacar a baliza adversária e marcar golo. Abusa-se de uma redundância impregnada de ingenuidade, ou ignorância para os menos sensíveis, para caracterizá-los: um contra-ataque é, por força das circunstâncias contextuais provisórias, rápido; jamais poderia ser lento, senão a equipa adversária disporia de tempo suficiente para se reorganizar e a hipótese de contra-atacar esfumar-se-ia.

Para não me alongar num texto meramente explicativo, que não visa mais do que clarificar algumas noções básicas do futebol e que constam na literatura desde o século transato, irei reportar-me apenas aos métodos do jogo ofensivo: ataque posicional, ataque rápido e contra-ataque. Então, o que são métodos de jogo? De acordo com Castelo (2004), são formas de organização que visam a coordenação (sincronização) eficaz dos jogadores da equipa, de modo a criar condições favoráveis para a concretização dos objetivos ofensivos do coletivo que, regra geral, são consentâneos com o objetivo do jogo: o golo. O estudo e a preparação da equipa para a competição pressupõem a otimização do deslocamento dos jogadores e da circulação da bola no espaço de jogo, a partir de uma estrutura tática preestabelecida, tendo em consideração as valências e as fraquezas da equipa oponente (figura 1).

Figura 1. Exemplo de princípios subjacentes ao método de ataque posicional (jogo apoiado) do FC Barcelona.

Portanto, o ataque posicional, o ataque rápido e o contra-ataque são métodos do jogo ofensivo com características distintas, dotados de dinâmicas organizadas e que visam alcançar objetivos análogos, sendo o golo o intento primordial. Contudo, como se diferenciam?

1.  Ataque posicional
O ataque posicional, também designado de “ataque organizado”, o que me parece ser incorreto porque parte da suposição que os outros métodos ofensivos carecem de organização, é o mais apreciado pela maioria dos treinadores por esse mundo fora. O jogo apoiado é característico deste método, normalmente envolvendo um número elevado de jogadores da equipa, que recorrem ao passe curto e a combinações táticas (diretas e indiretas) para explorar diversos espaços de jogo (nos três corredores e nos três setores). O processo ofensivo é relativamente longo, paciente e visa criar desequilíbrios momentâneos na organização defensiva adversária para atacar a baliza adversária em condições vantajosas. Embora as equipas tendam a explorar a largura do campo, permanecendo mais dispersas no eixo transversal, a proximidade intersetorial dos jogadores garante que o conjunto permaneça equilibrado face a eventuais perdas da posse de bola (transições defensivas).


2.  Ataque rápido
O ataque rápido é um método de jogo ofensivo que reúne propriedades do ataque posicional e do contra-ataque. Como o próprio nome sugere, é rápido, com durações inferiores ao ataque posicional e, geralmente, idênticas ou ligeiramente superiores ao contra-ataque. Preconiza a utilização máxima de 6 jogadores no processo ofensivo, sendo o mesmo elaborado através de uma miscelânea de passes em profundidade e em largura, ainda que o objetivo consista em chegar rapidamente à baliza contrária. Diferencia-se, sobretudo, do contra-ataque por pressupor uma oposição minimamente organizada da estrutura defensiva adversária, embora, por vezes, não seja fácil diferenciá-los, pois a interpretação do “minimamente organizada” é tão complexa quanto subjetiva, dependendo, fundamentalmente, da avaliação que é feita do controlo do espaço defensivo e do balanço entre relações numéricas.


3.  Contra-ataque
O contra-ataque é um método de jogo ofensivo predominantemente associado a equipas de menor dimensão ou com menos competências técnico-táticas. No entanto, independentemente da qualidade das equipas, uma grande percentagem de golos é obtida através deste método, em especial nos últimos 15 minutos, quando se diz que “o jogo está partido”. É categorizado como um método de curta duração, em que uma equipa explora a profundidade do campo, no intuito de chegar o mais rapidamente possível à baliza oponente, aproveitando o desequilíbrio defensivo circunstancial da outra equipa. Por isso, envolve a realização de um número reduzido de passes, geralmente em progressão (eixo longitudinal) e com elevada velocidade de deslocamento dos jogadores e da bola no terreno de jogo.


Num estudo publicado em 2018, no Journal of Strength and Conditioning Research, Sarmento e colegas propuseram uma metodologia para diferenciar estes três métodos de jogo em análise (tabela 1).

