29/01/2026

Artigo do mês #73 – janeiro 2026 | Jogadores rápidos mantêm-se rápidos e jogadores lentos mantêm-se lentos? Evolução da velocidade máxima de sprint dos Sub-12 aos Sub-19

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S.

País: Alemanha

Data de publicação: 7-janeiro-2026

Título: “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period

Referência: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S. (2026). “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–10. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541251410449

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 73 – janeiro de 2026.

 

Apresentação do problema

O futebol é uma modalidade altamente exigente, na qual ações de elevada intensidade, como o sprint, são determinantes para o desempenho competitivo (Haugen et al., 2014). O sprint linear assume particular relevância em episódios decisivos do jogo, nomeadamente em situações de finalização (Faude et al., 2012). Por essa razão, a avaliação do desempenho em sprint constitui uma prática consolidada em contextos de alto rendimento, permitindo distinguir componentes-chave como a aceleração e a velocidade máxima de sprint (maximal sprinting speed – MSS) (Haugen & Buchheit, 2016; Altmann et al., 2019). Nos últimos anos, a MSS afirmou-se como uma das métricas centrais na investigação aplicada ao futebol (Thron et al., 2024). 

Este protagonismo decorre, em grande parte, da facilidade com que a MSS pode ser avaliada em contexto de treino, viabilizada pelos avanços tecnológicos associados aos sistemas de navegação global por satélite (Altmann et al., 2024). Ao contrário das velocidades observadas em competição, frequentemente condicionadas por fatores estratégico-táticos, o treino oferece condições mais controladas para a expressão de velocidades máximas, favorecendo a monitorização regular do desenvolvimento da velocidade (Al Haddad et al., 2015). Acresce que a MSS apresenta menor suscetibilidade a erros de medição do que indicadores baseados em tempos parciais muito curtos, o que reforça a sua robustez para fins científicos e práticos (Altmann et al., 2018). 

No futebol jovem, a MSS é amplamente valorizada pela sua associação a ações decisivas, como duelos em sprint e corridas em profundidade, refletindo-se nos processos de identificação e seleção de talento, onde o desempenho em sprint assume um papel central (Williams et al., 2020; Altmann et al., 2024). Embora a evidência direta que relacione a MSS com o desempenho competitivo em jovens seja ainda limitada, têm sido reportadas associações moderadas com o desempenho físico em jogo (Buchheit et al., 2010). De forma consistente com esta valorização prática, técnicos de academias de elite identificaram a velocidade como o principal fator para o desenvolvimento e seleção de jogadores (Kite et al., 2022; Altmann et al., 2024). 

Neste contexto, torna-se essencial distinguir entre desempenho atual e potencial de desenvolvimento, uma questão particularmente sensível no futebol jovem (Williams et al., 2020). Apesar de a MSS ser frequentemente descrita como uma capacidade fortemente influenciada por fatores genéticos, existe evidência clara de melhorias relevantes ao longo da adolescência (figura 2), bem como de estabilidade limitada do desempenho em sprint durante este período (Murtagh et al., 2023; Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013; Morris et al., 2018). Deste modo, importa questionar se o posicionamento relativo dos jogadores em MSS face a pares da mesma idade se mantém estável ou se sofre flutuações significativas, colocando em causa decisões de seleção assentes na premissa de que “os rápidos se mantêm rápidos enquanto os mais lentos permanecem lentos” (Leyhr et al., 2018; Saward et al., 2020).

 

Figura 2. O desempenho de sprint pode modificar-se ao longo da adolescência (fonte: amaven.co.uk; imagem não publicada pelos autores).

 

Durante a adolescência, o desempenho em sprint tende a melhorar, mas segundo trajetórias não lineares, resultantes da interação entre crescimento, maturação biológica e treino (Ruf et al., 2024; Morris et al., 2018). Estas trajetórias variam substancialmente entre jogadores, uma vez que o momento e o ritmo de maturação diferem de forma marcada entre indivíduos, o que se traduz numa elevada variabilidade do desempenho relativo dentro do mesmo escalão etário (Philippaerts et al., 2006; Williams et al., 2011).

Apesar da relevância amplamente reconhecida do desempenho em sprint para o rendimento e para os processos de seleção no futebol infantojuvenil, a investigação disponível baseia-se maioritariamente em desenhos transversais, incapazes de captar trajetórias individuais de desenvolvimento ou de esclarecer a estabilidade dos rankings de desempenho ao longo do tempo (Williams et al., 2020). Até ao momento, apenas um estudo analisou o desenvolvimento relativo a longo prazo da MSS e identificou flutuações consideráveis nos rankings entre os Sub-12 e os Sub-18 (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013). No entanto, o reduzido tamanho amostral limitou a generalização desses resultados e justificou a realização de estudos adicionais com amostras mais alargadas. 

