28/08/2026

Artigo do mês #80 – agosto 2026 | Para além do plano de sessão: planeamento adaptativo nas academias de futebol juvenil

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

- 80 -

Autores: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S.

País: Reino Unido

Data de publicação: 1-agosto-2026

Título: Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies

Referência: McGuire, R., Kilduff, L., Waldron, M., Mcnarry, M., Drawer, S., Buchanan, N., Cropley, B., & Metcalfe, R. S. (2026). Beyond the session plan: Adaptive planning in youth football academies. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541261470313

 

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 80 – agosto de 2026.

 

Apresentação do problema

Nas academias de futebol do Reino Unido, os treinadores são responsáveis não apenas pela condução das sessões, mas também pelo planeamento das estruturas de treino e dos programas de desenvolvimento a diferentes escalas temporais. Contudo, a investigação tem incidido sobretudo no conteúdo e na pedagogia das sessões individuais, com menor atenção à forma como os treinadores conceptualizam, organizam e sequenciam o processo de treino a médio e longo prazo (Hornig et al., 2019; O’Connor et al., 2018; Partington & Cushion, 2013). Esta questão assume particular relevância perante a complexidade e a natureza individual do percurso formativo dos jogadores. Perspetivas como a pedagogia não linear, a dinâmica ecológica e a abordagem baseada nos constrangimentos defendem ambientes de aprendizagem representativos, adaptáveis e sensíveis ao contexto (Chow et al., 2016; Davids et al., 2008; Renshaw et al., 2019). Estas abordagens pressupõem um planeamento flexível, capaz de responder às necessidades dos jogadores e à informação contextual, embora a sua aplicação prática permaneça variável (Pinder et al., 2011; Renshaw & Chow, 2019). 

Nas academias de futebol, o planeamento procura conciliar as necessidades individuais de desenvolvimento, os programas de formação dos diferentes escalões, os objetivos a longo prazo, a filosofia do clube e as exigências de desempenho (Ford et al., 2011; Williams & Hodges, 2023). Este contexto distingue-se do futebol sénior, onde tendem a prevalecer objetivos estratégico-táticos e de resultado a curto prazo (Cushion et al., 2003; Kinnerk et al., 2023). O desenvolvimento de jovens jogadores exige, por isso, maior flexibilidade na organização do processo. Apesar disso, permanece pouco estudada a forma como esta flexibilidade se concretiza na prática (O’Gorman et al., 2021). 

Os modelos de planeamento descritos na literatura organizam-se habitualmente em ciclos macro (época/clube), meso (bloco/fase) e micro (sessão/escalão). Contudo, esta estrutura hierárquica nem sempre reflete a realidade das academias de futebol, onde os planos devem responder a exigências políticas, organizacionais e interpessoais (Taylor & Garratt, 2010). A investigação neste âmbito demonstra que as orientações previamente estabelecidas não são aplicadas de forma uniforme, mas antes interpretadas, negociadas e adaptadas às características específicas de cada organização (O’Gorman et al., 2021) (Figura 2).

 

Figura 2. Articulação entre teoria e prática no planeamento em academias de futebol (imagem não publicada pelos autores).

 

Não obstante o seu valor teórico, os modelos existentes oferecem orientações limitadas sobre a forma de planear a aprendizagem no quotidiano das academias, onde as prioridades podem alterar-se em função das circunstâncias. Neste contexto, o planeamento adaptativo tem sido proposto como uma abordagem mais funcional, capaz de responder às necessidades emergentes e às particularidades da prática (Abraham & Collins, 2011; Collins & Collins, 2021). Permanece, contudo, pouco claro até que ponto os treinadores adotam estes princípios, de forma consciente ou implícita, e como os operacionalizam. Torna-se, assim, relevante compreender como os próprios treinadores conceptualizam e concretizam o planeamento, quais os fatores que sustentam as suas decisões e de que modo conciliam diferentes exigências ao longo do tempo. 

