15/04/2019

A importância dos fundamentos do jogo no futebol de alto rendimento: um exemplo do SL Benfica x Vitória FC (Liga NOS 2018/2019)

Bruno Lage tem todo o mérito na nova vida que concedeu à equipa principal do SL Benfica, fruto da sua enorme competência. Contudo, a equipa sofreu 6 golos nos últimos 5 jogos oficiais. Se o tempo para fechar espaço é essencial para a eficácia de comportamentos defensivos individuais e coletivos, pergunto se a cobertura defensiva do Grimaldo ao Ferro não deveria estar mais próxima (figura 1). E o equilíbrio (3.º defensor)? No decurso da jogada, a contenção foi bem abordada pelos centrais? E a recuperação defensiva do Rafa Silva? Desleixo ou relaxamento perante o 2-0?

Figura 1. Enorme distância entre Grimaldo e Ferro na jogada do primeiro golo do Vitória FC (2-1).
(fonte: vsports.pt)

Conforme nos elucida o documento “Etapas de formação do jogador de futebol: níveis de desempenho”, publicado pela FPF Portugal Football School (2018), os princípios culturais do jogo – os fundamentos – fazem toda a diferença quando bem executados (ou não), em particular quando falamos de alto rendimento. Contra o Eintracht Frankfurt, o cumprimento destes fundamentos irá determinar o desfecho da eliminatória dos quartos-de-final da UEFA Europa League que, apesar da vitória do SL Benfica na 1.ª mão (4-2), não me parece de todo resolvida.

Nota final: de forma alguma desdenho o mérito do Vitória FC neste golo de Nuno Valente, pelo contrário. 👏

Referência
FPF Portugal Football School (2018, 20 de junho). Etapas de desenvolvimento do jogador de futebol: níveis de desempenho. Retirado de https://www.fpf.pt/Portals/0/Etapas%20de%20Desenvolvimento%20do%20Jogador%20no%20Futebol%20ETNF-%20S15-20%20Junho%202018.pdf

06/04/2019

Futebol “heavy metal” por Jürgen Klopp

A equipa principal do Liverpool FC é, ao cabo de 34 jornadas da FA Premier League 2018/2019, um dos principais favoritos a conquistar o troféu, seguindo com dois pontos a mais em relação ao atual campeão Manchester City FC que, no entanto, tem menos um jogo realizado. Apesar das inúmeras críticas por ainda não ter vencido qualquer troféu ao serviço dos “Reds” em três épocas e meia, Jürgen Klopp devolveu ao clube a capacidade competitiva de outrora. Por exemplo, perdeu a final da UEFA Champions League 2017/2018 para o Real Madrid CF e, em 2015/2016, perdeu as finais da UEFA Europa League para o Sevilla FC e da Taça da Liga inglesa para o Manchester City FC.

Em termos genéricos, o estilo de futebol “heavy metal”, assim designado pelo treinador alemão Jürgen Klopp aquando da passagem bem-sucedida pelo Borussia Dortmund, engloba três predicados fundamentais: velocidade, paixão e excitação. No fundo, estas qualidades encaixam perfeitamente naquilo que o futebol inglês é pródigo – entusiasmo – e as contratações realizadas por Klopp têm contribuído, de sobremaneira, para que a sua ideia de jogo seja implementada, independentemente da competição em disputa (figura 1).

Figura 1. Klopp e o seu futebol "heavy metal" (fonte: pinterest.com).

A filosofia do técnico faz jus à escola alemã, na qual o pragmatismo é um aspeto basilar. A interpretação dos objetivos fundamentais do jogo é literal: com bola, é para atacar a baliza e marcar golo; sem bola, a equipa tenta recuperá-la o mais rápido possível ou, em última instância, protege a própria baliza para evitar o golo. Neste âmbito, esta visão “heavy metal” corrobora a linha de pensamento do professor Castelo (2004), a qual postulava a tendência de as duas fases clássicas do jogo (ataque e defesa) se fundirem numa só, o ataque: atacar a baliza para marcar golo ou atacar a bola de forma a recuperá-la.

