Nota prévia: O artigo
científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes
critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com
revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3)
associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do
Desporto.
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Autores: Ruf,
L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S.
País: Alemanha
Data de publicação: 7-janeiro-2026
Título: “Do fast players remain fast and slow players remain
slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12
to U19 soccer players over an 8-year period
Referência: Ruf, L., Backfisch, M., Härtel, S., & Altmann, S. (2026). “Do fast players remain fast and slow players remain slow?” Long-term development of maximal sprinting speed in highly trained U12 to U19 soccer players over an 8-year period. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–10. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541251410449
Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 73 – janeiro de
2026.
Apresentação do problema
O futebol é uma modalidade altamente exigente, na qual ações de elevada intensidade, como o sprint, são determinantes para o desempenho competitivo (Haugen et al., 2014). O sprint linear assume particular relevância em episódios decisivos do jogo, nomeadamente em situações de finalização (Faude et al., 2012). Por essa razão, a avaliação do desempenho em sprint constitui uma prática consolidada em contextos de alto rendimento, permitindo distinguir componentes-chave como a aceleração e a velocidade máxima de sprint (maximal sprinting speed – MSS) (Haugen & Buchheit, 2016; Altmann et al., 2019). Nos últimos anos, a MSS afirmou-se como uma das métricas centrais na investigação aplicada ao futebol (Thron et al., 2024).
Este protagonismo decorre, em grande parte, da facilidade com que a MSS pode ser avaliada em contexto de treino, viabilizada pelos avanços tecnológicos associados aos sistemas de navegação global por satélite (Altmann et al., 2024). Ao contrário das velocidades observadas em competição, frequentemente condicionadas por fatores estratégico-táticos, o treino oferece condições mais controladas para a expressão de velocidades máximas, favorecendo a monitorização regular do desenvolvimento da velocidade (Al Haddad et al., 2015). Acresce que a MSS apresenta menor suscetibilidade a erros de medição do que indicadores baseados em tempos parciais muito curtos, o que reforça a sua robustez para fins científicos e práticos (Altmann et al., 2018).
No futebol jovem, a MSS é amplamente valorizada pela sua associação a ações decisivas, como duelos em sprint e corridas em profundidade, refletindo-se nos processos de identificação e seleção de talento, onde o desempenho em sprint assume um papel central (Williams et al., 2020; Altmann et al., 2024). Embora a evidência direta que relacione a MSS com o desempenho competitivo em jovens seja ainda limitada, têm sido reportadas associações moderadas com o desempenho físico em jogo (Buchheit et al., 2010). De forma consistente com esta valorização prática, técnicos de academias de elite identificaram a velocidade como o principal fator para o desenvolvimento e seleção de jogadores (Kite et al., 2022; Altmann et al., 2024).
Neste contexto, torna-se essencial distinguir entre
desempenho atual e potencial de desenvolvimento, uma questão particularmente
sensível no futebol jovem (Williams et al., 2020). Apesar de a MSS ser
frequentemente descrita como uma capacidade fortemente influenciada por fatores
genéticos, existe evidência clara de melhorias relevantes ao longo da
adolescência (figura 2), bem como de estabilidade limitada do desempenho em
sprint durante este período (Murtagh et al., 2023; Buchheit &
Mendez-Villanueva, 2013; Morris et al., 2018). Deste modo, importa questionar
se o posicionamento relativo dos jogadores em MSS face a pares da mesma idade
se mantém estável ou se sofre flutuações significativas, colocando em causa
decisões de seleção assentes na premissa de que “os rápidos se mantêm rápidos
enquanto os mais lentos permanecem lentos” (Leyhr et al., 2018; Saward et al., 2020).
Figura 2. O desempenho de sprint pode modificar-se ao longo da
adolescência (fonte: amaven.co.uk; imagem não publicada pelos autores).
Durante a adolescência, o desempenho em sprint tende a melhorar, mas segundo trajetórias não lineares, resultantes da interação entre crescimento, maturação biológica e treino (Ruf et al., 2024; Morris et al., 2018). Estas trajetórias variam substancialmente entre jogadores, uma vez que o momento e o ritmo de maturação diferem de forma marcada entre indivíduos, o que se traduz numa elevada variabilidade do desempenho relativo dentro do mesmo escalão etário (Philippaerts et al., 2006; Williams et al., 2011).
Apesar da relevância amplamente reconhecida do desempenho em sprint para o rendimento e para os processos de seleção no futebol infantojuvenil, a investigação disponível baseia-se maioritariamente em desenhos transversais, incapazes de captar trajetórias individuais de desenvolvimento ou de esclarecer a estabilidade dos rankings de desempenho ao longo do tempo (Williams et al., 2020). Até ao momento, apenas um estudo analisou o desenvolvimento relativo a longo prazo da MSS e identificou flutuações consideráveis nos rankings entre os Sub-12 e os Sub-18 (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013). No entanto, o reduzido tamanho amostral limitou a generalização desses resultados e justificou a realização de estudos adicionais com amostras mais alargadas.
