28/12/2011

II Jornadas Jovens de Monchique

Ontem decorreram as II Jornadas Jovens de Monchique e o XI Encontro de Estudantes Monchiquenses no Ensino Superior, organizados pela Junta de Freguesia de Monchique. Fui um dos oradores convidados, num conjunto de preleções subordinadas ao tema "Saber e Identidade". Apresentei uma investigação realizada no âmbito das minhas funções como técnico superior no setor de desporto e juventude do Município de Monchique, com o título: "Tempos livres, prática desportiva e atividade física de jovens estudantes no concelho de Monchique".


Para assinalar este evento no Linha de Passe, deixo-vos o repetivo resumo:

Os objetivos desta investigação foram (1) conhecer o modo como os jovens estudantes no concelho de Monchique ocupam os seus tempos livres, (2) caracterizar a incidência de prática desportiva e de atividade física na amostra e (3) averiguar relações causais entre a prática de atividades físicas/desportivas e o índice de massa corporal (IMC), fator associado à saúde e bem-estar dos seres humanos. Participaram no estudo 243 jovens, 123 do género masculino e 120 do género feminino, pertencentes a escolas do ensino básico (1º, 2º e 3º ciclos) do Agrupamento de Escolas de Monchique e com idades compreendidas entre os 7.84 e os 17.33 anos. Os dados foram recolhidos mediante a aplicação do questionário “Ocupação dos Tempos Livres e Prática Desportiva”. Para o tratamento dos dados foram utilizados procedimentos de estatística descritiva (frequências absolutas e relativas, médias e desvios padrão) e inferência estatística (testes do qui-quadrado, testes t e coeficientes de correlação linear de Pearson), mantendo o nível de significância em 5%. Os resultados indicaram que, entre as atividades mais realizadas nos tempos livres, se encontram práticas de atividade física ou desportiva. O envolvimento físico de Monchique parece constituir um fator propiciador da adoção de estilos de vida ativos e saudáveis. A incidência de prática desportiva foi de 51%, registando-se valores significativamente superiores no género masculino. A incidência de atividade física rondou os 75%, no entanto, o tipo de atividades realizadas são distintas entre os dois géneros. Analogamente ao que sucede no âmbito desportivo, os rapazes despendem mais tempo semanal em atividade física, relativamente às raparigas. Apurou-se ainda que 32.5% dos participantes apresenta excesso de peso ou obesidade. Neste âmbito, o exercício físico e o desporto orientado por professores ou treinadores parece ser mais determinante para a prevenção do excesso de peso e da obesidade do que a atividade física espontânea.

Palavras-chave: atividade física, desporto, tempos livres, índice de massa corporal, jovens, Monchique.

26/12/2011

Não é o meu futebol, mas foi magnífico!

Que jogada brutal de Jerome Simpson. Capacidade atlética, aliada a uma criatividade estupenda, só poderia resultar num "touchdown" para a história do futebol americano. Apreciem:

18/12/2011

Futebol de rua: beco com saída

Recentemente li o livro “Futebol de rua: um beco com saída”, de Hélder Fonseca e Júlio Garganta, sobre um tema que acho bastante interessante: o futebol de rua. É um livro que resulta de um trabalho académico (tese de monografia do primeiro autor) e que procurou entender a importância desta prática informal e espontânea na formação de habilidades e competências específicas da modalidade. Para isso, foram entrevistados jogadores ou ex-jogadores de elite, treinadores e especialistas académicos nas áreas da metodologia do treino e da psicologia do desporto.

Os autores concluíram que o futebol de rua, ou os pressupostos que o rodeiam, devem ser potenciados ou explorados, no intuito de induzir a aquisição/aperfeiçoamento de habilidades motoras, cognitivas e sociais que dificilmente podem ser estimuladas em contextos mais rígidos e controlados, como nos clubes ou nas escolas de futebol. O jogar na rua permite que a criança/jovem explore as soluções mais adequadas às circunstâncias contextuais sem imposições exteriores e sob uma base de motivação intrínseca assinalável. No treino desportivo, essencialmente com jovens, é muito frequente assistirmos os treinadores a tomarem decisões pelos praticantes, não possibilitando que os aprendizes leiam o jogo, eventualmente errando, para desenvolver e consolidar a sua autonomia decisional.

Neste particular, Duarte Araújo salienta a relevância e complementaridade de dois conceitos no ensino/treino do jogo de futebol: a descoberta guiada, em que se guia os praticantes para chegar a uma determinada referência e o ensino divergente, em que se coloca os praticantes a explorar soluções para alcançar um ou mais objetivos, soluções essas possivelmente desconhecidas pelo próprio treinador. Não há apenas um caminho que se pode percorrer para almejar o êxito; a diversidade de boas práticas (pelos praticantes e pelos treinadores) parece consubstanciar um potencial enorme para, de acordo com a tríade praticante-tarefa-ambiente, estabelecer interações positivas no sentido da manifestação e refinamento do talento inato.

Encarado como uma excelente forma de prática do jogo em idades mais tenras, o futebol de rua é um desígnio comum da esmagadora maioria dos jogadores reconhecidos a nível mundial. Os próprios destacam a importância da quantidade de horas passadas a jogar à bola na rua durante a sua infância e juventude, muitas das vezes em situações contextuais adversas (e.g., pisos irregulares, bolas furadas, bolas duras, paredes laterais, inexistência de coletes, etc.), mas que estimularam, de sobremaneira, o desenvolvimento de habilidades específicas, como a receção, o passe, a desmarcação e a capacidade de leitura do jogo.

Não é por acaso que o futebol de rua é um tema em voga, assente em inúmeras preocupações sobre o seu possível desaparecimento. Merece uma reflexão séria por parte daqueles que gostam do jogo e, sobretudo, daqueles que gostam de ensinar a jogar, porque de um beco há-de sempre haver, no mínimo, uma saída.

07/11/2011

Ensinar e aprender a jogar, jogando

Na faculdade tive o prazer de ter um professor de basquetebol muito respeitado nos meandros do treino desportivo. Durante as aulas, o professor Hermínio Barreto costumava repetir, insistentemente, que os miúdos devem aprender a jogar, jogando. Não sendo particularmente um agente desportivo nesta modalidade, reconheço que, como jogo desportivo coletivo que é, partilha inúmeras peculiaridades de ensino/aprendizagem que são transversais a outros desportos coletivos, como é o caso do futebol.

De uma perspectiva ecológica aplicada ao desporto, somente o jogo e a suas variantes apelam a acoplamentos específicos de perceção-ação e, portanto, o jogo deve ser a sede das aprendizagens fundamentais (Borba, Barreto e Barreiros, 2007). Inúmeros estudos têm sido realizados no intuito de compreender como a prescrição de certas tarefas de treino influi na aquisição de habilidades motoras e competências cognitivas por parte de sujeitos em diversos escalões etários. Nos jogos desportivos coletivos, as evidências mais recentes apontam para o jogo como o meio mais preponderante para a aquisição e desenvolvimento de competências específicas da modalidade.

Num período em que ainda se constata a preferência de muitos treinadores por metodologias de treino/ensino baseadas na execução descontextualizada (i.e., isolada do jogo) de habilidades técnicas, estou certo que a ciência pode fornecer conhecimentos muito profícuos e práticos para o treinador na sua atividade quotidiana. O exemplo de driblar cones é badalado. Tal não significa que não seja útil para melhorar o controlo da bola, a sua condução e, até mesmo ações de drible, porém peca por ser uma tarefa vazia de potencial decisório. Nestas situações, não emerge qualquer necessidade de "ler o jogo" (i.e., a trajetória da bola e/ou os comportamentos de companheiros e adversários) e de tomar decisões. Num jogo reduzido, condicionado ou numa forma jogada isso é possível e, visto que as informações do envolvimento constrangem a decisão e a ação do praticante, torna a tarefa de aprendizagem muitíssimo mais rica e apropriada ao propósito da formação.

Acima de tudo, é imperativo que a criança/jovem aprenda a "ler o jogo" (identificando a informação relevante do envolvimento), a decidir e a executar bem. Fazê-lo apenas numa destas valências (e.g., a execução analítica do passe) é limitar e atrasar a aprendizagem e o desenvolvimento de competências do aprendiz. Não implica que sejamos fundamentalistas e apliquemos apenas situações de jogo ou formas jogadas. Eu, por vezes, e porque entendo que variar os exercícios de treino é essencial para aumentar a motivação dos praticantes e reduzir a monotonia da sessão, também uso cones para serem contornados. Faço e admito sem reservas. No entanto, o tempo destinado a esse tipo de atividades é escasso, considerando o volume total de treino semanal. A preponderância é claramente concedida ao jogo em si mesmo, que não é encarado como um fim, mas como um meio de enorme potencial para ensinar e aprender.