Tabela 1. Diferenciação dos tipos de métodos de jogo ofensivo no futebol (adaptado de Sarmento et al., 2018).

A amostra compreendeu 1684 sequências ofensivas, retiradas de 68 jogos disputados nas ligas espanhola (La Liga), italiana (Série A), alemã (Bundesliga), inglesa (Premier League) e na UEFA Champions League, nas épocas 2013/2014 e 2014/2015. Curiosamente, ou talvez não, os métodos ofensivos contra-ataque e ataque rápido aumentaram o sucesso das sequências ofensivas em 40%, quando comparados com o ataque posicional. O aumento de 1 segundo na duração de sequência ofensiva e a realização de um passe extra resultaram em decréscimos de 2% e 7%, respetivamente, na probabilidade da sequência ofensiva ser concluída com êxito (Sarmento et al., 2018).

Em suma, o ataque posicional não é a única forma organizada de se alcançar o golo no futebol. Os outros métodos ofensivos são tão ou mais efetivos e, desta maneira, devem ser alvo de preparação sistemática ao longo do processo de treino. As noções que penso que importam reter deste texto são as seguintes: (1) identificar e analisar os diferentes métodos de jogo ofensivo é crucial para preparar e otimizar os desempenhos individuais e coletivo, tendo em consideração as forças e as fraquezas da própria equipa e dos adversários, bem como as oportunidades geradas pelo contexto situacional; (2) saber diferenciar cada um dos métodos descritos é útil para que haja uma comunicação clara e coerente no seio de uma entidade coletiva (equipa ou clube), sem que se suscitem interpretações dúbias ou erradas; (3) o meio mais eficaz para lidar com a imprevisibilidade do jogo é estar preparado para atuar em função do contexto, pelo que estimular e fomentar a variabilidade organizacional da equipa em posse de bola – ataque posicional, ataque rápido e contra-ataque – é apetrechá-la com soluções práticas para a resolução dos problemas que emergem da dinâmica relacional que se estabelece com os diversos opositores.


Referências
Castelo, J. (2004). Futebol – Organização dinâmica do jogo. Cruz Quebrada: FMH Edições.
Sarmento, H., Figueiredo, A., Lago-Peñas, C., Milanovic Z., Barbosa, A., Tadeu, P., & Bradley, P. S. (2018). Influence of tactical and situational variables on offensive sequences during elite football matches. Journal of Strength and Conditioning Research, 32(8), 2331-2339.

27/12/2019

"O teu umbigo é menor do que o meu"

Estamos a fechar a década de 2010. Uma década marcada pelo egocentrismo escarpado, crescendo numa proporcionalidade inversa ao esgotar do período temporal em questão. Julgo poder afirmar, com maior ou menor direito a generalização, que “o teu umbigo é menor do que o meu” (figura 1).

Figura 1. Umbigos (fonte: DeviantArt.com).

Olho primeiro para o teu, porque para o meu já olhei diversas vezes, ou talvez até nem me lembre de qual foi a última vez. Aliás, será que já perdi algum tempo a olhá-lo como deve de ser? Nem sei… mesmo assim, “o teu umbigo é menor do que o meu”.

Vivemos na era da superioridade moral, intelectual, racial e, porque não, ideológica. A diferença na perspetiva de quem ajuíza é sinónimo de inferioridade, de menosprezo. As teorias, os factos, as evidências ou as meras suposições alheias são, à partida, refutadas pelo grau (subjetivo) de aversão à diferença ou, se preferirem, pelo estatuto inato de superioridade, seja ela de que tipo for. Há uns de primeira e outros de terceira categoria/classe, como os lugares nos aviões. “O teu umbigo até pode ter o seu quê de interessante, mas é menor do que o meu”.

E isto é tão, mas tão notório que, para a próxima década, peço apenas que disseminem a cura para a cegueira, a pior doença do século XXI. Não é aquela que nos apaga a luz do mundo para sempre, essa também é horrenda e não se deseja a ninguém. É aquela que, ainda que tenhamos toda a perceção sensorial, nos tolda intrinsecamente a razão e, por inerência, as virtudes da natureza humana. Uma praga com um poder de contágio sem paralelo.

Que 2020 nos traga a lucidez para uma mudança comportamental pois, como escreveu o meu amigo Eduardo Jorge Duarte, em Uma Coruja nas Ruínas (2018), “a cegueira maior é não saber olhar para dentro”.

