27/12/2025

Artigo do mês #72 – dezembro 2025 | Sprints, desacelerações e viragens são as ações que mais frequentemente precedem golos no futebol: análise de 6 Campeonatos do Mundo da FIFA

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Daly, L., Caulfield, P., & Martínez-Hernández, D.

País: República da Irlanda

Data de publicação: 23-novembro-2025

Título: Sprints, decelerations and turns most commonly precede goals in soccer: Analysis of 6 FIFA World Cups

Referência: Daly, L., Caulfield, P., & Martínez-Hernández, D. (2025). Sprints, decelerations and turns most commonly precede goals in soccer: Analysis of 6 FIFA World Cups. European Journal of Sport Science, 25(12), e70085. https://doi.org/10.1002/ejsc.70085

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 72 – dezembro de 2025.

 

Apresentação do problema

O futebol de alto rendimento é uma modalidade multifatorial, onde o desempenho coletivo e individual resulta de uma interação complexa entre competências técnicas, organização tática, contexto de jogo, capacidades físicas e processos cognitivos. Entre os fatores que mais contribuem para a eficácia ofensiva destacam-se as ações explosivas – como sprints, desacelerações e mudanças bruscas de direção – frequentemente associadas à criação de oportunidades de golo (Martínez-Hernández et al., 2024). 

Apesar da importância inegável da proficiência tático-técnica, o caráter dinâmico e imprevisível do jogo contemporâneo valoriza atributos físicos específicos que sustentam a execução eficaz sob pressão (Aquino et al., 2020; Daly et al., 2023). Ainda que os dados obtidos por GPS e outras tecnologias de rastreamento permitam monitorizar a carga de trabalho dos jogadores, estes indicadores quantitativos tendem a negligenciar o enquadramento contextual das ações decisivas, como transições ofensivas, recuperações em zonas altas ou finalizações com sucesso (Paul et al., 2015; Ponce-Bordón et al., 2022). 

A evidência atual aponta para a influência de múltiplos fatores táticos e situacionais na concretização de golos. Entre os mais relevantes destacam-se o grau de organização defensiva do adversário, a proximidade da recuperação da posse em relação à baliza contrária (González-Ródenas et al., 2020) e a ocupação ofensiva do espaço entre a bola e a baliza (Schulze et al., 2018; 2022). Nestes contextos, as ações intensas, particularmente durante contra-ataques ou movimentos de rutura, desempenham um papel decisivo na desestabilização das estruturas defensivas e na criação de espaços livres para finalizar (Schulze et al., 2022). 

A eficácia destas ações depende, em larga medida, da preparação física dos jogadores. Indivíduos com elevada capacidade para acelerar, mudar de direção e sustentar esforços repetidos estão mais aptos a romper linhas adversárias e a capitalizar momentos-chave do jogo (Martínez-Hernández et al., 2023). Estas competências assentam em características fisiológicas multifacetadas, que incluem componentes neuromusculares, metabólicos, cardiovasculares e mecânicos (Daly et al., 2023; Vigh-Larsen et al., 2024). Como tal, a performance ofensiva parece estar intrinsecamente ligada a atributos físicos específicos que sustentam as ações de maior intensidade (Martínez-Hernández & Jones, 2024).

 

Figura 2. Ações intensas antecedem, com frequência, situações de golo (fonte: www.liverpoolfc.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Contudo, a investigação sobre o papel concreto das ações físicas imediatamente anteriores aos golos permanece escassa. As poucas evidências disponíveis apontam para a prevalência de esforços intensos nos momentos que antecedem a finalização, mas baseiam-se em amostras reduzidas, restritas a ligas europeias numa só época (Faude et al., 2012; Martínez-Hernández et al., 2023, 2024), como a Premier League, a Women’s Super League ou a Bundesliga. Estas limitações metodológicas impedem generalizações quanto a variações internacionais ou à evolução temporal dos padrões ofensivos. Com o aumento da intensidade do futebol moderno (Harper et al., 2021), torna-se imperativo questionar se os determinantes físicos do sucesso ofensivo acompanham essa transformação. 

Para além das limitações referidas, subsiste uma preocupação mais alargada sobre a replicabilidade das conclusões nas ciências do desporto (Mesquida et al., 2022), o que sustenta a necessidade de validar os dados atuais. A análise comparativa e longitudinal das ações que antecedem os golos, em contextos internacionais masculinos e femininos, pode contribuir para uma compreensão mais sólida, realista e aplicável dos requisitos físicos associados à eficácia ofensiva. Tal conhecimento poderá informar a conceção de programas de treino mais ajustados às exigências competitivas, identificar tendências evolutivas e esclarecer eventuais diferenças associadas ao sexo biológico. 

Neste enquadramento, o presente estudo procurou colmatar essas lacunas através da análise de todas as ações imediatamente anteriores aos golos em jogo corrido, registados nos Campeonatos do Mundo FIFA masculinos (2014, 2018, 2022) e femininos (2015, 2019, 2023).