Face ao exposto, o estudo procurou compreender como treinadores e outros responsáveis técnicos de academias de futebol de formação planeiam o desenvolvimento dos jogadores em diferentes escalas temporais. A análise incidiu sobre a forma como este processo é conceptualizado, estruturado e adaptado nas sessões de treino, em blocos de trabalho e numa perspetiva de desenvolvimento a longo prazo. Através de uma abordagem exploratória centrada na prática, os autores analisaram ainda os principais fatores que orientam as decisões dos treinadores no contexto das academias.

 

Métodos

 

·     Desenho do estudo

O estudo adotou uma abordagem qualitativa, de orientação pragmática, com o propósito de compreender como as decisões relativas ao planeamento e à conceção das sessões são tomadas em contextos reais de treino (Morgan, 2007). Para explorar as experiências e perspetivas dos participantes, realizaram-se entrevistas semiestruturadas, posteriormente examinadas através de análise temática, de modo a identificar e organizar padrões relevantes nos dados (Braun & Clarke, 2006). Esta abordagem privilegiou a obtenção de conhecimento prático e contextualizado sobre a realidade das academias de futebol.

 

·     Participantes

Participaram no estudo 10 profissionais de academias de futebol juvenil do Reino Unido, selecionados intencionalmente por possuírem responsabilidades diretas no planeamento das sessões ou dos programas de formação. Todos trabalhavam em academias de Categoria 1 ou 2, segundo a classificação do Elite Player Performance Plan (EPPP) da Premier League, ou em estruturas equivalentes, e possuíam, pelo menos, 3 anos de experiência. A amostra incluiu treinadores e responsáveis por diferentes áreas e etapas da formação, com uma experiência média de 12,9 ± 8,7 anos. Esta diversidade permitiu analisar o planeamento tanto ao nível estratégico e organizacional, como na sua aplicação quotidiana no treino.

 

·     Entrevistas

O guião das entrevistas foi desenvolvido com base nos objetivos do estudo e na literatura sobre planeamento, conceção das sessões e desenvolvimento dos jogadores, tendo sido posteriormente testado e ajustado através de uma entrevista-piloto. As entrevistas, de natureza semiestruturada, abordaram 4 áreas: (1) percurso e influências dos treinadores; (2) planeamento das sessões e comportamentos de treino; (3) planeamento em diferentes escalas temporais; e (4) conceção das tarefas segundo o Four Corner Model, que contempla as dimensões tático-técnica, física, psicológica e social do desenvolvimento dos jogadores. As questões abertas permitiram explorar exemplos concretos de adaptação, colaboração e dificuldades no processo de planeamento. Todas as entrevistas foram realizadas através da plataforma Zoom.

 

·     Análise dos dados

Os dados foram examinados através de análise temática, segundo o processo de 6 fases proposto por Braun e Clarke (2006). Adotou-se uma abordagem predominantemente indutiva, na qual os códigos foram identificados a partir dos discursos dos participantes e posteriormente agrupados e refinados em subtemas e temas de ordem superior (Braun & Clarke, 2006, 2021). A análise privilegiou o significado explícito das experiências relatadas, ainda que tenha recorrido a interpretações mais profundas quando necessário. O rigor metodológico foi reforçado através do registo sistemático das decisões analíticas, da reflexão crítica e da discussão das interpretações com especialistas, com o propósito de assegurar a sua coerência e sustentação nos dados (Korstjens & Moser, 2017).

 

Principais resultados

Os resultados foram organizados em 3 temas principais e 6 subtemas, que representam diferentes níveis do processo de planeamento nas academias: (1) planeamento de ordem superior; (2) processo de planeamento; e (3) processo de implementação. No seu conjunto, descrevem como as intenções de desenvolvimento a longo prazo se traduzem em programas estruturados, orientam a conceção das sessões e são posteriormente adaptadas durante a sua aplicação prática.

