Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.
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Autores: Davies, S., Noonan, R., Robertson, C., & Sankey, S.
País: Inglaterra
Data de
publicação: 29-outubro-2025
Título: An investigation into differences in general
intelligence and coaches' subjective assessment of players' decision-making
skills across different playing positions in EPPP association football
academies
Referência: Davies, S., Noonan, R., Robertson, C., & Sankey, S.
(2025). An investigation into differences in general intelligence and coaches'
subjective assessment of players' decision-making skills across different
playing positions in EPPP association football academies. Intelligence, 113,
101968. https://doi.org/10.1016/j.intell.2025.101968
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 71 – novembro de
2025.
Apresentação do problema
Especificidade de posição no futebol
O Elite Player Performance Plan (EPPP) da Premier League incentivou as academias inglesas a integrarem várias modalidades nos treinos, com vista a promover o desenvolvimento global dos jogadores (Taylor et al., 2024). Apesar dos benefícios da diversificação – como uma melhor resolução de problemas, menor incidência de lesões e redução do risco de esgotamento – muitos clubes continuam a apostar na especialização precoce (Taylor et al., 2024; Till & Baker, 2020).
A evidência atual sustenta a existência de transferência cognitiva entre desportos de invasão (Causer & Ford, 2014), mas as diferenças cognitivas entre as posições de jogo no futebol permanecem pouco exploradas. Estudos prévios não detetaram variações na tomada de decisão no netball (Bruce et al., 2012), nem em competências psicológicas entre as posições no futebol (Beavan et al., 2022; Carnevale et al., 2022). Contudo, as tarefas utilizadas foram limitadas: amostras homogéneas de jogadores de elite, jogos reduzidos (3v3) e ausência de testes de inteligência geral (Jooste et al., 2014).
Carnevale et al. (2022) sugeriram que todos os jogadores
devem desenvolver competências físicas e cognitivas, independentemente da
posição. A exposição a várias posições parece favorecer a adaptação futura
(Lovell et al., 2018), embora a investigação tenha decorrido em instituições
académicas não ligadas a clubes profissionais. Dado o contexto específico do
EPPP, importa clarificar se a inteligência geral e a tomada de decisão
influenciam uma diversificação bem-sucedida no futebol profissional.
Inteligência geral no futebol
A inteligência geral poderá ter relevância na identificação de talento, ao predizer a aprendizagem, a aquisição de conhecimento e o desempenho em tarefas complexas (Ones et al., 2012; Haier, 2017). Porém, a sua aplicação prática no futebol encontra-se limitada pela escassez de investigação. Noutras modalidades, foi associada ao processamento de informação e à tomada de decisão, destacando-se a sua importância no desenvolvimento da chamada “inteligência de jogo” (Burgoyne et al., 2016).
Na NFL, posições cognitivamente mais exigentes associam-se a níveis superiores de inteligência geral (Pitts & Evans, 2018). Contudo, estes resultados não se transferem diretamente para o futebol, onde as funções são mais homogéneas. As funções executivas, apesar de amplamente estudadas, apresentam validade ecológica reduzida e resultados inconsistentes (Ali, 2011), sendo provável que deixem de discriminar além de determinado limiar (Beavan et al., 2020). Assim, a identificação de talento não deverá assentar numa única capacidade cognitiva (Gledhill et al., 2017).
Continua por clarificar se a inteligência geral varia em
função da posição. Posições como a de avançado, que requerem decisões rápidas
em espaços curtos, poderão exigir maior rapidez de processamento (Frischkorn et
al., 2019), mas esta hipótese carece de validação empírica no contexto da
modalidade.
Tomada de decisão em diferentes posições
Os jogadores de elite demonstram capacidades superiores de tomada de decisão (Ali, 2011), apoiadas por funções executivas avançadas (Filgueiras et al., 2023; Vestberg et al., 2017). A tomada de decisão reflete o processamento de informação e a escolha da resposta mais adequada sob pressão (McGuikan et al., 2018). No futebol, a elevada carga cognitiva reforça a importância do processamento rápido em detrimento da perceção isolada (Cardoso et al., 2021).
Do ponto de vista posicional, os avançados, por atuarem sob elevada pressão temporal, poderão beneficiar mais de decisões rápidas ou “instintivas” (Kahneman, 2011; Ashford et al., 2021a). Jogadores mais habilidosos tendem a usar heurísticas e a tomar decisões mais eficazes (Basevitch et al., 2019). Até à data, a investigação tem feito pouca distinção entre as diferentes posições. Sabe-se que os defesas tendem a antecipar ações adversárias, enquanto os avançados as iniciam em espaços reduzidos, o que requer criatividade (Duarte et al., 2012; Williams et al., 2008).
