29/08/2025

Artigo do mês #68 – agosto 2025 | Evolução dos estilos de jogo nos Campeonatos Europeus da UEFA: tendências de 2012 a 2024

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Peng, W., Ribeiro, J., Wang, M., & Gómez-Ruano, M. Á.

País: Portugal

Data de publicação: 23-julho-2025

Título: Evolution of playing styles in UEFA European championships: trends from 2012 to 2024

Referência: Peng, W., Ribeiro, J., Wang, M., & Gómez-Ruano, M. Á. (2025). Evolution of playing styles in UEFA European championships: trends from 2012 to 2024. International Journal of Performance Analysis in Sport, 1–16. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/24748668.2025.2536954

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 68 – agosto de 2025.

 

Apresentação do problema

O futebol moderno é um jogo de elevada complexidade, que obriga as equipas a conjugar estratégias previamente delineadas com adaptações táticas em tempo real (Rein & Memmert, 2016; Memmert et al., 2017). O estilo de jogo corresponde à abordagem estratégica e tática sustentada por uma equipa, sendo condicionado por fatores como as características dos jogadores, as competências técnicas e táticas, as capacidades físicas e variáveis contextuais, como o local do jogo ou o nível do adversário (Fernandez-Navarro et al., 2016; Forcher et al., 2023; Martín-Castellanos et al., 2024). De forma geral, distinguem-se estilos ofensivos – assentes na posse e iniciativa de jogo – e estilos defensivos – focados na organização sem bola. A análise destas abordagens contribui para otimizar o desempenho coletivo e ajustar decisões estratégicas num ambiente competitivo em constante mutação (Bangsbo, 2014; Yiannakos & Armatas, 2006), onde a eficácia tática pode ser decisiva para o sucesso. 

O Campeonato da Europa (UEFA Euro) é uma das competições internacionais mais relevantes de seleções masculinas (Winter & Pfeiffer, 2016). No entanto, a maioria dos estudos existentes tem privilegiado abordagens transversais centradas na análise tático-técnica por meio de métodos quantitativos (Renner et al., 2025). Por exemplo, Branquinho et al. (2022) identificaram contrastes entre seleções europeias e africanas no Mundial 2022, com base em estilos de jogo distintos. Apesar dos avanços tecnológicos na recolha e tratamento de dados, que têm aprofundado a avaliação do desempenho (Zhou et al., 2021), subsistem limitações. Estudos iniciais focaram eventos isolados (Filho et al., 2013), mais tarde substituídos por indicadores situacionais (Hewitt et al., 2016) e classificações via clustering (Gollan et al., 2018; Yi et al., 2019). Ainda assim, a diversidade de abordagens e a falta de padronização metodológica comprometem a objetividade, a comparabilidade entre estudos e a identificação consistente de estilos de jogo (Plakias et al., 2023). 

A análise de componentes principais (Principal Component Analysis; PCA) tem sido amplamente utilizada nos últimos anos para identificar a estrutura subjacente dos estilos de jogo. Esta análise permite explorar interações táticas complexas ao reduzir a dimensionalidade dos dados sem perda de informação essencial (Lago-Peñas et al., 2017). Em diferentes ligas, como a Premier League, a LaLiga e a Superliga chinesa, estudos identificaram múltiplos estilos de jogo: desde a posse elaborada e ao ataque direto com pressão alta (Fernandez-Navarro et al., 2016; Castellano & Pic, 2019; Martín-Castellanos et al., 2024) até ao contra-ataque e a estilos defensivos diferenciados (Lago-Peñas et al., 2017; Kong et al., 2022; Ruan et al., 2023). No cômputo geral, as equipas mais fortes tendem a privilegiar estilos baseados na posse e na intensidade. A PCA revelou-se eficaz não só na distinção entre estilos, mas também na identificação das variáveis-chave que os definem (Plakias et al., 2023). 

A análise longitudinal tem-se revelado crucial para compreender a evolução tática no futebol (Errekagorri et al., 2022). Wallace e Norton (2014) identificaram, entre 1966 e 2010, um aumento da velocidade de circulação da bola, da densidade de jogadores e da frequência de passes nas fases finais do Mundial, o que indicia uma transição para estilos mais intensos e dinâmicos. Na Superliga chinesa, Zhou et al. (2021) detetaram uma melhoria da eficácia ofensiva entre 2012 e 2017, sem aumento sustentado da posse de bola. Já González-Rodenas et al. (2023) observaram uma tendência mais associativa na LaLiga, entre 2008 e 2021, marcada por sequências de passe mais longas. 