Esta é a verdadeira razão porque alguns sábios, mesmo há largos anos, já postulavam a máxima de "ensinar/aprender a jogar, jogando".

Referência
Borba, R., Barreto, H., & Barreiros, J. (2007). Encolhendo o espaço de jogo: insights para a compreensão do desenvolvimento táctico-técnico da criança. In J. Barreiros, R. Cordovil e S. Carvalheiro (Eds.), Desenvolvimento motor da criança (pp. 61-69). Lisboa: FMH Edições.

30/10/2011

Caixinha de "futebol positivo"

O prof. Pedro Caixinha vai ser o próximo treinador do Clube Desportivo Nacional. Pessoalmente, fiquei bastante satisfeito pelo regresso ao ativo de um jovem treinador, competente na sua função e apologista do que designa por "futebol positivo".

A atitude e a postura de Pedro Caixinha foram sempre irrepreensíveis enquanto treinador principal da União Desportiva de Leiria. Ele e a sua equipa técnica, embora sem condições apropriadas para trabalhar em tal nível competitivo, procuraram criá-las durante a sua passagem por Leiria, o que foi devidamente recompensado pela direção de João Bartolomeu com um despedimento precoce à 3ª jornada. Entretanto, Vítor Pontes já seguiu o mesmo caminho, o algavio Manuel Cajuda foi eliminado da Taça de Portugal pelo Alcochetense e na Liga Zon Sagres o clube continua a carecer de pontos.

Agora, no Nacional da Madeira, Caixinha vai ter ao seu dispor outras condições e, convenhamos, um plantel recheado de bons jogadores, sobretudo no setor ofensivo. Lutar pelos lugares europeus não será uma tarefa fácil, pois a atual distância pontual assim o determina, contudo não é impossível. Se as suas ideias de "futebol positivo", privilegiando um estilo de jogo ofensivo assente numa circulação rápida da bola, forem convenientemente transmitidas (i.e., em termos de métodos de treino) e bem recebidas por jogadores como Luís Alberto, Diego Barcellos, Candeias, Mateus e Mário Rondon, creio que poderemos ver esta formação insular a subir na tabela classificativa, jogando um futebol atraente.

Esta é decerto uma grande oportunidade para o prof. Pedro abrir a "caixinha" do seu "futebol positivo". Os mendigos do bom futebol, como eu, devem estar atentos ao que poderá ser uma boa surpresa na presente edição da principal liga portuguesa.

Os meus votos de sucesso!

19/10/2011

Quando há pais assim, o que esperar do talento?

David Thiery Barreto tem dois anos e, segundo parece, o pai já lhe vaticina o estrelato como futebolista para 2030 (as contas já foram feitas). Esta criança brasileira, que se acredita possuir alguns dotes para a modalidade, está a ser amplamente promovida pelo seu pai, através do Youtube.

O que para muitos pode ser um espanto, para mim é um autêntico absurdo. O que observamos no vídeo é um ser humano, na sua primeira infância (a idade é comprovada pela desproporção entre o tamanho da cabeça e o resto do corpo), a se recriar com uma bola. Se é certo que executa muito melhor que a maioria das crianças desta idade, também entendo que em largos períodos do vídeo, nem está com atenção ao que lhe solicitam para fazer.

As expectativas já criadas em torno desta criança, rotulada como a melhor do mundo no futebol, são enormes. Imaginem a pressão com que vai ter de lidar quando falhar o primeiro passe ou o primeiro golo em situação de competição com miúdos da mesma idade. E quando outro, longe de ser o melhor do mundo, roubar a bola ao que já é o melhor do mundo? E quando, daqui por alguns anos, esta criança, então jovem, perceber que se calhar não é, nunca foi, nem nunca será o melhor, ou nem tão pouco será profissional de futebol? O seu pai está a gerar todas as circunstâncias para "assassinar" - literalmente - o futuro do filho. E não me refiro estritamente ao seu futuro no desporto.

Os encarregados de educação são, frequentemente, um valente obstáculo na formação de jovens talentos desportivos. Na minha perspectiva, devemos deixar as crianças/jovens crescer e aprender o jogo sem grandes pressões ou expectativas; quando chegarem aos Sub-17 (Juvenis) podemos compreender se, de facto, são ou não diferentes dos demais.

Até lá, há que deixar as crianças brincar, jogar e, acima de tudo, se divertir. O futuro no futebol mais cedo ou mais tarde se perceberá.

21/09/2011

Impacto da Casa dos Segredos nos conhecimentos e cultura geral da população portuguesa

Abstract

O objectivo do programa televisivo Casa dos Segredos 2 é promover a ilusão e a omissão num conjunto de adultos sem nada para fazer na vida e cujo somatório do Quociente de Inteligência (QI) não iguala o do Einstein. Participam no evento 20 seres humanos, entre os 19 e os 33 anos de idade, sendo 10 do género masculino e 10 do género feminino. Todos partilham a característica de sobrevalorizar o volume de bicípete ou mamário relativamente ao órgão que permite interpretar estímulos, proceder a raciocínios lógico-dedutivos, evocar memórias, entre outras funções que nos distinguem dos restantes seres vivos: o cérebro. As imagens comprovam ainda que cada concorrente apresenta uma auto-estima e uma percepção de auto-conceito que envergonham o ego da recém eleita Miss Universo, a angolana Leila Lopes. As evidências induzem-nos a concluir que o impacto deste nobre programa da TVI é negativo (i.e., abaixo de zero) nos conhecimentos e na cultura geral das centenas de milhares de crianças, jovens, adultos e idosos que diariamente assistem a esta, como diria Luis Sepúlveda, barbárie humana.

Palavras-chave: QI, bicípete, mamas, ego, barbárie humana.

01/09/2011

Artigo: A Definição de "Centro do Jogo"


Introdução
O conceito de “centro do jogo” é vulgarmente encontrado na literatura didáctica e pedagógica do futebol. Castelo considera que o “centro do jogo” ou “unidade estrutural funcional” está em constante mutação no decurso de um jogo, sendo constituído “(...) momentaneamente pelo jogador de posse de bola e elementos pertencentes às duas equipas (...) até uma certa distância (não superior a 15 metros) (...).” (2004: 204). No entanto, até ao momento, nenhuma investigação científica foi realizada para delimitar e/ou validar este conceito. Será o “centro do jogo” a zona envolvente à bola, englobando jogadores que podem intervir directamente sobre a mesma? Será que a distância máxima de 15 metros em relação à bola, tal como enunciado por Castelo, é aceitável para circunscrever o “centro do jogo”? Desta forma, utilizando um breve questionário, inquirimos 39 treinadores de futebol com o objectivo de perceber o que pensam sobre o assunto.

Métodos

Aproximação experimental ao problema
Esta investigação utilizou um instrumento (questionário) constituído por 5 questões de resposta curta. Não podemos caracterizar este instrumento como puramente quantitativo ou qualitativo, pois tanto foi possível recolher dados para tratar e analisar mediante procedimentos estatísticos simples, como foi possível recolher múltiplas perspectivas sobre o “centro do jogo” e que nos auxiliaram na descrição e compreensão do conceito.

Participantes
Neste estudo participaram voluntariamente 39 treinadores, com idades médias de 32.59 ± 6.68 anos, com 4.62 ± 2.84 anos de experiência como treinador e dos quais 37 possuíam o I Nível, um o III Nível e outro o IV Nível de Treinador. Em termos dos escalões etários treinados na época imediatamente anterior (2008/2009), observou-se a distribuição apresentada no quadro 1.



Procedimentos
Inicialmente, após a elaboração do questionário, foi pedido a um grupo de 5 treinadores que o preenchessem e emitissem uma apreciação sobre o mesmo. As rectificações realizadas na sequência deste processo experimental foram ligeiras.
No dia da aplicação dos questionários foi feita uma introdução oral que contemplou algumas normas para o seu preenchimento e uma breve explicação acerca do seu enquadramento no âmbito das Ciências do Desporto. Os questionários foram preenchidos individualmente e em silêncio pelos participantes, não tendo surgido quaisquer dúvidas durante esse período. Os dados foram tratados recorrendo a procedimentos simples de estatística descritiva (frequências absolutas, frequências relativas, médias e desvios padrão) e de análise de conteúdo nas questões 3, 4 e 5, conforme o recomendado por Côté, Salmela, Baria and Russell (1993) e Culver, Gilbert and Trudel (2003). Deste modo, foram identificadas e etiquetadas unidades de texto relevantes sobre o “centro do jogo” que, posteriormente, foram organizadas em categorias com significado distinto.