Assim, em processo ofensivo, os métodos de ataque rápido e contra-ataque predominam na mente de Klopp, consubstanciados no pretexto de aproveitar, célere e efetivamente, a maior desorganização e desorientação das equipas adversárias nos instantes que medeiam a perda da posse de bola. Não é por acaso que Pep Guardiola considera o Liverpool como a melhor equipa do mundo a jogar em… ataque rápido. No setor ofensivo conta com três jogadores dotados de elevada mobilidade, velocidade e criatividade (Mané, Firmino e Salah). Jogam sem referenciais posicionais estanques, sendo as permutas posicionais e as combinações táticas ofensivas uma constante, agudizando os problemas de marcação e de controlo do espaço por parte dos adversários. Os setores defensivo e intermédio são, regra geral, práticos e dinâmicos nas suas ações, não apresentando dificuldades em mover rapidamente a bola para os seus “desequilibradores” na frente de ataque. O ritmo frenético das equipas de Klopp faziam lembrar o tema “Battery” dos Metallica, embora recentemente este Liverpool seja mais proficiente a determinar os momentos e as zonas para acelerar para a baliza adversária. A isto, certamente, não estarão alheias as observações e as análises elaboradas a outras equipas e que resultaram numa evolução qualitativa dos processos de Klopp em organização ofensiva. A música é outra (talvez uma “One” da mesma banda), pressupondo a alternância de períodos frenéticos de progressão para a baliza adversária e outros mais calmos (melódicos) de procura de condições mais propícias para romper a organização defensiva dos oponentes (conforme demonstra o vídeo seguinte).



Ao invés, sem bola, o momento de transição defensiva (ataque-defesa) é explorado pelo Liverpool para contrariar um eventual contra-ataque ou ataque rápido da equipa oponente, tendo-se popularizado os termos “gegenpressing” ou “counterpressing” (i.e., forte pressão para neutralizar o contra-ataque adversário; figura 2). Após perda de bola, a velocidade e a agressividade associadas às ações dos jogadores no centro de jogo visam, não apenas recuperar novamente a posse, como fechar linhas de passe imediatas no espaço envolvente que permitam desenvolver o contra-ataque por zonas menos congestionadas e perigosas para o Liverpool. É um método muito desgastante em termos físicos e que implica uma coordenação interpessoal muito aprimorada para ser eficaz. Devido ao número de lesões musculo tendinosas ocorridas em épocas anteriores, facto que levou Klopp a ser bastante criticado em Inglaterra, o manager adotou uma abordagem mais madura e inteligente: agora, a equipa é mais criteriosa nos timings selecionados para aplicar este “gegenpressing”, não o fazendo desmedidamente ao longo do jogo. Por norma, a linha defensiva posiciona-se em zonas mais próximas da linha do meio-campo para retirar profundidade ao processo ofensivo oponente e aumentar a concentração de defensores no centro de jogo e nas suas imediações. Se, porventura, os oponentes optarem por um jogo mais direto, o Liverpool possui no seu setor defensivo jogadores competentes para resolver situações de bolas altas e/ou colocadas em profundidade.

Figura 2. Exemplo do "counterpressing" do Liverpool FC em processo defensivo.

Acima de tudo, trata-se de uma proposta de jogo muito interessante e que prima por ser diferente de outros estilos mais populares entre os treinadores de futebol, aqueles que surgem habitualmente (ou, se preferirem, excessivamente) conotados com o sucesso no futebol de elite. Como é óbvio, esta abordagem possui lacunas que o treinador alemão tem tentado debelar, tal como outras nuances que tem procurado potenciar. Por força da sua aplicação em contexto competitivo, tem-nos mostrado que é possível alcançar patamares elevados de rendimento por vias alternativas que não pelo método ofensivo posicional. Ao contrário do que sucedeu na Alemanha, até poderá nunca conquistar nenhum título em Liverpool, mas duvido que Jürgen Klopp e o seu “heavy metal football” não sejam mais tarde recordados pelos exigentes adeptos “Reds”.

Referência
Castelo, J. (2004). Futebol – Organização dinâmica do jogo. Cruz Quebrada: FMH edições.

18/01/2019

Futebol profissional em Portugal: a antítese da competitividade

Um relatório elaborado pelo CIES Football Observatory (Poli, Besson, & Ravenel, 2018) revelou que, de entre 35 ligas domésticas europeias, a Primeira Liga portuguesa (Liga NOS) foi a que apresentou menor tempo útil de jogo (51.5%) na época 2017/2018, um valor abaixo da média (55.6%), num conjunto liderado pela principal liga sueca (59.6%) (tabela 1).

