22/04/2022

Artigo do mês #28 – abril 2022 | A evolução de indicadores físicos e técnicos na LaLiga espanhola 2012–2020

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Lago-Peñas, C., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Rey, E.

País: Espanha

Data de publicação: 7-março-2022

Título: Evolution of physical and technical parameters in the Spanish LaLiga 2012-2019

Referência: Lago-Peñas, C., Lorenzo-Martinez, M., López-Del Campo, R., Resta, R., & Rey, E. (2022). Evolution of physical and technical parameters in the Spanish LaLiga 2012-2019. Science and Medicine in Football. https://doi.org/10.1080/24733938.2022.2049980

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 28 – abril de 2022.

 

Apresentação do problema

O futebol tem evoluído ao longo dos tempos em consequência de uma combinação de fatores: alterações no plano estratégico-tático e nas regras (e.g., regra do fora-de-jogo em 1990, restrição do guarda-redes após passe de um colega em 1992, introdução de 5 substituições em 2020); uso de novas tecnologias; aumento do profissionalismo e melhoria na preparação física, técnica e tática (Wallace & Norton, 2014; Barreira et al., 2015; Nassis et al., 2021). A análise de finais do Campeonato do Mundo da FIFA, entre 1966 e 2010, mostrou um aumento de 35% na taxa de passes por minuto e de 15% na velocidade de circulação da bola (Wallace & Norton, 2014). Analogamente, uma investigação na UEFA Champions League, entre 2009 e 2018, demonstrou que, embora não tenha havido evolução significativa nos indicadores defensivos, os jogadores executaram um maior número de passes por jogo, especialmente passes curtos (Yi et al., 2018). 

Uma vez que a componente estratégico-tática afeta a performance de corrida em jogo, dados da Premier League inglesa, entre 2006/2007 e 2012/2013, também evidenciaram que a distância total percorrida pelos jogadores aumentou 2%, enquanto as distâncias de corrida em alta intensidade e em sprint aumentaram entre 30–50% (Bush et al. 2015, 2017; Bradley et al., 2016). Apesar disso, parece que exigências físicas e técnicas variam em função da posição de jogo. Comparativamente aos defesas centrais e aos médios-centro, os jogadores que atuam em posições mais ofensivas e nas alas têm aumentado mais as distâncias percorridas em corrida de alta intensidade e em sprint. Contrariamente, os jogadores do corredor central têm aumentado mais os números de tentativas de passe e de passes precisos. Conhecer os padrões evolutivos da modalidade pode ser útil para, por um lado, predizer as exigências futuras do jogo e do treino e, por outro lado, ajudar os treinadores/equipas técnicas a gerir a carga de treino para rentabilizar o desempenho dos jogadores e reduzir a taxa de lesões. 

Contudo, o conhecimento existente sobre como o futebol está a evoluir e como será o jogo no futuro é, atualmente, inconclusivo. A maioria dos estudos que examinaram a evolução da carga externa no futebol de elite está ultrapassada, uma vez que (i) existe pouca literatura após 2012, (ii) baseia-se em dados da Premier League inglesa (Bush et al., 2015, 2017; Bradley et al., 2016), (iii) os parâmetros da performance competitiva considerados devem ser mais diversificados, porque é necessário mais informação sobre o desempenho tático-técnico e, finalmente, (iv) o número de épocas equacionado para investigar a evolução das performances física e técnica, por posição de jogo, deve ser alargado, de forma a melhor compreender a carreira desportiva no futebol (Carapinheira et al., 2019). Posto isto, o propósito do estudo consistiu em examinar a evolução física e técnica da performance no futebol, ao longo de um período de 8 épocas na LaLiga espanhola (figura 2), recorrendo à maior amostra de dados utilizada até à data neste âmbito.

 

Figura 2. Desempenho competitivo de jogadores do CF Real Madrid e do FC Barcelona na LaLiga (fonte: istoe.com.br; imagem não publicada pelos autores).

 

Métodos

Amostra: foram analisados dados da performance em jogo de jogadores da primeira divisão espanhola (LaLiga), durante 8 épocas consecutivas (2012/2013–2019/2020). A amostra envolveu um total de 32775 observações individuais de 1267 jogadores. Apenas foram recolhidos dados de jogadores de campo que completaram as partidas (i.e., 90 minutos mais tempo adicional). Todas as observações individuais em jogos com uma ou mais expulsões foram excluídas da amostra. As observações foram distribuídas por 5 posições de jogo: (1) defesas centrais (CD; observações = 9089); (2) defesas laterais (ED; observações = 7876); (3) médios-centro (CM; observações = 8276); (4) médios-ala (EM; observações = 3949; (5) avançados (F; observações = 3585). As observações foram ainda categorizadas em 4 grupos, de acordo com a classificação final das equipas em cada época: (1) equipas do topo da tabela (posições 1–5; observações = 8439); (2) equipas da metade superior da tabela (posições 6–10; observações = 8035); (3) equipas da metade inferior da tabela (posições 11–15; observações = 8230); (4) equipas do fundo da tabela (posições 16–20; observações = 8071). Os dados foram obtidos da liga de futebol profissional de Espanha (LaLiga), que autorizou a utilização das variáveis incluídas no estudo. 

Variáveis e procedimentos: os dados foram obtidos através de um sistema de rastreamento ótico computadorizado, com múltiplas câmaras: TRACAB (ChyronHego, Nova Iorque, EUA). O sistema utiliza uma frequência amostral de 25 Hz e os dados foram processados no software Mediacoach (LaLiga, Madrid, Espanha), cujas fiabilidade e validade foram previamente testadas (Felipe et al., 2019). Os desempenhos de corrida em jogo dos jogadores foram examinados através das seguintes variáveis: distância total percorrida (TD), distância percorrida em corrida de alta intensidade (HIR; >21.0 km/h) e número de esforços em alta intensidade. A análise da performance técnica foi realizada considerando as seguintes variáveis: número total de passes, número de passes curtos (< 30 metros), número de passes longos (> 30 metros), eficácia do passe (%), duelos aéreos, remates, interceções, desarmes e alívios. 