Apresentação e Discussão dos Resultados
Na questão 1 – qual a distância máxima (metros) para um jogador atacante receber a bola em segurança quando está em deslocamento de apoio? – obtivemos um valor médio (± desvio padrão) de 6.26 ± 2.21 metros. No quadro 2 encontra-se a distribuição das respostas por escalão etário treinado na época anterior (2008/2009).



Como é possível observar, 66.67% dos treinadores participantes seleccionaram distâncias máximas entre os 4 e os 6 metros para que um jogador em situação ofensiva possa receber a bola em segurança, quando está em deslocamento de apoio. Se aumentarmos o intervalo anterior para entre os 4 e os 8 metros, verificamos uma percentagem de respostas extremamente elevada, isto é, 89.74%, não parecendo haver diferenciação face ao escalão treinado na época 2008/2009. Se confrontarmos os valores obtidos com os 15 metros sugeridos por Castelo (2004) para definir o “centro do jogo”, parece haver uma clara diminuição daquilo que é a distância segura de comunicação directa entre dois jogadores em situação de ataque, quando um deles se encontra em deslocamento de apoio (aproximação) em relação ao portador da bola.

No que diz respeito à questão 2 – qual a distância máxima (metros) para um jogador receber a bola em segurança quando está em desmarcação de ruptura? – obtivemos um valor médio (± desvio padrão) de 10.18 ± 5.70 metros. O quadro 3 expressa a distribuição das respostas por escalão etário treinado na época 2008/2009.



Cerca de 76.32% das opções dos participantes situaram-se entre os 6 e os 10 metros, correspondendo 21.05% a distâncias máximas entre os 12 e os 30 metros para que um atacante possa receber um passe em segurança quando está em deslocamento de ruptura, ou seja, num movimento de afastamento em relação ao portador da bola. Na sequência do que foi examinado para a questão 1, os dados obtidos na questão 2 também sugerem que a distância máxima de 15 metros indicada por Castelo (2004) para definir o “centro do jogo” possa ser excessiva para caracterizar as redes dinâmicas de comunicação e oposição que se estabelecem nas zonas próximas da bola. O factor segurança na recepção de um passe, embora seja influenciado por inúmeras variáveis (e.g., qualidade táctico-técnica dos atacantes e dos defensores, pressão dos defensores, missões tácticas dos jogadores, características do terreno de jogo, etc.), é fulcral para diferenciar as relações directas de comunicação ofensiva bem ou mal sucedidas. É num cenário de sucesso imediato das redes de comunicação (processo ofensivo) e contra-comunicação (processo defensivo) que devemos equacionar a definição de “centro do jogo”, pois só estas permitem conservar a posse de bola ou (re)conquistá-la.

A análise de conteúdo das respostas dos participantes permitiu-nos diferenciar três grandes categorias acerca da definição do “centro do jogo”: 1) Posição da bola no campo, englobando ou não jogadores; 2) Zona em torno da posição da bola onde os jogadores executam comportamentos táctico-técnicos para a conservar/conquistar; 3) Zona do campo que se mantém constante.



Como é possível apurar no quadro 4, a maioria dos treinadores não encara o “centro do jogo como a posição da bola ou uma zona específica e constante do terreno de jogo, mas sim como uma zona ao redor da bola onde se realizam comportamentos táctico-técnicos ofensivos e defensivos que permitem manter a posse de bola ou (re)conquistá-la. Esta definição de “centro de jogo” corrobora as que são aceites por outros autores, expressas na forma de sinónimos como “unidade estrutural funcional” (Castelo, 2004) ou “dimensão microtáctica do jogo” (Maçãs & Brito, 2004).

Para além disso, 82.05% dos participantes afirma utilizar o conceito de “centro do jogo” nas instruções que fornecem aos jogadores e os mesmos 82.05% confirmam socorrer-se deste conceito para preparar o processo de treino. A questão 4 – o conceito de “centro do jogo” encontra-se expresso nas instruções que dá aos jogadores? – permitiu-nos estabelecer, após análise do conteúdo das respostas positivas, as seguintes categorias sobre como os participantes exprimem essa ideia: 1) Orientação das acções táctico-técnicas dos jogadores que estão próximos da bola; 2) Referência espacial para a ocupação do terreno de jogo; 3) Meio para transmitir e avaliar o modelo de jogo/processos da equipa.



A distribuição das respostas pelas categorias permite observar uma predominância da orientação das acções táctico-técnicas dos jogadores que estão próximos da bola e que, por inerência, devem cumprir os princípios específicos do jogo, ou seja, aqueles que ocorrem no interior do “centro do jogo”. Por outro lado, os participantes confirmam recorrer à ideia de “centro do jogo” para preparar os seus treinos, enquadrando a sua perspectiva numa das seguintes categorias: 1) Elaboração de determinados exercícios e/ou sessões de treino; 2) Aprendizagem/aquisição dos princípios específicos do jogo; 3) Potenciação de comportamentos face ao modelo de jogo/processos da equipa.



Apesar de se constatar uma distribuição quase homogénea pelas categorias acima enunciadas, fica bem patente que o conceito de “centro do jogo” é importante no pensamento e na actividade quotidiana dos treinadores de futebol.

Conclusão
Os dados obtidos sugerem que o “centro do jogo” é um conceito importante no âmbito do processo de treino do futebol. A maior parte dos participantes define o “centro do jogo” como uma zona em redor da bola onde se realizam comportamentos táctico-técnicos ofensivos e defensivos que permitem manter a posse de bola ou (re)conquistá-la, corroborando alguns autores nacionais (Castelo, 2004; Maçãs & Brito, 2004). No entanto, a distância máxima em relação ao portador da bola proposta por Castelo (2004) para delimitar o “centro do jogo” (15 metros) não é partilhada pela maioria dos participantes no estudo. Estes apontam, predominantemente, distâncias máximas entre os 6 e os 10 metros para que um atacante possa receber a bola em segurança, quer esteja em deslocamento de apoio (aproximação) ou de ruptura (afastamento) face ao companheiro em posse de bola. Parece-nos evidente que são necessários mais estudos, qualitativos ou quantitativos, no intuito de prestar melhores esclarecimentos sobre o conceito de "centro do jogo" e a respectiva distância que o caracteriza enquanto unidade funcional do jogo de futebol.

Referências
Castelo, J. (2004). Futebol – Organização dinâmica do jogo. Lisboa: FMH Edições.
Côté, J., Salmela, J. H., Baria, A., & Russell, S. J. (1993). Organizing and interpreting unstructured qualitative data. The Sport Psychologist, 7, 127-137.
Culver, D. M., Gilbert, W. D., & Trudel, P. (2003). A decade of qualitative research in sport psychology journals: 1990-1999. The Sport Psychologist, 17, 1-15.
Maçãs, V., & Brito, J. J. (2004). Futebol: ensinar a decidir no jogo. Treino Desportivo, 25, 4-11.

28/08/2011

Aprender a rezar na Era da Técnica

"Aprender a rezar na Era da Técnica" é um romance de escritor português Gonçalo M. Tavares. É um dos designados livros de capa negra (tetralogia "O Reino") e venceu o prémio de melhor livro estrangeiro em França, no passado ano de 2010.

Lenz Buchmman é um cirurgião ambicioso e obcecado por manter a dignidade do apelido da sua família. Vive marcado por uma forte doutrina militar transmitida pelo seu pai Frederich e não tem desdém em esquecer os elos mais fracos da sua família; só os mais fortes - aqueles que se distinguem dos outros homens - interessam.

Da medicina, na qual a sua acção é de um-para-um no bloco operatório, passa para a política, onde tem a possibilidade de agir de um-para-muitos. Porém, a sua perversão leva-o, por vezes, a colocar a impulsividade emocional acima da racionalidade. A tragédia é inevitável.

O soberdo da escrita de Gonçalo M. Tavares é que muito do texto não é literal. As palavras adquirem significados que vão para além do seu sentido mais literal, quase como se fôssemos forçados a ler nas entrelinhas. A reflexão é uma constante.

Este é, sem dúvida, um livro que colocarei no espaço da "boa literatura" da minha (ainda) pequena biblioteca. Recomendo.

18/08/2011

Uma "Geração Coragem" de luva branca

A equipa nacional Sub-20 de Portugal está a disputar o Campeonato do Mundo da categoria, evento promovido pela FIFA, na Colômbia. Esta madrugada, os nossos compatriotas cometeram o feito de garantir o apuramento para a final da competição, em que irão defrontar o Brasil.