Tabela 1. Percentagem do tempo útil de jogo por liga europeia (fonte: CIES Football Observatory).

Por si só, estes são dados bastante preocupantes, não abonando nada a favor do entusiasmo e da atratividade do nosso futebol. Desde logo, sugerem que os jogos estão sujeitos a muitas (e longas) paragens (faltas, antijogo, etc.), sem a fluidez desejada pelos amantes da modalidade enquanto fenómeno desportivo. Em bom português, evidencia uma liga aborrecida, conducente a afastar não apenas os adeptos dos estádios do país – o que já acontece –, mas também potenciais “consumidores” do futebol português à distância, via televisão ou internet.

Mais graves, porém, parecem ser as evidências apresentadas pelo estudo de da Silva, Abad, Macedo, Fortes e do Nascimento (2018). Estes investigadores brasileiros compararam o equilíbrio competitivo da principal liga brasileira com as ligas da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Portugal, analisando um período temporal de 13 épocas consecutivas (2003/2004 – 2015/2016). Com base na equação subjacente ao “Índice C4 de Equilíbrio Competitivo” (C4 Index of Competitive Balance), que mede a desigualdade entre os 4 primeiros classificados da tabela final de cada época e as restantes equipas, mostraram que a liga portuguesa foi a que obteve um índice superior (mediana = 155), ou seja, cuja desigualdade foi a mais elevada da amostra (valores mais baixos, a tender para os 100, refletem maior equilíbrio competitivo). As diferenças obtiveram significado estatístico quando comparada com as ligas do Brasil, França e Alemanha (figura 1).

Figura 1. Equilíbrio competitivo nas principais ligas dos 7 países analisados (da Silva et al., 2018).
Nota: valores mais elevados refletem maior desequilíbrio competitivo.

A tendência temporal verificada pelos investigadores para a liga portuguesa demonstra que o desequilíbrio competitivo (ou a desigualdade entre os 4 primeiros classificados e as restantes equipas) tem vindo a aumentar significativamente ao longo do tempo, como podemos comprovar pela reta de regressão que consta na figura 2.

Figura 2. Modelo de regressão subjacente à evolução do equilíbrio competitivo na liga portuguesa (da Silva et al., 2018).

Na minha perspetiva, creio que o problema resume questões do foro cultural e organizacional. Cultural, porque a “clubite aguda” existente em Portugal, que retrata uma clara preferência exacerbada por um dos ditos “três grandes” em detrimento do clube da terra ou da região, como acontece em países como Espanha ou Inglaterra, centraliza o interesse da maioria dos adeptos nos clubes já fortes, tornando-os ainda mais dominadores. No âmbito organizacional, assiste-se a uma evidente monopolização das decisões tomadas pelos “clubes grandes” em prol das suas próprias agendas. Benefício traz benefício, lucro gera lucro e a bola de neve continua a rolar.

Ao cabo da primeira volta da liga portuguesa na presente época de 2018/2019, o 4.º classificado – Sporting CP – leva 7 pontos de vantagem para o 5.º classificado (Belenenses SAD). Mais, os pontos conquistados por FC Porto, SL Benfica, SC Braga e Sporting CP representam 36% do total de pontos acumulados pelas 16 equipas. Estas mesmas 4 equipas vão disputar a final four da Taça de Liga e as meias-finais da Taça de Portugal, o que nos elucida acerca da (fraca) competitividade do nosso futebol profissional.

Por isso, são urgentes medidas para equilibrar a balança da competitividade e dotar os “clubes pequenos” de mais e melhores condições e recursos para fazer crescer o produto “futebol made in Portugal”. Talvez não seja demais relembrar o modo como foram redistribuídos os direitos televisivos do futebol em Inglaterra que, conjuntamente com outras medidas estruturais de fundo, determinaram um decréscimo ligeiro (e progressivo) do desequilíbrio competitivo na FA Premier League, conforme consta na figura 3.

Figura 3. Modelo de regressão subjacente à evolução do equilíbrio competitivo na liga inglesa (da Silva et al., 2018).