Embora os estilos de decisão variem consoante o contexto,
permanece por explicar se requerem competências cognitivas distintas ou se
interferem na avaliação dos treinadores. A maioria dos estudos agrupou posições
ou ignorou as suas exigências específicas, o que dificulta a compreensão das
reais diferenças cognitivas entre as funções em campo.
Avaliações subjetivas dos treinadores sobre os jogadores
Avaliar o desempenho cognitivo no futebol é um desafio.
Por este motivo, alguns autores consideram que a opinião dos treinadores poderá
constituir um dos melhores indicadores de talento (Ali, 2011). Apesar da
validade e fiabilidade atribuídas às suas avaliações (Murr et al., 2021;
Jokuschies et al., 2017), os critérios utilizados tendem a variar. O designado “olho
do treinador” (figura 2) traduz julgamentos intuitivos, influenciados pela
experiência e pela perceção global da competência do jogador (Lath et al.,
2021).
Figura 2. O “olho do treinador” tem aspetos positivos, mas não
apenas… (fonte: www.fenew.co.uk; imagem não publicada pelos autores).
Em contextos de decisão rápida, os treinadores recorrem a heurísticas simples e eficazes (Bar-Eli et al., 2024). Contudo, desconhece-se se avaliam com consistência as diferentes posições. A ambiguidade dos princípios ofensivos e defensivos e a natureza dinâmica do jogo tornam difícil definir talento e avaliar decisões (Baker et al., 2024). Estes desafios podem levar à exclusão de jogadores talentosos (Kelly et al., 2018), mas não se sabe se tal ocorre de forma desigual entre as posições.
O presente estudo teve 3 objetivos principais: (1)
verificar se a inteligência geral varia consoante a posição em campo; (2)
analisar se as avaliações dos treinadores sobre a tomada de decisão diferem
entre posições; e (3) comparar estas avaliações subjetivas com os resultados
obtidos nos testes de inteligência geral.
Métodos
· Participantes
Participaram 99 jogadores
(16–18 anos) de 8 academias profissionais inglesas e 8 treinadores com, no
mínimo, Licença UEFA B. As academias pertenciam ao EPPP (5 de categoria 2 e 3
de categoria 3). Excluíram-se guarda-redes por amostra insuficiente (n =
2). Restaram 37 defesas, 34 médios e 28 avançados. Todos deram consentimento
informado. O estudo foi aprovado pela University of Bolton.
· Procedimentos
Sessenta e uma academias
(categorias 1 a 3) foram contactadas. Onze manifestaram interesse, mas 3
desistiram. Todos os participantes receberam informação prévia sobre o estudo.
Os testes foram aplicados nas instalações dos clubes, com supervisão dos
tutores.
· Inteligência geral
Utilizou-se a versão curta
do Teste de Matrizes Progressivas Avançadas de Raven (23 itens, 20 minutos),
aplicada coletivamente. Cada participante respondeu com base em instruções
padronizadas e 3 exemplos de treino. As folhas de respostas foram corrigidas e
verificadas por 2 avaliadores. As pontuações variaram entre 0 e 23.
· Tomada de decisão
Cada treinador avaliou
subjetivamente a capacidade de decisão dos seus jogadores, organizando-os por
ordem (do mais para o menos competente). Este procedimento apresenta validade e
fiabilidade, conforme documentado em estudos prévios (Scharfen & Memmert,
2021; Vestberg et al., 2020).
· Medidas
O teste de Raven é uma
medida fiável de inteligência fluida, independente da educação e da cultura
(Haier, 2017). A versão curta simula melhor o contexto temporal do futebol e
mostra correlação com tarefas de decisão (Van Duijvenvoorde et al., 2012). A
avaliação subjetiva dos treinadores reduz as exigências dos instrumentos
formais (e.g., GPAI) e pode ser apoiada por dados estatísticos fornecidos pelos
clubes.
· Análise
Utilizaram-se testes de
Shapiro-Wilk e Levene para verificar assunções de aplicabilidade. Como não
foram cumpridos, recorreu-se ao teste não paramétrico de Kruskal-Wallis H para
comparar pontuações de inteligência geral e classificações de tomada de decisão
entre as posições de jogo. Aplicou-se o teste de Dunn com correção de
Bonferroni. Para comparar o ranking de inteligência com o ranking de decisão
atribuídos aos jogadores, foi aplicado o teste de Wilcoxon Signed-Rank.