Face a estas lacunas, o presente estudo analisou o
desenvolvimento da MSS em jovens futebolistas altamente treinados, descrevendo
os valores absolutos por escalão etário, as alterações no posicionamento
relativo entre escalões consecutivos e a estabilidade a longo prazo da MSS ao
longo de vários anos. A compreensão destas dinâmicas é determinante para
interpretar o desempenho atual e o potencial futuro dos jogadores e para
sustentar práticas de identificação e seleção de talento baseadas em evidência.
Métodos
·
Desenho do estudo
O estudo adotou um desenho
retrospetivo, longitudinal misto, com base em dados de MSS de jovens
futebolistas altamente treinados. A MSS foi avaliada através de um sprint
linear de 30 m, realizado duas vezes por época no âmbito de uma bateria
padronizada de testes físicos. Em cada época, foi considerada a melhor
tentativa por jogador, resultando em 1 a 7 pontos de dados por jovem jogador (2,2
± 1,4). A maioria dos jogadores apresentou entre 1 e 3 avaliações ao longo do
período de observação.
· Participantes
A amostra integrou 475
jogadores masculinos de futebol de formação (11–19 anos), com 1042 avaliações
de MSS recolhidas entre 2016 e 2024, nos escalões Sub-12 a Sub-19 de uma
academia de elite de um clube profissional da Bundesliga alemã. Os jovens foram
classificados como altamente treinados (nível 3) segundo o Participant
Classification Framework (McKay et al., 2022). O volume semanal variou
entre 3 e 5 sessões de treino e 1 jogo, consoante o escalão etário. Os dados
resultaram de procedimentos regulares de monitorização, com aprovação ética
institucional e consentimento informado dos participantes e respetivos
encarregados de educação.
· Procedimentos
Após um aquecimento
padronizado de 15 minutos, os jogadores realizaram 3 sprints lineares de 30 m,
com 60 s a 3 min de recuperação. Os tempos foram registados aos 5, 10, 20 e 30
m, e a MSS foi calculada a partir da velocidade média no segmento entre os 20 e
os 30 m, de acordo com procedimentos validados (Thron et al., 2024; Zabaloy et
al., 2024). A avaliação recorreu a células fotoelétricas de feixe duplo
(Sportronic; 0,01 s), posicionadas a 0,95 m de altura, com partida a 0,30 m da
primeira célula. Os testes decorreram em recinto coberto, sobre relva
sintética, no período da tarde, e a melhor tentativa por época foi utilizada
para análise. Este método apresenta elevada fiabilidade em futebolistas jovens
(ICC = 0,92–0,97; CV = 1,1–1,9%) (Buchheit & Mendez-Villanueva, 2013).
· Análise estatística
Foi utilizada a melhor MSS
de cada jogador em cada escalão etário. As MSS foram convertidas em percentis
dentro de cada escalão, com base nos quais se definiram 6 grupos de desempenho:
mais lentos (≥0.º a <10.º percentil), lentos (≥10.º a <25.º percentil),
lento-médio (≥25.º a <50.º percentil), médio-rápido (≥50.º a <75.º
percentil), rápidos (≥75.º a <90.º percentil) e mais rápidos (≥90.º a ≤100.º
percentil). Para jogadores com dados em escalões consecutivos, quantificaram-se
as transições entre grupos (subida, descida ou manutenção), em valores
absolutos e percentuais, com uma abordagem descritiva. A estabilidade a longo
prazo dos percentis foi avaliada através de coeficientes de correlação
intraclasse (ICC 3,1), com intervalos de confiança a 95%, considerando todos os
escalões e escalões consecutivos. Apenas jogadores com pelo menos 4 medições (n
= 86) foram incluídos nesta análise. A interpretação dos ICC seguiu critérios
convencionais de qualidade. Para ilustrar trajetórias individuais distintas,
apresentaram-se estudos de caso de 3 jogadores entre os Sub-12 e os Sub-17. As
análises foram replicadas para os tempos parciais aos 10 m, cujos resultados
detalhados constam do material suplementar, mantendo-se a MSS como variável
principal do estudo.
Principais resultados
Esta secção organiza os
resultados de acordo com os principais tópicos abordados pelos autores e
destaca os factos mais relevantes da investigação.
·
Desenvolvimento
absoluto da velocidade máxima de sprint
A MSS aumentou de forma
consistente com a idade em todos os escalões, o que se traduz num
desenvolvimento absoluto positivo ao longo da adolescência.
·
Transições entre
grupos de desempenho
Entre escalões etários
consecutivos, as transições descendentes (para grupos mais lentos) ocorreram
com maior frequência (41%) do que a permanência no mesmo grupo (35%) ou as
transições ascendentes, isto é, para grupos de maior velocidade relativa (24%).