 

Métodos

 

·     Abordagem experimental ao problema

O estudo analisou 649 golos marcados em situações de jogo corrido nos Campeonatos do Mundo da FIFA (masculinos e femininos), com foco nos 3 últimos movimentos do marcador e do assistente. As ações foram classificadas com base numa versão modificada da Bloomfield Movement Classification (mBMC) (Bloomfield et al., 2004), à qual se acrescentaram categorias para intensidade, direção e envolvimento com a bola. A investigação teve como objetivo identificar as exigências físicas e táticas associadas à eficácia ofensiva, bem como avaliar variações temporais e diferenças entre sexos biológicos.

 

·     Procedimentos

A análise centrou-se exclusivamente em golos obtidos em jogo corrido, excluindo bolas paradas, autogolos e situações de ressalto. A delimitação metodológica procurou assegurar maior homogeneidade no tipo de contexto ofensivo em estudo. Só um investigador realizou a codificação dos lances, sem limite de tempo por ação, com o apoio de uma grelha informatizada desenvolvida em Excel. Foram considerados os 3 últimos movimentos do marcador e do assistente, tendo como ponto de partida a receção da bola (assistente) ou o passe recebido (marcador). Esta janela de análise procurou captar as ações mais próximas e potencialmente decisivas para a construção do golo (Faude et al., 2012; Martínez-Hernández et al., 2023, 2024). A codificação incluiu categorias relativas à intensidade, direção e envolvimento com a bola. Os dados utilizados encontram-se disponíveis em acesso aberto (https://shorturl.at/OWk2X), o que permite a sua reutilização em futuros trabalhos científicos.

 

·     Análise estatística

A análise estatística combinou testes do qui-quadrado e análise bayesiana de tabelas de contingência para examinar diferenças na prevalência e na intensidade dos movimentos que antecederam os golos nos 6 Mundiais masculinos e femininos. Foram consideradas possíveis variações em função do ciclo competitivo, do sexo biológico e do papel do jogador (assistente vs. marcador). A fiabilidade da codificação foi aferida através dos coeficientes Kappa de Cohen, registando níveis de concordância entre substancial e quase perfeita. Para além dos testes de significância tradicionais (p < 0.05), os autores utilizaram fatores de Bayes (BF10) para quantificar a força da evidência a favor ou contra as hipóteses formuladas. A conjugação destas abordagens torna as conclusões mais robustas e assegura coerência com trabalhos anteriores (Martínez-Hernández et al., 2023, 2024).

 

Principais resultados

Os resultados foram organizados por sexo biológico, ciclo competitivo e papel do jogador (marcador ou assistente), com destaque para a prevalência, intensidade e tipo de movimento que antecederam os golos.

 

·     Frequência total e percentagens dos movimentos

Foram analisados 2995 movimentos associados a 649 golos marcados nos 6 Campeonatos do Mundo mais recentes, masculinos e femininos. No futebol masculino, foram incluídos: 579 movimentos e 120 golos no Mundial de 2014; 463 movimentos e 108 golos em 2018; 559 movimentos e 124 golos em 2022. No futebol feminino, foram analisados: 480 movimentos e 107 golos no Mundial de 2015; 421 movimentos e 88 golos em 2019; 493 movimentos e 102 golos em 2023. Houve uma distribuição equilibrada entre géneros e edições do certame.

 

·     Classificação dos movimentos e prevalência da intensidade

As ações de progressão linear foram as mais frequentes, surgindo predominantemente em alta intensidade, com efeito elevado. As desacelerações ocorreram maioritariamente em intensidade moderada, e as mudanças de direção em alta intensidade, ambas com efeito moderado (figura 3). Não se verificaram diferenças significativas entre sexos nem entre ciclos competitivos. Contudo, os assistentes apresentaram maior proporção de desacelerações de intensidade moderada do que os marcadores, com efeito moderado.

 

Figura 3. Classificação dos movimentos e prevalência da intensidade para (A) total, (B) Mundiais femininos e (C) Mundiais masculinos. Linear: movimento linear de progressão (Daly et al., 2025).

 

·     Intensidade das ações agregadas

As ações de alta intensidade dominaram o conjunto dos movimentos analisados (figura 4). As jogadoras apresentaram uma proporção superior de ações de alta intensidade face aos jogadores masculinos, com efeito moderado. Registou-se uma redução da proporção de ações de alta intensidade no ciclo mais recente (2022/2023), com efeito pequeno. Não surgiram diferenças relevantes entre assistentes e marcadores. A análise bayesiana enalteceu a consistência dos padrões de intensidade entre ciclos, com exceção para o sexo biológico, onde se observou evidência sólida de variação.

 

Figura 4. Proporção da intensidade (A) e distribuição dos movimentos (B) para cada grupo amostra (Daly et al., 2025).

