Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Peng,
W., Ribeiro, J., Wang, M., & Gómez-Ruano, M. Á.
País: Portugal
Data de
publicação: 23-julho-2025
Título: Evolution of playing styles in UEFA European
championships: trends from 2012 to 2024
Referência: Peng, W., Ribeiro, J., Wang, M., & Gómez-Ruano, M. Á.
(2025). Evolution of playing
styles in UEFA European championships: trends from 2012 to 2024. International
Journal of Performance Analysis in Sport, 1–16. Advance online publication.
https://doi.org/10.1080/24748668.2025.2536954
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 68 – agosto de
2025.
Apresentação do problema
O futebol moderno é um jogo de elevada complexidade, que obriga as equipas a conjugar estratégias previamente delineadas com adaptações táticas em tempo real (Rein & Memmert, 2016; Memmert et al., 2017). O estilo de jogo corresponde à abordagem estratégica e tática sustentada por uma equipa, sendo condicionado por fatores como as características dos jogadores, as competências técnicas e táticas, as capacidades físicas e variáveis contextuais, como o local do jogo ou o nível do adversário (Fernandez-Navarro et al., 2016; Forcher et al., 2023; Martín-Castellanos et al., 2024). De forma geral, distinguem-se estilos ofensivos – assentes na posse e iniciativa de jogo – e estilos defensivos – focados na organização sem bola. A análise destas abordagens contribui para otimizar o desempenho coletivo e ajustar decisões estratégicas num ambiente competitivo em constante mutação (Bangsbo, 2014; Yiannakos & Armatas, 2006), onde a eficácia tática pode ser decisiva para o sucesso.
O Campeonato da Europa (UEFA Euro) é uma das competições internacionais mais relevantes de seleções masculinas (Winter & Pfeiffer, 2016). No entanto, a maioria dos estudos existentes tem privilegiado abordagens transversais centradas na análise tático-técnica por meio de métodos quantitativos (Renner et al., 2025). Por exemplo, Branquinho et al. (2022) identificaram contrastes entre seleções europeias e africanas no Mundial 2022, com base em estilos de jogo distintos. Apesar dos avanços tecnológicos na recolha e tratamento de dados, que têm aprofundado a avaliação do desempenho (Zhou et al., 2021), subsistem limitações. Estudos iniciais focaram eventos isolados (Filho et al., 2013), mais tarde substituídos por indicadores situacionais (Hewitt et al., 2016) e classificações via clustering (Gollan et al., 2018; Yi et al., 2019). Ainda assim, a diversidade de abordagens e a falta de padronização metodológica comprometem a objetividade, a comparabilidade entre estudos e a identificação consistente de estilos de jogo (Plakias et al., 2023).
A análise de componentes principais (Principal Component Analysis; PCA) tem sido amplamente utilizada nos últimos anos para identificar a estrutura subjacente dos estilos de jogo. Esta análise permite explorar interações táticas complexas ao reduzir a dimensionalidade dos dados sem perda de informação essencial (Lago-Peñas et al., 2017). Em diferentes ligas, como a Premier League, a LaLiga e a Superliga chinesa, estudos identificaram múltiplos estilos de jogo: desde a posse elaborada e ao ataque direto com pressão alta (Fernandez-Navarro et al., 2016; Castellano & Pic, 2019; Martín-Castellanos et al., 2024) até ao contra-ataque e a estilos defensivos diferenciados (Lago-Peñas et al., 2017; Kong et al., 2022; Ruan et al., 2023). No cômputo geral, as equipas mais fortes tendem a privilegiar estilos baseados na posse e na intensidade. A PCA revelou-se eficaz não só na distinção entre estilos, mas também na identificação das variáveis-chave que os definem (Plakias et al., 2023).
A análise longitudinal tem-se revelado crucial para compreender a evolução tática no futebol (Errekagorri et al., 2022). Wallace e Norton (2014) identificaram, entre 1966 e 2010, um aumento da velocidade de circulação da bola, da densidade de jogadores e da frequência de passes nas fases finais do Mundial, o que indicia uma transição para estilos mais intensos e dinâmicos. Na Superliga chinesa, Zhou et al. (2021) detetaram uma melhoria da eficácia ofensiva entre 2012 e 2017, sem aumento sustentado da posse de bola. Já González-Rodenas et al. (2023) observaram uma tendência mais associativa na LaLiga, entre 2008 e 2021, marcada por sequências de passe mais longas.