 

Tema 1 – Planeamento de ordem superior

 

·     Fundamentos e estrutura dos programas de formação

As academias partiram, geralmente, de uma filosofia de jogo comum a todo o clube, posteriormente traduzida em princípios de jogo, modelos de jogo e conteúdos tático-técnicos que orientaram o planeamento a longo prazo e as sessões de treino. Estes conteúdos foram habitualmente organizados em blocos (mesociclos) de 3 a 8 semanas, subdivididos em objetivos semanais. Apesar de esta estrutura fornecer uma orientação comum, coube aos treinadores interpretar e adaptar os princípios às necessidades dos jogadores e ao contexto de treino. Alguns participantes mostraram-se, contudo, críticos perante tarefas excessivamente prescritivas, sobretudo quando estas privilegiaram exercícios analíticos, pouco desafiantes e baseados na repetição. Eis o exemplo de um treinador participante:

 

Quando trabalhava a tempo parcial... tínhamos uma coisa chamada circuito de Anderlecht, que consistia em repetição sem oposição. Era uma m***a. E, se os elementos da equipa técnica a tempo inteiro não estivessem presentes, nós não o fazíamos. Fazíamos algo que permitisse obter os mesmos resultados técnicos, mas com vários outros resultados e com uma melhor conceção da tarefa.

 (Participante 3)

 

·     Processo multidisciplinar

O planeamento do desenvolvimento dos jogadores assumiu um caráter multidisciplinar, com contributos de treinadores, especialistas das ciências do desporto, psicólogos, equipa médica e outros profissionais das academias. Esta colaboração ocorreu sobretudo nos níveis meso e micro, com particular incidência na conceção das sessões e no apoio à competição. Os participantes destacaram a necessidade de articular os objetivos de aprendizagem com aspetos como a carga física, as restrições médicas e as necessidades específicas dos jogadores.

 

·     Foco no desenvolvimento individual

Não obstante o contexto coletivo, os participantes atribuíram grande importância à individualização do desenvolvimento. Os Planos Individuais de Desenvolvimento (PIDs) constituíram a principal ferramenta para articular as necessidades de cada jogador com os objetivos das sessões. Esta integração representou, contudo, um desafio, pelo que os treinadores concentraram habitualmente a intervenção individualizada em 1 a 4 jogadores por sessão. Como explicou um dos participantes:

 

Trata-se de tentar alinhar o desenvolvimento previsto nos PIDs dos jogadores com os objetivos coletivos. É encontrar uma forma de integrar o maior número possível de PIDs sem comprometer o equilíbrio daquilo que se pretende fazer com a equipa.

(Participante 1)

 

Tema 2 – Processo de planeamento

 

·     Elementos de conceção das sessões

Os participantes recorreram a diferentes formas de planeamento formal, desde simples notas ou esquemas até planos digitais, mantendo algum tipo de documento como referência durante as sessões. A conceção das tarefas articulou diversos elementos, como a manipulação do espaço e do número de jogadores, a progressão através dos constrangimentos da tarefa, os objetivos do mesociclo e as necessidades individuais previstas nos PIDs. Os treinadores procuraram ainda equilibrar a representatividade das tarefas com a repetição necessária dos comportamentos pretendidos.

 

·     Four Corner Model (Modelo dos Quatro Cantos da FA Premier League)

O Four Corner Model contempla 4 dimensões do desenvolvimento dos jogadores: tático-técnica, física, psicológica e social. Contudo, os participantes reconheceram que as duas primeiras concentraram a maior parte da atenção no planeamento, enquanto as dimensões psicológica e social tenderam a assumir um papel secundário. A dimensão psicológica nem sempre foi integrada no treino de forma explícita, apesar da importância que os próprios treinadores lhe atribuíram para a progressão dos jogadores. A dimensão social revelou ainda alguma indefinição quanto ao seu propósito e conteúdo, por vezes confundida com aspetos psicológicos ou reduzida à integração e coesão da equipa. Como reconheceu um dos participantes:

 

Um aspeto que eu e outros treinadores deste clube sentimos é que as dimensões social e psicológica são, de certa forma, negligenciadas e provavelmente pensamos nelas em último lugar. Como podemos inverter este modelo de alguma forma? Para ser sincero, não creio que alguma vez consigamos inverter este modelo.