Análise estatística: a análise estatística foi realizada no software R, versão 4.0.3 (R Core Team, 2020). A estatística descritiva para cada variável foi apresentada como média ± desvio-padrão (SD). As diferenças entre observações individuais, em função da época e da posição de jogo (época x posição de jogo), e da época e qualidade da equipa (época x qualidade da equipa), foram apuradas através de modelos lineares generalizados. Os modelos foram ajustados para cada variável de performance em função do tipo de distribuição (Gaussiana, Poisson ou negativa binominal). As assunções de homogeneidade e de distribuição normal dos resíduos foram verificadas para cada modelo. As comparações entre pares de épocas foram executadas mediante testes post-hoc de Bonferroni ajustados. O d de Cohen foi calculado para estimar as dimensões de efeito, tendo em consideração os valores de corte 0.2, 0.5 e 0.8, que representam pequenas, médias e grandes diferenças, respetivamente (Cohen, 1988). O valor de significância definido para todas as análises foi de 5% (p ≤ 0.05).

 

Principais resultados

 

·      Variação da performance física e técnica ao longo das 8 épocas

Na tabela 1 consta a estatística descritiva da performance física e técnicas dos jogadores na LaLiga, de 2012/2013 a 2019/2020.

 

Tabela 1. Estatística descritiva da performance em jogo dos jogadores na LaLiga, entre 2012/2013 e 2019/2020 (média ± desvio-padrão). 

Legenda: Total distance – distância total; HIR – corrida de alta intensidade; Number of HIR – número de esforços de alta intensidade; Total passes – número total de passes; Short passes – passes curtos; Long passes – passes longos; Passing accuracy – eficácia do passe; Aerial duels – duelos aéreos; Shots – remates; Interceptions – interceções; Tackles – desarmes; Clearances – alívios. Nota: Significativamente diferente (p ≤ 0.05) da época 2012/2013.

 

Independente da posição de jogo, os futebolistas da LaLiga apresentaram um decréscimo significativo da distância total percorrida (−3.2%). No entanto, os jogadores não só percorreram uma maior distância em corrida de alta intensidade em 2019/2020, comparativamente a 2012/2013, como também realizaram um maior número de esforços de alta intensidade. No que respeita aos parâmetros técnicos, houve aumentos significativos no número total de passes, passes longos, eficácia do passe, duelos aéreos e interceções na época 2019/2020, relativamente à época 2012/2013. Contrariamente, os números de remates, desarmes e alívios diminuíram significativamente.

 

·      Diferenças por posição de jogo

Defesas centrais: a distância total percorrida e o número de desarmes e de alívios decresceram significativamente da época 2012/2013 para a época 2019/2020. Em sentido inverso, a distância percorrida a alta intensidade, o número de esforços de alta intensidade, o número total de passes, passes longos, duelos aéreos e interceções aumentaram significativamente ao longo do tempo.

Defesas laterais: além do decréscimo significativo na distância total percorrida, estes jogadores também executaram menos desarmes e alívios em 2019/2020, comparativamente a 2012/2013. Houve incrementos significativos na distância e no número de esforços de alta intensidade, e no número de passes longos realizados.

Médios-centro: estes jogadores aumentaram substancialmente a distância percorrida em alta intensidade, o número de esforços de alta intensidade, os duelos aéreos e as interceções em 2019/2020, em relação a 2012/2013; porém, registaram-se decréscimos significativos na distância total percorrida, no número total de passes, passes curtos, passes longos, desarmes e alívios.

Médios-ala: verificaram-se aumentos significativos no número de esforços em alta intensidade, duelos aéreos e interceções na época 2019/2020 (vs. 2012/2013), mas a distância total percorrida, o número total de passes, passes curtos, passes longos, remates e desarmes foi significativamente mais baixo volvidas 8 épocas.

Avançados: os jogadores mais adiantados no terreno de jogo percorreram uma menor distância total em 2019/2020, em comparação com 2012/2013, mas aumentaram significativamente a distância percorrida e o número de esforços em alta intensidade. Na dimensão técnica, realizaram significativamente menos passes (total), passes curtos, remates e desarmes em 2019/2020.

 

·      Efeitos da qualidade da equipa

Equipas do topo da tabela: percorreram significativamente menos distância total e executaram um menor número de remates, desarmes e alívios na época 2019/2020 (vs. 2012/2013). Ao longo do tempo, estas equipas aumentaram substancialmente o número de esforços de alta intensidade, o número total de passes, passes curtos e eficácia do passe.

Equipas da metade superior da tabela: comparando com 2012/2013, estas equipas apresentaram reduções significativas na distância total percorrida, eficácia do passe, remates, desarmes e alívios em 2019/2020. Neste período, aumentaram a distância e o número de esforços em alta intensidade, os passes curtos e os alívios.

Equipas da metade inferior da tabela: entre as épocas 2012/2013 e 2019/2020, houve decréscimos substanciais na distância total percorrida, desarmes e alívios, mas aumentos importantes no número de esforços da alta intensidade, passes longos, eficácia do passe, duelos aéreos e interceções.

Equipas do fundo da tabela: no período analisado constataram-se reduções na distância total percorrida, nos desarmes e nos alívios, ainda assim houve incrementos significativos na distância percorrida em alta intensidade, no número de esforços de alta intensidade e nas interceções.  

 

Aplicações práticas

O estudo demonstrou que as ações de alta intensidade são fatores fulcrais no futebol profissional moderno. A evolução significativa da distância e do número de esforços de alta intensidade na LaLiga, ao longo das 8 épocas, sugere que a gestão e a melhoria da condição física dos jogadores constituem objetivos fundamentais a equacionar na conceção dos microciclos semanais. Sabe-se, por exemplo, que tarefas de corrida em alta intensidade e em sprint, passíveis de replicar as exigências físicas em competição, são um complemento valioso relativamente ao trabalho específico que é proposto pela equipa técnica no decurso da semana. 