Aquela que o treinador Ilídio Vale já designou como a "Geração Coragem", longe de ser considerada como uma das favoritas no começo do certame, tem vindo a superar, jogo a jogo, as melhores expectativas dos mais optimistas.

Eu tenho acompanhado com especial atenção os desempenhos desta formação, desde o período preparatório para o mundial. Se nessa fase os resultados desportivos deixaram algo a desejar, a coesão do grupo e as competências demonstradas pelos jogadores denunciaram a forte possibilidade de, pelo menos, assegurarem a passagem aos oitavos-de-final da prova.

Na minha perspectiva, um dos factores que tem sido decisivo para o sucesso da selecção Sub-20 portuguesa na Colômbia é a excelente organização defensiva. Os jogadores estão permanentemente bem posicionados no terreno de jogo e apresentam uma atitude de entreajuda e cooperação fantástica. Podem não ter nomes sonantes como outras selecções, porém, como colectividade, têm superado todos os adversários com distinção e também patenteado, quer queiramos ou não, qualidade individual.

Independentemente da equipa das quinas Sub-20 ser ou não campeã mundial, esta geração já provou a muitos técnicos, dirigentes e administradores nacionais que o processo de formação desportiva (no caso, na modalidade futebol) desenvolvida no país - e não pretendo especificar clubes ou escolas de futebol - possui qualidade. Qualidade essa que, associada a procedimentos de prospecção de jovens talentos cada mais eficazes, aumenta bastante a probabilidade de se vir a obter jogadores mais competentes nas equipas seniores, tanto ao nível de clubes, como de selecções nacionais. Direi mesmo que se trata de uma "Geração Coragem" capaz de distribuir pelo país valentes chapadas de luva branca. Só não entende quem não quer.

Em vez de se passar, anualmente, atestados de incompetência aos treinadores e dirigentes que apostam na formação, contratando um elevado leque de jogadores sul-americanos ou de outros pontos do planeta a preços astronómicos, deveria-se observar com mais interesse os recursos humanos desenvolvidos no próprio clube. Quiçá não se encontra muito melhor, a custos mais controlados.

Esta geração já marcou uma posição essencial nos tempos que hoje correm. Por isso, merece todo o meu respeito e admiração. Força Portugal!


13/08/2011

Futebol: uma democracia empobrecida

Vivemos numa sociedade, tanto quanto sei, democrática. Cada um de nós tem direitos e deveres que deveriam ser invariáveis por cabeça. Parece, porém, que a democracia não é transversal a todos os sectores da nossa sociedade.

No desporto, particularmente no futebol, assiste-se frequentemente a uma tirania dos "maiores", sendo escassa a protecção dos "menores". Entenda-se que me refiro a clubes. Considerem o seguinte cenário meramente hipotético e, portanto, irreal, mas que é possível de ocorrer:

O Sebastião é um rapaz nascido em Monchique e aos 6 anos começou a praticar futebol no clube da sua terra: o Juventude Desportiva Monchiquense. Iniciou a sua formação no clube, completando uma época nos Petizes (Sub-7), duas nos Traquinas (Sub-9), uma como Benjamim B (Sub-10), uma nos Benjamins A (Sub-11) e duas nos Infantis (Sub-13). Como o Sebastião era um miúdo talentoso e que se destacava nos jogos da sua equipa, decidiu, conjuntamente com os seus pais, mudar para um clube com outra projecção e que lhe oferecia, supostamente, a possibilidade de competir num nível superior e evoluir mais favoravelmente na modalidade. Imagine-se, o Portimonense SC. Nesse seu novo clube, assina contrato de formação e cumpre duas épocas como Iniciado (Sub-15), duas nos Juvenis (Sub-17) e, finalmente, mais duas nos Juniores (Sub-19). Por acaso, no último ano de júnior, jogou alguns jogos pelos seniores na II Liga e despertou a cobiça de clubes estrangeiros. Os olheiros do Manchester United, sempre atentos, recomendaram-no a Sir Alex Ferguson, que decidiu pela sua contratação; pagou 5.000.000.000 Euros pelo rapaz.

Nesta situação, há direitos de formação envolvidos no negócio. No entanto, a lei portuguesa prevê que o primeiro clube do jovem, responsável por mais de 50% da sua formação, não receba qualquer contrapartida financeira. Já o outro clube, aquele com maior projecção, receberá não apenas uma soma avultada pela transferência, como ainda arrecadará na íntegra os direitos de formação do indivíduo. Soa a injusto, mas é a realidade que temos.

Numa assembleia da Associação de Futebol do Algarve, o JD Monchiquense tem direito a 7 votos; o Portimonense, por exemplo, tem direito a 77. Por esta ordem de ideias, eu deveria ter direito a um voto nas Legislativas, enquanto o senhor Pinto Balsemão, por ser um sujeito mais influente que eu no nosso país, deveria ter direito a 100 votos.

Os grandes "comem" os mais pequenos sem desdém, com a conivência da democracia, de direitos e deveres empobrecidos. A intenção de "tornar mais igual" converteu-se no inverso. Enquanto o mundo for movido a dinheiro e interesses, nunca haveremos de viver em democracia. A peneira continuará a tapar o Sol, mas jamais totalmente.


20/07/2011

Orgulhosamente Monchiquense

Quem me conhece sabe que sou oriundo da linda Vila de Monchique. Adoro a minha terra e não admito que lhe apontem defeitos, apesar de, como qualquer outra coisa, não se ver livre deles.

Após concluir a licenciatura, aproveitei a oportunidade de regressar à terra natal e agarrei-a com unhas e dentes. Cheguei motivado para fazer algo por Monchique e, mesmo que pouco, contribuir para melhorar e elevar o concelho. É essencialmente por isso que há cerca de seis anos integro a estrutura técnica do clube local - Juventude Desportiva Monchiquense - o meu clube de sempre. Sou sócio e foi lá que dei os primeiros passos nos meandros do Desporto (Futebol e Karaté), mal sabia que um dia seria professor de Educação Física.

Têm surgido outras possibilidades, mas este é o modo mais puro com que retribuo todo o positivismo que Monchique me proporcionou durante a infância e a juventude. Não somente pelo lindo meio físico, mas sobretudo pela massa humana que lhe concede especial significado.

Conjuntamente com outros dignos interessados (poucos mas bons, atrevo-me a escrever) estabelecemos um rumo: devolver o JDM aos monchiquenses e apostar forte da formação. Uma equipa, na verdadeira acepção da palavra, que limou inúmeras arestas, poliu superfícies rugosas e fez brilhar algumas pedras preciosas. As mesmas que, infelizmente, não brilharam tanto nas mãos de outrém com, supostamente, melhores intenções e/ou futuros. Penso para mim que "o bom filho a casa torna", mas não só não tornaram, como toldaram mentalidades. O projecto assim perde piada, pois deixamos de lutar em prol do mesmo.

Uma terra como esta merece que se erga aquela força aglutinadora que galga quaisquer barreiras, de que índole sejam, à sua passagem: o orgulho de pertença a uma comunidade. Sinto que falhámos a esse nível; não transmitimos convenientemente o orgulho de ser de Monchique, o orgulho de lutar por Monchique, a real essência do Orgulho Monchiquense.

Caso contrário, não partiriam.

19/06/2011

Os Pais como Exemplos Tristes

Os pais são agentes formativos de elevada referência para as crianças. Salvo algumas excepções, é com eles que os miúdos acabam por passar mais tempo desde a primeira infância até à adolescência. Parece-me inegável que a educação dos mais pequenos seja bastante influenciada pelos exemplos que são dados, em casa ou fora dela, pelas figuras adultas de referência mais chegadas a si: os pais.

Particularmente no processo de formação desportiva, é demasiado vulgar encontrarmos maus exemplos daquilo que deve ser o comportamento ou a atitude de um encarregado de educação. Há alguns dias atrás, estava a participar com os meus jovens num torneio e deparei-me com uma cena profundamente triste e hilariante. Na final de Benjamins A (Sub-11) do dito torneio, uma das equipas vencia por 3-0 a outra finalista, curiosamente uma formação de um grande clube de Portugal. Na segunda parte, as circunstâncias modificaram-se e, perto do fim do jogo, o resultado chegou ao 3-3. Um dos jogadores da equipa que tinha estado a vencer sofreu uma falta (dura, por sinal) e um dos pais levantou-se na bancada e gritou: "Levanta-te, pá, agora já não estás a vencer. Estás a queimar tempo para quê?". Atenção, que estávamos a falar de crianças com 10-11 anos de idade. Ora, o pai do miúdo magoado também se levantou e o verniz começou a estalar.