Nos grupos de desempenho mais elevados, os jogadores desceram de grupo mais
vezes do que subiram, enquanto nos grupos mais baixos surgiu maior
probabilidade de progressão.
·
Padrões por escalão
etário
Os padrões de transição
mantiveram-se relativamente consistentes entre escalões. As descidas
representaram a maior proporção de mudanças (35–51%), ao passo que as subidas
ocorreram com menor frequência (16–29%). As taxas mais elevadas de progressão
verificaram-se entre os Sub-17 e os Sub-19, enquanto as maiores descidas
ocorreram entre os Sub-13 e os Sub-14.
·
Estabilidade relativa
a longo prazo
A estabilidade dos
percentis de MSS ao longo de todos os escalões revelou-se moderada (ICC =
0,65). Entre escalões consecutivos, a estabilidade variou entre moderada e boa
(ICC = 0,61–0,79), o que indica flutuações relevantes no posicionamento
relativo dos jogadores ao longo do percurso formativo.
·
Estudos de caso
A figura 3 ilustra 3
trajetórias individuais distintas de desenvolvimento da MSS entre os Sub-12 e
os Sub-17 e evidencia padrões de estabilidade relativa, progressão sustentada e
declínio relativo. Estes casos demonstram a elevada variabilidade
interindividual e sustentam que melhorias absolutas da MSS nem sempre se
traduzem na manutenção do posicionamento relativo dentro do grupo etário.
Figura 3. Estudos de caso longitudinais que ilustram a velocidade
máxima de sprint (MSS) individual de 3 jogadores, bem como os respetivos
valores absolutos de MSS e percentis, em relação aos grupos de desempenho
representados por cores em cada escalão etário. Note-se que nenhum dos 3
jogadores integrou o escalão Sub-19 (Ruf et al., 2026).
Aplicações práticas
Os resultados do estudo
mostram que a MSS melhora com a idade, mas que o estatuto relativo dos
jogadores é instável ao longo do percurso formativo. Esta dinâmica tem
implicações diretas para os processos de avaliação e seleção no futebol infantojuvenil.
Em seguida, apresentam-se 4 aplicações práticas a considerar pelas equipas
técnicas:
1. Monitorizar a MSS numa lógica longitudinal, não classificatória: a estabilidade relativa da MSS é apenas moderada e as transições descendentes são frequentes, sobretudo em jogadores rápidos. A monitorização contínua deve servir para compreender trajetórias individuais ao longo do tempo, e não para rotular precocemente jogadores com base em rankings momentâneos.
2. Interpretar com cautela as quedas relativas de desempenho, sobretudo nos escalões intermédios: o declínio relativo da MSS ocorre em grande parte dos jogadores ao longo da adolescência e não indica, por si só, regressão física. Em muitos casos, reflete efeitos combinados de maturação, seleção interna e entrada de novos jogadores mais velozes.
3. Tratar o período entre os Sub-14 e os Sub-16 como uma fase crítica de avaliação: este intervalo etário concentra as maiores melhorias absolutas da MSS e a maior variabilidade interindividual, associada ao pico de crescimento. As decisões de seleção nesta fase devem ser particularmente cautelosas, por forma a evitar penalizar jogadores em estágios maturacionais mais tardios.
4. Evitar decisões precoces de exclusão com base
exclusiva na velocidade: embora a velocidade seja um critério central nos
processos de seleção, ser rápido nos escalões iniciais não garante manutenção
do estatuto relativo ao longo da adolescência. Do mesmo modo, a progressão
tardia é rara, mas possível em jogadores com características específicas. A
retenção estratégica de alguns perfis tardios pode reduzir o risco de perda de
talento.
Conclusão
A estabilidade a longo prazo do desempenho relativo da
MSS revelou-se moderada, com transições frequentes entre grupos de desempenho
ao longo da adolescência. Cerca de um terço dos jogadores manteve o mesmo posicionamento
relativo, enquanto a maioria transitou mais frequentemente para grupos mais
lentos do que para grupos mais rápidos. As descidas ocorreram sobretudo entre
jogadores de melhor desempenho, ao passo que as subidas foram mais comuns nos
grupos de desempenho inferior, um padrão que se manteve entre os diferentes escalões
etários. Estes resultados, apoiados por estudos de caso, desafiam a ideia de
que jogadores rápidos se mantêm sempre rápidos ao longo da adolescência e providenciam
orientações relevantes para a interpretação do desempenho e do potencial futuro
em processos de avaliação e seleção de talento.
P.S.:
1- As ideias que constam neste texto foram originalmente
escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua
portuguesa;
2- Para melhor compreender as ideias acima referidas,
recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;
3- As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos
autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão
original publicada na revista International Journal of Sports Science &
Coaching.
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