A realidade está à vista de todos e dispensa os dados acima referidos para ser minimamente compreendida. A consequência mais óbvia é o reduzido número de espetadores na maioria dos jogos da Liga NOS. O paradigma vigente impõe a necessidade de reformular procedimentos, afinar estratégias e repensar a estrutura do futebol português para que a competitividade, o jogo e os seus principais intervenientes saiam valorizados. A dúvida que subsiste é se necessidade de tal ordem não coloca em causa as pretensões e a visão dos detentores da hegemonia que perdura há largas décadas.

Referências
Poli, R., Besson, R., & Ravenel, L. (2018). Football analytics: the CIES Football Observatory 2017/18 season. Retrieved from http://www.football-observatory.com/IMG/pdf/cies_football_analytics_2018.pdf
Da Silva, C. D., Abad, C. C. C., Macedo, P. A. P., Fortes, G. O. I., & do Nascimento, W. W. G. (2018). Equilíbrio competitivo no futebol: um estudo comparativo entre Brasil e as principais ligas europeias. Journal of Physical Education, 29, e2945. doi: 0.4025/jphyseduc.v29i1.2945

25/12/2018

Uma Coruja nas Ruínas (2018)

“Uma coruja nas ruínas” é a segunda obra do meu amigo de infância – digo-o de boca cheia – Eduardo Jorge Duarte, publicada sob a chancela da editora On y va (figura 1). Trata-se de uma coletânea de contos do autor, nem todos inéditos, cujas diferentes personagens se interligam entre si pela “memória” e pela “solidão”. Os onze contos estão sujeitos a interpretações diversas, nem sempre análogas, que se modelam à subjetividade de cada leitor. É exatamente na perspetiva atenta de leitor que tomei nota de algumas das palavras eloquentes do Eduardo sob a forma de narrador ou personagem. Longe de pretender desvendar o que quer que seja dos múltiplos enredos do livro, tento chamar a atenção para uma série de reflexões que, se cuidadas ou devidamente respeitadas, nos conduzem inapelavelmente a um mundo melhor. O Edu é pródigo nisso: identifica as lacunas existenciais da nossa espécie e educa-nos com a mestria das entrelinhas para sermos uma sociedade mais justa, mais solidária e feliz.

Figura 1. Capa de "Uma coruja nas ruínas" (2018), de Eduardo J. Duarte.

Velho continente
Um conto que associo sempre ao single “Run” dos Foo Fighters: “wake up… run for your life with me”. A solidão dos mais velhos é abordada de forma clara, remetendo-nos para “uma maratona de sentimentos”. Enquanto para uma minoria a vida consome o tempo, para o grosso dos nossos idosos o tempo consome a vida.

Aqui, ou aguardamos tranquilos a nossa vez de morrer sem pensar em nada, ou reza-se para matar o tempo, antes que o resto do tempo que nos sobra nos mate a nós. (p. 26)

A realidade dos lares é mesmo assim. Os resistentes, no entanto, engendram planos para que a vida lhes dê mais liberdade e/ou amor. É uma questão de escolhas assentes em possibilidades de ação.

Acromegalia
A questão da consanguinidade e dos problemas complexos que tal acarreta estão bem expressos neste conto. A diferença é a sede da discriminação, do desrespeito e da exclusão. O interessante é que a diferença funde-se na dimensão temporal da trama.

Os horários são armários de prateleiras abertas onde guardamos o tempo. (p. 26)

Por vezes, as rotinas a que muitos aludem tão bem fazer ao organismo humano traem-nos os sentidos, as emoções e culminam em tragédia, em tristeza ou o que lhe queiram chamar.

Senhor Nicolau

Os tempos eram selvagens. De descontentamento generalizado, de fraturas expostas nos ossos da ética e da moral. Tinha desaparecido por completo a capacidade de discernimento entre o bem e o mal. (p. 51)

O vilão do enredo, um tal “dono disto tudo”, “exibia-se pelas redes sociais como um pavão em pose num jardim público”. (p. 52). O autor acredita que há nas crianças uma força libertadora das garras da opressão, desde que o respetivo mentor seja alguém que incuta os valores certos nas mentes (ainda) não corrompidas dos mais jovens.

