11/03/2018

Portal FDF Futebol de Formação

Há aproximadamente dois anos comecei a colaborar num projeto de âmbito nacional, designado de FDF Futebol de Formação, a convite do seu mentor Fernando Agostinho. Trata-se de uma plataforma online multidisciplinar, cujo contributo de diversos intervenientes e especialistas no futebol, enquanto modalidade desportiva, visa promover o conhecimento e estimular boas práticas e atitudes sob o lema «Formar é construir o futuro! Todos nós pelo futebol de formação» (figura 1). É, assim, um portal direcionado a todos os que, direta ou indiretamente, acompanham este fenómeno complexo.

Figura 1. Lema do portal FDF Futebol de Formação.

No website, o leitor poderá encontrar artigos inerentes a uma panóplia abrangente de áreas ligadas ao futebol como, por exemplo, metodologia e teoria do treino (e.g., treino técnico-tático, específico de guarda-redes, atividades complementares ou lógica interna do jogo), pedagogia, psicologia, fisiologia, fisioterapia, crescimento e maturação, nutrição, ética no desporto, dirigismo desportivo, suporte parental, gestão, entre muitas outras. A título pessoal, o pouco tempo que tenho dedicado a esta nobre causa também afetou o número de publicações no blogue Linha de Passe, como podemos comprovar pela quantidade de textos escritos em 2017 (apenas 10). Sugiro-vos a visita ao portal em https://www.futeboldeformacao.pt/ e, em particular, a passar os olhos pelos artigos que sustentam o meu contributo neste projeto que, por circunstâncias distintas, poderiam muito bem figurar neste blogue:












Boas leituras!

15/02/2018

Human Movement – Special Issue “Science in soccer” (Vol. 18/2017)

Há dois atrás o estudo intitulado «Scoring mode and age-related effects on youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games» foi publicado no suplemento Science and Medicine in Football do Journal of Sports Sciences (Vol. 34/2016). Na altura referi no Linha de Passe que há conclusões que geram algumas respostas, contudo, o principal interesse da ciência reside na sucessiva formulação de novas questões, questões essas que nos levam (ou não) a procurar (outras) novas respostas. Basicamente foi o que aconteceu. Percebemos que a manipulação das variáveis dimensão, forma e posição das balizas influenciou a execução de ações defensivas individuais e coletivas de jovens de dois escalões etários (Sub-13 e Sub-15), na prática de jogos reduzidos/condicionados de futebol (espaço de jogo: 30x20m). Mas precisávamos de saber mais relativamente à fase ofensiva, nomeadamente, no desempenho da ação de passe: que implicações para o treino poderiam advir da manipulação das balizas/alvos em jogos reduzidos/condicionados?

O presente trabalho contou com a colaboração dos professores Anna Volossovitch (FMH, Universidade de Lisboa) e Ricardo Duarte (FMH, Universidade de Lisboa; VPS Football Club, Vaasan Palloseura, Finland) como coautores. Aproveitámos as imagens recolhidas do protocolo experimental que deu origem ao artigo supracitado, tendo como objeto de estudo as ações de passe executadas por jovens praticantes pertencentes aos escalões etários Sub-13 e Sub-15. As condições de jogo propostas, subjacentes à manipulação do modo de concretização de golo, foram as seguintes: (1) line goal (futebol de linha), em que o golo é validado mediante o controlo da bola na zona final adversária; (2) double goal (balizas laterais), com o golo a ser marcado em uma de duas balizas pequenas laterais situadas na linha final; (3) central goal (baliza central), com o golo a ser concretizado na baliza central adversária e, por isso, mais aproximado à situação regular de jogo formal. Inicialmente, o projeto foi elaborado pressupondo a utilização do método de análise de rede (network analysis), mas a recolha dos dados levou-nos a optar por uma abordagem tridimensional de análise de desempenho das ações de passe, i.e. através de três variáveis dependentes: (1) volume médio de passes por condição de jogo; (2) zonas de passe (execução e receção); (3) direção do passe (frente, retaguarda, direita e esquerda). Esta metodologia foi concebida para que os treinadores/professores de futebol pudessem usufruir de resultados e de uma discussão dotados de uma elevada aplicabilidade prática para o trabalho de campo.

Hoje o estudo foi finalmente publicado no número especial Science in Soccer, Vol. 18(5)/dez-2017 da revista polaca Human Movement, com o título «Influence of scoring mode and age group on passing actions during small-sided and conditioned soccer games» (figura 1).

Figura 1. Apresentação do artigo publicado na Human Movement.

Em baixo apresento-vos o resumo e a referência do artigo original, com o link para poderem descarregar o texto integral.

