Pai, a dor e o sofrimento acabaram.
Nos últimos dois anos foste um exemplo de força de vontade, determinação e resistência. Lutaste até ao limite, como sempre lutaste pelas tuas convicções, tantas vezes colocando em segundo plano aquilo que seria melhor para ti e para os teus.
Um osso duro de roer. O “homem das sete vidas”, como te apelidaram no hospital. A música Invincible dos Tool fala de um guerreiro que luta para permanecer consequente: “Warrior struggling to remain consequential...”. Não há verso que melhor te descreva. Foste um exemplo de coragem, resiliência e tenacidade.
No hospital, quando que te perguntava como te sentias, respondias: "Bem!", fechando os olhos para não veres as nossas expressões de comiseração. Lutavas contra a doença e lutavas para não mostrar fraqueza. Sempre foste forte, pai.
Tivemos as nossas divergências. Não tanto no que pensávamos, mas na forma como o exprimíamos. Ainda assim, nunca tive dúvidas de que os valores que nos transmitiste eram os certos. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sempre!
Entre tantas memórias, recordo com nostalgia o dia em que me ensinaste a andar de bicicleta no campo pelado do Juventude Desportiva Monchiquense; as motas que me desenhavas com perfeição quando te pedia; as nossas partidas de raquetes e os remates na praia; o dia em que me foste buscar quando o barquinho de borracha foi levado pela corrente na Praia da Luz, enquanto me gritavas para não saltar para a água; a firmeza com que recusaste que comprasse uma mota – “és muito maluco para isso” – e os raspanetes que levava quando fazia das minhas.
Mais recentemente, dizias, em jeito de brincadeira, que iria pagar, com os meus filhos, todas as traquinices que tinha feito na infância. Tinhas razão, pai.
Os meus filhos recordarão o avô Carlos pelo homem que foi: um homem de ação, prático e de convicções fortes. Porque as palavras leva-as o vento.
Como fazem os super-heróis.
A luta acabou, pai.
Descansa em paz e olha por nós.


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