30/04/2026

Artigo do mês #76 – abril 2026 | Tendências contemporâneas dos dispositivos táticos e do sucesso das equipas nas principais ligas europeias de futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K.

País: Turquia

Data de publicação: 27-março-2026

Título: Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis

Referência: Tokul, E., Özçillingir, Ö. M., Kaya, K., Yilmaz, E. A., Saray, D., Agascioglu, E. A., Demirli, A., & Erdem, K. (2026). Contemporary trends in tactical formations and team success in Europe’s top-tier football leagues: a comparative analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. Advance online publication. https://doi.org/10.1186/s13102-026-01657-1

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 76 – abril de 2026.

 

Apresentação do problema

Os dispositivos táticos no futebol constituem elementos estruturais que influenciam a organização espacial das equipas, a ocupação do campo e a dinâmica do jogo. Para além de definirem o posicionamento inicial dos jogadores, condicionam a dinâmica ofensiva e defensiva e refletem a estratégia global da equipa (Rein & Memmert, 2016; Plakias et al., 2023). Neste sentido, assumem um papel central na forma como o jogo é construído e interpretado. 

Nos últimos anos, a evolução tecnológica tem permitido analisar estas estruturas de forma mais objetiva. O recurso a sistemas de rastreamento, análise posicional e inteligência artificial tem ampliado a capacidade de quantificar padrões táticos e relacioná-los com o desempenho competitivo (Plakias et al., 2023; Mesoudi, 2019). Apesar destes avanços, continuam a ser escassos os estudos que comparam, de forma sistemática, as preferências estratégico-táticas entre as principais ligas europeias e a sua associação com o sucesso desportivo (Lago-Peñas et al., 2023). 

A análise do rendimento no futebol assenta na observação sistemática dos comportamentos que emergem durante o jogo, permitindo compreender a interação entre indicadores individuais e a organização coletiva (Sarmento et al., 2014). Aspetos como a pressão alta, a construção desde o setor defensivo ou a eficácia nos duelos integram a matriz funcional das equipas e articulam-se com o dispositivo tático adotado. Estas estruturas táticas de base não só definem funções posicionais, como traduzem a identidade de jogo das equipas e das próprias ligas (Memmert et al., 2021; Forcher et al., 2022). 

O contexto atual do futebol, marcado por um ritmo de jogo mais elevado, calendários congestionados e maior diversidade de adversários, tem incentivado a adaptação e a variação dos dispositivos táticos ao longo da época (Yi et al., 2020; Guedea-Delgado et al., 2019). Embora estruturas clássicas como o 4-3-3, 4-2-3-1 e 4-4-2 se mantenham predominantes (Figura 2), a sua utilização apresenta oscilações em função das dinâmicas competitivas de cada liga (Sarmento et al., 2014).

 

Figura 2. Exemplos de dispositivos táticos predominantes no futebol contemporâneo (fonte: www.whoscored.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Posto isto, compreender de que forma os dispositivos táticos se relacionam com o sucesso competitivo assume particular relevância. O presente estudo procurou (i) identificar os dispositivos táticos utilizados na época 2023/2024 nas principais ligas europeias, (ii) analisar a sua relação com a classificação das equipas e (iii) comparar padrões entre ligas. As evidências reunidas permitem extrair implicações práticas relevantes para treinadores e investigadores (Lago-Peñas et al., 2023).

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

Estudo descritivo retrospetivo que analisou os dispositivos táticos nas principais ligas europeias sob 3 perspetivas: (i) identificação dos dispositivos utilizados, (ii) relação entre dispositivos e classificação final das equipas e (iii) comparação entre ligas (Rein & Memmert, 2016).

 

·     Amostra

Foram analisados dados da época 2023/2024 em 6 ligas europeias (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Itália e Turquia), num total de 2132 jogos. Cada equipa foi considerada como unidade de análise, resultando em 4038 observações após inclusão de alterações táticas durante os jogos. Foram excluídas situações com inferioridade numérica prolongada (>45 min) e dispositivos utilizados por menos de 15 minutos. Os guarda-redes não foram considerados na análise. 

Para analisar a relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo, as equipas foram agrupadas em 4 níveis de desempenho, definidos com base na classificação final e nos critérios de qualificação para competições da UEFA (Bradley et al., 2013): (i) qualificação para a Liga dos Campeões, (ii) qualificação para Liga Europa/Conference League, (iii) meio da tabela e (iv) despromoção. Os intervalos de classificação variaram ligeiramente entre ligas, de acordo com a sua estrutura competitiva.

 

·     Recolha de dados

Os dados sobre dispositivos táticos foram obtidos a partir da OPTA Sportsdata e validados com a plataforma fbref.com. Foram identificados 18 dispositivos utilizados na época 2023/2024, depois agrupados em 8 categorias principais com base em semelhanças estruturais. Esta classificação contou com o contributo de treinadores certificados (UEFA A e B), reforçando a validade técnica da categorização. As classificações finais das ligas foram recolhidas nos websites oficiais das federações.

 

·     Análise estatística

A análise estatística foi realizada com recurso ao SPSS (versão 25) e Excel. A normalidade dos dados foi verificada através do teste de Kolmogorov–Smirnov. Para comparar médias de pontos por jogo entre ligas e dispositivos táticos, utilizou-se uma ANOVA. As diferenças na distribuição dos dispositivos entre as ligas foram analisadas com o teste do qui-quadrado. O nível de significância foi definido em p < 0.05.