Abstract
Purpose. The study examined the influence of scoring mode (line goal, double goal, and central goal) and age group (U13 and U15) on passing actions performed by youth soccer players during 4v4 small-sided and conditioned games (SSCG).
Methods. In 6 independent sessions, participants performed the 3 SSCGs, each lasting 10 min, in a total of 60-min per game condition. Overall, 4052 passes were notated post-event with the Lince software. The analysis included 3 game-related dependent variables: passing volume, passing zones, and passing direction. Mixed factorial ANOVA and multinomial logistic regression were applied to evaluate the effects of scoring mode and age group on dependent variables.
Results. A greater passing volume was found in line goal (vs. central goal), while the U15 group performed significantly more passing actions than the U13 group. Logistic regression models revealed the following significant main effects of scoring mode and age: (1) double goal (vs. central goal) increased the odds of performing passing actions in defensive lateral zones; (2) line goal (vs. central goal) increased the passing flow in defensive midfield and offensive midfield sectors and decreased the odds of executing forward passes; (3) U13 teams were more likely than U15 to execute passing actions in more advanced pitch zones and less likely to pass sideways.
Conclusions. The manipulation of scoring mode in SSCGs influenced the quantity, location, and dominant direction of passing actions to achieve specific task solutions. The findings provide soccer coaches with relevant information for the selection of representative tasks and optimization of task design in youth soccer practice.

Key words: youth soccer, performance analysis, task constraints, expertise, skill acquisition

Reference
Almeida, C. H., Volossovitch, A., & Duarte, R. (2017). Influence of scoring mode and age group on passing actions during small-sided and conditioned soccer games. Human Movement, 18(5), 125-134. doi: 10.5114/hm.2017.73618 (link)

Em nome dos autores do trabalho, renovo os meus agradecimentos a todos os jovens praticantes e colaboradores envolvidos neste projeto. A nossa linha de pensamento assenta na premissa que o jogo deve de ser a sede de todas as aprendizagens fundamentais do futebol. Para os leitores interessados nesta temática, torcemos para que os nossos resultados e conclusões possam contribuir para um melhor entendimento dos efeitos da manipulação de condicionantes estruturais do jogo (ou constrangimentos da tarefa) nas ações específicas de jovens jogadores e equipas em contexto de treino.

10/02/2018

Portugal: Campeões da Europa em Futsal (2018)

«A superação em todos os momentos é o que faz uma equipa campeã». 
(Jorge Braz, Antena 1)

Imagem. Festa de Portugal no Campeonato da Europa de Futsal 2018, na Eslovénia. 
(fonte: uefa.com)

O que me ocorre? Apenas, orgulho em ser português.

08/11/2017

Reaquecimento no intervalo do jogo de futebol: O que nos diz a ciência?

O meu primeiro evento oficial no âmbito das Ciências do Desporto ocorreu em abril de 2003, na Faculdade de Motricidade Humana, quando alguns alunos da instituição foram convidados a fazer voluntariado no 5th World Congress on Science & Football. Tive o prazer de apoiar diversos cientistas em termos logísticos e lembro-me, em particular, da qualidade da apresentação do professor Magni Mohr, com o tema “Temperatura muscular e desempenho em sprint durante jogos de futebol – Benefícios do reaquecimento ao intervalo”. Aliás, os resultados deste estudo viriam a ser publicados, em 2004, no prestigiado Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports.

Apesar de as primeiras evidências remontarem a um período superior a uma década, só recentemente temos visto algumas equipas profissionais de futebol a reaquecer no relvado no período de intervalo. Tomemos como exemplo o FC Porto, que na época transata já cumpria breves instantes de reaquecimento organizado no relvado e continua a adotar essa estratégia com o atual treinador Sérgio Conceição (figura 1). Confesso que desconheço se outras equipas da Liga portuguesa o fazem. Para mim, também não é um dado líquido que não o façam no balneário ou noutra infraestrutura do estádio; face ao tempo disponível para o suposto «período de descanso» (15 minutos), parece-me pouco provável que assim seja. Admito que muitas equipas profissionais de futebol, inclusivamente algumas de elite, não o façam, pois a brecha entre a prática (o jogo) e a ciência (o conhecimento) ainda é larga.

Figura 1. Equipa principal do FC Porto a reaquecer ao intervalo do jogo contra o Leicester City (UEFA Champions League 2016-2017).