Mais tarde, num contra-ataque, a reviravolta consumou-se e a equipa que perdia 3-0, venceu o torneio por 3-4. Enquanto as crianças faziam a festa, os pais "vencedores" provocavam os outros. Daí até à pancadaria geral foi um estalar de dedos: mulheres a ser arrastadas pelos cabelos bancada abaixo, homens ao soco e ao pontapé, etc. As crianças "vencedoras" pararam de fazer a festa e as "vencidas" pararam de chorar para ver o "espectáculo". As crianças/jovens que estavam na bancada tiveram de se afastar para não serem agredidas também. Um triste exemplo daquilo que é a nossa sociedade actual, onde não imperam valores, nem princípios morais e éticos.

Senti-me envergonhado com o que assisti e cada vez mais constato que, tal como um professor ou treinador tem de tirar um curso para educar ou formar, assim os pais deveriam fazer o mesmo. Não confio no bom senso da nossa sociedade, nem tão pouco naquela que deveria ser uma capacidade natural de educar por intuição. O desejo de vencer, de ser superior, está de tal modo incrustrado nas mentalidades que o respeito pelo outro desvanece-se a cada dia que passa. Esta é a verdadeira crise actual. Um fenómeno que só ultrapassaremos quando tivermos realmente de nos unir para sobreviver.

07/06/2011

O Sétimo Selo

O Sétimo Selo é um romance de José Rodrigues dos Santos. O texto inclui a divulgação de uma série de problemas mundiais relacionada com a dependência excessiva da produção petrolífera e os danos que tal acarreta no nosso meio ambiente, designadamente mediante o aquecimento global.


O enredo é cativante e remete-nos para a preponderância de fortes interesses económicos, conducentes a que muitos países descurem o que poderá ser o final da civilização humana, tal como a conhecemos hoje. A reflexão sobre o futuro do nosso planeta é uma constante; a sobrevivência da Terra depende da implementação de novas fontes energéticas menos poluentes, até porque as reservas de petróleo são finitas e já cruzaram o pico de produção. Por tudo isto, é um livro cuja leitura recomendo.

04/06/2011

Versos de uma Vida por José Gomes Bartolomeu



No passado dia 2 de Junho de 2011 (Quinta-feira), dia da Vila de Monchique, a Junta de Freguesia de Monchique promoveu diversas iniciativas interessantes. Entre elas, foi apresentando o livro "Versos de uma Vida" de José Gomes Bartolomeu. Fizeram-me o convite para fazer parte do painel de apresentação, facto que aceitei com enorme prazer. Em seguida, deixo em registo as palavras endereçadas à audiência:

Há cerca de cinco anos que eu dou aulas de Ginástica Sénior na Santa Casa da Misericórdia de Monchique, embora o Sr. José Gomes Bartolomeu apenas as frequente há pouco mais de três anos. Cedo se revelou uma pessoa calma, pacata e bom conversador. Quebrado que foi o gelo inicial do primeiro trimestre, o Sr. Zé Gomes, como por cá é conhecido, cometeu a proeza de recitar uma glosa sua, portanto, 44 versos (4 do mote e 40 das 4 estrofes; cada estrofe contém 10 versos) sem hesitar uma palavra que fosse. Fiquei estupefacto! Pelo entusiasmo com que o fazia e pela capacidade de memória absolutamente invulgar para uma pessoa de 80 anos. Por isso, captou a minha atenção e admiração.

Esporadicamente, lembrava-se e lá recitava uma das suas obras, até que, mais recentemente, começou a levar as suas quadras em papel para me mostrar nas aulas. Porém, fazia-o de forma humilde, reconhecendo os seus erros. Isso nunca o desmotivou e continuou empenhado no seu ofício. Os outros residentes do lar costumam dizer que o Sr. Zé Gomes está no escritório a escrever. O escritório é o seu quarto. Escrever é mais do que um simples passatempo, trata-se de uma paixão. Para além do talento do Sr. Zé Gomes, e por reconhecer que as suas memórias escritas são património histórico-cultural do concelho de Monchique, foi a sua enorme paixão pela escrita que me levou a propor à Junta de Freguesia de Monchique que se fizesse um livro com algumas das suas glosas.

Daí à obra que hoje temos pela frente foi um pequeno salto. Já agora, felicito o Dr. Carlos Abafa, a Dr. Ana Paula Almeida e o Dr. Eduardo Duarte pelo excelente trabalho na composição e na edição do livro: está simplesmente espectacular. Acreditem que vale mesmo a pena ler, pois contém versos lindíssimos. Dito isto, e para finalizar a minha intervenção, o que acho mais interessante é que a vida desta obra, que é cultura, brota da simplicidade e da perseverança de José Gomes Bartolomeu, um poeta popular, isto é, um poeta do povo e, acima de tudo, um poeta monchiquense.

Muito obrigado pela vossa atenção!

29/05/2011

A Final em Palestra

Disputar uma final é sempre especial. Na minha perspectiva, torna-se ainda mais especial quando o fazemos representando o "nosso" clube de sempre; aquele que nos ajudou a crescer, pessoal e desportivamente. Infelizmente, nunca tive oportunidade de o fazer enquanto jogador federado, porém ontem fi-lo enquanto treinador da equipa de Infantis (Sub-13) do Juventude Desportiva Monchiquense.

Por isso, e sabendo da importância das palavras que se transmitem antes do evento, preparei cuidadosamente a minha intervenção, na esperança que pudessem estimular as melhores atitudes e comportamentos dos jovens numa situação competitiva excepcionalmente emotiva. Acredito que o teor da palestra é um factor que qualquer treinador não deve negligenciar e, como tal, decidi partilhar a minha experiência neste espaço.

Habitualmente, preparo a palestra para um máximo de 15 minutos; mais do que isso, satura os miúdos e a mensagem final pouco é assimilada. Costumo ainda dividir a palestra inicial em três fases: introdutória, estratégico-táctica e motivacional. A fase introdutória (2-3 minutos) permite-me contextualizar a participação no jogo em causa, em função da actualidade desportiva e das competências trabalhadas e adquiridas ao longo da época. Na fase estratégico-táctica (7-8 minutos), enuncio o "sete" inicial, as missões tácticas dos jogadores e os métodos ofensivo e defensivo em diversas circunstâncias do jogo (processo ofensivo e defensivo, pontapés de canto, pontapés livres e lançamentos laterais). Por norma, focalizo sempre um ou dois aspectos da equipa adversária, caso tenha na minha posse alguma informação sobre a mesma. A fase motivacional (5 minutos) serve para despertar os jogadores e deve conter uma mensagem de optimismo e crença nas suas capacidades individuais e, fundamentalmente, na qualidade do colectivo. O apelo, por um lado, deve estimular o organismo para a acção sem, por outro lado, responsabilizar em excesso, pois pode gerar muita ansiedade. Terminar com simples expressões como um "divirtam-se no jogo" ou "sintam prazer naquilo que fazem" tem o condão de acalmar estados demasiado excitados.

Assim, deixo o exemplo da final do Torneio Complementar de Futebol 7, na qual os "nossos" infantis venceram a boa equipa do Clube de Futebol "Os Armacenenses" (crónica do jogo aqui):

Fase introdutória: "Hoje, dia 28 de Maio de 2011, vamos jogar esta final, precisamente no mesmo dia que o Barcelona e o Manchester United jogam a final da Liga dos Campeões. Portanto, é um dia tão especial para nós, como é para eles: é a nossa Liga dos Campeões! Apesar disso, e de se tratar de uma final, quero que percebam que a aprendizagem e a evolução que registaram ao longo da época já ninguém vos tira. E foi considerável! Não são a mesma equipa de Setembro passado; estão, globalmente, muito melhores e capazes para dar excelentes respostas em situações como esta". Os vossos desempenhos a partir da primeira volta da 1ª fase têm sido sempre em crescendo, exemplo disso são as prestações verificadas na 2ª fase, nos quartos de final e na meia-final. Acima de tudo, entendam que funcionam muito melhor colectivamente e isso só se obtém com muito empenho, espírito de sacrifício e solidariedade".

Fase estratégico-táctica: (por se tratar de aspectos muito específicos da nossa organização colectiva, julgo que não faz muito sentido aprofundar neste contexto).

