28/08/2011

Aprender a rezar na Era da Técnica

"Aprender a rezar na Era da Técnica" é um romance de escritor português Gonçalo M. Tavares. É um dos designados livros de capa negra (tetralogia "O Reino") e venceu o prémio de melhor livro estrangeiro em França, no passado ano de 2010.

Lenz Buchmman é um cirurgião ambicioso e obcecado por manter a dignidade do apelido da sua família. Vive marcado por uma forte doutrina militar transmitida pelo seu pai Frederich e não tem desdém em esquecer os elos mais fracos da sua família; só os mais fortes - aqueles que se distinguem dos outros homens - interessam.

Da medicina, na qual a sua acção é de um-para-um no bloco operatório, passa para a política, onde tem a possibilidade de agir de um-para-muitos. Porém, a sua perversão leva-o, por vezes, a colocar a impulsividade emocional acima da racionalidade. A tragédia é inevitável.

O soberdo da escrita de Gonçalo M. Tavares é que muito do texto não é literal. As palavras adquirem significados que vão para além do seu sentido mais literal, quase como se fôssemos forçados a ler nas entrelinhas. A reflexão é uma constante.

Este é, sem dúvida, um livro que colocarei no espaço da "boa literatura" da minha (ainda) pequena biblioteca. Recomendo.

18/08/2011

Uma "Geração Coragem" de luva branca

A equipa nacional Sub-20 de Portugal está a disputar o Campeonato do Mundo da categoria, evento promovido pela FIFA, na Colômbia. Esta madrugada, os nossos compatriotas cometeram o feito de garantir o apuramento para a final da competição, em que irão defrontar o Brasil.

Aquela que o treinador Ilídio Vale já designou como a "Geração Coragem", longe de ser considerada como uma das favoritas no começo do certame, tem vindo a superar, jogo a jogo, as melhores expectativas dos mais optimistas.

Eu tenho acompanhado com especial atenção os desempenhos desta formação, desde o período preparatório para o mundial. Se nessa fase os resultados desportivos deixaram algo a desejar, a coesão do grupo e as competências demonstradas pelos jogadores denunciaram a forte possibilidade de, pelo menos, assegurarem a passagem aos oitavos-de-final da prova.

Na minha perspectiva, um dos factores que tem sido decisivo para o sucesso da selecção Sub-20 portuguesa na Colômbia é a excelente organização defensiva. Os jogadores estão permanentemente bem posicionados no terreno de jogo e apresentam uma atitude de entreajuda e cooperação fantástica. Podem não ter nomes sonantes como outras selecções, porém, como colectividade, têm superado todos os adversários com distinção e também patenteado, quer queiramos ou não, qualidade individual.

Independentemente da equipa das quinas Sub-20 ser ou não campeã mundial, esta geração já provou a muitos técnicos, dirigentes e administradores nacionais que o processo de formação desportiva (no caso, na modalidade futebol) desenvolvida no país - e não pretendo especificar clubes ou escolas de futebol - possui qualidade. Qualidade essa que, associada a procedimentos de prospecção de jovens talentos cada mais eficazes, aumenta bastante a probabilidade de se vir a obter jogadores mais competentes nas equipas seniores, tanto ao nível de clubes, como de selecções nacionais. Direi mesmo que se trata de uma "Geração Coragem" capaz de distribuir pelo país valentes chapadas de luva branca. Só não entende quem não quer.

Em vez de se passar, anualmente, atestados de incompetência aos treinadores e dirigentes que apostam na formação, contratando um elevado leque de jogadores sul-americanos ou de outros pontos do planeta a preços astronómicos, deveria-se observar com mais interesse os recursos humanos desenvolvidos no próprio clube. Quiçá não se encontra muito melhor, a custos mais controlados.

Esta geração já marcou uma posição essencial nos tempos que hoje correm. Por isso, merece todo o meu respeito e admiração. Força Portugal!


13/08/2011

Futebol: uma democracia empobrecida

Vivemos numa sociedade, tanto quanto sei, democrática. Cada um de nós tem direitos e deveres que deveriam ser invariáveis por cabeça. Parece, porém, que a democracia não é transversal a todos os sectores da nossa sociedade.

No desporto, particularmente no futebol, assiste-se frequentemente a uma tirania dos "maiores", sendo escassa a protecção dos "menores". Entenda-se que me refiro a clubes. Considerem o seguinte cenário meramente hipotético e, portanto, irreal, mas que é possível de ocorrer:

O Sebastião é um rapaz nascido em Monchique e aos 6 anos começou a praticar futebol no clube da sua terra: o Juventude Desportiva Monchiquense. Iniciou a sua formação no clube, completando uma época nos Petizes (Sub-7), duas nos Traquinas (Sub-9), uma como Benjamim B (Sub-10), uma nos Benjamins A (Sub-11) e duas nos Infantis (Sub-13). Como o Sebastião era um miúdo talentoso e que se destacava nos jogos da sua equipa, decidiu, conjuntamente com os seus pais, mudar para um clube com outra projecção e que lhe oferecia, supostamente, a possibilidade de competir num nível superior e evoluir mais favoravelmente na modalidade. Imagine-se, o Portimonense SC. Nesse seu novo clube, assina contrato de formação e cumpre duas épocas como Iniciado (Sub-15), duas nos Juvenis (Sub-17) e, finalmente, mais duas nos Juniores (Sub-19). Por acaso, no último ano de júnior, jogou alguns jogos pelos seniores na II Liga e despertou a cobiça de clubes estrangeiros. Os olheiros do Manchester United, sempre atentos, recomendaram-no a Sir Alex Ferguson, que decidiu pela sua contratação; pagou 5.000.000.000 Euros pelo rapaz.

Nesta situação, há direitos de formação envolvidos no negócio. No entanto, a lei portuguesa prevê que o primeiro clube do jovem, responsável por mais de 50% da sua formação, não receba qualquer contrapartida financeira. Já o outro clube, aquele com maior projecção, receberá não apenas uma soma avultada pela transferência, como ainda arrecadará na íntegra os direitos de formação do indivíduo. Soa a injusto, mas é a realidade que temos.

Numa assembleia da Associação de Futebol do Algarve, o JD Monchiquense tem direito a 7 votos; o Portimonense, por exemplo, tem direito a 77. Por esta ordem de ideias, eu deveria ter direito a um voto nas Legislativas, enquanto o senhor Pinto Balsemão, por ser um sujeito mais influente que eu no nosso país, deveria ter direito a 100 votos.

Os grandes "comem" os mais pequenos sem desdém, com a conivência da democracia, de direitos e deveres empobrecidos. A intenção de "tornar mais igual" converteu-se no inverso. Enquanto o mundo for movido a dinheiro e interesses, nunca haveremos de viver em democracia. A peneira continuará a tapar o Sol, mas jamais totalmente.