Face a estas lacunas, o presente estudo analisou o desenvolvimento da MSS em jovens futebolistas altamente treinados, descrevendo os valores absolutos por escalão etário, as alterações no posicionamento relativo entre escalões consecutivos e a estabilidade a longo prazo da MSS ao longo de vários anos. A compreensão destas dinâmicas é determinante para interpretar o desempenho atual e o potencial futuro dos jogadores e para sustentar práticas de identificação e seleção de talento baseadas em evidência.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou um desenho retrospetivo, longitudinal misto, com base em dados de MSS de jovens futebolistas altamente treinados. A MSS foi avaliada através de um sprint linear de 30 m, realizado duas vezes por época no âmbito de uma bateria padronizada de testes físicos. Em cada época, foi considerada a melhor tentativa por jogador, resultando em 1 a 7 pontos de dados por jovem jogador (2,2 ± 1,4). A maioria dos jogadores apresentou entre 1 e 3 avaliações ao longo do período de observação.

 

·     Participantes

A amostra integrou 475 jogadores masculinos de futebol de formação (11–19 anos), com 1042 avaliações de MSS recolhidas entre 2016 e 2024, nos escalões Sub-12 a Sub-19 de uma academia de elite de um clube profissional da Bundesliga alemã. Os jovens foram classificados como altamente treinados (nível 3) segundo o Participant Classification Framework (McKay et al., 2022). O volume semanal variou entre 3 e 5 sessões de treino e 1 jogo, consoante o escalão etário. Os dados resultaram de procedimentos regulares de monitorização, com aprovação ética institucional e consentimento informado dos participantes e respetivos encarregados de educação.

 

·     Procedimentos

Após um aquecimento padronizado de 15 minutos, os jogadores realizaram 3 sprints lineares de 30 m, com 60 s a 3 min de recuperação. Os tempos foram registados aos 5, 10, 20 e 30 m, e a MSS foi calculada a partir da velocidade média no segmento entre os 20 e os 30 m, de acordo com procedimentos validados (Thron et al., 2024; Zabaloy et al., 2024). A avaliação recorreu a células fotoelétricas de feixe duplo (Sportronic; 0,01 s), posicionadas a 0,95 m de altura, com partida a 0,30 m da primeira célula. Os testes decorreram em recinto coberto, sobre relva sintética, no período da tarde, e a melhor tentativa por época foi utilizada para análise. Este método apresenta elevada fiabilidade em futebolistas jovens (ICC = 0,92–0,97; CV = 1,1–1,9%) (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013).

 

·     Análise estatística

Foi utilizada a melhor MSS de cada jogador em cada escalão etário. As MSS foram convertidas em percentis dentro de cada escalão, com base nos quais se definiram 6 grupos de desempenho: mais lentos (≥0.º a <10.º percentil), lentos (≥10.º a <25.º percentil), lento-médio (≥25.º a <50.º percentil), médio-rápido (≥50.º a <75.º percentil), rápidos (≥75.º a <90.º percentil) e mais rápidos (≥90.º a ≤100.º percentil). Para jogadores com dados em escalões consecutivos, quantificaram-se as transições entre grupos (subida, descida ou manutenção), em valores absolutos e percentuais, com uma abordagem descritiva. A estabilidade a longo prazo dos percentis foi avaliada através de coeficientes de correlação intraclasse (ICC 3,1), com intervalos de confiança a 95%, considerando todos os escalões e escalões consecutivos. Apenas jogadores com pelo menos 4 medições (n = 86) foram incluídos nesta análise. A interpretação dos ICC seguiu critérios convencionais de qualidade. Para ilustrar trajetórias individuais distintas, apresentaram-se estudos de caso de 3 jogadores entre os Sub-12 e os Sub-17. As análises foram replicadas para os tempos parciais aos 10 m, cujos resultados detalhados constam do material suplementar, mantendo-se a MSS como variável principal do estudo.

 

Principais resultados

Esta secção organiza os resultados de acordo com os principais tópicos abordados pelos autores e destaca os factos mais relevantes da investigação.

 

·     Desenvolvimento absoluto da velocidade máxima de sprint

A MSS aumentou de forma consistente com a idade em todos os escalões, o que se traduz num desenvolvimento absoluto positivo ao longo da adolescência.