Faz ou não sentido realizar um reaquecimento durante o intervalo de um jogo de futebol? Vamos a factos. A temperatura muscular – por exemplo, do quadríceps – sofre variações em função da atividade exercida ao longo do tempo. Mohr, Krustrup, Nybo, Nielsen e Bangsbo (2004) propuseram um protocolo experimental, no qual 8 jogadores realizaram Exercícios de Baixa Intensidade (EBI) ao intervalo, enquanto outro grupo de 8 jogadores Recuperou de forma Passiva (RP). No início e no final da 1.ª parte, a diferença entre os grupos nas temperaturas musculares do quadríceps e do core não foram significativas. Contudo, antes do início da 2.ª parte, o grupo EBI apresentou temperaturas do quadríceps e do core significativamente superiores (+ 2.1 °C e + 0.9 °C, respetivamente). Em termos do desempenho na atividade de sprint no recomeço do jogo (i.e., primeiros minutos da 2.ª parte), houve um decréscimo de 2.4% no grupo RP, o que não ocorreu no grupo EBI. Basicamente, este estudo demonstrou que o decréscimo da temperatura muscular durante o intervalo compromete a capacidade de realizar sprints no reinício do jogo, o que pode ser evitado com um breve período de reaquecimento (2-3 minutos) durante o intervalo, que permita preservar a temperatura muscular (figura 2).

Figura 2. Reaquecimento ao intervalo do jogo (fonte: fotballviten.no).

Mais recentemente, Edholm, Krustrup e Randers (2015) investigaram os efeitos agudos da prática de reaquecimento ao intervalo na performance e nos padrões de movimento de 22 jogadores profissionais de futebol em dois jogos competitivos. O protocolo utilizado foi semelhante ao anteriormente referido: num jogo competitivo, os jogadores fizeram a tradicional Recuperação Passiva (RP); no outro jogo, efetuaram Exercícios de Baixa Intensidade (EBI) no período de intervalo. As evidências foram ainda mais contundentes. Após o intervalo, os desempenhos em atividades de sprint e de salto sofreram decréscimos significativos de 2.6% e 7.6%, respetivamente, no grupo RP; no grupo EBI, a atividade de sprint não se alterou e a deterioração da capacidade de salto quedou-se pelos 3.1%. Nos primeiros 15 minutos da 2.ª parte, o grupo que cumpriu reaquecimento (EBI) realizou uma menor distância em corrida de alta intensidade na fase defensiva do jogo, apresentando também uma maior percentagem de posse de bola.

De uma forma geral, as evidências científicas indicam que a estratégia de reaquecer/reativar no período de intervalo induz efeitos positivos em atividades musculares básicas como correr em velocidade ou saltar no reinício do jogo, quanto mais não seja pelo atenuar dos efeitos adversos decorrentes do decréscimo significativo da temperatura muscular. Para além disso, o próprio desempenho coletivo das equipas tende a melhorar, através do acréscimo do tempo passado em posse de bola (fase ofensiva) e da redução do dispêndio energético associado a atividades de alta intensidade na fase defensiva do jogo. Finalmente, o reaquecimento muscular ao intervalo é altamente recomendado como método de prevenção para o elevado risco de lesão documentado nos primeiros 20 minutos da 2.ª parte do jogo de futebol (Russell, West, Harper, Cook, e Kilduff, 2015).

Factos são factos e a ciência abona a favor das equipas técnicas que adotam a estratégia de reaquecer/reativar nos instantes prévios ao início da 2.ª parte. Ao ignorar a informação disponível, e nos mantermos fieis às práticas tradicionais de proceder a reforços e correções de natureza estratégico-tática e/ou apelar à «atitude» e à competitividade dos jogadores, estamos a negligenciar um período relevante para preparar, funcional e metabolicamente, a individualidade e o grupo para o recomeço do jogo. Afinal, dois ou três minutos podem ser muito mais determinantes para o sucesso em competição do que intuitivamente poderíamos imaginar.

Referências
Edholm, P., Krustrup, P., & Randers, M. B. (2015). Half-time re-warm up increases performance capacity in male elite soccer players. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 25(1), e40–e49. doi: 10.1111/sms.12236
Mohr, M., Krustrup, P., Nybo, L., Nielsen, J. J., & Bangsbo, J. (2004). Muscle temperature and sprint performance during soccer matches – Beneficial effect of re-warm-up at half-time. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 14, 156–162. doi: 10.1046/j.1600-0838.2003.00349.x

Russell, M., West, D. J., Harper, L. D., Cook, C. J., & Kilduff, L. P. (2015). Half-time strategies to enhance second-half performance in team-sports players: A review and recommendations. Sports Medicine, 45(3), 353– 364.

25/08/2017

As boas e as más decisões nos desportos coletivos


A propósito do «chutão» de Paulinho no terceiro golo do SC Braga, ontem, diante do HF Hafnardorjur da Islândia, recordei-me de uma frase que ouvi na faculdade:

«O interessante nos jogos desportivos coletivos é que há boas decisões que não dão em nada e más decisões bem-sucedidas».

Figura 1. O «chutão» de Paulinho na origem do 3-2 para o SC Braga (Liga Europa 2017/2018).

Valha-nos o facto de dividendos positivos para a equipa dependerem, essencialmente, de boas decisões. Contudo, há sempre exceções à regra!