Afinal, parece que o meu umbigo é um pouco disforme.

Boas saídas e melhores entradas!

01/12/2019

Ausência de identidade na era da estratégia: o Tottenham de José Mourinho


O alto rendimento, no meu entendimento, é ausência de identidade. (…) A estratégia é que é típica do alto rendimento. Se não tenho cão, caço com gato. Se a outra equipa é mais forte, a minha identidade é adaptar-me. Todos nós temos um plano até levarmos um murro.

Francisco Silveira Ramos (entrevista à SPORT TV, fev-2019)


Um dos conceitos mais em voga no futebol, independentemente do nível competitivo ou escalão etário, é o modelo de jogo. É o modelo que consubstancia as ideias do treinador ou da equipa técnica em princípios gerais e subprincípios para as diferentes fases e momentos do jogo. Em particular no futebol de alto rendimento, quando os resultados ou os desempenhos não são os pretendidos, manter-se fiel ao modelo de jogo (ou às ideias que lhe estão subjacentes) parece ser uma vitória moral: “morri com as minhas ideias” ou “caí de pé”. É, contudo, uma verdade de La Palice.

A este propósito, o professor Francisco Silveira Ramos, no seu jeito tão sagaz quanto contundente, alega que no alto rendimento impera a estratégia e, portanto, a ausência de identidade, de ideias fixas ou de modelos estanques. A adoção de princípios e subprincípios demasiado rígidos condiciona a capacidade de adaptação às características dos adversários e/ou às circunstâncias contextuais de cada jogo. Por um lado, é fundamental conceder organização à equipa, através de princípios táticos que norteiem os comportamentos individuais para uma dinâmica coletiva coerente. Por outro lado, esses mesmos princípios devem ser dotados de plasticidade, para fazer face à necessidade de adaptação dos indivíduos e da equipa aos inúmeros e variados problemas com que se irão deparar ao longo da época desportiva.

De há uma década a esta parte, subsiste a noção que jogar de forma apoiada, fazendo a bola percorrer os três corredores e os três setores, é o único desígnio para o sucesso. O estilo de jogo adotado por treinadores de elite como, por exemplo, Pep Guardiola, fizeram escola e entranharam-se na mente dos amantes do futebol, fossem eles profissionais, amadores ou meros adeptos. “Jogar à Barcelona é que é!” Por isso, hoje em dia, a grande maioria dos treinadores, quando elaboram um modelo de jogo, preconizam o ataque posicional como método ofensivo preferencial, desconsiderando por completo os métodos ataque rápido e contra-ataque e, por inerência, a dinâmica situacional do jogo. Se há superioridade numérica evidente e a equipa oponente está desequilibrada, explora-se o contra-ataque. Se a equipa adversária controla mal a profundidade, embora os setores médio e ofensivo sejam profícuos a aplicar zonas de pressão no seu meio-campo ofensivo, talvez o ataque rápido não seja de todo descabido. As melhores equipas são aquelas que jogam em função do contexto, das oportunidades de ação (affordances). Para além de serem menos previsíveis, são também muito mais eficazes.

Figura 1. José Mourinho, agora no Tottenham Hotspur FC (fonte: desporto.sapo.pt).

Estratega é aquele que operacionaliza os recursos disponíveis para alcançar um fim. Neste âmbito, José Mourinho (figura 1) foi, é e será sempre um dos melhores treinadores de futebol do mundo, até quando as suas equipas não deslumbram em campo. Há uma dúzia de dias no seu novo clube – Tottenham Hotspur FC –, porque não pegar já em exemplos práticos? Para categorizar as sequências ofensivas segui os critérios definidos por Sarmento e colegas (2018).


Bom trabalho, mister Mourinho!


Referência
Sarmento, H., Figueiredo, A., Lago-Peñas, C., Milanovic Z., Barbosa, A., Tadeu, P., & Bradley, P. S. (2018). Influence of tactical and situational variables on offensive sequences during elite football matches. Journal of Strength and Conditioning Research, 32(8), 2331-2339.