A evolução física no futebol contemporâneo é ainda caracterizada por períodos mais frequentes e densos de esforços de alta intensidade, com rácios trabalho/recuperação cada vez mais curtos entre episódios de corrida. A prescrição de tarefas de treino, mais ou menos específicas, deve almejar a melhoria da capacidade dos jogadores em repetir e recuperar de períodos de corrida em alta intensidade. 

Verificou-se um decréscimo significativo da distância total percorrida pelos jogadores profissionais no período analisado, aspeto que foi comum nas diversas posições de jogo. Esta evidência pode estar relacionada com o decréscimo do tempo útil de jogo no futebol atual (Wallace & Norton, 2014), ocasionando uma menor distância percorrida. Pode, também, estar associada a melhorias na coordenação interpessoal dos jogadores (dimensão tática) nas duas fases de jogo. A evolução tática possibilita que os jogadores necessitem de correr menos sem bola, uma vez que se posicionam melhor para dar resposta aos múltiplos problemas situacionais do jogo. Assim, as equipas técnicas devem privilegiar tarefas de treino representativas (i.e., que reproduzam o que acontece em competição) e com objetivos que visem aprimorar regras de ação (princípios) claras e simples. A junção destas condições permite, por um lado, desenvolver a leitura de jogo e fomentar acoplamentos perceção-ação e, por outro lado, garantir que, perante uma dada situação contextual, os jogadores atuem complementarmente para cumprir a mesma intenção estratégico-tática, dotando o coletivo de maior eficiência. 

Os resultados refletem mudanças nas tarefas específicas das diferentes posições de jogo, ao longo das 8 épocas analisadas na LaLiga, com maior destaque para os defesas centrais, que têm vindo a assumir mais responsabilidades na etapa de construção em organização ofensiva. Esta tendência tem implicações ao nível do recrutamento de jogadores no futebol profissional, designadamente defesas centrais, que além de possuírem competências defensivas excelentes, devem ainda apresentar capacidades percetivo-motoras que lhes permitam ser proficientes e regulares na execução da ação de passe. 

Os dados indicam que o jogo se tem tornado mais limpo e menos agressivo (i.e., -46% de desarmes, -40,8% de alívios e +10% de interceções), sendo praticamente transversal a todas as posições de jogo. A conceção de tarefas de treino deve, por isso, equacionar esta tendência evolutiva e as recentes alterações nas Leis de Jogo, por forma a melhor preparar os jogadores e a equipa para um jogo mais rápido, fluindo e menos tolerante a contactos de risco. 

A evolução técnica na LaLiga dependeu da posição das equipas na tabela classificativa. Curiosamente, as equipas do fundo da tabela demonstraram performances técnicas mais estáveis entre 2012/2013 e 2019/2020. Ao contrário do que é frequentemente referido nos meandros do treino, não está tudo inventado no futebol – o jogo está em constante mutação! Neste sentido, as sessões de treino devem ser predominantemente compostas por atividades abertas, suscetíveis de promover a diversidade informacional, a variabilidade comportamental e a criatividade individual.

 

Conclusão

O presente estudo indicou que, no período de 8 épocas investigado, os jogadores profissionais da LaLiga aumentaram a distância e o número de ações em corrida de alta intensidade, embora tenham percorrido menos distância total. Estes factos são transversais a todas as posições de jogo, mas com variações face à qualidade das equipas apurada no final de cada época. No global, os indicadores técnicos número total de passes, passes longos, eficácia do passe, duelos aéreos e interceções aumentaram significativamente ao longo das 8 épocas. Quando a classificação final foi ponderada, as equipas do topo e da metade inferior da tabela mostraram incrementos mais substanciais na eficácia do passe. De todas as posições de jogo, foi nos defesas centrais que se verificou a maior evolução técnica, com uma participação mais acentuada na fase de organização ofensiva do jogo na atualidade. As tendências evolutivas observadas entre 2012/2013 e 2019/2020 podem ser atribuídas a mudanças graduais nos estilos de jogo, à evolução da preparação física dos jogadores e a alterações das missões táticas específicas nas diversas posições de jogo.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.

28/03/2022

Artigo do mês #27 – março 2022 | A monitorização da carga de treino em jogadores de futebol de elite, numa época desportiva: Variações da perceção subjetiva de esforço e da creatina quinase entre microciclos

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Mendes, B., Clemente, F. M., Calvete, F., Carriço, S., & Owen, A.

País: Portugal

Data de publicação: 10-fevereiro-2022

Título: Seasonal training load monitoring among elite level soccer players: Perceived exertion and creatine kinase variations between microcycles

Referência: Mendes, B., Clemente, F. M., Calvete, F., Carriço, S., & Owen, A. (2022). Seasonal training load monitoring among elite level soccer players: Perceived exertion and creatine kinase variations between microcycles. Journal of Human Kinetics, 81, 85–95. https://doi.org/10.2478/hukin-2022-0008

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 27 – março de 2022.

 

Apresentação do problema

O stress fisiológico pode acumular-se ao longo de uma época competitiva, predispondo os jogadores de futebol a situações de incapacidade para lidar com as exigências do treino e da competição, o que pode comprometer os seus desempenhos (Silva et al., 2014). A exposição continuada ao stress fisiológico pode gerar danos musculares e alterações hormonais e imunológicas difíceis de reverter (Ascensão et al., 2008; Hammouda et al., 2012; Silva et al., 2008). Deste modo, a monitorização do treino e a extensa monitorização de múltiplas amostras sanguíneas podem contribuir para controlar estados funcionais e não funcionais de overreaching (fadiga crónica) (Drust et al., 2007; Heisterberg et al., 2013). 