A cegueira maior é não saber olhar para dentro. (p. 60)

Neandertal

O tempo livre é um salto sem fundo para o ócio. (…) Ando à cavalgadura das tentações. (…) Eu preciso de livros. (p. 69)

O aspeto do homem por detrás de um vício remete-nos para uma existência primitiva do ser humano. Como se um vício, ou outro que o substitui, de sequelas menos nefastas e mais cultas, pudesse conceder uma resposta cabal ao cumprimento de funções básicas de sobrevivência. No julgamento íntimo de cada um, o vício é sempre um bem de caráter irrevogável.

Estricnina
Este conto explora de modo retrospetivo e sublime a intimidade familiar do autor. Nele, o Eduardo pretendeu “dar voz a um homem simples que apenas a teve no silêncio”, o seu tio. Quiçá revoltado com um comportamento mais atrevido, típico da infância e fortemente reprimido pelo seu irmão, deixa-nos um par de constatações que poderiam perfeitamente figurar num dos diversos portais de citações de gente ilustre:

Porque somos sempre muito rápidos a julgar e a catalogar e tão demorados a trocar de pele com os outros. (p. 76)

É engraçado, de alguma forma o passado acaba sempre por vir ter connosco e fazer um acerto de contas, seja por uma janela, por um carro que passa ou pela rajada de memórias disparadas no instante em que premimos o gatilho a uma canção. (p. 87)

Um medo sem nome
Ainda jovens gabávamo-nos de ouvir “música interventiva”. Sucintamente, tratava-se de canções através das quais as bandas (geralmente de rock ou metal) denunciavam e criticavam problemas graves de âmbito social. Este será, porventura, um texto de carga interventiva sobre um dos grandes flagelos na sociedade moderna. A minha mãe sempre me disse que, quando as coisas mudam na vida de um casal, raramente é para melhor; o conto do Edu corrobora-o na íntegra, aludindo a “um segredo guardado num cofre de vergonha”.

O amor comprado avulso traz consigo uma certa maquia de tragédia:

A partir de então, o tempo parado. O avançar da velhice apenas trouxe à pele as marcas usadas da dor e do desgosto. (p. 91)

Osvaldo Se
 O “se”. Hipotético. O jogo de identidade do personagem principal intitulado “auto-ficção do eu”. Maradona e a mão de Deus no Mundial de 1986 são parte integrante do conto. Pelo meio, esbocei um sorriso completamente cúmplice:

Virei-me. Reparei nas riscas azuis apertadas entre camadas brancas que desfilavam pela parede: a bandeira da Argentina. Do outro lado, surgia desenhada pelo dedos do Sol a figura escanzelada do Feliciano, um poeta desempregado que procura manter-se vivo entre os despojos do esqueleto. (p. 95)

Não tenho o prazer de (re)conhecer o cientista Osvaldo Se, mas tenho a honra de privar com o homem que projeta a sua existência no poeta Feliciano. Estocadas como a seguinte, por vezes de nos deixar boquiabertos, acontecem diversas vezes no mês, com exceção dos dias 21, 22 e 23 que são ocupados a diluir o único subsídio que recebe em vinho num dos estabelecimentos comerciais mais antigos da vila:

A sombra de Deus é diferente. É a sombra de uma árvore, é a sombra desse mural à sua frente, está lá quando a alma precisa de um lugar fresco para descansar. (p. 96)

Uma coruja nas ruínas
O conto que dá o título ao livro tinha de ser especial, e é! Segundo confessou o editor do livro, o também escritor monchiquense António Manuel Venda, na primeira sessão do recém-criado Clube de Leitura de Monchique, este texto assume quase contornos de novela.

Como todos os seres humanos começam a existir desde a infância, todas as melodias emergem do silêncio. Não há Homem sem silêncio. Não há música sem uma criança a cantar nos sentimentos. (p. 100)

Como devem calcular, não irei dar grandes pistas sobre o enredo. Há um “eu” principal que vive a história; há um “eu” que acompanha de perto a história e escreve sem, contudo, estar por dentro do “eu” principal; e, por fim, há um “eu” (eu mesmo) que a leio e interpreto – à minha maneira – o “xeque-mate” final.

Uma folha em branco ninguém vê, é como os pensamentos, são invisíveis, mas se a gente os derrama para o papel, então, sim, aí temos as fundações de uma escola. (p. 122)

O Lisboa gosta de xadrez, sofre de stress pós traumático ou, pelo menos, é o que dizem na vila, é a coruja nas ruínas. Como qualquer (boa) personagem do Eduardo, real ou fictícia, dos seus pensamentos germinam lições de vida como esta:

Um dia, afirmei que os sonhos são jardins que florescem na cabeça, e comecei a rir, o que de certa forma não deixa de ser por si mesmo uma definição de sonho, uma gargalhada contra a morte. (p. 134)

Extraordinário!