 

·     Transições entre grupos de desempenho

Entre escalões etários consecutivos, as transições descendentes (para grupos mais lentos) ocorreram com maior frequência (41%) do que a permanência no mesmo grupo (35%) ou as transições ascendentes, isto é, para grupos de maior velocidade relativa (24%). Nos grupos de desempenho mais elevados, os jogadores desceram de grupo mais vezes do que subiram, enquanto nos grupos mais baixos surgiu maior probabilidade de progressão.

 

·     Padrões por escalão etário

Os padrões de transição mantiveram-se relativamente consistentes entre escalões. As descidas representaram a maior proporção de mudanças (35–51%), ao passo que as subidas ocorreram com menor frequência (16–29%). As taxas mais elevadas de progressão verificaram-se entre os Sub-17 e os Sub-19, enquanto as maiores descidas ocorreram entre os Sub-13 e os Sub-14.

 

·     Estabilidade relativa a longo prazo

A estabilidade dos percentis de MSS ao longo de todos os escalões revelou-se moderada (ICC = 0,65). Entre escalões consecutivos, a estabilidade variou entre moderada e boa (ICC = 0,61–0,79), o que indica flutuações relevantes no posicionamento relativo dos jogadores ao longo do percurso formativo.

 

·     Estudos de caso

A figura 3 ilustra 3 trajetórias individuais distintas de desenvolvimento da MSS entre os Sub-12 e os Sub-17 e evidencia padrões de estabilidade relativa, progressão sustentada e declínio relativo. Estes casos demonstram a elevada variabilidade interindividual e sustentam que melhorias absolutas da MSS nem sempre se traduzem na manutenção do posicionamento relativo dentro do grupo etário.

 

Figura 3. Estudos de caso longitudinais que ilustram a velocidade máxima de sprint (MSS) individual de 3 jogadores, bem como os respetivos valores absolutos de MSS e percentis, em relação aos grupos de desempenho representados por cores em cada escalão etário. Note-se que nenhum dos 3 jogadores integrou o escalão Sub-19 (Ruf et al., 2026).

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo mostram que a MSS melhora com a idade, mas que o estatuto relativo dos jogadores é instável ao longo do percurso formativo. Esta dinâmica tem implicações diretas para os processos de avaliação e seleção no futebol infantojuvenil. Em seguida, apresentam-se 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas técnicas:

 

1. Monitorizar a MSS numa lógica longitudinal, não classificatória: a estabilidade relativa da MSS é apenas moderada e as transições descendentes são frequentes, sobretudo em jogadores rápidos. A monitorização contínua deve servir para compreender trajetórias individuais ao longo do tempo, e não para rotular precocemente jogadores com base em rankings momentâneos. 

2. Interpretar com cautela as quedas relativas de desempenho, sobretudo nos escalões intermédios: o declínio relativo da MSS ocorre em grande parte dos jogadores ao longo da adolescência e não indica, por si só, regressão física. Em muitos casos, reflete efeitos combinados de maturação, seleção interna e entrada de novos jogadores mais velozes. 

3. Tratar o período entre os Sub-14 e os Sub-16 como uma fase crítica de avaliação: este intervalo etário concentra as maiores melhorias absolutas da MSS e a maior variabilidade interindividual, associada ao pico de crescimento. As decisões de seleção nesta fase devem ser particularmente cautelosas, por forma a evitar penalizar jogadores em estágios maturacionais mais tardios. 

4. Evitar decisões precoces de exclusão com base exclusiva na velocidade: embora a velocidade seja um critério central nos processos de seleção, ser rápido nos escalões iniciais não garante manutenção do estatuto relativo ao longo da adolescência. Do mesmo modo, a progressão tardia é rara, mas possível em jogadores com características específicas. A retenção estratégica de alguns perfis tardios pode reduzir o risco de perda de talento.

 

Conclusão

A estabilidade a longo prazo do desempenho relativo da MSS revelou-se moderada, com transições frequentes entre grupos de desempenho ao longo da adolescência. Cerca de um terço dos jogadores manteve o mesmo posicionamento relativo, enquanto a maioria transitou mais frequentemente para grupos mais lentos do que para grupos mais rápidos. As descidas ocorreram sobretudo entre jogadores de melhor desempenho, ao passo que as subidas foram mais comuns nos grupos de desempenho inferior, um padrão que se manteve entre os diferentes escalões etários. Estes resultados, apoiados por estudos de caso, desafiam a ideia de que jogadores rápidos se mantêm sempre rápidos ao longo da adolescência e providenciam orientações relevantes para a interpretação do desempenho e do potencial futuro em processos de avaliação e seleção de talento.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.