Fase motivacional: "Qualquer desportista quando entra em competição quer vencer. É bem verdade que devemos saber ganhar e perder, mas não me digam que gostam de perder, porque isso é uma atitude totalmente anti-desportiva. Não, vocês, tal como a equipa técnica, querem vencer e vão entrar em campo com uma postura vencedora. No regulamento da Associação de Futebol do Algarve terminam com a seguinte referência «haverá troféu e medalhas para os vencedores» e, reparem, não contempla qualquer brinde para os derrotados. Pois é, jovens, aos 12/13 anos têm oportunidade de vencer um título distrital, coisa que o nosso clube já não conquista há mais do que uma década; imaginem quantas pessoas não gostariam de entrar naquele campo e dar o máximo para ficar na história do JDM e do concelho de Monchique? Se eu tivesse essa possibilidade, trocava agora com qualquer um de vocês: entrava a correr dentro do campo. Mas não o posso fazer, por isso é que acredito e tenho muita fé que vocês o vão fazer por mim e melhor do que eu faria na vossa idade. ACREDITEM em vós, ACREDITEM na equipa, joguem como se fossem só um e lembrem-se que uma situação desta, não raras vezes, só ocorre uma vez na vida. Antes de irmos aquecer, só vos peço que se divirtam, tenham prazer em jogar futebol e que lutem, durante os 60 minutos, pelo vosso sonho. Atitude, malta; força, JDM!"

18/05/2011

Linha de Passe de Parabéns!


O blog Linha de Passe comemora hoje cinco anos de existência. Após 231 "posts" e 32 658 visitas, posso congratular-me por ter aguentado este espaço virtual durante meia década. Nem sempre é fácil mantê-lo actualizado, mas vou-me esforçando para isso. A qualidade dos textos também é variável, em função da minha disponibilidade e inspiração. Há largos dias que simplesmente não sai nada de jeito.

Acima de tudo, agradeço a todos os leitores, assíduos ou apenas de passagem, pelo tempo dispendido a ler algo que, de alguma forma, me é significativo. Se para vós também o foi, embora concordem ou não com as ideias expostas, então julgo que o objectivo do Linha de Passe tem sido alcançado.

Muito obrigado pela vossa atenção!

28/04/2011

Pedra no Sapato de Mourinho

Como qualquer amante de futebol, assisti com particular atenção à primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, entre Real Madrid e Barcelona. Observar o Barcelona jogar é algo que me delicia, porém, por uma questão de patriotismo, torci pelo Real Madrid.

A estratégia de Mourinho foi idêntica à empregue na final da Taça do Rei: jogar com um bloco defensivo baixo, com todos os jogadores atrás da linha da bola e fazendo uma elevada pressão sobre os jogadores mais criativos do Barcelona; após recuperar a posse de bola, a equipa recorre predominantemente ao contra-ataque ou ao ataque rápido, na tentativa de explorar a velocidade de Di Maria e Cristiano Ronaldo. Resultou em pleno na Taça do Rei, mas ontem o Barcelona, mesmo sem Iniesta, foi uma equipa demasiado competente para o Real.



Embora possua jogadores fantásticos individualmente, são os comportamentos colectivos da equipa do Barcelona que a tornam como a melhor do mundo. Não sobressai somente a simplicidade de processos inerente à posse de bola (um estilo de jogo rápido, praticado a um ou dois toques e extraordinariamente eficaz na criação de espaços vazios), como também o fantástico posicionamento dos jogadores em processos ofensivo e defensivo, que permite uma ocupação constantemente equilibrada do espaço de jogo.

A questão "Como vencer o Barcelona?" é complexa e ocupou a equipa técnica madrilena com horas e horas de observação, estudo e discussão. A estratégia adoptada por Mourinho reconhece a superioridade dos catalães. Mourinho respeita e muito, se calhar até demasiado, o Barcelona e fá-lo porque os 5-0 em Camp Nou ainda estão presentes no seu consciente. Apesar disso, até o melhor do mundo não está imune a erros dos seus jogadores; ontem, Pepe errou ao abordar o lance com Dani Alves de forma impetuosa e foi bem expulso. Se contra onze, o Barcelona já detinha 71% (!) de posse de bola e quase o quádruplo de passes precisos que o Real Madrid, contra dez tornou-se uma equipa mais agressiva a explorar o espaço no meio-campo do Real Madrid e o um-contra-um no sector defensivo visitado. Nestas circunstâncias, o “colectivo” do Barcelona, em prol de um soberbo Messi, torna-se letal. Assim sucedeu!

Mas não existe outras alternativas para o Real Madrid? Sim, uma delas passaria por incluir jogadores mais acutilantes do ponto de vista ofensivo, mas com limitações no cumprimento de missões tácticas defensivas (por exemplo, Mesut Özil e Káká). Assumo que seria um modo de possuir mais qualidade na posse de bola, de criar mais situações de finalização e jogar olhos nos olhos com o adversário, ainda que com riscos elevados diante de uma formação tão forte colectivamente. Em desvantagem na eliminatória por 2-0, o caminho da formação de Mourinho passa, inevitavelmente, por ter de concretizar golos. Para mim, e porque julgo que nada está resolvido, deixa-me antever uma segunda mão muito mais interessante.

21/04/2011

Experienciar é Aprender

Enquanto o graúdo se preocupava em registar o acontecimento para a posterioridade, os poucos miúdos que se apresentaram para treinar, logo se atreveram a jogar "futebol no gelo"; uma novidade que raramente terão a oportunidade de vivenciar.



A motivação era evidente e, perante a elevada probabilidade do treino ser cancelado, deixei-os ficar entretidos. Afinal de contas, experienciar também é aprender.

Monchique, 21 de Abril de 2011


Foto: Parque Desportivo do JD Monchiquense coberto de granizo.

09/04/2011

Jerusálem


Jerusalém é um romance de escritor português Gonçalo M. Tavares. O enredo varre conceitos como a dor, o conhecimento, a loucura, a tragédia e, de forma implícita, a justiça. A dor de Mylia e a sua loucura; a esquizofrenia do seu amante Ernst; a busca pelo conhecimento do reconhecido investigador, também casado com Mylia, Theodor Busbeck; o seu filho ilegítimo, Kaas Busbeck; a mente assassina do veterano de guerra Hinnerk; a prostituição de Hanna, são parte constituinte de um argumento denso e fatalista.


Os diversos personagens, com as suas peculariedades, em algum ponto da narrativa, acabam por se encontrar. O desfecho trouxe-me sentimentos como a estupefacção e a paz. Não é um típico romance em que tudo termina bem; no meu ponto de vista, o conceito de justiça brinda o leitor como uma surpresa inesperada. O livro venceu o Prémio LER/Millenium BCP (2004), o Prémio Literário José Saramago (2005) e o Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa (2007).

03/04/2011

O Velho que Lia Romances de Amor

O Velho que Lia Romances de Amor do chileno Luis Sepúlveda foi o livro seleccionado para a final do concurso "Pares da Leitura" (Projecto aLer+), organizado pela Escola Básica 2,3 de Monchique.

Como participante tive de ler a obra, desconhecendo, por completo, o seu autor. Maravilhou-me o modo como o escritor retrata a antítese entre os seres humanos que se degladiam por destruir o "pulmão" do planeta Terra (floresta Amazónica) e outros que vivem e protegem o que é o seu habitat natural: os índios shuar.

Antonio José Bolívar Proaño é a personagem principal do enredo, um velho de cerca de setenta anos que foi colonizar a Amazónia em troca de uns hectares de terra e de apoio técnico que nunca chegaria. Com a sua esposa (Dolores) é forçado a experienciar os horrores de tão drástica mudança. Após a morte da companheira, o Velho aprende com os índios shuar a sobreviver na floresta. Quando se apercebe que está a envelhecer, Antonio José Bolívar faz a descoberta mais importante da sua vida: sabe ler. O que mais gosta é de romances de amor.

Apesar de apreciar o sossego da sua choça e o tempo passado na leitura, começam a surgir uma série de acontecimentos estranhos (mortes de pesquisadores de oiro e colonos) a que só ele vai sabendo dar resposta. O Velho informa o administrador da circunscrição que se trata de uma onça transtornada de dor; um garimpeiro matou-lhe as crias e, eventualmente, feriu o macho. Para travar a tragédia, o administrador organiza uma expedição que, obviamente, conta com a colaboração do Velho. Por fim, travado um duelo mortífero com o animal, em que Antonio José Bolívar não se considera como um vencedor digno, pois fez uso de uma espingarda, regressa ao povoado (El Idilio) e aos seus "romances de amor que, com palavras tão bonitas, às vezes o faziam esquecer a bárbarie humana".

27/03/2011

O pormenor na génese de um "saber fazer" colectivo

No futebol, a utilização de caneleiras no processo de treino não é consensual. Constata-se, inclusivamente, existir uma espécie de aversão generalizada a este material, que não possui outro fim que não seja a protecção das pernas dos praticantes.

Foto: Jogadores da equipa sénior do SLB a treinar... sem caneleiras.

O treino assume, por natureza, o objectivo primordial de preparar a equipa para o fenómeno competitivo. A especificidade, princípio metodológico amplamente difundido com as correntes ou ideias contemporâneas da periodização do treino, parece não adquirir expressão no simples uso desta protecção. Enquanto estudante na área de Metodologia do Treino - especialidade Futebol, o professor advertia que não deixava ninguém treinar sem caneleiras, precisamente porque as circunstâncias do treino devem assemelhar-se ao máximo às particularidades das diversas situações de jogo.

Então, interrogo-me porque é que vislumbro, constantemente, jogadores de alto rendimento a descurar este pequeno pormenor em treino. Neste contexto, deixa de haver contacto físico? Não ocorrem choques? A desculpa esfarrapada de ser incómodo serve de pretexto para não "consciencializar" o jogador a utilizar o material? Durante um jogo, admitindo que seja incómodo - eu não o considero - é obrigatório; no treino, deveria ser igual. Sejamos coerentes.

Não sei se sou eu que sou mesquinho, porém, é um aspecto que me cria uma confusão tremenda. Nas minhas equipas, todos usam caneleiras; é regra. Nas equipas dos outros, quem gere os procedimentos disciplinares não sou eu, o que não me impede de discordar ou concordar com a adopção de determinadas normas de conduta.
Acima de tudo, eu proponho que qualquer norma como a exemplificada seja aplicada de forma coerente e convenientemente explicada ao jogador. A mera obrigação não pode transcender o seu entendimento e posterior respeito. É através deste "código de acção" que o grupo formará a linguagem universal de base, subjacente à sua evolução no "saber", no "fazer" e, sobretudo, no "saber fazer" colectivo. É neste sentido que julgo ser perigoso neglicenciar o "pormenor".

06/03/2011

Núcleo de Futebol da FMH

Hoje foi confrontado com um pedido de amizade no Facebook: "Núcleo de Futebol quer ser teu amigo". Curioso, fui ver de quem se tratava e, tal não foi o meu espanto, quando me apercebi que ex-alunos da Faculdade de Motricidade Humana, alguns meus colegas na instituição, tiveram a brilhante iniciativa de formar um Núcleo de Futebol com a preocupação de debater e melhorar a qualidade dos procedimentos e dos processos inerentes ao fenómeno futebol.

Foto: Núcleo de Futebol da FMH (fonte: Facebook).

Deram os primeiros passos com a organização de seminários, conferências e palestras, convidando figuras de reconhecida competência do futebol/desporto nacional. Porém, o que mais me deliciou, na verdade acepção da palavra, foi constatar que publicaram recentemente a primeira edição da NFFMH Magazine e com artigos de qualidade (download gratuito aqui).

Novas preocupações, novos anseios e um novo paradigma em prol de um futuro melhor para o futebol e para o desporto nacional.

Os meus sinceros parabéns aos dinamizadores do Núcleo de Futebol da FMH.

02/03/2011

Gonçalo M. Tavares: Um Nobel Professor?

Gonçalo M. Tavares é um escritor português contemporâneo. Apesar de ter apenas 41 anos, conta já com alguns prémios nacionais e internacionais. Conheci-o enquanto professor da cadeira de Epistemologia da Motricidade Humana na faculdade (FMH). Os seus métodos de ensino fugiam bastante do convencional. Nada de exames e leituras irreflectidas. Em cada semana tinhamos de apresentar um trabalho original, fosse uma pintura, um texto ou um filme, sobre uma temática em que o "corpo" estivesse presente (por exemplo, utopia e corpo).

Foto: Gonçalo M. Tavares


Nas suas aulas sentiamo-nos livres, longe das amarras de um programa a cumprir em x tempo. O que aprendi? Não sei ao certo, talvez muito ou, se calhar, nada, mas pude reflectir e, acima de tudo, ser criativo. Na altura, liamos um livro seu: "O Senhor Valéry" (Caminho, 2002). Lembro-me particularmente da seguinte passagem:

O senhor Valéry conhecia pessoas arrogantes e não gostava delas.

Para o senhor Valéry arrogante era a pessoa que se julgava melhor que a sua tarefa: quer esta fosse servir à mesa, escrever, ou pintar um quadro.

O senhor Valéry explicava:

Conheço pessoas que andam na rua como se fizessem um favor ao acto de andar. É perigoso julgarmo-nos maiores que a nossa tarefa – explicava o senhor Valéry.

- Se a nossa tarefa for fixar um prego na parede...

(...)

-...e se nos julgarmos mais inteligentes que essa tarefa, corremos o risco de falhar o prego, acertando em cheio no nosso próprio dedo.

- Deste modo – concluía o senhor Valéry – eu considero-me, em qualquer situação, ao mesmo nível da tarefa. Nem sou o seu chefe, nem o seu empregado. Eu e a minha tarefa somos coisas com igual inteligência que num determinado momento partilham o Destino. E é só.

Compreendi a razão do senhor Valéry e atestei o brilhantismo do estranho Gonçalo M. Tavares, aquele que, mais tarde, José Saramago vaticinou como o próximo português Nobel da Literatura.

Perspectiva Circunstancial

Figura: Povo de Baixo, Alferce (10h40)

As circunstâncias actuais levam-me a reparar, mais do que nunca, nos chamados gastos desnecessários, designadamente quando se repetem dia após dia.

OFF, se faz favor!

22/02/2011

Um Dia de Sorte!

Um aluno do 4º Ano chegou à minha aula de natação e disparou triunfante:
 
- Professor, hoje é o meu dia da sorte!
 
- Sim? Porquê? - questionei curioso.
 
- Ainda há pouco estava a jogar Basquetebol na aula de "ginástica", marquei um "golo" de longe e roubei a bola a dois colegas. O professor disse-me que foi muito bom - acrescentou.
 
- Mas isso é tudo sorte?
 
- A sorte não é por isso, professor - baralhou-me todo.
 
- Hum? Então?
 
- Foi porque toquei no umbigo de manhã. Dizem que tocar no umbigo dá sorte.
 
Parei e fitei-o com cara de parvo, enquanto partia sorridente no seu esparguete para 64 metros em batimento de pernas "Costas".

15/02/2011

Lucrar em Alta com um Povo em Baixa

Numa reportagem recente foram anunciados os lucros da GALP em 2010, lucros esses superiores 43% (!) em relação ao ano transacto. Um dos administradores da empresa esclareceu, sem rodeios, que tais resultados se devem ao aumento do preço dos combustíveis.

Ora, longe de ser um "expert" na matéria, facilmente constato que a diferença entre o preço de compra e o de venda pela empresa aumentou imenso. Como na sociedade contemporânea o carro representa para muitos um bem de primeira necessidade (para ir para o trabalho ou levar os filhos à escola, etc.), questiono até que ponto não deveria haver um controlo ou uma regulação dos exurbitantes preços praticados em Portugal? Faz sentido que empresas como a GALP, BP, Repsol e afins lucrem de maneira tão evidente com a desgraça de todos nós?

Fonte: http://raim.blogspot.com

Sempre que vou abastecer - em cada duas ou três semanas - fico estarrecido com o preço do gasóleo uns cêntimos mais caro, o que, portanto, reverte para a percentagem absurda de lucro das gasolineiras. Já que nenhuma autoridade competente mexe palha, porque parece que também lhes convém, vou deixar que a estação da chuva e do frio passe para mudar de meio de transporte.

O pior é, como diz o povo, que tempo é dinheiro e este, infelizmente, não estica nem dá para tudo. E voltamos nós para o automóvel.

08/02/2011

O Modelo LTAD, com especial referência aos Jogos Desportivos Colectivos


O modelo LTAD (Long-Term Athlete Development) foi proposto por Stafford (2005), baseando-se nos trabalhos de Balyi, e engloba as seguintes etapas: 1) fundamental, 2) aprender a treinar, 3) treinar para treinar, 4) treinar para competir, 5) treinar para ganhar e 6) retenção. É um modelo que não consagra somente etapas de formação do jovem atleta, mas para toda a vida. Os seus intentos primam por maximizar o potencial individual de cada atleta, como também, e para a maioria que não atinge níveis de elite, promover os benefícios de um envolvimento de longa duração no desporto (fig. 1).



