01/12/2019

Ausência de identidade na era da estratégia: o Tottenham de José Mourinho


O alto rendimento, no meu entendimento, é ausência de identidade. (…) A estratégia é que é típica do alto rendimento. Se não tenho cão, caço com gato. Se a outra equipa é mais forte, a minha identidade é adaptar-me. Todos nós temos um plano até levarmos um murro.

Francisco Silveira Ramos (entrevista à SPORT TV, fev-2019)


Um dos conceitos mais em voga no futebol, independentemente do nível competitivo ou escalão etário, é o modelo de jogo. É o modelo que consubstancia as ideias do treinador ou da equipa técnica em princípios gerais e subprincípios para as diferentes fases e momentos do jogo. Em particular no futebol de alto rendimento, quando os resultados ou os desempenhos não são os pretendidos, manter-se fiel ao modelo de jogo (ou às ideias que lhe estão subjacentes) parece ser uma vitória moral: “morri com as minhas ideias” ou “caí de pé”. É, contudo, uma verdade de La Palice.

A este propósito, o professor Francisco Silveira Ramos, no seu jeito tão sagaz quanto contundente, alega que no alto rendimento impera a estratégia e, portanto, a ausência de identidade, de ideias fixas ou de modelos estanques. A adoção de princípios e subprincípios demasiado rígidos condiciona a capacidade de adaptação às características dos adversários e/ou às circunstâncias contextuais de cada jogo. Por um lado, é fundamental conceder organização à equipa, através de princípios táticos que norteiem os comportamentos individuais para uma dinâmica coletiva coerente. Por outro lado, esses mesmos princípios devem ser dotados de plasticidade, para fazer face à necessidade de adaptação dos indivíduos e da equipa aos inúmeros e variados problemas com que se irão deparar ao longo da época desportiva.

De há uma década a esta parte, subsiste a noção que jogar de forma apoiada, fazendo a bola percorrer os três corredores e os três setores, é o único desígnio para o sucesso. O estilo de jogo adotado por treinadores de elite como, por exemplo, Pep Guardiola, fizeram escola e entranharam-se na mente dos amantes do futebol, fossem eles profissionais, amadores ou meros adeptos. “Jogar à Barcelona é que é!” Por isso, hoje em dia, a grande maioria dos treinadores, quando elaboram um modelo de jogo, preconizam o ataque posicional como método ofensivo preferencial, desconsiderando por completo os métodos ataque rápido e contra-ataque e, por inerência, a dinâmica situacional do jogo. Se há superioridade numérica evidente e a equipa oponente está desequilibrada, explora-se o contra-ataque. Se a equipa adversária controla mal a profundidade, embora os setores médio e ofensivo sejam profícuos a aplicar zonas de pressão no seu meio-campo ofensivo, talvez o ataque rápido não seja de todo descabido. As melhores equipas são aquelas que jogam em função do contexto, das oportunidades de ação (affordances). Para além de serem menos previsíveis, são também muito mais eficazes.

Figura 1. José Mourinho, agora no Tottenham Hotspur FC (fonte: desporto.sapo.pt).

Estratega é aquele que operacionaliza os recursos disponíveis para alcançar um fim. Neste âmbito, José Mourinho (figura 1) foi, é e será sempre um dos melhores treinadores de futebol do mundo, até quando as suas equipas não deslumbram em campo. Há uma dúzia de dias no seu novo clube – Tottenham Hotspur FC –, porque não pegar já em exemplos práticos? Para categorizar as sequências ofensivas segui os critérios definidos por Sarmento e colegas (2018).


Bom trabalho, mister Mourinho!


Referência
Sarmento, H., Figueiredo, A., Lago-Peñas, C., Milanovic Z., Barbosa, A., Tadeu, P., & Bradley, P. S. (2018). Influence of tactical and situational variables on offensive sequences during elite football matches. Journal of Strength and Conditioning Research, 32(8), 2331-2339.

27/10/2019

A génese de um golo no Dragão: o pecado capital do FC Famalicão

O FC Famalicão, recém-regressado ao escalão principal do futebol português, está a realizar uma época absolutamente brilhante. Hoje, no Estádio do Dragão, não alterou a sua identidade e procurou jogar “olhos nos olhos” contra um adversário com outros argumentos. Perto do intervalo sofreu o golo inaugural, marcado por Luis Díaz, após perder a bola no seu meio-campo defensivo, ao tentar ligar um passe pelo corredor central (figura 1).

Figura 1. Situação de jogo que origina a perda de bola para o 1-0 para o FC Porto (fonte: vsports.pt).