Embora a literatura tenha privilegiado a análise dos estilos de jogo em ligas domésticas, persiste uma escassez de estudos longitudinais em competições internacionais. Neste contexto, o UEFA Euro, dada a sua relevância competitiva e mediatismo global, constitui uma oportunidade ímpar para observar tendências tático-técnicas. Assim, o presente estudo procurou identificar e analisar a evolução dos estilos de jogo das seleções participantes no UEFA Euro, entre 2012 e 2024. Os autores anteciparam um aumento progressivo da adoção de estratégias assentes na posse de bola.

 

Métodos

 

·     Amostra

A amostra incluiu 184 jogos disputados por 33 seleções nas edições do UEFA Euro de 2012, 2016, 2020 e 2024. Nove seleções participaram nas 4 edições. Foram recolhidos indicadores tático-técnicas para ambas as equipas em cada jogo (368 casos). De modo a assegurar padronização temporal, nos jogos com prolongamento, apenas foram analisados os dados relativos aos 90 minutos regulamentares.

 

·     Variáveis

Com base na literatura, o estudo selecionou indicadores tático-técnicas (tabela 1) para analisar os estilos de jogo das equipas nas 4 edições do certame (Martín-Castellanos et al., 2024; Rein & Memmert, 2016; Zhou et al., 2021). O ano do torneio constituiu a variável independente e a qualidade do adversário atuou como covariável.

 

·     Procedimentos

Os dados de desempenho técnico foram recolhidos manualmente no WhoScored.com, cuja base provém da OPTA Sports, reconhecida pela elevada fiabilidade do seu sistema (Kappa > 0,90; H. Liu et al., 2013). Seguiu-se um protocolo padronizado: definição prévia dos indicadores, extração por um investigador único e verificação inicial de inconsistências. Para avaliar a fiabilidade, 11 jogos (6% da amostra) foram novamente recolhidos por 2 investigadores após um mês, obtendo-se um ICC > 0,98 e um Kappa > 0,97, o que confirma a fiabilidade dos dados.

 

Tabela 1. Variáveis tático-técnicas de desempenho selecionadas para o estudo (adaptado de Peng et al., 2025).


·     Análise estatística

Foram aplicadas matrizes de correlação e critérios de multicolinearidade para selecionar os indicadores de desempenho finais. Realizou-se uma Análise de Componentes Principais (PCA) com rotação Varimax, após padronização dos dados (z-scores), para identificar as componentes representativas dos estilos de jogo. A adequação do procedimento foi confirmada e os componentes extraídos explicaram 71,2% da variância. Após verificar as assunções de normalidade e homogeneidade, foram conduzidos 5 modelos lineares mistos, considerando a identidade da equipa como fator aleatório, os anos (edições do UEFA Euro) como fator fixo e a qualidade do adversário como covariável (Morgans et al., 2025). Uma MANOVA analisou diferenças nos fatores entre os 4 torneios, utilizando os scores fatoriais obtidos pela PCA. As dimensões de efeito (d de Cohen; Cohen, 2013) foram calculadas nas comparações post-hoc de Bonferroni e interpretadas segundo Batterham e Hopkins (2006). Todas as análises foram realizadas no JAMOVI (v.2.6), com um nível de significância de α = 0.05.

 

Principais resultados

A análise dos dados permitiu caracterizar os estilos de jogo adotados pelas seleções no UEFA Euro entre 2012 e 2024, bem como compreender o impacto de variáveis contextuais e as principais tendências temporais.

 

·     Identificação dos estilos de jogo

A PCA permitiu identificar 5 estilos de jogo distintos: Ataque Direto, Jogo de Posse, Jogo Exterior, Defesa Agressiva e Defesa Disciplinada. O Ataque Direto agrupou indicadores relacionados com finalizações e criação de oportunidades. O Jogo de Posse representou uma estratégia centrada no controlo do jogo através da circulação de bola, enquanto o Jogo Exterior evidenciou a utilização dos corredores laterais. Já a Defesa Agressiva associou-se a um maior número de faltas e cartões, e a Defesa Disciplinada caracterizou-se por ações defensivas mais controladas, com menor recurso a desarmes.

 

·     Efeitos de variáveis contextuais

Os resultados mostraram que a qualidade do adversário influenciou a maioria dos estilos de jogo, com impacto mais evidente no Jogo de Posse e no Jogo Exterior. Equipas que enfrentaram adversários mais fortes optaram por estratégias mais conservadoras, enquanto jogos contra opositores de menor nível favoreceram estilos mais proativos. A variabilidade entre as seleções foi relevante sobretudo no Jogo de Posse e, em menor grau, no Jogo Exterior, sugerindo diferenças notórias nas identidades coletivas.