A perceção subjetiva de esforço é um método de controlo da carga popular, barato, efetivo e fácil de aplicar em contexto desportivo (Borg, 1982; Foster et al., 2001). O método de Foster tem sido amplamente utilizado para controlar a carga interna na sessão de treino, consistindo na multiplicação do nível reportado, numa escala de 1 a 10, pela duração da sessão de treino em minutos (Foster et al., 1996, 1998). Estes métodos subjetivos têm sido testados através de tecnologia GPS e com monitorização da frequência cardíaca e os resultados indicam que constituem um indicador global da resposta individual ao treino no futebol e podem ser considerados como fiáveis para controlar a carga interna em contexto prático (Casamichana et al., 2013). Por outro lado, parece que a perceção subjetiva de esforço não parece ser suficientemente fiável em sessões de treino muito exigentes, com colisões e esforços intermitentes de alta intensidade passíveis de originar dano muscular (Lambert & Borresen, 2010; Takarada, 2003). 

Um outro método de autoavaliação, que no caso mede a perceção de fadiga, o nível de stress, o aparecimento da dor muscular retardada e a qualidade do sono, é o índice de Hooper (Hooper & Mackinnon, 1995). É um método para avaliar o bem-estar do atleta e parece ser fiável para evitar situações de sobretreino, porém, raros foram os estudos que procuraram comparar o índice de Hooper com marcadores bioquímicos em jogadores profissionais de futebol de elite. Neste particular, controlar a creatina quinase sérica é um procedimento comum para aferir a extensão do dano muscular em futebolistas profissionais (Andersson et al., 2008; Fatouros et al., 2008; Lazarim et al., 2009), ainda que devam ser ponderados a sua alta variabilidade e a fraca relação com a recuperação muscular (Twist & Highton, 2013). 

Como vimos, o controlo da carga de treino é uma tarefa fundamental para otimizar a performance desportiva. Pode, também, ser útil para controlar a variação da carga nas sessões de treino que compõem o microciclo semanal (Coutinho et al., 2015; Impellizzeri et al., 2004). Apesar disso, são escassos os estudos que analisaram a variação semanal da carga de treino em atletas de elite e, em especial, nenhuma investigação analisou as associações entre a perceção subjetiva de esforço, o índice de Hooper (perceção de bem-estar) e a atividade da creatina quinase. As perceções das diferenças de carga no decurso da semana devem ser consideradas para identificar a sensibilidade dos jogadores às alterações da carga e ao modo como esta afeta a perceção de bem-estar e as respostas orgânicas ao dano muscular. Posto isto, o presente estudo teve o duplo propósito de determinar: 1) a variação da carga de treino diária entre microciclos; 2) as relações entre a perceção subjetiva de esforço, o índice de Hooper e os níveis de cretina quinase de futebolistas profissionais, ao longo dos microciclos semanais que compuseram a totalidade de uma época desportiva.

 

Métodos

Participantes: 35 jogadores profissionais de futebol, do género masculino; 3 guarda-redes, 6 defesas laterais, 4 defesas centrais, 9 médios centro, 8 médios-ala e 4 avançados (idade: 25.7 ± 5.0 anos; estatura: 182.3 ± 6.4 cm; massa corporal: 79.1 ± 7.0 kg). Todos os jogadores pertenciam ao mesmo clube de futebol, jogando na primeira liga portuguesa e na UEFA Champions League e foram monitorizados durante 41 microciclos semanais (figura 2).

 

Figura 2. Jogadores profissionais de futebol de elite num treino de um microciclo semanal (fonte: sapodesporto.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

Design do estudo e recolha de dados: o estudo foi tipicamente longitudinal, com dados recolhidos para cada sessão de treino ao longo de uma época desportiva completa. O índice de Hooper foi monitorizado 30 minutos antes de cada treino, enquanto a perceção subjetiva de esforço foi solicitada 30 minutos após a sessão. A duração das sessões foi registada para quantificar a carga de treino diária: perceção subjetiva de esforço x minutos da sessão de treino. Somente foram recolhidos dados dos jogadores que realizaram todo o volume da sessão de treino. A familiarização com as escalas de perceção subjetiva decorreu na pré-época, também com o intuito de identificar o perfil de resposta de cada elemento do plantel. Durante uma das primeiras semanas da época também foram recolhidas amostras sanguíneas de base para cada jogador, por forma a verificar padrões de recuperação individuais. Além disso, foram recolhidas amostras sanguíneas 48h antes e após cada jogo competitivo, mas apenas para os jogadores que disputaram mais de 60 minutos. 

Variáveis: as variáveis inclusas no estudo estão caracterizadas na tabela 1 quanto à classificação, medidas e procedimentos específicos de recolha. Em relação às respostas subjetivas, os jogadores registaram as suas respostas no seu tablet portátil, contendo uma aplicação configurada para o efeito; para avaliar os fatores do índice de Hooper e a perceção subjetiva de esforço, bastava tocar num valor da escala e salvar a resposta no respetivo perfil de utilizador.

 

Tabela 1. Caracterização das variáveis (independentes e dependentes) do estudo.


Análise estatística: foram corridas análises multivariadas da variância de duas vias (MANOVA) para averiguar diferenças entre os fatores “carga interna”, “índice de Hooper” (total), “minutos de treino” (minT) e “atividade da creatina quinase”. Quando houve interações entre fatores, foi aplicada a análise da variância de dupla via (ANOVA), seguida de ANOVA de uma via e testes post-hoc Tukey HSD para averiguar a variância dentro do fator. As dimensões de efeito (effect sizes; ES) apuradas foram interpretadas de acordo com os seguintes valores de corte: sem efeito (ES < 0.04), efeito mínimo (0.04 < ES < 0.25), efeito moderado (0.25 < ES < 0.64) e efeito forte (ES > 0.64). Os procedimentos estatísticos foram executados no software SPSS v. 23.0, com a significância definida para 5%.

 

Principais resultados

 

·      Variação das variáveis de carga de treino ao longo dos meses

A análise post-hoc revelou dois clusters no fator “meses” (primeiro cluster: agosto – dezembro; segundo cluster: janeiro – maio), com valores do índice de Hooper mais elevados no primeiro cluster (figura 1). Na variável “carga interna” foram identificados três clusters significativamente distintos (primeiro cluster: agosto; segundo cluster: setembro, outubro e fevereiro; terceiro cluster: novembro, dezembro, janeiro, março, abril e maio), sendo os valores mais elevados no primeiro cluster e mais baixos no terceiro. Finalmente, houve diferenças significativas na atividade da creatina quinase (CK) entre agosto e janeiro, e agosto e maio.