 

·     Proporções dos tipos de movimento

A progressão linear foi o tipo de movimento mais comum antes dos golos, seguida por desacelerações e mudança de direção. As progressões lineares foram mais frequentes em jogadores masculinos e nos marcadores, com efeitos pequenos. As desacelerações ocorreram com maior prevalência em jogadoras e nos assistentes, também com efeitos pequenos. As mudanças de direção não apresentaram diferenças relevantes entre sexos ou papéis, mas diminuíram no ciclo mais recente, com efeito pequeno. As restantes ações – por exemplo, mudança brusca de direção (cut), corrida em arco (arc run), deslocamento lateral (shuffle) e cruzamento de pernas em deslocamento lateral (crossover) – apresentaram padrões semelhantes entre sexos e posições, com variações pontuais ao longo dos ciclos competitivos. A análise bayesiana indicou elevada estabilidade dos padrões de movimento, independentemente do sexo, papel ou ciclo competitivo.

 

Aplicações práticas

A identificação de padrões locomotores consistentes que antecedem os golos em Campeonatos do Mundo masculinos e femininos fornece orientações concretas para a preparação tático-física dos jogadores. As semelhanças observadas entre sexos, papéis (assistente e marcador) e ciclos competitivos suportam a estabilidade das exigências físicas na etapa prévia à finalização. Em seguida, deixamos 5 aplicações práticas para serem consideradas pelas equipas técnicas:

 

1. Desenvolver ações lineares de alta intensidade: a prevalência de movimentos de progressão linear em sprint antes do golo sublinha a importância de melhorar a aceleração e a velocidade máxima. Sessões regulares de sprints, integradas num programa de treino bem estruturado, potenciam o desempenho ofensivo e reduzem o risco de lesão. 

2. Aprimorar a capacidade de desaceleração: as desacelerações intensas surgem como o segundo movimento mais frequente antes do golo. A sua eficácia relaciona-se com a rutura de ritmo e criação de separação face ao defensor direto. Treinar a sequência de fases da corrida – aceleração, transição, velocidade máxima e desaceleração – permite responder de forma mais eficaz às exigências do jogo atual. 

3. Potenciar a eficiência das viragens: as viragens implicam controlo do tronco, centro de gravidade e força neuromuscular. Melhorias nesta ação física requerem treino específico de mudança de direção, complementado por exercícios de força, pliometria e velocidade com variação de ritmo. 

4. Integrar padrões de movimento variados: apesar de menos frequentes, ações como corrida em arco, mudança brusca de direção, deslocamentos laterais com ou sem cruzamento das pernas, representam cerca de 20% das ações imediatamente anteriores ao golo. A sua inclusão em jogos reduzidos e exercícios situacionais pode ampliar a variabilidade tática e física dos jogadores. 

5. Treinar para fomentar a consistência e a adaptabilidade: a estabilidade dos padrões de movimento encontrados realça a importância de os trabalhar com regularidade, sem descurar a capacidade de adaptação rápida a contextos dinâmicos e imprevisíveis.

 

Conclusão

O presente estudo concede um novo contributo para a compreensão das ações físicas que antecedem a marcação de golos em contexto de jogo corrido, com base na análise de 6 Campeonatos do Mundo da FIFA, masculinos e femininos. Os resultados indicam que os sprints, as desacelerações e as viragens constituem as ações mais frequentes antes da finalização. Verificaramse poucas variações em função do ciclo competitivo, do sexo biológico ou do papel do jogador, com exceção de uma redução das ações de alta intensidade no ciclo competitivo mais recente. Esta estabilidade sugere que o tipo e a intensidade relativa das ações que precedem os golos são consistentes entre contextos competitivos, o que legitima a sua aplicabilidade a outras populações do futebol. Em termos práticos, os resultados ajudam analistas e treinadores a identificar comportamentos ofensivos e defensivos críticos e a estruturar exercícios que integrem sprints, viragens e desacelerações em tarefas de finalização. A dimensão amostral e a replicação dos resultados enaltecem a relevância destas ações na criação de oportunidades de golo e justificam investigação futura de cariz inferencial.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista European Journal of Sport Science.

29/11/2025

Artigo do mês #71 – novembro 2025 | Diferenças na inteligência geral e na avaliação subjetiva dos treinadores sobre a tomada de decisão dos jogadores em diferentes posições, em academias de elite do futebol inglês

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Davies, S., Noonan, R., Robertson, C., & Sankey, S.

País: Inglaterra

Data de publicação: 29-outubro-2025

Título: An investigation into differences in general intelligence and coaches' subjective assessment of players' decision-making skills across different playing positions in EPPP association football academies

Referência: Davies, S., Noonan, R., Robertson, C., & Sankey, S. (2025). An investigation into differences in general intelligence and coaches' subjective assessment of players' decision-making skills across different playing positions in EPPP association football academies. Intelligence, 113, 101968. https://doi.org/10.1016/j.intell.2025.101968

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 71 – novembro de 2025.