 

·     Tendências temporais nos estilos de jogo

Os resultados revelaram mudanças significativas nos estilos de jogo ao longo das 4 edições do UEFA Euro (figura 2). O Jogo de Posse mostrou uma tendência de crescimento, reflexo da evolução do futebol para um maior controlo da bola e gestão do ritmo. O Ataque Direto e o Jogo Exterior registaram reduções temporárias, seguidas de ligeiras recuperações nas edições mais recentes. A Defesa Agressiva apresentou um declínio acentuado, o que indica uma menor exposição ao risco defensivo, enquanto a Defesa Disciplinada manteve oscilações pouco expressivas e sem alterações significativas.

  


Figura 2. Evolução dos estilos de jogo das seleções nacionais no UEFA Euro entre 2012 e 2024. Cada linha representa a tendência de regressão, com intervalos de confiança de 95%; os scores dos fatores foram normalizados. 1 – Ataque Direto; 2 – Jogo de Posse; 3 – Jogo Exterior; 4 – Defesa Agressiva; 5 – Defesa Disciplinada (Peng et al., 2025).

 

Aplicações práticas

A análise dos estilos de jogo no UEFA Euro entre 2012 e 2024 permitiu retirar 4 implicações diretas para o treino, o planeamento estratégico e a análise de desempenho. As recomendações seguintes apoiam os treinadores e os analistas na integração das tendências observadas no contexto competitivo atual:

 

1. Desenvolver estratégias baseadas na posse de bola e criação de superioridades funcionais: o crescimento do Jogo de Posse entre 2016 e 2024, acentuado após a alteração da regra do pontapé de baliza em 2019, mostra que as equipas mais bem-sucedidas constroem a partir do setor defensivo e exploram diferentes formas de superioridade – numérica, espacial, posicional e qualitativa – para superar pressões altas e progredir no campo. Os treinadores devem propor tarefas de treino que integrem saídas apoiadas e cenários com pressão adversária simulada, que enfatizem tomadas de decisão rápidas e uma etapa de construção organizada. 

2. Promover uma flexibilidade tática entre o Jogo de Posse e o Ataque Direto: apesar da tendência crescente para o jogo apoiado, o Ataque Direto continua a desempenhar um papel crucial, sobretudo contra adversários menos fortes. As equipas de elite mais eficazes combinam estratégias de posse com a capacidade de atacar rapidamente espaços desprotegidos, explorando transições curtas, passes verticais e contra-ataques. O treino deve contemplar tarefas híbridas que estimulem a alternância entre controlo prolongado e aceleração ofensiva. Este tipo de proposta fomenta a flexibilidade tática, que permite ajustar a abordagem ofensiva à qualidade do adversário e ao contexto competitivo. 

3. Adequar os comportamentos defensivos (ocupação espacial vs. agressividade): houve oscilações temporais na Defesa Agressiva. Embora tenha sido detetada uma tendência para defesas mais organizadas e disciplinadas, em determinados contextos pode ser vantajoso recorrer a duelos físicos, faltas táticas e interrupções de transições. As equipas técnicas devem, por isso, diferenciar tarefas defensivas focadas no método zonal, para preservar a estrutura (contenção, cobertura e equilíbrio), e situações com agressividade controlada que possibilitem recuperações rápidas da bola. 

4. Utilizar dados de análise de estilos de jogo na preparação competitiva: analistas e treinadores podem utilizar os 5 estilos identificados para avaliar o desempenho das suas equipas e orientar decisões estratégicas. O planeamento estratégico-tático pode ser adaptado às tendências observadas. O recurso a indicadores quantitativos favorece a aproximação entre o treino e o desempenho competitivo face aos padrões emergentes, o que aumenta a eficácia da preparação e a capacidade de resposta face à crescente complexidade do futebol internacional.

 

Conclusão

​​ A análise dos estilos de jogo no UEFA Euro (2012–2024) identificou 5 estilos distintos: Ataque Direto, Jogo de Posse, Jogo Exterior, Defesa Agressiva e Defesa Disciplinada. O Jogo de Posse apresentou um crescimento marcado, sobretudo após 2016, o que reflete uma tendência para um futebol mais controlado. A utilização do Ataque Direto, do Jogo Exterior e da Defesa Agressiva diminuiu em 2020, possivelmente devido a estratégias mais conservadoras durante a pandemia, mas mostrou sinais de recuperação em 2024. A Defesa Disciplinada registou alterações pouco expressivas. Os resultados indicam que o tempo e a qualidade do adversário influenciam de forma significativa as abordagens tático-técnicas e, por conseguinte, reforçam a capacidade de adaptação das seleções nacionais à variabilidade das exigências competitivas.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.