 

Figura 1. Variações do Índice de Hooper, da carga interna (internal load) e da atividade da creatina quinase (CK) ao longo dos diversos meses da época (Mendes et al., 2022).

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função do tipo de microciclo

Foram encontrados valores mais elevados no índice de Hooper nos microciclos com 1 jogo, comparativamente aos microciclos com 2 jogos, nos quais a duração dos treinos também foi significativamente mais reduzida. No que à carga de treino diz respeito, os treinos mais exigentes ocorreram nos microciclos sem jogos competitivos, seguindo-se os microciclos com 1 jogo. O tipo de microciclo não afetou a atividade da creatina quinase. A figura 2 exibe diferenças significativas na carga interna entre os dias do microciclo com 1 e 2 jogos, o que não aconteceu nos microciclos sem jogos.

 

Figura 2. Variações da carga interna nos dias de três tipos distintos de microciclo semanal (sem jogo, com 1 jogo e com 2 jogos) (Mendes et al., 2022). Legenda: na semana com 1 jogo – diferença significativa para aMD+1, bMD+2, cMD-4, dMD-3, eMD-2 ou fMD-1; na semana com 2 jogos – diferença significativa para aMD+1, bMD+2, cMD-2 ou dMD-1 (p < 0.05).

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função do dia do treino

O índice de Hooper teve valores significativamente mais elevados nos dias MD+1 e MD+2 e os valores mais baixos nos dias que antecederam os jogos (MD-2 e MD-1). Em relação aos minutos de treino, as sessões mais curtas tiveram lugar no primeiro e segundo dias logo após o jogo competitivo. As sessões mais longas ocorreram nos terceiro e quarto dias antes do jogo competitivo. Os menores valores de carga interna foram registados nos primeiro e sexto dias após o jogo competitivo, enquanto as sessões mais exigentes ocorreram nos terceiro e quarto dias após o jogo.

 

·      Variação das variáveis da carga de treino em função da posição de jogo

Em relação à posição de jogo (figura 3), foram obtidos dois clusters significativamente distintos para o índice de Hooper (primeiro cluster: laterais, médios-ala e centrais; segundo cluster: médios centro, guarda-redes e avançados), com valores mais elevados no primeiro. Os médios mostraram valores mais elevados de carga interna relativamente aos jogadores das outras posições, à exceção dos guarda-redes. Pelo contrário, os defesas centrais apresentaram os menos valores de carga interna, com diferenças significativas para os guarda-redes, médios centro e médios-ala. Houve, também, diferenças significativas entre defesas laterais e médios centro na atividade da creatina quinase.

 

Figura 3. Variações da carga interna entre as diversas posições de jogo (Mendes et al., 2022). Legenda: diferença significativa para aGK (guarda-redes), bWD (defesa lateral), cCD (defesa central), dMF (médio centro), eWMF (médio-ala) ou fFW (avançado).

 

Aplicações práticas

Os treinadores e preparadores físicos devem estar cientes de que a utilização de escalas percetivas (de esforço e bem-estar) constitui uma abordagem útil e apropriada para monitorizar as cargas de treino no futebol. Por se tratar de um método barato e eficiente, pode ser aplicado em qualquer nível competitivo (amador, semiprofissional e profissional). 

A atividade da creatina quinase também é sensível à variação da carga de treino, podendo ser uma variável interessante para monitorizar os efeitos mecânicos induzidos pelas sessões de treino e controlar estados não funcionais de fadiga crónica (overreaching). Contudo, é uma abordagem que não está ao alcance de clubes com menos recursos financeiros. 

A variação da carga interna reflete o trabalho dos jogadores nas sessões de treino, tendo por base os objetivos da equipa técnica para determinado período da época. Por exemplo, o trabalho tende a ser mais exigente na pré-época do que no período competitivo e o ajustamento da carga de treino deve ser ponderado para promover adaptações específicas e desejáveis no plantel. 

O tipo de microciclo em causa condiciona a expressão da perceção de bem-estar (índice de Hooper) e de esforço dos jogadores. Microciclos sem jogos tendem a ser fisicamente mais extenuantes e microciclos com 2 jogos, por pressuporem mais sessões visando a recuperação física e mental, tendem a ser mais aprazíveis. A dinâmica aquisitiva inerente a microciclos com 1 jogo leva a variações mais evidentes da carga interna nos jogadores. 

É imperioso desenvolver um programa de treino contínuo para a condição física dos jogadores, não só para recuperá-los mais rapidamente dos jogos competitivos, mas também para minimizar o risco de lesão e aumentar a disponibilidade para competir. Para o efeito, é absolutamente fundamental compreender as particularidades táticas, técnicas, físicas e mentais associadas ao desempenho das diversas posições de jogo, tendo ainda em consideração as características específicas de cada indivíduo.

 

Conclusão

Este estudo procurou determinar a variação da carga de treino diária em jogadores de futebol de elite, tal como a sua relação com as perceções subjetivas de esforço e bem-estar, e com os níveis de creatina quinase no decurso de uma época completa. As evidências demonstraram a existência de variações significativas no conjunto de variáveis derivadas do treino, em função dos meses, do tipo de microciclo, do dia do microciclo semanal e da posição de jogo. No cômputo geral, a carga interna tem uma relação de proporcionalidade direta com a perceção de bem-estar, sendo a pré-época e os dias a meio da semana normalmente mais exigentes. Estudos futuros podem equacionar a utilização destas técnicas de monitorização para estimar as cargas de treino individuais, eventualmente associando-as a situações nas quais o risco de lesão é real.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Journal of Human Kinetics.

28/02/2022

Artigo do mês #26 – fevereiro 2022 | O efeito do “bio-banding” em indicadores técnicos e táticos na identificação de jovens talentos no futebol

 Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

 

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Autores: Towlson, C., MacMaster, C., Gonçalves, B., Sampaio, J., Toner, J., MacFarlane, N., Barrett, S., Hamilton, A., Jack, R., Hunter, F., Stringer, A., Myers, T., & Abt, G.