27/10/2019

A génese de um golo no Dragão: o pecado capital do FC Famalicão

O FC Famalicão, recém-regressado ao escalão principal do futebol português, está a realizar uma época absolutamente brilhante. Hoje, no Estádio do Dragão, não alterou a sua identidade e procurou jogar “olhos nos olhos” contra um adversário com outros argumentos. Perto do intervalo sofreu o golo inaugural, marcado por Luis Díaz, após perder a bola no seu meio-campo defensivo, ao tentar ligar um passe pelo corredor central (figura 1).

Figura 1. Situação de jogo que origina a perda de bola para o 1-0 para o FC Porto (fonte: vsports.pt).

No início da sequência ofensiva que, infelizmente, não consegui captar com as imagens disponibilizadas pela vsports.pt, a distância intersetorial da linha defensiva para o meio-campo era enorme (cerca de 30 metros), o que torna muito mais difícil progredir no terreno de jogo, com segurança e eficácia, através do método ofensivo de ataque posicional. Contra uma equipa como FC Porto que, por norma, condiciona as linhas de passe mais próximas do portador da bola na sua etapa de construção, o central Patrick William decidiu acelerar em condução para, face à escassez de soluções válidas para jogar apoiado, cometer um pecado capital: efetuar um passe vertical para o corredor central. A bola foi intercetada e, da superioridade numérica originada (3v2+Gr), surgiu o 1-0 para a equipa visitada.


Em jeito de conclusão, aqui ficam as minhas notas mentais no momento:

1) Enorme espaço intersetorial para a equipa do Famalicão poder jogar apoiado, pelo corredor central, na etapa de construção;
2) Excelente organização defensiva do Porto para recuperar a bola no meio-campo ofensivo e gerar um contra-ataque mortífero.

23/10/2019

Terceira eliminatória histórica na Taça de Portugal 2019/2020

No século XXI, desde que as equipas da I Liga começaram a entrar em prova na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, em 2008/2009, nunca mais de um terço das equipas do escalão principal tinham sido eliminadas nesta ronda da prova (figura 1).


Figura 1. Percentagem de equipas eliminadas na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal desde 2008/2009.
Nota 1: nas épocas anteriores a 2008/2009, as equipas do escalão principal entravam na competição a partir da 4.ª eliminatória;
Nota 2: na I Liga participam 18 equipas desde 2014/2015 (antes eram 16).


Aconteceu no fim-de-semana passado (18-20 de outubro de 2019), com 7 equipas das 18 participantes na I Liga/Liga NOS (38,9%) a serem eliminadas por adversários de escalões inferiores, a saber:

FC Alverca (Campeonato de Portugal) x Sporting CP (I Liga): 2-0
Sintra Football (Campeonato de Portugal) x Vitória SC (I Liga): 2-1 (após pen.)
CD Feirense (II Liga) x CD Tondela (I Liga): 3-0
SC Farense (II Liga) x CD Aves (I Liga): 5-2
Académica OAF (II Liga) x Portimonense F. SAD (I Liga): 2-1
GD Chaves (II Liga) x FC Boavista (I Liga): 2-1 (após prol.)
SC Beira-Mar (Campeonato de Portugal) x CS Marítimo (I Liga): 3-2 (após pen.; figura 2)

Figura 2. Em Aveiro, o Beira-Mar eliminou o Marítimo (fonte: record.pt).

Mais do ressalvar o facto, que não passa de uma mera curiosidade, urge tentar compreendê-lo. Quais os motivos que poderão ter determinado este desfecho? Avanço com duas linhas de raciocínio que, ainda que possuam alguma especulação na sua formulação, são suportadas por alguma evidência científica, por algum conhecimento empírico e não são indissociáveis.

1) Dimensão estrutural: A competitividade
Investigações prévias efetuadas no futebol português têm sugerido que a competitividade dos campeonatos é mais elevada em divisões inferiores, as ditas semiprofissionais (Campeonato de Portugal) ou amadoras (Campeonatos Distritais). Parece que a relação de proporcionalidade direta entre a vantagem de jogar em casa (o fenómeno “home advantage”) e a competitividade das ligas é um facto, ou seja, quanto mais competitiva for a liga, maior vantagem adquire a equipa que joga no seu reduto. Por exemplo, numa análise levada a cabo ao longo de 11 épocas consecutivas no futebol português (2005/2006 a 2015/2016), verificámos que a vantagem de jogar em casa foi, precisamente, mais elevada nos níveis semiprofissional (II Divisão B e Campeonato de Portugal; 60.46%) e amador (principais divisões distritais; 60.36%), comparativamente ao valor médio apurado para o nível profissional (I Liga; 58.31%) (Almeida & Volossovitch, 2017). Equipas mais fortes, como FC Porto, SL Benfica e Sporting CP têm, habitualmente, menor vantagem em jogar em casa (i.e., próximo dos 50%), por força da diferença de qualidade para a maioria das equipas adversárias; em síntese, jogar em casa ou fora é, para estas equipas, praticamente indiferente.