 

Apresentação do problema


Especificidade de posição no futebol

O Elite Player Performance Plan (EPPP) da Premier League incentivou as academias inglesas a integrarem várias modalidades nos treinos, com vista a promover o desenvolvimento global dos jogadores (Taylor et al., 2024). Apesar dos benefícios da diversificação – como uma melhor resolução de problemas, menor incidência de lesões e redução do risco de esgotamento – muitos clubes continuam a apostar na especialização precoce (Taylor et al., 2024; Till & Baker, 2020). 

A evidência atual sustenta a existência de transferência cognitiva entre desportos de invasão (Causer & Ford, 2014), mas as diferenças cognitivas entre as posições de jogo no futebol permanecem pouco exploradas. Estudos prévios não detetaram variações na tomada de decisão no netball (Bruce et al., 2012), nem em competências psicológicas entre as posições no futebol (Beavan et al., 2022; Carnevale et al., 2022). Contudo, as tarefas utilizadas foram limitadas: amostras homogéneas de jogadores de elite, jogos reduzidos (3v3) e ausência de testes de inteligência geral (Jooste et al., 2014). 

Carnevale et al. (2022) sugeriram que todos os jogadores devem desenvolver competências físicas e cognitivas, independentemente da posição. A exposição a várias posições parece favorecer a adaptação futura (Lovell et al., 2018), embora a investigação tenha decorrido em instituições académicas não ligadas a clubes profissionais. Dado o contexto específico do EPPP, importa clarificar se a inteligência geral e a tomada de decisão influenciam uma diversificação bem-sucedida no futebol profissional.

 

Inteligência geral no futebol

A inteligência geral poderá ter relevância na identificação de talento, ao predizer a aprendizagem, a aquisição de conhecimento e o desempenho em tarefas complexas (Ones et al., 2012; Haier, 2017). Porém, a sua aplicação prática no futebol encontra-se limitada pela escassez de investigação. Noutras modalidades, foi associada ao processamento de informação e à tomada de decisão, destacando-se a sua importância no desenvolvimento da chamada “inteligência de jogo” (Burgoyne et al., 2016). 

Na NFL, posições cognitivamente mais exigentes associam-se a níveis superiores de inteligência geral (Pitts & Evans, 2018). Contudo, estes resultados não se transferem diretamente para o futebol, onde as funções são mais homogéneas. As funções executivas, apesar de amplamente estudadas, apresentam validade ecológica reduzida e resultados inconsistentes (Ali, 2011), sendo provável que deixem de discriminar além de determinado limiar (Beavan et al., 2020). Assim, a identificação de talento não deverá assentar numa única capacidade cognitiva (Gledhill et al., 2017). 

Continua por clarificar se a inteligência geral varia em função da posição. Posições como a de avançado, que requerem decisões rápidas em espaços curtos, poderão exigir maior rapidez de processamento (Frischkorn et al., 2019), mas esta hipótese carece de validação empírica no contexto da modalidade.

 

Tomada de decisão em diferentes posições

Os jogadores de elite demonstram capacidades superiores de tomada de decisão (Ali, 2011), apoiadas por funções executivas avançadas (Filgueiras et al., 2023; Vestberg et al., 2017). A tomada de decisão reflete o processamento de informação e a escolha da resposta mais adequada sob pressão (McGuikan et al., 2018). No futebol, a elevada carga cognitiva reforça a importância do processamento rápido em detrimento da perceção isolada (Cardoso et al., 2021). 

Do ponto de vista posicional, os avançados, por atuarem sob elevada pressão temporal, poderão beneficiar mais de decisões rápidas ou “instintivas” (Kahneman, 2011; Ashford et al., 2021a). Jogadores mais habilidosos tendem a usar heurísticas e a tomar decisões mais eficazes (Basevitch et al., 2019). Até à data, a investigação tem feito pouca distinção entre as diferentes posições. Sabe-se que os defesas tendem a antecipar ações adversárias, enquanto os avançados as iniciam em espaços reduzidos, o que requer criatividade (Duarte et al., 2012; Williams et al., 2008). 

Embora os estilos de decisão variem consoante o contexto, permanece por explicar se requerem competências cognitivas distintas ou se interferem na avaliação dos treinadores. A maioria dos estudos agrupou posições ou ignorou as suas exigências específicas, o que dificulta a compreensão das reais diferenças cognitivas entre as funções em campo.

 

Avaliações subjetivas dos treinadores sobre os jogadores

Avaliar o desempenho cognitivo no futebol é um desafio. Por este motivo, alguns autores consideram que a opinião dos treinadores poderá constituir um dos melhores indicadores de talento (Ali, 2011). Apesar da validade e fiabilidade atribuídas às suas avaliações (Murr et al., 2021; Jokuschies et al., 2017), os critérios utilizados tendem a variar. O designado “olho do treinador” (figura 2) traduz julgamentos intuitivos, influenciados pela experiência e pela perceção global da competência do jogador (Lath et al., 2021).

 

Figura 2. O “olho do treinador” tem aspetos positivos, mas não apenas… (fonte: www.fenew.co.uk; imagem não publicada pelos autores).

 

Em contextos de decisão rápida, os treinadores recorrem a heurísticas simples e eficazes (Bar-Eli et al., 2024). Contudo, desconhece-se se avaliam com consistência as diferentes posições. A ambiguidade dos princípios ofensivos e defensivos e a natureza dinâmica do jogo tornam difícil definir talento e avaliar decisões (Baker et al., 2024). Estes desafios podem levar à exclusão de jogadores talentosos (Kelly et al., 2018), mas não se sabe se tal ocorre de forma desigual entre as posições. 

O presente estudo teve 3 objetivos principais: (1) verificar se a inteligência geral varia consoante a posição em campo; (2) analisar se as avaliações dos treinadores sobre a tomada de decisão diferem entre posições; e (3) comparar estas avaliações subjetivas com os resultados obtidos nos testes de inteligência geral.

 

Métodos

 

·     Participantes

Participaram 99 jogadores (16–18 anos) de 8 academias profissionais inglesas e 8 treinadores com, no mínimo, Licença UEFA B. As academias pertenciam ao EPPP (5 de categoria 2 e 3 de categoria 3). Excluíram-se guarda-redes por amostra insuficiente (n = 2). Restaram 37 defesas, 34 médios e 28 avançados. Todos deram consentimento informado. O estudo foi aprovado pela University of Bolton.

 

·     Procedimentos

Sessenta e uma academias (categorias 1 a 3) foram contactadas. Onze manifestaram interesse, mas 3 desistiram. Todos os participantes receberam informação prévia sobre o estudo. Os testes foram aplicados nas instalações dos clubes, com supervisão dos tutores.

 

·     Inteligência geral

Utilizou-se a versão curta do Teste de Matrizes Progressivas Avançadas de Raven (23 itens, 20 minutos), aplicada coletivamente. Cada participante respondeu com base em instruções padronizadas e 3 exemplos de treino. As folhas de respostas foram corrigidas e verificadas por 2 avaliadores. As pontuações variaram entre 0 e 23.

 

·     Tomada de decisão

Cada treinador avaliou subjetivamente a capacidade de decisão dos seus jogadores, organizando-os por ordem (do mais para o menos competente). Este procedimento apresenta validade e fiabilidade, conforme documentado em estudos prévios (Scharfen & Memmert, 2021; Vestberg et al., 2020).

 

·     Medidas

O teste de Raven é uma medida fiável de inteligência fluida, independente da educação e da cultura (Haier, 2017). A versão curta simula melhor o contexto temporal do futebol e mostra correlação com tarefas de decisão (Van Duijvenvoorde et al., 2012). A avaliação subjetiva dos treinadores reduz as exigências dos instrumentos formais (e.g., GPAI) e pode ser apoiada por dados estatísticos fornecidos pelos clubes.

 

·     Análise

Utilizaram-se testes de Shapiro-Wilk e Levene para verificar assunções de aplicabilidade. Como não foram cumpridos, recorreu-se ao teste não paramétrico de Kruskal-Wallis H para comparar pontuações de inteligência geral e classificações de tomada de decisão entre as posições de jogo. Aplicou-se o teste de Dunn com correção de Bonferroni. Para comparar o ranking de inteligência com o ranking de decisão atribuídos aos jogadores, foi aplicado o teste de Wilcoxon Signed-Rank.

 

Principais resultados

O estudo procurou analisar possíveis diferenças na inteligência geral e na avaliação da tomada de decisão entre as diversas posições no futebol, bem como a correspondência entre estas duas medidas. Os resultados são apresentados de acordo com os 3 objetivos definidos.

 

·     Inteligência geral por posição

Os jogadores que atuam como avançados apresentaram, em média, os valores mais elevados nos testes de inteligência geral. No entanto, não se identificaram diferenças significativas entre as várias posições, o que sugere que a inteligência geral poderá ser relativamente homogénea entre defesas, médios e avançados.

 

·     Avaliação da tomada de decisão por posição

Os treinadores atribuíram melhores classificações de tomada de decisão aos defesas e aos médios, em comparação com os avançados. As diferenças observadas foram claras entre avançados e os restantes jogadores de campo, sendo os primeiros avaliados de forma menos favorável. Entre defesas e médios, as avaliações foram semelhantes.

 

·     Concordância entre inteligência geral e avaliação dos treinadores

Nos defesas e nos médios, as classificações baseadas nos testes de inteligência geral e as avaliações subjetivas dos treinadores apresentaram elevada concordância. Já nos avançados, verificou-se incoerência entre os dois tipos de avaliação (Figura 3), o que levanta dúvidas sobre a fiabilidade da perceção dos treinadores nesta posição específica.

 

Figura 3. Gráfico de colunas empilhadas (100%) que representa as percentagens de diferenças negativas, nulas e positivas entre o ranking dos jogadores na inteligência geral (Raven APM – versão curta) e o ranking na tomada de decisão. Valores positivos indicam melhor classificação na tomada de decisão do que na inteligência geral; valores negativos indicam melhor classificação na inteligência geral do que na tomada de decisão; valores nulos indicam coincidência entre os dois rankings.

 

Aplicações práticas

A avaliação da inteligência geral e da tomada de decisão por posição oferece pistas úteis para o treino e para os processos de identificação e desenvolvimento de talento. Os resultados do presente estudo sugerem que a perceção dos treinadores nem sempre reflete o potencial cognitivo dos jogadores, especialmente dos avançados. A seguir apresentam-se 4 recomendações derivadas das evidências apuradas:

 

1. Promover a rotação de posições no treino em escalões de formação: incentivar os jovens jogadores a experimentar diferentes posições pode ampliar o seu leque de competências cognitivas e melhorar a compreensão do jogo. Esta abordagem ajuda também a revelar talentos subvalorizados em posições menos exploradas. 

2. Complementar a observação com medidas objetivas: a integração de testes de inteligência geral nos processos de recrutamento e monitorização pode apoiar a avaliação dos treinadores, o que possibilita a definição de perfis mais completos dos jogadores e reduz o risco de enviesamentos ou exclusões indevidas. 

3. Reforçar o cuidado na avaliação dos avançados: os avançados operam em contextos situacionais mais imprevisíveis e com menos tempo para decidir, o que pode levar a avaliações subjetivas mais desfavoráveis. Os treinadores devem considerar que decisões rápidas e criativas nem sempre resultam em sucesso imediato, mas revelam competências valiosas. 

4. Adaptar o treino às exigências cognitivas por posição: embora a inteligência geral não varie entre posições, as exigências situacionais específicas (tempo, espaço, pressão) justificam métodos de treino diferenciados. Os defesas e os médios poderão beneficiar de estratégias que reforcem a precisão e a análise, enquanto os avançados exigem contextos que estimulem a criatividade e a pronta resposta motora sob elevada pressão adversária.

 

Conclusão

Os resultados deste estudo mostram que a inteligência geral não difere entre posições de jogo no futebol, pelo que não deve ser utilizada como critério para definir funções específicas. Os treinadores tendem a avaliar a tomada de decisão dos avançados de forma menos favorável do que a dos defesas e médios, bem como abaixo do seu próprio nível de inteligência geral. Este dado sugere uma subavaliação do talento decisional dos avançados nas academias. Uma identificação mais precisa da tomada de decisão, enquanto componente da inteligência de jogo, poderá representar uma vantagem competitiva para os clubes. A integração de testes psicométricos de inteligência geral em baterias de avaliação psicológica proporcionará perfis de jogador mais completos, objetivos e informados.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Intelligence.

31/10/2025

Artigo do mês #70 – outubro 2025 | Quais os fatores que perturbam a concentração dos futebolistas? Uma investigação sobre as opiniões de treinadores de seleções nacionais jovens

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Maurin, M., Leprince, C., Carling, C., Lachaux, J-P., & Martinent, G.

País: França

Data de publicação: 9-outubro-2025

Título: Which factors disrupt football players’ concentration? A qualitative investigation into the opinions of national youth team coaches

Referência: Maurin, M., Leprince, C., Carling, C., Lachaux, J-P., & Martinent, G. (2025). Which factors disrupt football players’ concentration? A qualitative investigation into the opinions of national youth team coaches. Journal of Sports Sciences, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/02640414.2025.2569238

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 70 – outubro de 2025.

 

Apresentação do problema

Para Arsène Wenger, atingimos o limite da velocidade física e, por isso, “o próximo fator de mudança será a neurociência”, por definir o futuro da tomada de decisão, da execução e da coordenação no futebol (Lewis, 2020). Esta perspetiva destaca a atenção e a concentração como pilares essenciais do desempenho.

 

Atenção e concentração: explorar a linha ténue

A atenção e a concentração são conceitos interligados, mas distintos. A atenção corresponde ao processo de seleção e priorização de estímulos do ambiente, direcionando a perceção para pistas relevantes à tomada de decisão e à execução motora (Goldstein, 2008; Bahmani et al., 2019; Magill & Anderson, 2014). A concentração, por sua vez, traduz a integração entre perceção, intenção e ação – uma orquestração tridimensional em que o comportamento se orienta totalmente para um objetivo (Lachaux, 2020).

Neste processo, a intenção define o propósito da ação e determina a hierarquia entre perceções e respostas relevantes ou irrelevantes (Peelen & Kastner, 2014). Assim, intenções mal definidas comprometem a concentração e, consequentemente, o desempenho. A concentração, portanto, não se limita à atenção: envolve a articulação entre perceber, decidir e agir de forma coordenada, assumindo-se como um ingrediente determinante para a performance desportiva (Moran, 2008). 

De acordo com a Meshed Control Theory, esta interação pode ser analisada em níveis estratégico-cognitivos e automáticos de controlo (Christensen et al., 2016), o que estabelece uma via promissora para compreender como os jogadores alcançam estados ótimos – ou se veem perturbados – em contextos reais de jogo.

 

Investigação sobre atenção e concentração no desporto e no futebol

Os estudos mostram que atletas experientes apresentam melhores competências percetivo-cognitivas (Mann et al., 2007) e estratégias atencionais mais eficazes (Roca et al., 2011) do que os principiantes. No futebol, a atenção tem sido sobretudo estudada em contextos laboratoriais, em tarefas fechadas como as grandes penalidades (Savelsbergh et al., 2005; Wood & Wilson, 2010, 2011) e em cenários mais dinâmicos (Roca et al., 2011, 2013). Os jogadores mais experientes focam-se mais em adversários e espaços livres, com fixações visuais mais breves e direcionadas (figura 2).

 

Figura 2. A atenção e a concentração são essenciais em contextos competitivos (fonte: neurotracker.com; imagem não publicada pelos autores).


Recentemente, o conceito de scanning (i.e., varrimento visual) ganhou destaque. Trata-se de movimentos de cabeça intencionais para recolher informação relevante antes de uma ação com bola (Pokolm et al., 2022). Os futebolistas que mais varrem o envolvimento tendem a realizar mais passes eficazes (Jordet et al., 2013). No entanto, a frequência de scanning diminui em cenários de elevada pressão (Jordet et al., 2020). Em contextos de ansiedade competitiva, como nas grandes penalidades, os processos atencionais podem ser comprometidos (Beilock & Carr, 2001; Eysenck et al., 2007). 

Além disso, as limitações metodológicas, como o uso de dispositivos eye-tracking, dificultam a investigação em ambientes reais. Por essa razão, têm sido utilizadas abordagens qualitativas para explorar focos atencionais e vivências subjetivas de jogadores em momentos críticos (Bahmani et al., 2019; Gesbert et al., 2017). Ainda assim, são raros os estudos que analisam conteúdos atencionais internos e externos em diversos contextos de jogo, bem como a visão experiente dos treinadores sobre os fatores que mais influenciam a concentração no futebol.

 

O presente estudo

Este estudo teve como objetivo identificar, a partir das opiniões de treinadores principais, as situações e fatores que mais afetam a concentração dos jogadores durante os jogos. Partindo da premissa de que a concentração assume um papel mais relevante em certos momentos do jogo, procurou-se reconhecer os contextos críticos em que a sua perturbação pode influenciar o desempenho e o resultado competitivo.

 

Métodos

 

·     Posicionamento ontológico e epistemológico

O estudo seguiu uma perspetiva realista crítica (Maxwell, 2012), combinada com uma epistemologia construtivista. Assume-se que o conhecimento é construído e influenciado pela interpretação dos investigadores (Levers, 2013), sendo teórico e falível (Ronkainen & Wiltshire, 2021).

 

·     Participantes

Foram incluídos 12 selecionadores nacionais das equipas jovens masculinas (Sub-15 a Sub-20) e femininas (Sub-15 a Sub-23) da França (8 homens e 4 mulheres; idade média = 48,8 anos; experiência internacional média = 7,5 anos). Todos aceitaram participar voluntariamente. A maioria possui experiência adicional em ambientes de futebol de elite (ex-jogadores profissionais, treinadores de clubes, diretores de academias).

 

·     Procedimentos

O estudo foi aprovado pela comissão de ética (CERSTAPS N°IRB00012476-2024–28-05–316). Os treinadores deram consentimento informado após reunião de apresentação na Federação Francesa de Futebol. Realizaram-se 12 entrevistas semiestruturadas: 4 presenciais e 8 online (duração média: 31,3 minutos). A saturação de dados foi atingida após 10 entrevistas, mas as restantes foram realizadas conforme o protocolo. As entrevistas basearam-se num guião aberto (Martinent & Ferrand, 2009), preparado por 4 especialistas em psicologia do desporto e técnicas de entrevista. As perguntas focaram situações de jogo, momentos críticos e fatores que afetam a concentração dos jogadores.

 

·     Análise de dados

Transcreveram-se as entrevistas (corpus: 94 páginas). Usou-se análise temática indutiva (Braun & Clarke, 2006). Extraíram-se 338 unidades elementares de significado, que foram agrupadas por similaridade para formar temas emergentes (Patton, 2002). A análise passou por 5 fases:

1. Codificação individual das unidades elementares de significado (Martinent & Ferrand, 2015).

2. Agrupamento temático e revisão contínua das hierarquias (Giacobbi et al., 2004).

3. Análise grupal para identificar temas centrais (Uphill & Jones, 2007).

4. Definição clara dos temas, subtemas e categorias (Braun & Clarke, 2006).

5. Contagem das unidades elementares de significado por categoria e cálculo de proporções.

 

·     Fidelidade e triangulação

Foram adotadas várias estratégias para reforçar a confiança nos dados (Patton, 2002; Giacobbi et al., 2004). O primeiro autor aplicou perguntas abertas e escuta ativa, por forma a garantir o anonimato e a ausência de julgamentos. Na triangulação, 5 investigadores participaram da análise. Dois grupos codificaram 6 entrevistas (3 por grupo), e o autor principal também as analisou separadamente. As decisões foram validadas em reuniões de consenso. As entrevistas restantes foram analisadas pelo primeiro autor, com supervisão externa de 2 investigadores universitários independentes.

 

Principais resultados

Os treinadores nacionais inquiridos identificaram 6 grandes categorias de fatores que perturbam a concentração dos jogadores de futebol durante os jogos, com base em 338 unidades elementares de significado. Cada categoria reflete dimensões distintas, com impacto variável na performance.

 

·     Fatores pessoais (7,10%)

Referem-se ao estatuto individual do jogador face à equipa (ex. ser suplente ou estrela), aspetos da vida pessoal e crenças negativas. Estas condições internas podem afetar a capacidade de manter o foco competitivo.

 

·     Fatores relacionados com o treino diário (2,37%)

Incluem preparação deficiente, rotina excessiva e dificuldades em manter a concentração em sessões de vídeo ou reuniões técnicas. Embora pouco citados, revelam que a semana de treino condiciona a prontidão mental no jogo.

 

·     Fatores contextuais (8,88%)

Abrangem elementos antes ou durante o jogo que, embora externos à ação em campo, afetam a concentração: jogos com adversários mais fracos, condições meteorológicas adversas ou ambientes hostis nas bancadas.

 

·     Fadiga (13,61%)

A fadiga física e mental foi amplamente referida, especialmente no final de cada parte e durante fases de jogo prolongadas ou períodos competitivos intensos. A exaustão compromete os recursos cognitivos disponíveis para manter o foco.

 

·     Fatores situacionais (16,86%)

Incluem ruminância emocional (como reagir a erros, decisões do árbitro ou críticas do treinador) e cenários específicos de jogo (como liderar o marcador, sofrer golos tardios ou ser dominado em campo), que desviam o foco da tarefa.

 

·     Ritmo de jogo (51,18%)

A categoria mais referida. Engloba interrupções e retomas controladas pelo árbitro (ex. golos, substituições, inícios de parte), bolas paradas (ex. cantos, lançamentos) e alterações rápidas de ritmo (ex. transições defensivas, bolas perdidas). Nestes momentos, os jogadores revelam maior vulnerabilidade à distração e menor capacidade de reorientar a atenção rapidamente.


Aplicações práticas

Com base nos testemunhos de treinadores das seleções nacionais jovens francesas, foram identificadas 4 aplicações práticas fundamentais para a otimização da concentração dos jogadores em jogo. As recomendações incidem nos momentos críticos que mais perturbam o foco dos futebolistas e sugerem formas concretas de os integrar no treino.

 

1. Treinar interrupções, reinícios e bolas paradas com intenção clara: os momentos após interrupções – como cantos, lançamentos, livres ou golos – são dos mais suscetíveis a quebras de concentração. As equipas técnicas devem simular estas situações em treino, com reinícios rápidos e objetivos definidos para cada reposição. Para além disso, deve ser incutida nos jogadores uma intenção clara antes de cada bola parada, de modo que perceção, decisão e ação se articulem de forma natural e coordenada. 

2. Criar contextos de instabilidade emocional para testar o foco: o treinador deve introduzir no treino cenários situacionais extremos, como estar a ganhar por larga margem ou a perder nos últimos minutos. Estas condições ajudam os jogadores a manter a concentração quando a tendência emocional é dispersiva, o que previne quebras individuais ou colapsos coletivos em jogo. 

3. Gerir a influência do treinador – menos instruções, mais autorregulação: encoraja-se uma redução do número de instruções verbais em momentos decisivos para evitar sobrecarga cognitiva. Devem ser incluídos períodos de silêncio intencional para avaliar a capacidade de concentração autónoma dos jogadores. A equipa técnica deve ainda favorecer a leitura e correção mútua entre companheiros de equipa, no intuito de fomentar uma cultura de foco partilhado. 

4. Manipular o ritmo de jogo com constrangimentos específicos: sugere-se a estruturação de exercícios com variações abruptas de ritmo e transições rápidas entre ataque e defesa. Para tal, os treinadores podem introduzir regras condicionais (e.g., jogar com menos um após sofrer um golo) que estimulem a manutenção da concentração em fases particularmente exigentes, como as segundas bolas ou as mudanças rápidas de espaço.

 

Conclusão

As entrevistas com treinadores principais das seleções nacionais de futebol de França revelaram que os fatores relacionados com o ritmo de jogo (e.g., bolas paradas, interrupções longas) correspondem aos momentos em que os jogadores estão mais vulneráveis em termos de concentração. As evidências incentivam os investigadores e os treinadores a aprofundar o estudo destas situações, dado o seu potencial impacto no desfecho das partidas. A colaboração entre cientistas da área e os treinadores poderá favorecer a adoção de comportamentos de treino mais adequados, bem como a co-construção de métodos a integrar nas sessões de treino para otimizar a concentração dos jogadores.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Sports Sciences.