No início da sequência ofensiva que, infelizmente, não consegui captar com as imagens disponibilizadas pela vsports.pt, a distância intersetorial da linha defensiva para o meio-campo era enorme (cerca de 30 metros), o que torna muito mais difícil progredir no terreno de jogo, com segurança e eficácia, através do método ofensivo de ataque posicional. Contra uma equipa como FC Porto que, por norma, condiciona as linhas de passe mais próximas do portador da bola na sua etapa de construção, o central Patrick William decidiu acelerar em condução para, face à escassez de soluções válidas para jogar apoiado, cometer um pecado capital: efetuar um passe vertical para o corredor central. A bola foi intercetada e, da superioridade numérica originada (3v2+Gr), surgiu o 1-0 para a equipa visitada.


Em jeito de conclusão, aqui ficam as minhas notas mentais no momento:

1) Enorme espaço intersetorial para a equipa do Famalicão poder jogar apoiado, pelo corredor central, na etapa de construção;
2) Excelente organização defensiva do Porto para recuperar a bola no meio-campo ofensivo e gerar um contra-ataque mortífero.

23/10/2019

Terceira eliminatória histórica na Taça de Portugal 2019/2020

No século XXI, desde que as equipas da I Liga começaram a entrar em prova na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, em 2008/2009, nunca mais de um terço das equipas do escalão principal tinham sido eliminadas nesta ronda da prova (figura 1).


Figura 1. Percentagem de equipas eliminadas na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal desde 2008/2009.
Nota 1: nas épocas anteriores a 2008/2009, as equipas do escalão principal entravam na competição a partir da 4.ª eliminatória;
Nota 2: na I Liga participam 18 equipas desde 2014/2015 (antes eram 16).


Aconteceu no fim-de-semana passado (18-20 de outubro de 2019), com 7 equipas das 18 participantes na I Liga/Liga NOS (38,9%) a serem eliminadas por adversários de escalões inferiores, a saber:

FC Alverca (Campeonato de Portugal) x Sporting CP (I Liga): 2-0
Sintra Football (Campeonato de Portugal) x Vitória SC (I Liga): 2-1 (após pen.)
CD Feirense (II Liga) x CD Tondela (I Liga): 3-0
SC Farense (II Liga) x CD Aves (I Liga): 5-2
Académica OAF (II Liga) x Portimonense F. SAD (I Liga): 2-1
GD Chaves (II Liga) x FC Boavista (I Liga): 2-1 (após prol.)
SC Beira-Mar (Campeonato de Portugal) x CS Marítimo (I Liga): 3-2 (após pen.; figura 2)

Figura 2. Em Aveiro, o Beira-Mar eliminou o Marítimo (fonte: record.pt).

Mais do ressalvar o facto, que não passa de uma mera curiosidade, urge tentar compreendê-lo. Quais os motivos que poderão ter determinado este desfecho? Avanço com duas linhas de raciocínio que, ainda que possuam alguma especulação na sua formulação, são suportadas por alguma evidência científica, por algum conhecimento empírico e não são indissociáveis.

1) Dimensão estrutural: A competitividade
Investigações prévias efetuadas no futebol português têm sugerido que a competitividade dos campeonatos é mais elevada em divisões inferiores, as ditas semiprofissionais (Campeonato de Portugal) ou amadoras (Campeonatos Distritais). Parece que a relação de proporcionalidade direta entre a vantagem de jogar em casa (o fenómeno “home advantage”) e a competitividade das ligas é um facto, ou seja, quanto mais competitiva for a liga, maior vantagem adquire a equipa que joga no seu reduto. Por exemplo, numa análise levada a cabo ao longo de 11 épocas consecutivas no futebol português (2005/2006 a 2015/2016), verificámos que a vantagem de jogar em casa foi, precisamente, mais elevada nos níveis semiprofissional (II Divisão B e Campeonato de Portugal; 60.46%) e amador (principais divisões distritais; 60.36%), comparativamente ao valor médio apurado para o nível profissional (I Liga; 58.31%) (Almeida & Volossovitch, 2017). Equipas mais fortes, como FC Porto, SL Benfica e Sporting CP têm, habitualmente, menor vantagem em jogar em casa (i.e., próximo dos 50%), por força da diferença de qualidade para a maioria das equipas adversárias; em síntese, jogar em casa ou fora é, para estas equipas, praticamente indiferente.