País: Inglaterra

Data de publicação: 19-dezembro-2021

Título: The effect of bio-banding on technical and tactical indicators of talent identification in academy soccer players

Referência: Towlson, C., MacMaster, C., Gonçalves, B., Sampaio, J., Toner, J., MacFarlane, N., Barrett, S., Hamilton, A., Jack, R., Hunter, F., Stringer, A., Myers, T., & Abt, G. (2021). The effect of bio-banding on technical and tactical indicators of talent identification in academy soccer players. Science and Medicine in Football. https://doi.org/10.1080/24733938.2021.2013522

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 26 – fevereiro de 2022.

 

Apresentação do problema

A relação assíncrona da taxa de crescimento de uma criança e o desenvolvimento da sua condição física com a idade cronológica pode confundir a identificação de talentos no futebol infantojuvenil (Philippaerts et al., 2006; Towlson et al., 2018). Esta situação pode resultar num viés de seleção de jogadores com maturação precoce para programas de desenvolvimento de futebol. Normalmente, estes jogadores apresentam vantagens antropométricas e físicas temporárias derivadas da maturação (Deprez & Boone et al., 2014; Lovell et al., 2015; Emmonds et al., 2016), mesmo sendo a técnica um fator-chave a ter em atenção por quem recruta (Towlson et al., 2019) e que o desenvolvimento técnico de jovens pertencentes a academias de futebol é influenciado pela maturação biológica (Moreira et al., 2017). 

Há, por isso, uma necessidade premente das academias de futebol em explorar abordagens de identificação e desenvolvimento do talento que neguem a influência (in)consciente que vantagens maturacionais podem ter na avaliação de características técnicas e táticas dos jogadores por parte dos treinadores (Cumming et al., 2017b; Helsen et al., 2021). Uma solução que tem sido avançada para contornar este viés passa por agrupar os jogadores de acordo com o seu desenvolvimento biológico, ou estatuto maturacional, em vez de pela tradicional idade cronológica, processo designado por “bio-banding” (Abbott et al. 2019; Towlson et al. 2020a; Moran et al. 2021). 

Estudos sobre este processo têm utilizado dois tipos de métodos para emparelhar jovens jogadores: (1) determinando o tempo de/para a maturação completa, que representa o número estimado de anos (para menos ou para mais) a que os jogadores estão do Pico de Velocidade em Altura; (2) estimando a percentagem atingida da estatura adulta predita (método Khamis & Roche, 1994; figura 2). Embora investigações no âmbito do “bio-banding” sugiram que jogos entre pares com maturação similar controlem as exigências físicas e exponham os jogadores a contextos técnicos mais desafiantes (Abbott et al., 2019), foram constatadas evidências idênticas em jogos disputados por jovens de diversos estatutos maturacionais (Towlson et al., 2020a), o limita as inferências que podem ser feitas sobre a eficácia do “bio-banding” na manipulação de resultados de cariz físico.

 

Figura 2. “Bio-banding” por via da estimação do estatuto maturacional com base na percentagem atingida da estatura adulta predita (fonte: ussoccer.com; imagem não publicada pelos autores).

 

Do corpo de evidências existente, ainda permanece por revelar o modo como o “bio-banding” pode afetar a emergência de comportamentos táticos nos jogadores, em particular os deslocamentos e a tomada de decisão (e.g., exploração espacial, centroides das equipas), nos diversos contextos situacionais do jogo (Gonçalves et al., 2017). Isto é de extrema importância para os técnicos responsáveis pela identificação de jovens talentos, uma vez que, sob determinados constrangimentos, como áreas relativas por jogador mais amplas, os jogadores com maturação precoce podem usufruir de superioridade tática devido a diferenças antropométricas, físicas e decisionais passageiras (Lovell et al., 2015; Towlson et al., 2017; Gonçalves et al., 2020). 

Dada a crescente utilização do “bio-banding” por várias entidades que tutelam o futebol além-fronteiras (Helsen et al., 2011), a realização de estudos que analisem a eficácia deste emparelhamento em contexto de jogo são fundamentais para que os profissionais do treino tenham uma noção da valia prática que esta estratégia pode ter na avaliação/seleção de jovens jogadores para academias de futebol. Assim, o principal objetivo do estudo foi examinar o efeito do emparelhamento maturacional (“bio-banding”) em ações técnicas e táticas basilares no decurso da prática de jogos reduzidos. Adicionalmente, os investigadores procuraram analisar o efeito da utilização de diferentes métodos de “bio-banding” (Khamis & Roche, 1994; Fransen et al., 2018) na análise da performance técnica dos jogadores em jogos com e sem emparelhamento maturacional, quer “in loco” por treinadores experientes, quer através de vídeo-análise.

 

Métodos

Desenho do estudo: o estudo decorreu em 3 semanas, com um design de medidas repetidas: semana 1 – jogos reduzidos com emparelhamento maturacional através da percentagem atingida da estatura adulta predita (Khamis & Roche, 1994); semana 2 – jogos reduzidos com emparelhamento maturacional através da determinação do tempo de/para a maturação completa (Fransen et al., 2018); semana 3 – formato sem emparelhamento maturacional. Em função da semana, os jogadores foram distribuídos por uma de 6 equipas consoante o método suprarreferido. Foram propostos 5 jogos reduzidos 4v4 (18,3 x 23 metros), com uma duração de 5 minutos (25 minutos de jogo no total) e que tiveram lugar um campo sintético 3G. Em cada extremidade do campo havia uma baliza central (2 m x 1 m), sem guarda-redes e apenas foram permitidas ações de finalização no meio-campo ofensivo. Não foi dada qualquer instrução/feedback sobre a performance durante os jogos reduzidos. O protocolo de atividade foi simular nas 3 semanas. 

Participantes: 92 jogadores pertencentes a 3 academias de futebol, duas inglesas e uma escocesa (Sub-13: n = 31; Sub-14: n = 32; Sub-15: n = 26; Sub-16: n = 3). Do grupo inicial, 72 foram participantes efetivos e 20 foram reservas para prevenir lesões e/ou ausências. 

Medidas antropométricas e de maturação: para o método Khamis-Roche (1994) foi recolhido a estatura, a massa corporal, a idade decimal e a estatura média ajustada dos pais biológicos (medida de erro estimada de 2,1%), por cada participante. Os grupos definidos foram: pós-Pico de Velocidade em Altura (PVA) (92.0–95.0%); cerca-PVA (87.0–92.0%); pré-PVA (85.0–87-0%). Para a determinação do tempo de/para a maturação completa foi utilizada a equação de predição de Fransen et al. (2018), sendo necessário recolher a estatura, a massa corporal e a idade cronológica de cada participante. As categorias definidas foram as seguintes: pré-PVA (< -1.0 anos para o PVA); cerca-PVA (-1.0 a 0.0 anos para o PVA); pós-PVA (> 0.0 anos do PVA). 

Medidas técnicas de avaliação pelos treinadores: 4 técnicos (qualificação de nível 2 a 3 pela Football Association) avaliaram independentemente os jogadores nas seguintes ações técnicas: “cobertura/apoio”, “comunicação”, “tomada de decisão”, “passe”, “primeiro toque”, “controlo”, “um-contra-um” (1v1), “remate”, “assistência” e “marcação”, de acordo com o definido por Fenner et al. (2016). Por via de uma tabela de pontuação técnica, os profissionais efetuaram a avaliação individual dos jogadores mediante uma escala de Likert de 5 pontos: 1- pobre, 2- abaixo da média, 3- média, 4- muito bom e 5- excelente. 

Medidas técnicas de avaliação por vídeo-análise: todos os jogos foram gravados com uma camara digital 4K. A análise de vídeo foi executada no software Sportscode, considerando os seguintes indicadores: “passes” (bem-sucedidos/malsucedidos), “mudanças de direção com bola”, “golos”, “remates” (no alvo/fora), “duelos com bola no solo”, “interceções” e “dribles”. Foram cumpridos procedimentos intra e interobservador para testar a fiabilidade da análise. 

Comportamentos táticos: cada jogador utilizou um colete pediátrico contendo um GPS a 10 Hz (Catapult). As coordenadas posicionais foram transformadas para metros e processadas no software Matlab R2014b para calcular as variáveis “índice de exploração espacial”, “distância média para o colega/opositor mais próximo”, “distância para os centroides da própria equipa e da equipa adversária” (centroide: distância média de todos os jogadores de campo da equipa/equipa oponente) (Gonçalves et al., 2017). 

Análise estatística: as diferenças entre as categorias maturacionais (pré, cerca e pós-PVA) foram determinadas através de uma série de modelos hierárquicos Bayesianos ajustados com diferentes distribuições de resposta e com diferentes estruturas de efeitos aleatórios e fixos, em função do tipo de variável dependente (ratings, contagens ou medidas métricas). Os ratings dos treinadores foram modelados com um modelo ordinal Bayesiano, com as diferenças reportadas como desvios-padrão (dimensão de efeito similar a Cohen’s d). Quando as variáveis dependentes foram frequências ou contagens de certas ações técnicas, foram utilizados modelos de regressão Poisson inflacionado de zeros. Para variáveis genuinamente métricas, os modelos Bayesianos foram ajustados recorrendo a uma distribuição Gaussiana. Neste caso, as dimensões de efeito foram calculadas através de Delta total (delta t > 0.4). Foram, ainda, usadas duas técnicas para averiguar que equação de emparelhamento maturacional (Khamis & Roche, 1994; Fransen et al., 2018) melhor explicaria os dados no que se refere ao poder preditivo fora da amostra: R2 Bayesiano (Gelman et al., 2019) e validação cruzada “Leave-One-Out” (Vehtari et al., 2017). Todas as análises foram executadas no programa R (R Core Team, 2020).

 

Principais resultados

 

·      Variáveis técnicas

Vídeo-análise: excetuando os “duelos com bola no solo”, as maiores diferenças nas restantes ações técnicas foram registadas nos jogos com emparelhamento maturacional. Contudo, apenas foram observadas dimensões de efeito acima de 1 para a “mudança de direção com bola” nos jogos cerca-PVA vs. cerca-PVA (método Khamis-Roche) e para os “passes bem-sucedidos” em todos os emparelhamentos maturacionais, com ambos os métodos (diferença de probabilidade, dp = 93.77% to 100%). Nos grupos sem emparelhamento maturacional, apenas os golos marcados produziram uma diferença superior a 1 (dp = 99.50% to 99.58%). Para o tempo despendido a driblar, a única diferença estandardizada acima do limite de 0.4 ocorreu quando equipas cerca-PVA jogaram entre si. O método Khamis-Roche originou a maior diferença individual para a variável “passes bem-sucedidos”, quando equipas pré-PVA jogaram entre si (dimensão de efeito = 1.87). 

Ratings dos treinadores: com exceção das classificações para o “passe” e para o “remate”, as maiores diferenças apuradas para as outras variáveis foram verificadas nos jogos com emparelhamento maturacional. A única variável que não obteve uma dimensão de efeito acima de 0.4 foi o “passe”. Embora o método Khamis-Roche tenha determinado a maior diferença individual para as variáveis técnicas, quando equipas pós-PVA se defrontaram entre si (“comunicação”: 0.85; dp = 99.24%), o método Fransen et al. (2018) produziu o maior número de diferenças nas classificações técnicas acima do valor de corte (0.4). No global, as diferenças nas classificações técnicas dissiparam-se nos grupos sem emparelhamento maturacional, com valores ≥ 0.4 nas seguintes variáveis: “cobertura/apoio” (pré-PVA vs. pós-PVA*), “controlo” (cerca-PVA vs. pós-PVA**), “remate” (pré-PVA vs. cerca-PVA*) e “passe” (cerca-PVA vs. pós-PVA*; pré-PVA vs. pós-PVA*).