Embora a literatura tenha privilegiado a análise dos
estilos de jogo em ligas domésticas, persiste uma escassez de estudos
longitudinais em competições internacionais. Neste contexto, o UEFA Euro, dada
a sua relevância competitiva e mediatismo global, constitui uma oportunidade
ímpar para observar tendências tático-técnicas. Assim, o presente estudo
procurou identificar e analisar a evolução dos estilos de jogo das seleções
participantes no UEFA Euro, entre 2012 e 2024. Os autores anteciparam um
aumento progressivo da adoção de estratégias assentes na posse de bola.
Métodos
· Amostra
A amostra incluiu 184
jogos disputados por 33 seleções nas edições do UEFA Euro de 2012, 2016, 2020 e
2024. Nove seleções participaram nas 4 edições. Foram recolhidos indicadores tático-técnicas
para ambas as equipas em cada jogo (368 casos). De modo a assegurar
padronização temporal, nos jogos com prolongamento, apenas foram analisados os
dados relativos aos 90 minutos regulamentares.
· Variáveis
Com base na literatura, o
estudo selecionou indicadores tático-técnicas (tabela 1) para analisar os
estilos de jogo das equipas nas 4 edições do certame (Martín-Castellanos et
al., 2024; Rein & Memmert, 2016; Zhou et al., 2021). O ano do torneio constituiu
a variável independente e a qualidade do adversário atuou como covariável.
· Procedimentos
Os dados de desempenho
técnico foram recolhidos manualmente no WhoScored.com, cuja base provém da OPTA
Sports, reconhecida pela elevada fiabilidade do seu sistema (Kappa > 0,90;
H. Liu et al., 2013). Seguiu-se um protocolo padronizado: definição prévia dos
indicadores, extração por um investigador único e verificação inicial de
inconsistências. Para avaliar a fiabilidade, 11 jogos (6% da amostra) foram
novamente recolhidos por 2 investigadores após um mês, obtendo-se um ICC >
0,98 e um Kappa > 0,97, o que confirma a fiabilidade dos dados.
Tabela 1. Variáveis tático-técnicas de desempenho selecionadas para o estudo (adaptado de Peng et al., 2025).
· Análise estatística
Foram aplicadas matrizes
de correlação e critérios de multicolinearidade para selecionar os indicadores
de desempenho finais. Realizou-se uma Análise de Componentes Principais (PCA)
com rotação Varimax, após padronização dos dados (z-scores), para identificar
as componentes representativas dos estilos de jogo. A adequação do procedimento
foi confirmada e os componentes extraídos explicaram 71,2% da variância. Após verificar
as assunções de normalidade e homogeneidade, foram conduzidos 5 modelos
lineares mistos, considerando a identidade da equipa como fator aleatório, os
anos (edições do UEFA Euro) como fator fixo e a qualidade do adversário como
covariável (Morgans et al., 2025). Uma MANOVA analisou diferenças nos fatores
entre os 4 torneios, utilizando os scores fatoriais obtidos pela PCA. As
dimensões de efeito (d de Cohen; Cohen, 2013) foram calculadas nas
comparações post-hoc de Bonferroni e interpretadas segundo Batterham e
Hopkins (2006). Todas as análises foram realizadas no JAMOVI (v.2.6), com um
nível de significância de α = 0.05.
Principais resultados
A análise dos dados
permitiu caracterizar os estilos de jogo adotados pelas seleções no UEFA Euro
entre 2012 e 2024, bem como compreender o impacto de variáveis contextuais e as
principais tendências temporais.
· Identificação dos estilos de jogo
A PCA permitiu identificar
5 estilos de jogo distintos: Ataque Direto, Jogo de Posse, Jogo Exterior,
Defesa Agressiva e Defesa Disciplinada. O Ataque Direto agrupou indicadores
relacionados com finalizações e criação de oportunidades. O Jogo de Posse
representou uma estratégia centrada no controlo do jogo através da circulação
de bola, enquanto o Jogo Exterior evidenciou a utilização dos corredores
laterais. Já a Defesa Agressiva associou-se a um maior número de faltas e
cartões, e a Defesa Disciplinada caracterizou-se por ações defensivas mais
controladas, com menor recurso a desarmes.
· Efeitos de variáveis contextuais
Os resultados mostraram
que a qualidade do adversário influenciou a maioria dos estilos de jogo, com
impacto mais evidente no Jogo de Posse e no Jogo Exterior. Equipas que
enfrentaram adversários mais fortes optaram por estratégias mais conservadoras,
enquanto jogos contra opositores de menor nível favoreceram estilos mais
proativos. A variabilidade entre as seleções foi relevante sobretudo no Jogo de
Posse e, em menor grau, no Jogo Exterior, sugerindo diferenças notórias nas
identidades coletivas.