Principais resultados
O estudo procurou analisar
possíveis diferenças na inteligência geral e na avaliação da tomada de decisão
entre as diversas posições no futebol, bem como a correspondência entre estas
duas medidas. Os resultados são apresentados de acordo com os 3 objetivos
definidos.
·
Inteligência geral
por posição
Os jogadores que atuam
como avançados apresentaram, em média, os valores mais elevados nos testes de
inteligência geral. No entanto, não se identificaram diferenças significativas
entre as várias posições, o que sugere que a inteligência geral poderá ser
relativamente homogénea entre defesas, médios e avançados.
· Avaliação da tomada de decisão por posição
Os treinadores atribuíram
melhores classificações de tomada de decisão aos defesas e aos médios, em
comparação com os avançados. As diferenças observadas foram claras entre
avançados e os restantes jogadores de campo, sendo os primeiros avaliados de
forma menos favorável. Entre defesas e médios, as avaliações foram semelhantes.
·
Concordância entre
inteligência geral e avaliação dos treinadores
Nos defesas e nos médios,
as classificações baseadas nos testes de inteligência geral e as avaliações
subjetivas dos treinadores apresentaram elevada concordância. Já nos avançados,
verificou-se incoerência entre os dois tipos de avaliação (Figura 3), o que
levanta dúvidas sobre a fiabilidade da perceção dos treinadores nesta posição
específica.
Figura 3. Gráfico de colunas empilhadas (100%) que representa as
percentagens de diferenças negativas, nulas e positivas entre o ranking dos
jogadores na inteligência geral (Raven APM – versão curta) e o ranking na
tomada de decisão. Valores positivos indicam melhor classificação na tomada de decisão
do que na inteligência geral; valores negativos indicam melhor classificação na
inteligência geral do que na tomada de decisão; valores nulos indicam
coincidência entre os dois rankings.
Aplicações práticas
A avaliação da
inteligência geral e da tomada de decisão por posição oferece pistas úteis para
o treino e para os processos de identificação e desenvolvimento de talento. Os
resultados do presente estudo sugerem que a perceção dos treinadores nem sempre
reflete o potencial cognitivo dos jogadores, especialmente dos avançados. A
seguir apresentam-se 4 recomendações derivadas das evidências apuradas:
1. Promover a rotação de posições no treino em escalões de formação: incentivar os jovens jogadores a experimentar diferentes posições pode ampliar o seu leque de competências cognitivas e melhorar a compreensão do jogo. Esta abordagem ajuda também a revelar talentos subvalorizados em posições menos exploradas.
2. Complementar a observação com medidas objetivas: a integração de testes de inteligência geral nos processos de recrutamento e monitorização pode apoiar a avaliação dos treinadores, o que possibilita a definição de perfis mais completos dos jogadores e reduz o risco de enviesamentos ou exclusões indevidas.
3. Reforçar o cuidado na avaliação dos avançados: os avançados operam em contextos situacionais mais imprevisíveis e com menos tempo para decidir, o que pode levar a avaliações subjetivas mais desfavoráveis. Os treinadores devem considerar que decisões rápidas e criativas nem sempre resultam em sucesso imediato, mas revelam competências valiosas.
4. Adaptar o treino às exigências cognitivas por posição: embora a inteligência geral não varie entre posições,
as exigências situacionais específicas (tempo, espaço, pressão) justificam
métodos de treino diferenciados. Os defesas e os médios poderão beneficiar de
estratégias que reforcem a precisão e a análise, enquanto os avançados exigem
contextos que estimulem a criatividade e a pronta resposta motora sob elevada pressão
adversária.
Conclusão
Os resultados deste estudo mostram que a inteligência
geral não difere entre posições de jogo no futebol, pelo que não deve ser
utilizada como critério para definir funções específicas. Os treinadores tendem
a avaliar a tomada de decisão dos avançados de forma menos favorável do que a
dos defesas e médios, bem como abaixo do seu próprio nível de inteligência
geral. Este dado sugere uma subavaliação do talento decisional dos avançados
nas academias. Uma identificação mais precisa da tomada de decisão, enquanto
componente da inteligência de jogo, poderá representar uma vantagem competitiva
para os clubes. A integração de testes psicométricos de inteligência geral em
baterias de avaliação psicológica proporcionará perfis de jogador mais
completos, objetivos e informados.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Intelligence.
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