* (Fransen et al., 2018); ** (Khamis & Roche, 1994)

 

·      Variáveis táticas

Excetuando o “índice de exploração espacial”, as únicas diferenças estandardizadas ≥ 0.4 para as variáveis táticas foram constatadas nos jogos entre equipas pós-PVA, para ambos os métodos. Independentemente do método, os valores mais elevados ocorreram na variável “índice de exploração espacial” em jogos entre equipas cerca-PVA (dp Khamis-Roche = 97.17%); dp Fransen et al. = 92.90%). A única diferença > 0.4 para os grupos sem emparelhamento maturacional foi vislumbrada para o “índice de exploração espacial” (dp = 96.15%). O método Fransen et al. (2018) produziu a maior diferença estandardizada para as variáveis táticas, designadamente para a “distância para o colega mais próximo” em jogos entre equipas pós-PVA (dp = 99.52%).

 

·      Variância explicada pelas duas equações

A equação de Fransen et al. (2018) alcançou a percentagem mais elevada de variância explicada pelo modelo no âmbito das classificações dos profissionais do treino (67%). Contudo, ao nível das variáveis técnicas e táticas, ambas as equações explicaram valores idênticos da variância observada (R2). Os valores inerentes à predição “fora da amostra” mostraram que a equação de Fransen et al. (2018) obteve os melhores resultados em 19 das 25 variáveis investigadas.

 

Discussão

Este estudo logrou alcançar 3 grandes evidências que se encontram discutidas a seguir.

 

1) Apesar das diferenças observadas para o grupo emparelhado pós-PVA, poucas diferenças táticas se manifestaram para os restantes grupos emparelhados (pré e cerca-PVA) e não emparelhados, independentemente do método de “bio-banding”.

Os indivíduos com maturação precoce possuem, geralmente, mais força e potência nos membros inferiores (Lloyd et al., 2015; Peña-González et al., 2019), o que lhe concede a possibilidade de efetuar passes longos mais frequentemente. Esta é uma explicação plausível para o aumento das distâncias entre companheiros e adversários. Contudo, como o protocolo experimental envolveu jogos reduzidos (52.6 m2/jogador), os autores abstiveram-se de estabelecer uma relação causa-efeito para os resultados apurados.

 

2) Não houve diferenças consistentes entre os métodos de “bio-banding” na avaliação técnica dos jogadores pelos treinadores ou por vídeo-análise, durante jogos reduzidos com e sem emparelhamento maturacional.

Esta evidência contraria resultados anteriores acerca da eficácia do “bio-banding” na manipulação de comportamentos técnicos em jogos reduzidos (Abbott et al., 2019). Trata-se, portanto, de um dado de óbvia importância, visto que a habilidade técnica dos jogadores é para os técnicos um fator crucial tanto na seleção de jogadores, como na respetiva alocação a diferentes posições de jogo em função do timing do PVA (Larkin & O’Connor, 2017; Towlson et al., 2019).

 

3) Os métodos Fransen et al. (2018) e Khamis e Roche (1994) explicaram níveis similares de variância nas diversas variáveis analisadas, mas o primeiro produziu o modelo mais ajustado quando foi utilizada a validação cruzada “Leave-One-Out”.

Apesar desta evidência, tal não significa que o método Fransen et al. (2018) seja melhor para determinar o estatuto maturacional noutras amostras. Embora ambos os métodos ofereçam estimativas da maturação biológica não-invasivas, baratas e rápidas (Towlson et al., 2020a, 2020b), as limitações associadas a cada um devem ser consideradas aquando do agrupamento de jovens futebolistas mediante “bio-banding”.

 

Aplicações práticas

Propor jogos com agrupamento maturacional (“bio-banding”) não parece influenciar substancialmente o desempenho técnico dos jovens jogadores, comparativamente a jogos sem emparelhamento maturacional. Deste modo, para uma identificação mais precisa de jogadores tecnicamente dotados, o recurso aos dois tipos de formato de jogo (com e sem “bio-banding”) pode constituir uma estratégia mais profícua. 

A curta duração dos jogos (5 minutos) e a pequena área relativa por jogador (52.6 m2/jogador) podem ter mascarado as vantagens táticas previstas para os jogadores pós-PVA nos jogos sem emparelhamento maturacional. Inadvertidamente, este estudo sugere que a restrição espacial do jogo podem ser uma estratégia interessante para atenuar as diferenças maturacionais entre os jovens jogadores. 

Os profissionais das academias/escolas de futebol devem ponderar cuidadosamente o método de “bio-banding” (Fransen et al., 2018; Khamis & Roche, 1994) e o formato de jogo (com ou sem emparelhamento maturacional) a implementar, no sentido de proporcionar aos jovens praticantes o melhor ambiente contextual possível. No caso, o contexto deve pressupor que os avaliados tenham a oportunidade de mostrar os atributos definidos como mais relevantes pelos profissionais da academia/escola de futebol responsáveis pela seleção e pelo recrutamento de jovens talentos.

 

Conclusão

Este estudo sugere que o agrupamento maturacional de jovens jogadores (“bio-banding”) teve um impacto limitado nas performances técnicas e táticas em jogos reduzidos de futebol. A mesma tendência foi verificada em jogos sem emparelhamento maturacional, o que condiciona as conclusões que podem ser formadas a propósito da eficácia do “bio-banding”. Por outro lado, a redução do espaço de jogo pode fomentar ambientes práticos que limitem a manifestação de comportamentos técnicos e táticos associados a diferenças de maturação. O grau de incerteza das medidas técnicas e táticas constatado neste trabalho implica que os resultados sejam interpretados com a devida cautela. Este facto suscita um ponto pertinente de discussão acerca da necessidade de treinadores e outros profissionais do treino, investigadores e entidades responsáveis empreenderem uma abordagem coordenada no desenho de estudos, para efetivamente reunirem recursos, conhecimento e amostras mais amplas passíveis de providenciar inferências e conclusões mais concretas.

 

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Science and Medicine in Football.