· Tendências temporais nos estilos de jogo
Os resultados revelaram
mudanças significativas nos estilos de jogo ao longo das 4 edições do UEFA Euro
(figura 2). O Jogo de Posse mostrou uma tendência de crescimento, reflexo da
evolução do futebol para um maior controlo da bola e gestão do ritmo. O Ataque
Direto e o Jogo Exterior registaram reduções temporárias, seguidas de ligeiras
recuperações nas edições mais recentes. A Defesa Agressiva apresentou um
declínio acentuado, o que indica uma menor exposição ao risco defensivo,
enquanto a Defesa Disciplinada manteve oscilações pouco expressivas e sem
alterações significativas.
Figura 2. Evolução dos estilos de jogo das seleções nacionais no
UEFA Euro entre 2012 e 2024. Cada linha representa a tendência de regressão,
com intervalos de confiança de 95%; os scores dos fatores foram
normalizados. 1 – Ataque Direto; 2 – Jogo de Posse; 3 – Jogo Exterior; 4 –
Defesa Agressiva; 5 – Defesa Disciplinada (Peng et al., 2025).
Aplicações práticas
A análise dos estilos de
jogo no UEFA Euro entre 2012 e 2024 permitiu retirar 4 implicações diretas para
o treino, o planeamento estratégico e a análise de desempenho. As recomendações
seguintes apoiam os treinadores e os analistas na integração das tendências
observadas no contexto competitivo atual:
1. Desenvolver estratégias baseadas na posse de bola e criação de superioridades funcionais: o crescimento do Jogo de Posse entre 2016 e 2024, acentuado após a alteração da regra do pontapé de baliza em 2019, mostra que as equipas mais bem-sucedidas constroem a partir do setor defensivo e exploram diferentes formas de superioridade – numérica, espacial, posicional e qualitativa – para superar pressões altas e progredir no campo. Os treinadores devem propor tarefas de treino que integrem saídas apoiadas e cenários com pressão adversária simulada, que enfatizem tomadas de decisão rápidas e uma etapa de construção organizada.
2. Promover uma flexibilidade tática entre o Jogo de Posse e o Ataque Direto: apesar da tendência crescente para o jogo apoiado, o Ataque Direto continua a desempenhar um papel crucial, sobretudo contra adversários menos fortes. As equipas de elite mais eficazes combinam estratégias de posse com a capacidade de atacar rapidamente espaços desprotegidos, explorando transições curtas, passes verticais e contra-ataques. O treino deve contemplar tarefas híbridas que estimulem a alternância entre controlo prolongado e aceleração ofensiva. Este tipo de proposta fomenta a flexibilidade tática, que permite ajustar a abordagem ofensiva à qualidade do adversário e ao contexto competitivo.
3. Adequar os comportamentos defensivos (ocupação espacial vs. agressividade): houve oscilações temporais na Defesa Agressiva. Embora tenha sido detetada uma tendência para defesas mais organizadas e disciplinadas, em determinados contextos pode ser vantajoso recorrer a duelos físicos, faltas táticas e interrupções de transições. As equipas técnicas devem, por isso, diferenciar tarefas defensivas focadas no método zonal, para preservar a estrutura (contenção, cobertura e equilíbrio), e situações com agressividade controlada que possibilitem recuperações rápidas da bola.
4. Utilizar dados de análise de estilos de jogo na
preparação competitiva: analistas e treinadores podem utilizar os 5 estilos
identificados para avaliar o desempenho das suas equipas e orientar decisões
estratégicas. O planeamento estratégico-tático pode ser adaptado às tendências
observadas. O recurso a indicadores quantitativos favorece a aproximação entre
o treino e o desempenho competitivo face aos padrões emergentes, o que aumenta a
eficácia da preparação e a capacidade de resposta face à crescente complexidade
do futebol internacional.
Conclusão
A análise dos estilos de jogo no UEFA Euro (2012–2024)
identificou 5 estilos distintos: Ataque Direto, Jogo de Posse, Jogo Exterior,
Defesa Agressiva e Defesa Disciplinada. O Jogo de Posse apresentou um
crescimento marcado, sobretudo após 2016, o que reflete uma tendência para um
futebol mais controlado. A utilização do Ataque Direto, do Jogo Exterior e da
Defesa Agressiva diminuiu em 2020, possivelmente devido a estratégias mais
conservadoras durante a pandemia, mas mostrou sinais de recuperação em 2024. A
Defesa Disciplinada registou alterações pouco expressivas. Os resultados
indicam que o tempo e a qualidade do adversário influenciam de forma
significativa as abordagens tático-técnicas e, por conseguinte, reforçam a
capacidade de adaptação das seleções nacionais à variabilidade das exigências
competitivas.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Performance Analysis in Sport.