Assim, é lógico que as equipas de divisões inferiores beneficiem da maior competitividade existente entre elas para se aproximarem de equipas de patamares mais elevados (incluído o profissional), no que ao rendimento desportivo diz respeito. Adicionalmente, é evidente o esforço que sido realizado por clubes de menores dimensões para se modernizarem e profissionalizarem as suas estruturas, seja no âmbito da diversidade e funcionalidade das infraestruturas desportivas, da multidisciplinaridade de áreas de intervenção com a celebração de protocolos com outras entidades locais ou, sobretudo, no incremento da qualidade dos recursos humanos que empregam (treinadores, preparadores físicos, scouts, etc.). Daquilo que me apercebo, há treinadores no Campeonato de Portugal que, em termos de competência, não ficam (nada) atrás de colegas que trabalham, desde sempre, na primeira ou segunda ligas. Se alargamos esta particularidade ao futebol de formação, à qual não estará alheio o recente processo de certificação de entidades formadoras implementado pela Federação Portuguesa de Futebol, é crível que brecha qualitativa entre clubes/equipas profissionais e outros de menor estatuto vá estreitando.

2) Dimensão contextual: o binómio “gestão de grupo – oportunidade de ouro”
Neste ponto, utilizo uma analogia com tempos idos. Um nobre tenta intrometer-se, despercebidamente, numa festa popular, vestindo para o efeito um traje menos vistoso, até corriqueiro. Todavia, como a festa popular é muito importante para os plebeus, estes vestem-se a rigor, talvez além das suas possibilidades, para fazer jus à cerimónia. Ao chegar à festa, e confrontando a sua figura com os demais presentes, o nobre, envergonhado, volta para casa.

Não é novidade que muitos treinadores utilizam as primeiras eliminatórias da Taça de Portugal para, aproveitando a superioridade teoricamente atribuída à sua equipa relativamente aos oponentes, procederem à gestão do plantel que têm ao seu dispor. Não contesto, porque julgo que é fundamental manter todos os elementos preparados, motivados e cientes de que têm um papel ativo (e positivo) no grupo. Contudo, muitas vezes, estes jogadores menos utilizados chegam ao jogo da Taça de Portugal com um ritmo competitivo deficitário, o que compromete o cumprimento de missões táticas individuais e a eficácia das dinâmicas coletivas preconizadas no modelo de jogo. O rendimento desportivo é um processo de afinação contínua aos diversos problemas contextuais do jogo; sem competição regular, a afinação promovida pelo treino pode revelar-se insuficiente.

Por outro lado, as equipas de escalões inferiores encaram os jogos com os ditos “grandes” como uma “oportunidade de ouro” para brilharem, nem que seja só por um dia. A oportunidade de ser capa de jornal, a oportunidade futura de serem contratados por clubes com outras condições, ou a oportunidade para fazer história no clube que representam. Este “dar tudo” perante um adversário superior, focados num objetivo altamente desafiante, sem elevada pressão psicológica associada, leva a que joguem, individual e coletivamente, acima dos níveis de rendimento comuns. Convém destacar que tudo isto é potenciado pela envolvência extraordinária proporcionada pelo público local.

Tudo o que atrás foi referido, em conjunto com outros fatores não debatidos, geraram circunstâncias favoráveis para que as diferenças (teóricas) se tivesse esbatido em diversos jogos disputados nesta 3.ª eliminatória. Para bem do futebol português, é bom que a Taça de Portugal nos continue a brindar com estes resultados inesperados ou históricos. Porque só uma competição especial como esta nos permite encarar o futebol como uma festa, na qual um “pequeno” pode rejeitar a sua condição e viver e sonhar como um “grande” por um dia.


Referência
Almeida, C. H., & Volossovitch, A. (2017). Home advantage in Portuguese football: Effects of level of competition and mid-term trends. International Journal of Performance Analysis in Sport, 17(3), 244-255.