Assim, é lógico que as equipas de divisões inferiores beneficiem da maior competitividade existente entre elas para se aproximarem de equipas de patamares mais elevados (incluído o profissional), no que ao rendimento desportivo diz respeito. Adicionalmente, é evidente o esforço que sido realizado por clubes de menores dimensões para se modernizarem e profissionalizarem as suas estruturas, seja no âmbito da diversidade e funcionalidade das infraestruturas desportivas, da multidisciplinaridade de áreas de intervenção com a celebração de protocolos com outras entidades locais ou, sobretudo, no incremento da qualidade dos recursos humanos que empregam (treinadores, preparadores físicos, scouts, etc.). Daquilo que me apercebo, há treinadores no Campeonato de Portugal que, em termos de competência, não ficam (nada) atrás de colegas que trabalham, desde sempre, na primeira ou segunda ligas. Se alargamos esta particularidade ao futebol de formação, à qual não estará alheio o recente processo de certificação de entidades formadoras implementado pela Federação Portuguesa de Futebol, é crível que brecha qualitativa entre clubes/equipas profissionais e outros de menor estatuto vá estreitando.

2) Dimensão contextual: o binómio “gestão de grupo – oportunidade de ouro”
Neste ponto, utilizo uma analogia com tempos idos. Um nobre tenta intrometer-se, despercebidamente, numa festa popular, vestindo para o efeito um traje menos vistoso, até corriqueiro. Todavia, como a festa popular é muito importante para os plebeus, estes vestem-se a rigor, talvez além das suas possibilidades, para fazer jus à cerimónia. Ao chegar à festa, e confrontando a sua figura com os demais presentes, o nobre, envergonhado, volta para casa.

Não é novidade que muitos treinadores utilizam as primeiras eliminatórias da Taça de Portugal para, aproveitando a superioridade teoricamente atribuída à sua equipa relativamente aos oponentes, procederem à gestão do plantel que têm ao seu dispor. Não contesto, porque julgo que é fundamental manter todos os elementos preparados, motivados e cientes de que têm um papel ativo (e positivo) no grupo. Contudo, muitas vezes, estes jogadores menos utilizados chegam ao jogo da Taça de Portugal com um ritmo competitivo deficitário, o que compromete o cumprimento de missões táticas individuais e a eficácia das dinâmicas coletivas preconizadas no modelo de jogo. O rendimento desportivo é um processo de afinação contínua aos diversos problemas contextuais do jogo; sem competição regular, a afinação promovida pelo treino pode revelar-se insuficiente.

Por outro lado, as equipas de escalões inferiores encaram os jogos com os ditos “grandes” como uma “oportunidade de ouro” para brilharem, nem que seja só por um dia. A oportunidade de ser capa de jornal, a oportunidade futura de serem contratados por clubes com outras condições, ou a oportunidade para fazer história no clube que representam. Este “dar tudo” perante um adversário superior, focados num objetivo altamente desafiante, sem elevada pressão psicológica associada, leva a que joguem, individual e coletivamente, acima dos níveis de rendimento comuns. Convém destacar que tudo isto é potenciado pela envolvência extraordinária proporcionada pelo público local.

Tudo o que atrás foi referido, em conjunto com outros fatores não debatidos, geraram circunstâncias favoráveis para que as diferenças (teóricas) se tivesse esbatido em diversos jogos disputados nesta 3.ª eliminatória. Para bem do futebol português, é bom que a Taça de Portugal nos continue a brindar com estes resultados inesperados ou históricos. Porque só uma competição especial como esta nos permite encarar o futebol como uma festa, na qual um “pequeno” pode rejeitar a sua condição e viver e sonhar como um “grande” por um dia.


Referência
Almeida, C. H., & Volossovitch, A. (2017). Home advantage in Portuguese football: Effects of level of competition and mid-term trends. International Journal of Performance Analysis in Sport, 17(3), 244-255.

20/10/2019

O 2v0+Gr no futebol: “fixar” ou finalizar?

No rescaldo da recente vitória do SL Benfica na Cova da Piedade (0-4), para a 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, o jornal O JOGO produziu a seguinte capa no dia 19 de outubro de 2019:

Figura 1. Capa de O JOGO, 19 de outubro de 2019 (fonte: ojogo.pt).

Nesta peça destaco o excerto: “mas o duelo de goleadores teve um vencedor claro: De Tomás, 0; Vinícius, 2”. Não só acho a decisão editorial de muito mau gosto, como também é pouco ou nada informativa no que ao próprio futebol diz respeito. Escrevo isto porque restringe as tarefas de um qualquer jogador avançado à quantidade de golos marcados, sendo todas as outras missões táticas (e.g., ligar entre linhas no corredor central, explorar espaços nos corredores laterais, criar condições espaciotemporais vantajosas em zonas vitais de jogo para outros jogadores poderem finalizar, pressionar as primeiras opções de passe da linha defensiva adversária, condicionar a circulação de bola por determinadores jogadores adversários, etc.) uma espécie de miragem.