Wall Street
A vida de Diamantino Serpa, antigo bancário, é devolvida pelo milagre do conto. A reforma trouxe consigo o sentido de liberdade.

Sem saber bem o que fazer às gravatas usadas, mas sem querer esquecer completamente a asfixia do tempo que as recordações dos dias nublados de bancário lhe traziam, pendurou as inúmeras tiras de pano que durante anos enlaçara ao pescoço, junto à ruína terraplanada de um antigo colégio, no outro lado da rua. (p. 139)

É engraçado como identifico logo a localização da efabulação, é praticamente no quintal da minha casa. Além disso, a forma como o autor parte de cenários reais (p. ex., o estendal de gravatas) para criar a história que lemos deve ser enaltecida por qualquer leitor, inclusive por aqueles que, como eu, são menos dados à crítica literária. Mas enfim, sou suspeito para escrever sobre isso.

Diamantino adquirira o gosto de contemplar a linha do horizonte na praia, “porque num horizonte cabe tudo, o futuro, o infinito e a eternidade juntos e a Humanidade toda lá dentro, em liberdade” (p. 140). Nenhuma vida deveria ficar inacabada e, por isso, a mudança de rumo, de rotinas, de Diamantino consubstancia-se num intento nobre:

Que é nesse ponto específico em que duas pessoas se cruzam, nesse abraço perfazendo um X, que se encontra o amor, o mapa que diz o caminho para um tesouro capaz de erradicar o flagelo que afeta aquele um por cento da população mundial detentora das maiores fortunas: a pobreza de espírito. (p. 140)

O todo, o sentido, o melhor do texto, terão de ler. Lamento!

O amor no vidrão
Quinze anos passaram.

E tu, dobrado sobre as tuas memórias, levemente encostado ao vidrão, concluis, enquanto atas os atacadores: estás parado exatamente no mesmo ponto em que estavas naquela adolescência. (p. 144)

Com um jeito próprio de descrição, o narrador faz uma retrospetiva de paixões passadas, como “vulcões” diz, em que a seguir à erupção há uma implosão interior que origina uma “cratera desoladora” de desespero. Desdramatiza, procura ser sensato: são meros cacos do coração depositados no vidrão mais próximo de si.

Pedras queimadas
Foi com este texto que o Eduardo venceu o concurso nacional Conte Connosco do banco Santander Totta, em 2011. A introdução é mítica:

Na fundura do Barranco do Demo não há mal que dure sempre nem bem que não se acabe A crueza de um e outro funde os anos em duas estações só. (p. 151)
O final, assombroso de tão bem escrito, relembra-nos como nós – seres humanos – somos frágeis face à crença no regresso de alguém querido e, simultaneamente, robustos a encarar a declaração do prolongamento de um quotidiano repleto de solidão e saudade.

E, ao fim de uma semana, o filho do Zé Galo voltava a casa depois de ter entregado a alma ao Criador, de cima de um andaime, nos hediondos subúrbios de Paris. (p. 154)


A todos, sem exceções, boas festas! Ao Eduardo Jorge Duarte, comparsa de infância, adolescência e quiçá quantos mais estágios de vida, duas palavras: parabéns e obrigado!

29/10/2018

FC Porto e SL Benfica na UEFA Champions League 2018/2019: os desempenhos à luz dos dados estatísticos

Após 3 jornadas disputadas na fase de grupos da presente edição da UEFA Champions League, FC Porto e SL Benfica ocupam posições bem distintas. Se a equipa da invicta é líder isolada do grupo D com 7 pontos (duas vitórias e um empate), o SL Benfica acumulou 3 pontos no grupo E, fruto da vitória obtida em Atenas, estando a 4 pontos de Ajax e Bayern quando faltam cumprir 3 jogos. Como é óbvio, as respetivas perspetivas de apuramento para a fase a eliminar da competição estão longe de se equiparar.

Figura 1. Sorteio da fase de grupos da UEFA Champions League 2018/2019 (fonte: UEFA.com).