Fig. 1. Etapas do Modelo LTAD (adaptado de Stafford, 2005)
Como podemos observar, a primeira etapa é a FUNdamental, cujos desígnios assentam na prescrição de exercícios e movimentos de cariz multilateral, divertidos e que promovam aprendizagem motora. Implica uma formação básica universal, de preferência praticando um vasto leque de actividades físicas e desportivas, podendo durar pelo menos dois anos. O autor faz a distinção entre rapazes (6-8 anos) e raparigas (6-9 anos). O elemento diversão (“fun”) é essencial nesta primeira etapa. A progressão de habilidades motoras básicas em actividades ou jogos divertidos e bem estruturados vão lançar as bases para que as subsequentes habilidades e competências específicas de um desporto sejam desenvolvidas.

Posteriormente, surge a etapa aprender a treinar. Stafford (2005) associa esta etapa às idades 8-11 anos (raparigas) e 9-12 anos (rapazes). É uma fase dominada pela aprendizagem de habilidades motoras específicas das modalidades – as acções técnicas nas modalidades individuais ou acções táctico-técnicas nos JDC (jogos reduzidos/condicionados, princípios específicos do jogo) – porém, de igual modo, componentes coordenativas multilaterais, de forma a aperfeiçoar os pré-requisitos do rendimento psico-cognitivo e neuromuscular. É nesta etapa que devem ser introduzidas as habilidades motoras e as capacidades inerentes à(s) actividade(s) preferida(s), sucedendo em ambientes de prática que suscitem prazer e fomentem a descoberta guiada. Deve ser encarada como a principal etapa de aprendizagem, na medida em que engloba fases sensíveis, críticas mesmo, na qual ocorre uma acelerada adaptação ao processo de treino. Está, portanto, inerente a aquisição de habilidades motoras básicas e comuns a diversos desportos, ainda que, de acordo com Stafford (2005), se verifique uma redução do número de actividades/desportos praticados, sendo recomendada a prática de três actividades distintas. A ênfase deve situar-se no aprender a treinar e a praticar e não no resultado do desempenho da criança, ainda que o elemento “competição” também deva ser introduzido (rácio treino-competição de 80:20).

Segundo Stafford (2005), a próxima etapa (aprender a treinar) sucede nos rapazes entre os 12 e os 16 anos e nas raparigas entre os 11 e os 15 anos. O autor alega que esta etapa cobre um período peculiarmente sensível para o desenvolvimento físico e de habilidades técnicas e tácticas. Para além disso, esta pode ser considerada a principal fase para o desenvolvimento da condição física, nomeadamente da resistência aeróbia e da força, sendo o Pico de Velocidade em Altura (PVA) um ponto de referência a tomar sempre em consideração. Nos JDC, é nesta etapa que o conteúdo do treino se centra no desenvolvimento e consolidação de acções técnicas ou habilidades específicas de um desporto, constituindo também a etapa inicial de preparação táctica, naturalmente, em níveis básicos e intermédios. Stafford (2005) admite que esta etapa possa durar entre três a cinco anos, ocorrendo um aumento progressivo do treino específico em relação ao treino geral e da importância relativa da competição no processo de formação da criança/jovem (rácio treino-competição de 60:40).

O modelo LTAD contempla, seguidamente, a etapa treinar para competir, envolvendo rapazes entre os 16 e os 18 anos e raparigas entre os 15 e os 17 anos de idade. Trata-se de uma etapa que deve fornecer aos potenciais atletas oportunidades de se prepararem conveniente para a situação de competição. A monitorização dos efeitos do treino e da competição afigura-se como indispensável, pois é determinante identificar qualidades e limitações individuais que proporcionam, em última instância, a optimização do desenvolvimento do atleta. No âmbito dos JDC, é incluída a preparação técnica, táctica e física específica do desporto, implicando a preparação táctica numa posição específica (especialização), a aplicação dos princípios específicos e gerais dos processos ofensivos e defensivos, o planeamento e avaliação da competição e a observação e adaptação às equipas adversárias. É nesta etapa que a competição começa a ganhar preponderância no processo de formação, com um rácio treino-competição de 40:60 (Stafford, 2005).

O modelo LTAD engloba ainda uma etapa final em relação à preparação de atleta com capacidade para atingir níveis elevados de rendimento: a etapa treinar para ganhar. Embora seja variável de modalidade para modalidade, Stafford (2005) sugere que ocorre a partir dos 18 anos para rapazes e a partir dos 17 anos para raparigas. No cômputo geral, procura-se maximizar a performance, “picos” de forma, assumindo que as capacidades relevantes para o desempenho já foram desenvolvidas. No que concerne aos JDC verifica-se, ao nível da táctica, um desenvolvimento efectivo de estratégias competitivas, o “jogar” em função dos pontos fortes e fracos do adversário, e a modelação dos aspectos de performance em situação de treino.

Por último, a etapa de retenção, cujo principal objectivo passa por reter atletas em fim de carreira na esfera desportiva, atribuindo-lhes papéis distintos (dirigentes, treinadores, funcionários, sócios, etc.). Apesar de todas as etapas que constituem o modelo LTAD serem relevantes, as três primeiras são de vital importância na globalidade do processo, daí serem consideradas como as etapas de formação de base.

Especialmente nos JDC, o desenvolvimento da tomada de decisão inerente ao acto táctico, ou seja, à resolução dos problemas situacionais do jogo, não pode ser deixado ao acaso. Pelo contrário, deve ser uma parte integrante e permanente de todo o processo de formação do jovem, sendo a parcela do treino da táctica, no tempo total de treino, determinada pela importância relativa desta componente na estrutura de rendimento do jogo. Importa ainda ressalvar que todos os programas de treino, competição e recuperação devem ser delineados em função do desenvolvimento individual e não, como é comum, relativamente à idade cronológica dos atletas (Stafford, 2005).

Referências:

Almeida, C. H. (2009). O microciclo padrão típico da periodização táctica no treino de jovens futebolistas do género masculino, dos escalões Escolas (Sub-11) e Infantis (Sub-13): Factores condicionantes e eventuais soluções. Trabalho não publicado de Planeamento do Treino do VI Mestrado em Treino do Jovem Atleta. Lisboa: Faculdade de Motricidade Humana.
Stafford, I. (2005). Coaching for long-term athlete development: To improve participation and performance in sport. Leeds: Sports Coach UK.

18/01/2011

Os Desperdícios na Formação

Logo para começar o dia, um título no SAPO desporto chamou-me a atenção. Parte do artigo expunha o seguinte:

"Os clubes da Liga portuguesa de futebol são os que menos jogadores aproveitam para as formações principais, segundo o «Estudo demográfico dos futebolistas na Europa». Esta investigação, do Observatório dos Jogadores Profissionais de Futebol (OJPF), a que a Agência Lusa teve acesso, conclui que a utilização de jogadores formados nos clubes lusos caiu 1,3 por cento, comparativamente a 2009. Apenas 6,4 por cento dos jogadores dos emblemas lusos alinharam nos respectivos clubes pelo menos três anos, entre os 15 e os 21 anos. Este é um valor muito abaixo da média europeia - quase um em cada quatro jogadores fizeram a formação no clube actual (23,33 por cento)."

Os restícios dos "desperdícios na formação" podem ser lidos aqui.

16/01/2011

A Crise

Não se fala ou escreve de outra coisa. A crise comanda as nossas vidas de uma forma tão profunda que nem tão cedo a esqueceremos. Os analistas, economistas e todos os demais funcionários do dinheiro afirmam que 2011 será um ano complicado para o povo português. Os políticos aproveitam e culpam-se uns aos outros pelo desemprego, pela falência das empresas e pela pobreza crescente.

Tenho imensas dúvidas de que a crise possa ser classificada de económico-financeira. Os dados são evidentes, porém não deixo de tentar perceber a origem desta catástrofe que tanto nos afecta e afectará nos tempos vindouros. A única conclusão a que chego é que a humanidade da nossa espécie desvanece-se ao longo do tempo numa função exponencial. Uns sempre tiveram mais do que outros. Uns sempre sofreram mais do que outros. Uns sempre ajudaram mais do que outros. Parece que o fosso entre uns e outros está a tornar-se intransponível e, enquanto uns comem caviar para o almoço, outros lutam desesperadamente para trincar um bocado de pão suficiente para cumprir as suas funções metabólicas inerentes à sobrevivência. Esta é a crise por que todos passamos. Não quero tapar o Sol como uma peneira; também sou responsável por ela. Talvez pudesse dar um pouco mais de mim para tornar tudo isto num mundo mais alegre. Mas vejo-nos a morrer. Lentamente!

Resta-nos a esperança de um dia esquecermos facções partidárias e puxarmos todos para o mesmo lado. Aí talvez risquemos a palavra crise do nosso dicionário. De vez.