No Facebook, além de colocar a imagem da capa do diário desportivo, acrescentei uma breve mensagem, aludindo ao que me parece ser uma clara campanha “para descredibilizar aquele que, na minha modesta opinião, é o melhor avançado do SL Benfica”. Também demonstrei, com recurso a uma imagem (figura 2), o que sugere ser alguma falta de solidariedade ou qualidade de alguns companheiros de equipa para servir em melhores condições o avançado espanhol.

Figura 2. O 2v0+Gr do SL Benfica, aos 23’, contra o CD Cova da Piedade (fonte: vsports.pt).

Se diversas pessoas, mais ou menos ligadas ao futebol, concordaram com a minha opinião, ainda persiste uma ideia bastante generalizada de que, independentemente das circunstâncias, naquela zona é para finalizar, designadamente se a última ação for de um avançado/ponta de lança, como é o Carlos Vinícius. Esta divergência de noções levanta uma questão que nos remete para o ensino do futebol nos escalões de formação de base: em situações de dois atacantes contra o guarda-redes (Gr) oponente (i.e., 2v0+Gr), o primeiro atacante deve assumir a finalização ou “fixar” a posição do Gr e assistir o outro atacante para finalizar?

Regra geral, a resposta é sempre a mesma: “depende”. Depende da posição dos atacantes no espaço de jogo, do enquadramento do Gr, da capacidade de execução individual dos atacantes, etc. Não obstante, é também norma o princípio da penetração/progressão, sendo um dos objetivos fundamentais “fixar” os apoios do adversário direto para criar condições numéricas e espaciotemporais mais vantajosas para que um companheiro de equipa dê continuidade ou finalize o processo ofensivo. Partindo do pressuposto basilar de que a missão mais importante do Gr é defender a baliza, este deverá sempre adotar um bom enquadramento entre a bola e a sua baliza, constituindo oposição direta ao portador da bola o que, num cenário de 2v0+Gr, deixa o outro atacante à mercê da qualidade do portador da bola ou, num contexto mais aleatório, do acaso.

Curiosamente, menos de 24 horas depois do lance de Carlos Vinícius e Raúl de Tomás, houve uma jogada ofensiva idêntica no SD Eibar x FC Barcelona, para a La Liga, mas com protagonistas e resultado diferentes. Lionel Messi isolado, “fixou” o Gr e serviu Luis Suárez para o 0-3 final (figura 3).

Figura 3. O 2v0+Gr do FC Barcelona, aos 66’, contra o SD Eibar (fonte: www.youtube.com).

Em poucos segundos, o FIFA The Best 2019 (e hexa bota de ouro) Messi exemplificou na perfeição tudo o que foi escrito previamente (ver vídeo em baixo anexado). José Mourinho referiu, há tempos, que primeiro é necessário vencer, obter-se sucesso, depois cria-se doutrina. Se há aspetos básicos que dispensam troféus para ser doutrina, o 2v0+Gr é um deles. Contudo, não é uma problemática estritamente do foro tático-técnico, i.e., executar em função das melhores oportunidades de ação (affordances), é ainda social, psicológica e emocional. O golo é uma enorme tentação e, ao mais alto nível, prescindir do protagonismo do golo em prol do bem comum (equipa) não está ao alcance de todos.


Neste sentido, para além do desenvolvimento de competências de cariz individual, julgo que é muito importante (e não acessório) que as crianças e os jovens entendam que se jogarem para a equipa, mais cedo ou mais tarde, a equipa irá jogar para elas, aquilo que, em termos sociobiológicos, representa uma autêntica simbiose.

21/08/2019

Amazónia em chamas

Sobre os incêndios que lavram há 17 dias na densa floresta da Amazónia – o designado “pulmão da Terra”, alegadamente responsável pela produção de 20% do oxigénio que respiramos e que não passa de um mero mito. Há espécies a desaparecer todos os anos. O declínio da sustentabilidade do nosso habitat natural é progressivo. O mais importante de tudo continua a ser a economia, o crescimento, o deficit, a greve, o ter mais do que o vizinho.

Figura 1. Amazónia fustigada por incêndios dantescos (fonte: visao.sapo.pt).

Apregoamos a plenos pulmões que somos a espécie mais inteligente, mas temos as prioridades totalmente invertidas. Pelos erros de uma espécie, pagam todas as outras e sem direito a segundas oportunidades. Não há descontos, só liquidação total.