25/12/2018

Uma Coruja nas Ruínas (2018)

“Uma coruja nas ruínas” é a segunda obra do meu amigo de infância – digo-o de boca cheia – Eduardo Jorge Duarte, publicada sob a chancela da editora On y va (figura 1). Trata-se de uma coletânea de contos do autor, nem todos inéditos, cujas diferentes personagens se interligam entre si pela “memória” e pela “solidão”. Os onze contos estão sujeitos a interpretações diversas, nem sempre análogas, que se modelam à subjetividade de cada leitor. É exatamente na perspetiva atenta de leitor que tomei nota de algumas das palavras eloquentes do Eduardo sob a forma de narrador ou personagem. Longe de pretender desvendar o que quer que seja dos múltiplos enredos do livro, tento chamar a atenção para uma série de reflexões que, se cuidadas ou devidamente respeitadas, nos conduzem inapelavelmente a um mundo melhor. O Edu é pródigo nisso: identifica as lacunas existenciais da nossa espécie e educa-nos com a mestria das entrelinhas para sermos uma sociedade mais justa, mais solidária e feliz.

Figura 1. Capa de "Uma coruja nas ruínas" (2018), de Eduardo J. Duarte.

Velho continente
Um conto que associo sempre ao single “Run” dos Foo Fighters: “wake up… run for your life with me”. A solidão dos mais velhos é abordada de forma clara, remetendo-nos para “uma maratona de sentimentos”. Enquanto para uma minoria a vida consome o tempo, para o grosso dos nossos idosos o tempo consome a vida.

Aqui, ou aguardamos tranquilos a nossa vez de morrer sem pensar em nada, ou reza-se para matar o tempo, antes que o resto do tempo que nos sobra nos mate a nós. (p. 26)

A realidade dos lares é mesmo assim. Os resistentes, no entanto, engendram planos para que a vida lhes dê mais liberdade e/ou amor. É uma questão de escolhas assentes em possibilidades de ação.

Acromegalia
A questão da consanguinidade e dos problemas complexos que tal acarreta estão bem expressos neste conto. A diferença é a sede da discriminação, do desrespeito e da exclusão. O interessante é que a diferença funde-se na dimensão temporal da trama.

Os horários são armários de prateleiras abertas onde guardamos o tempo. (p. 26)

Por vezes, as rotinas a que muitos aludem tão bem fazer ao organismo humano traem-nos os sentidos, as emoções e culminam em tragédia, em tristeza ou o que lhe queiram chamar.

Senhor Nicolau

Os tempos eram selvagens. De descontentamento generalizado, de fraturas expostas nos ossos da ética e da moral. Tinha desaparecido por completo a capacidade de discernimento entre o bem e o mal. (p. 51)

O vilão do enredo, um tal “dono disto tudo”, “exibia-se pelas redes sociais como um pavão em pose num jardim público”. (p. 52). O autor acredita que há nas crianças uma força libertadora das garras da opressão, desde que o respetivo mentor seja alguém que incuta os valores certos nas mentes (ainda) não corrompidas dos mais jovens.

A cegueira maior é não saber olhar para dentro. (p. 60)

Neandertal

O tempo livre é um salto sem fundo para o ócio. (…) Ando à cavalgadura das tentações. (…) Eu preciso de livros. (p. 69)

O aspeto do homem por detrás de um vício remete-nos para uma existência primitiva do ser humano. Como se um vício, ou outro que o substitui, de sequelas menos nefastas e mais cultas, pudesse conceder uma resposta cabal ao cumprimento de funções básicas de sobrevivência. No julgamento íntimo de cada um, o vício é sempre um bem de caráter irrevogável.

Estricnina
Este conto explora de modo retrospetivo e sublime a intimidade familiar do autor. Nele, o Eduardo pretendeu “dar voz a um homem simples que apenas a teve no silêncio”, o seu tio. Quiçá revoltado com um comportamento mais atrevido, típico da infância e fortemente reprimido pelo seu irmão, deixa-nos um par de constatações que poderiam perfeitamente figurar num dos diversos portais de citações de gente ilustre:

Porque somos sempre muito rápidos a julgar e a catalogar e tão demorados a trocar de pele com os outros. (p. 76)

É engraçado, de alguma forma o passado acaba sempre por vir ter connosco e fazer um acerto de contas, seja por uma janela, por um carro que passa ou pela rajada de memórias disparadas no instante em que premimos o gatilho a uma canção. (p. 87)

Um medo sem nome
Ainda jovens gabávamo-nos de ouvir “música interventiva”. Sucintamente, tratava-se de canções através das quais as bandas (geralmente de rock ou metal) denunciavam e criticavam problemas graves de âmbito social. Este será, porventura, um texto de carga interventiva sobre um dos grandes flagelos na sociedade moderna. A minha mãe sempre me disse que, quando as coisas mudam na vida de um casal, raramente é para melhor; o conto do Edu corrobora-o na íntegra, aludindo a “um segredo guardado num cofre de vergonha”.

O amor comprado avulso traz consigo uma certa maquia de tragédia:

A partir de então, o tempo parado. O avançar da velhice apenas trouxe à pele as marcas usadas da dor e do desgosto. (p. 91)

Osvaldo Se
 O “se”. Hipotético. O jogo de identidade do personagem principal intitulado “auto-ficção do eu”. Maradona e a mão de Deus no Mundial de 1986 são parte integrante do conto. Pelo meio, esbocei um sorriso completamente cúmplice:

Virei-me. Reparei nas riscas azuis apertadas entre camadas brancas que desfilavam pela parede: a bandeira da Argentina. Do outro lado, surgia desenhada pelo dedos do Sol a figura escanzelada do Feliciano, um poeta desempregado que procura manter-se vivo entre os despojos do esqueleto. (p. 95)

Não tenho o prazer de (re)conhecer o cientista Osvaldo Se, mas tenho a honra de privar com o homem que projeta a sua existência no poeta Feliciano. Estocadas como a seguinte, por vezes de nos deixar boquiabertos, acontecem diversas vezes no mês, com exceção dos dias 21, 22 e 23 que são ocupados a diluir o único subsídio que recebe em vinho num dos estabelecimentos comerciais mais antigos da vila:

A sombra de Deus é diferente. É a sombra de uma árvore, é a sombra desse mural à sua frente, está lá quando a alma precisa de um lugar fresco para descansar. (p. 96)

Uma coruja nas ruínas
O conto que dá o título ao livro tinha de ser especial, e é! Segundo confessou o editor do livro, o também escritor monchiquense António Manuel Venda, na primeira sessão do recém-criado Clube de Leitura de Monchique, este texto assume quase contornos de novela.

Como todos os seres humanos começam a existir desde a infância, todas as melodias emergem do silêncio. Não há Homem sem silêncio. Não há música sem uma criança a cantar nos sentimentos. (p. 100)

Como devem calcular, não irei dar grandes pistas sobre o enredo. Há um “eu” principal que vive a história; há um “eu” que acompanha de perto a história e escreve sem, contudo, estar por dentro do “eu” principal; e, por fim, há um “eu” (eu mesmo) que a leio e interpreto – à minha maneira – o “xeque-mate” final.

Uma folha em branco ninguém vê, é como os pensamentos, são invisíveis, mas se a gente os derrama para o papel, então, sim, aí temos as fundações de uma escola. (p. 122)

O Lisboa gosta de xadrez, sofre de stress pós traumático ou, pelo menos, é o que dizem na vila, é a coruja nas ruínas. Como qualquer (boa) personagem do Eduardo, real ou fictícia, dos seus pensamentos germinam lições de vida como esta:

Um dia, afirmei que os sonhos são jardins que florescem na cabeça, e comecei a rir, o que de certa forma não deixa de ser por si mesmo uma definição de sonho, uma gargalhada contra a morte. (p. 134)

Extraordinário!

Wall Street
A vida de Diamantino Serpa, antigo bancário, é devolvida pelo milagre do conto. A reforma trouxe consigo o sentido de liberdade.

Sem saber bem o que fazer às gravatas usadas, mas sem querer esquecer completamente a asfixia do tempo que as recordações dos dias nublados de bancário lhe traziam, pendurou as inúmeras tiras de pano que durante anos enlaçara ao pescoço, junto à ruína terraplanada de um antigo colégio, no outro lado da rua. (p. 139)

É engraçado como identifico logo a localização da efabulação, é praticamente no quintal da minha casa. Além disso, a forma como o autor parte de cenários reais (p. ex., o estendal de gravatas) para criar a história que lemos deve ser enaltecida por qualquer leitor, inclusive por aqueles que, como eu, são menos dados à crítica literária. Mas enfim, sou suspeito para escrever sobre isso.

Diamantino adquirira o gosto de contemplar a linha do horizonte na praia, “porque num horizonte cabe tudo, o futuro, o infinito e a eternidade juntos e a Humanidade toda lá dentro, em liberdade” (p. 140). Nenhuma vida deveria ficar inacabada e, por isso, a mudança de rumo, de rotinas, de Diamantino consubstancia-se num intento nobre:

Que é nesse ponto específico em que duas pessoas se cruzam, nesse abraço perfazendo um X, que se encontra o amor, o mapa que diz o caminho para um tesouro capaz de erradicar o flagelo que afeta aquele um por cento da população mundial detentora das maiores fortunas: a pobreza de espírito. (p. 140)

O todo, o sentido, o melhor do texto, terão de ler. Lamento!

O amor no vidrão
Quinze anos passaram.

E tu, dobrado sobre as tuas memórias, levemente encostado ao vidrão, concluis, enquanto atas os atacadores: estás parado exatamente no mesmo ponto em que estavas naquela adolescência. (p. 144)

Com um jeito próprio de descrição, o narrador faz uma retrospetiva de paixões passadas, como “vulcões” diz, em que a seguir à erupção há uma implosão interior que origina uma “cratera desoladora” de desespero. Desdramatiza, procura ser sensato: são meros cacos do coração depositados no vidrão mais próximo de si.

Pedras queimadas
Foi com este texto que o Eduardo venceu o concurso nacional Conte Connosco do banco Santander Totta, em 2011. A introdução é mítica:

Na fundura do Barranco do Demo não há mal que dure sempre nem bem que não se acabe A crueza de um e outro funde os anos em duas estações só. (p. 151)
O final, assombroso de tão bem escrito, relembra-nos como nós – seres humanos – somos frágeis face à crença no regresso de alguém querido e, simultaneamente, robustos a encarar a declaração do prolongamento de um quotidiano repleto de solidão e saudade.

E, ao fim de uma semana, o filho do Zé Galo voltava a casa depois de ter entregado a alma ao Criador, de cima de um andaime, nos hediondos subúrbios de Paris. (p. 154)


A todos, sem exceções, boas festas! Ao Eduardo Jorge Duarte, comparsa de infância, adolescência e quiçá quantos mais estágios de vida, duas palavras: parabéns e obrigado!