 

Principais resultados

Apresentam-se, de seguida, os principais resultados do estudo, organizados em função da distribuição dos dispositivos táticos, das variações entre ligas e da sua relação com o sucesso competitivo.

 

·     Distribuição e eficácia dos dispositivos táticos

O 4-2-3-1 foi o dispositivo mais utilizado no conjunto das 6 ligas europeias, o que evidencia uma forte predominância no futebol atual. No entanto, o dispositivo 3-4-3 apresentou o melhor rendimento médio em termos de pontos por jogo, destacando-se como o mais eficaz entre as estruturas analisadas (Figura 3). Em contraste, dispositivos mais conservadores, como o 5-4-1, associaram-se a menor rendimento competitivo. Ainda assim, as diferenças globais entre dispositivos táticos revelaram-se relativamente reduzidas, o que sugere um impacto limitado da estrutura tática isolada no desempenho.

 

Figura 3. Frequência de utilização (MAÇ) e pontos médios por jogo (OP) dos dispositivos táticos nas principais ligas europeias (2023/2024). Cada gráfico corresponde a uma liga: Itália (Serie A), Turquia (Super League), Inglaterra (Premier League), Espanha (La Liga), Alemanha (Bundesliga) e França (Ligue 1) (adaptado de Tökul et al., 2026).

 

·     Diferenças entre ligas nas preferências de estruturas táticas de base

As preferências por dispositivos táticos variaram de forma clara entre ligas. O 4-2-3-1 destacou-se como o sistema mais utilizado em todas as competições, com especial incidência na liga turca. O 3-4-3 apresentou maior expressão na Bundesliga e na Serie A, enquanto o 4-4-2 foi mais frequente na La Liga. Também se observaram variações em dispositivos menos utilizados, como o 5-3-2, mais presente em Itália. Estas diferenças demonstram identidades estratégico-táticas distintas entre as ligas.

 

·     Relação entre dispositivos táticos e sucesso competitivo

A associação entre o dispositivo tático utilizado e o nível de sucesso das equipas revelou-se reduzida. Embora algumas tendências tenham sido identificadas – como a maior utilização do 3-4-3 em equipas despromovidas e menor presença em equipas qualificadas para competições europeias – não se verificou um padrão consistente. As diferenças de rendimento entre dispositivos táticos foram pouco expressivas, e a respetiva influência mostrou-se limitada quando considerada de forma isolada face a outros fatores contextuais que influenciam o desempenho competitivo.

 

Aplicações práticas

Os resultados do estudo evidenciam que a escolha do dispositivo tático, por si só, não determina o sucesso competitivo e deve ser enquadrada nas características dos jogadores, no contexto competitivo e nas exigências do modelo de jogo. Apresentam-se, de seguida, 4 aplicações práticas para enquadramento técnico e estratégico: 

1. Adequar o dispositivo tático ao perfil e às exigências do plantel: estruturas como o 3-5-2 ou o 3-4-3 podem associar-se a bons indicadores de rendimento, mas exigem perfis específicos, em particular médios-ala capazes de responder às exigências ofensivas e defensivas. A sua implementação requer também elevados níveis de condição física, leitura de jogo e flexibilidade posicional. A eficácia destes dispositivos depende da qualidade e da adequação do plantel. 

2. Privilegiar dispositivos equilibrados e adaptáveis ao contexto competitivo: estruturas como o 4-2-3-1, 4-3-3 e 4-4-2 mantêm-se amplamente utilizadas devido ao seu equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva. A sua utilização consistente sugere que a estabilidade estrutural e a versatilidade funcional constituem fatores relevantes na adaptação a diferentes contextos competitivos. 

3. Introduzir variabilidade estratégica no uso dos dispositivos táticos: a alternância entre diferentes estruturas táticas ao longo do jogo ou ao longo da época pode aumentar a imprevisibilidade da equipa e dificultar a adaptação do adversário. A capacidade de ajustar o dispositivo tático em função do contexto competitivo, do adversário ou da fase do jogo constitui um recurso estratégico relevante no futebol contemporâneo. 

4. Utilizar estruturas mais defensivas de forma contextual e estratégica: dispositivos com linhas defensivas mais densas, como o 5-3-2 e o 5-4-1, tendem a associar-se a menor rendimento ofensivo. A sua utilização deve responder a necessidades específicas do jogo, como controlo defensivo ou gestão de resultado, e não constituir uma opção estrutural dominante ao longo da época.

 

Conclusão

Os resultados indicam que os dispositivos táticos se associam ao sucesso competitivo, embora essa relação dependa do contexto competitivo, do perfil dos jogadores e das dinâmicas específicas de cada liga. Estruturas táticas equilibradas e adaptáveis, como o 4-2-3-1, mantiveram uma elevada utilização e um bom rendimento, o que evidencia a importância do equilíbrio entre organização defensiva e capacidade ofensiva no futebol contemporâneo. Por outro lado, estruturas mais ofensivas, como o 3-4-3, apresentaram indicadores de eficácia elevados, ainda que com menor consistência de utilização entre ligas. Por sua vez, estruturas mais defensivas apresentaram menor expressão e eficácia. A eficácia de um dispositivo tático resulta da sua adequação ao contexto e da qualidade da sua implementação, e não apenas das suas características estruturais.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.