Os dados estatísticos são por muitos considerados irrelevantes para a análise do jogo de futebol, mas a verdade é que refletem de alguma forma a qualidade dos processos ofensivos e defensivos de cada conjunto. Trocando por miúdos, a análise quantitativa permite-nos fazer inferências sobre a qualidade dos métodos empregues. Por exemplo, se uma equipa apresenta uma média de 40% de posse de bola não é crível que faça do ataque organizado ou posicional o seu método de jogo ofensivo predominante. Por sua vez, uma equipa cujo guarda-redes (Gr) faz 10 defesas por jogo tende a ser defensivamente mais permeável que uma equipa cuja média é de uma defesa do Gr por jogo.

Num estudo publicado este ano na plataforma Sport Performance & Science Reports, demonstrei que as variáveis de performance que melhor diferenciaram as equipas que passaram à fase de eliminatórias (knock-out) na edição 2017/2018 da Champions League, comparativamente às 16 que foram eliminadas da competição, foram os remates à baliza (shots on goal), o total de remates (total attempts), a posse de bola (ball possession), os passes completos (passes completed) e a precisão do passe (passing accuracy) (Almeida, 2018). Ora, para melhor compreendermos os desempenhos de FC Porto e SL Benfica e prognosticarmos as hipóteses de sucesso na fase de grupos da presente edição do certame, atentemos à tabela 1.

Tabela 1. Dados estatísticos das 32 equipas envolvidas na competição ao final de 3 jogos na fase de grupos, relativamente às variáveis de interesse (valores absolutos para remates à baliza e passes completos; valores médios para remates por jogo, posse de bola e precisão no passe). Fonte: UEFA.com (clique para ampliar).
 Legenda: verde – superior à média global das equipas; amarelo – igual à média global; laranja – inferior à média global.

Por uma questão pontual, o FC Porto apresenta francas possibilidades de atingir a fase seguinte da prova. Para além de jogar mais duas vezes em casa, os valores de posse de bola e de remates à baliza observados permitem-nos inferir que, pelo menos, a equipa portista é eficaz no controlo da bola, não deixando de ser objetiva na procura do golo. Em relação ao controlo do espaço há margem para progresso, não apenas para potenciar a precisão do passe em organização ofensiva, mas também para evitar sofrer mais golos em processo defensivo, visto que tanto o Schalke como o Galatasaray têm menos golos sofridos até ao momento.

O caso do SL Benfica é bem mais bicudo. Embora ainda tenha mais 2 jogos para disputar em casa (Ajax e AEK), os valores apresentados pela equipa encarnada são todos inferiores às médias globais das 32 equipas nas variáveis de performance em análise. Ainda que os valores associados à ação de remate se aproximem da média, os valores relativos à ação de passe estão nitidamente abaixo do nível médio encontrado nesta competição. Para além de manifestar dificuldades no controlo do espaço em transição e organização defensivas, o que se traduziu em 5 golos sofridos em 3 jogos disputados, as carências da equipa de Rui Vitória no controlo da bola são mais que notórias. As estatísticas indicam que se privilegiou os métodos de contra-ataque e ataque rápido, sem esquecer que o Benfica jogou mais de uma parte em inferioridade numérica em Atenas. Isso, no entanto, não explica integralmente a falta de qualidade ofensiva dos vice-campeões nacionais, até porque somente conseguiu concretizar golos aos campeões gregos. O cenário negativo dos benfiquistas agudiza quando tanto Ajax como Bayern detêm valores superiores em todas as variáveis.

Em suma, os números valem o que valem e, em particular, esta análise descritiva não determina a 100% que FC Porto passe à fase a eliminar e o SL Benfica não. A análise retrospetiva do desempenho não implica que não haja evolução e novidade em jogos futuros. Embora haja sempre uma margem de erro associada, também é verdade que a ciência tem algo a dizer sobre o fenómeno e que treinadores, adjuntos e analistas deveriam estar atentos aos dados e procurar, através deles, planificar e propor conteúdos em treino mais ajustados às exigências e às tendências identificadas na competição em curso.

Termino com os meus votos de sucesso para as equipas portuguesas.

Referência
Almeida, C. H. (2018). What performance-related variables best differentiate eliminated and qualified teams for the knockout phase of UEFA Champions League? Sport Performance & Science Reports, 1(23), 1-3.