(Participante 10)

 

Tema 3 – Implementação do processo

 

·     Tomada de decisão durante a sessão

Os participantes salientaram a necessidade de conciliar um planeamento detalhado com a capacidade de adaptar a sessão em função do que ocorre no momento. A observação dos comportamentos dos jogadores e das oportunidades de aprendizagem que emergiram orientou estas decisões: quando os objetivos foram alcançados mais cedo do que o previsto, os treinadores tenderam a modificar ou fazer progredir a tarefa; quando as respostas pretendidas não surgiram, mostraram maior propensão para manter a estrutura planeada. Deste modo, o plano funcionou como uma referência, mas não como uma estrutura rígida. Os participantes entenderam a adaptação como parte integrante do próprio processo de planeamento e como uma competência fundamental do treinador. Como explicou um dos participantes:

 

Mais uma vez, tendo sido professor anteriormente, percebi que não devemos, nem podemos, seguir o plano da sessão como se fosse um evangelho. É necessário adaptar, e essa é, em última análise, a competência de um treinador: a forma como nos adaptamos no momento.

(Participante 1)

 

Aplicações práticas

Com base nas experiências e opiniões dos profissionais participantes no estudo, identificámos 4 aplicações práticas relevantes para o planeamento do treino em academias de futebol. No seu conjunto, salientam a importância de conciliar estrutura, individualização e capacidade de adaptação no desenvolvimento dos jovens jogadores. 

1. Utilize os planos como referências, não como guiões rígidos: o planeamento deve estabelecer objetivos, conteúdos e uma estrutura coerente com a filosofia e os princípios de jogo do clube, sem limitar a capacidade de resposta do treinador. Durante a sessão, a observação dos jogadores deve orientar eventuais adaptações às tarefas, sem perder de vista os objetivos definidos. Adaptar não significa abandonar o plano, mas ajustá-lo perante aquilo que emerge no treino. 

2. Reavalie programas excessivamente lineares e tarefas demasiado prescritivas: a organização dos conteúdos em blocos pode conferir estrutura ao desenvolvimento a longo prazo, mas não implica que determinado conteúdo fique concluído após um único período de trabalho. Uma abordagem em espiral, que revisite conteúdos em diferentes momentos e com maior complexidade ou em novos contextos, pode constituir uma alternativa. Embora o trabalho analítico e a repetição técnica possam manter o seu espaço no processo de treino, não deverão assumir maior relevância do que tarefas mais desafiantes, dotadas de maior variabilidade e representativas das exigências da competição. 

3. Integre explicitamente as dimensões psicológica e social no planeamento: se bem que os treinadores tenham valorizado estas componentes, atribuíram-lhes menor atenção formal do que às dimensões tático-técnica e física. Aspetos psicológicos e sociais não devem constituir elementos adicionais ou isolados do treino, mas estar incorporados nas próprias tarefas e nos objetivos de desenvolvimento. Maior clareza sobre o que desenvolver e como operacionalizar estas dimensões poderá reforçar a sua presença no quotidiano. 

4. Desenvolva a capacidade de observar, interpretar e decidir durante a sessão: a adaptabilidade deve ser entendida como uma competência do treinador e não como simples reação ao imprevisto. O planeamento pode antecipar possibilidades de progressão ou ajustamento das tarefas, mas a decisão final deve atender às respostas dos jogadores e às oportunidades de aprendizagem que surgem no contexto. A formação de treinadores deverá, por isso, valorizar não apenas a capacidade de planear, mas também o julgamento situacional e a reflexão durante a ação.

 

Conclusão

O presente estudo evidencia que o planeamento nas academias de futebol constitui um processo dinâmico e organizado em diferentes níveis, no qual as orientações de longo prazo, a estrutura formal das sessões e as decisões tomadas durante o treino se encontram interligadas. Longe de constituir uma hierarquia rígida, este processo combina a filosofia e os programas de formação do clube com as necessidades individuais dos jogadores, o contributo de diferentes áreas profissionais e as exigências que surgem na prática. Os resultados reforçam, assim, a importância de conciliar estrutura e adaptabilidade: os planos estabelecem objetivos e orientam a intervenção, mas devem permitir ajustes perante as respostas dos jogadores e as oportunidades de aprendizagem que aparecem durante as sessões. Por isso, o planeamento não deve ser entendido como mero cumprimento de programas previamente definidos, mas como uma competência dinâmica que exige coordenação, reflexão, julgamento situacional e capacidade de adaptação ao contexto.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rubrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

Sem comentários: