08/05/2016

O «conto de fadas» Leicester City FC

Os britânicos chamam-lhe «fairytale», outros referem-se a «fantasy football» ou «real football manager», mas é pura realidade: o Leicester City Football Club venceu a mais que competitiva Barclays FA Premier League.

Figura 1. O treinador vencedor - Claudio Ranieri (fonte: www.abola.pt).

No dia da consagração como vencedores da competição, o líder italiano Claudio Ranieri fez questão de frisar: «Esta foi uma época de doidos, as grandes equipas não estavam consistentes e nós tivemos consistência». As variáveis contextuais têm o condão de adquirir contornos decisivos em competições longas e o facto de o Leicester não ter compromissos europeus e de ter saído cedo das outras provas internas (taças) contribuiu bastante para a gestão do plantel e para potenciar a qualidade do trabalho nas sessões de treino. Aliás, esta questão foi publicamente assumida pelo staff técnico que envolve a primeira equipa do Leicester. Convido-vos a ler a peça da BBC Leicester City: The science behind their Premier League title.

Pode-se vencer um ou outro jogo com alguma dose de sorte, mas nenhuma equipa é campeã ao fim de 36 jornadas só com sorte. A competência, a qualidade do trabalho desenvolvido e, sobretudo, o trabalho de equipa – «teamwork» – são particularidades essenciais para que uma equipa alcance o sucesso numa época desportiva. Por exemplo, o psicólogo Ken Way elogiou o manager Claudio Ranieri, ao afirmar que é um segundo psicólogo do grupo e que proferiu frases que o deixou de queixo em baixo. Por sua vez, Claudio Ranieri considera fundamentais e profícuas as informações e os dados disponibilizados por todos os elementos do staff das ciências do desporto (i.e., especialistas em análise da performance, condição física, força e potência, fisiologia, psicologia e nutrição). Finalmente, é de destacar a envolvência e a mobilização de todos, do grupo, em torno de objetivos comuns. Este trabalho coletivo, de rigor e repleto de valores sociais derrubou o «futebol-industria», no qual o dinheiro impera e conquista vitórias e títulos (figura 2).

Figura 2. Relação entre custo do plantel e posição na Premier League.
(fonte: BBC Sport).

O «conto de fadas» Leicester FC trouxe-nos de volta o verdadeiro e genuíno futebol, colocando indiretamente em causa os preceitos pelos quais a nossa sociedade se rege atualmente. Vale a pena refletir sobre a lição dada por este pequeno clube.

20/04/2016

Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria (2012)

Afonso Cruz é um escritor português que, segundo nota da contracapa do livro, «vive no campo e gosta de cerveja». Nesta publicação da editora Alfaguara, esta enciclopédia revela-nos algumas sábias subtilezas que o mundo esqueceu ou ignorou.

Figura. Capa do livro «Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria», 
de Afonso Cruz.

Acerca do tema «Evolução da Sociedade», o autor invoca as palavras de Tsilia Kacev (1979), numa exposição de Paris:

Chama-se evolução da sociedade ao tempo que se leva a concordar com os artistas do século passado.
(p. 49)

Na minha perspetiva, o texto intitulado «Sintaxe Interior» atingiu o píncaro da excelência:

Há palavras que nunca se dizem, à cautela, pois são tremendas. (…) As pessoas dizem-nas exibindo a nudez das suas letras e das suas fonéticas, sem pudor. Mas as pessoas estão enganadas. As palavras ainda têm poder e movem mundos. Criam mundos. Desfazem mundos. E só os inconscientes as atiram para fora da boca como perdigotos.
(Frantiska Möller, p. 87-88)

22/03/2016

A «verticalidade» de Messi na origem da perturbação da organização defensiva adversária

Lionel Messi dispensa apresentações. No confronto mais recente com o Arsenal, nos oitavos-de-final da UEFA Champions League 2015/2016, o craque argentino voltou a demonstrar porque é que as mudanças de ritmo no jogo de futebol são essenciais para quebrar a simetria entre equipas em processos opostos: ofensivo e defensivo. Além disso, as mudanças de ritmo ocorrem em espaços propícios para perturbar a organização defensiva adversária e criar situações iminentes de golo. Chamo a atenção para os movimentos verticais (em profundidade) de Messi, tendo sempre a preocupação de ter, no mínimo, um companheiro com quem pode realizar a combinação tática direta (figura 1).

Figura 1. Os movimentos em profundidade (verticais) de Messi.

Messi é inteligente a procurar os espaços que explora para provocar a perturbação (corredor central), é perspicaz na forma como temporiza para criar pontos de apoio laterais ou verticais e, posteriormente, objetivo na mudança de ritmo (aceleração para a baliza; a «verticalidade») que realiza com a plena intenção de concretizar ou contribuir para o golo.


Como já referi anteriormente, é um enorme prazer poder desfrutar do futebol num tempo em que Messi vive, joga e faz jogar.

24/02/2016

Journal of Sports Sciences: Science and Medicine in Football (Vol. 34/2016) | Efeitos do modo de concretização de golo e do escalão etário no desempenho defensivo de equipas jovens em jogos reduzidos de futebol

Nos agora saudosos tempos de faculdade tive, por diversas vezes, de me socorrer de artigos científicos internacionais e, na área das Ciências do Desporto, o Journal of Sports Sciences sempre foi uma referência, quase que obrigatória, para a maioria dos estudantes. Durante a licenciatura, por exemplo, de vez em quando aparecia uma cadeira que exigia pesquisas mais elaboradas e leituras mais demoradas e nem sempre cativantes. Alguns desses trabalhos, do tipo de revisão bibliográfica, aborreciam-me à data e o nome Journal of Sports Sciences era uma constante raramente bem apreciada. A esta distância consigo perceber que o grau de imaturidade académica ainda era elevado.

Figura 1. Capa do Journal of Sports Sciences.

Mais tarde, ao entrar no mercado de trabalho, começaram a surgir algumas questões práticas que queria poder responder, mas não sabia, ou tinha as minhas incertezas. Aquelas perguntas típicas dos 4/5 anos, contudo, aplicadas à vida adulta profissional: «porquê?», «onde?», «quando?» e «como?». Fui à descoberta de respostas no mestrado e a necessidade de investigar, saber mais, estar atualizado, tornou-se insaciável. Perguntas que pediam respostas e respostas que geraram novas questões sobre aquilo que mais gosto no desporto: o treino de futebol.

Em meados de 2014, as questões que traduziam as nossas dúvidas eram: (1) Se modificarmos o número e as dimensões dos alvos/balizas em jogos reduzidos, que implicações tem no desempenho defensivo de jovens praticantes de futebol; (2) Será que a manipulação dos alvos nos jogos reduzidos afeta do mesmo modo o desempenho de jovens praticantes com idades e níveis de experiência distintos? No final dessa época – 2013/2014 – fomos para o terreno recolher imagens com miúdos Sub-13 (Infantis) e Sub-15 (Iniciados). A partir de então, em conjunto com os professores Ricardo Duarte, Anna Volossovitch e António Paulo Ferreira (Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa), não mais paramos até hoje: data de publicação do artigo «Scoring mode and age-related effects on youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games», no suplemento Science and Medicine in Football do famigerado Journal of Sports Sciences. Aqui vos deixo alguns detalhes sobre o artigo:

Figura 2. Codificação da performance defensiva através do software Match Vision Studio Premium.

Abstract
This study aimed to examine the scoring mode (line goal, double goal or central goal) and age-related effects on the defensive performance of youth soccer players during 4v4 small-sided games (SSGs). Altogether, 16 male players from 2 age groups (U13, n = 8, mean age: 12.61 ± 0.65 years; U15, n = 8, 14.86 ± 0.47 years) were selected as participants. In six independent sessions, participants performed the three SSGs each during 10-min periods. Teams’ defensive performance was analysed at every instant ball possession was regained through the variables: ball-recovery type, ball-recovery sector, configuration of play and defence state. Multinomial logistic regression analysis used in this study revealed the following significant main effects of scoring mode and age: (1) line goal (vs. central goal) increased the odds of regaining possession through tackle and in the defensive midfield sector, and decreased the odds of successful interceptions; (2) double goal (vs. central goal) decreased the odds of regaining possession through turnover won and with elongated playing shapes; (3) the probability of regaining possession through interception significantly decreased with age. Moreover, as youth players move forward in age groups, teams tend to structurally evolve from elongated playing shapes to flattened shapes and, at a behavioural level, from defending in depth to more risky flattened configurations. Overall, by manipulating the scoring mode in SSGs, coaches can promote functional and coadaptive behaviours between teams not only in terms of configurations of play, but also on the pitch locations that teams explore to regain possession.

Keywords: task constraints, performance analysis, configurations of play, collective behaviours, defensive behaviours.

Reference
Almeida, C. H., Duarte, R., Volossovitch, A., & Ferreira, A. P. (2016). Scoring mode and age-related effects of youth soccer teams’ defensive performance during small-sided games. Journal of Sports Sciences. doi: 10.1080/02640414.2016.1150602 (link)

Pelo enorme trabalho de logística associado ao projeto, pelas frustrações e problemas que tivemos de superar, tanto nas sessões experimentais como nas submissões iniciais que não chegaram a bom porto, e pela fantástica cooperação e solidariedade existente entre todos, expresso os meus sinceros agradecimentos às inúmeras pessoas (jogadores, assistentes, colaboradores e dirigentes) e entidades envolvidas (Juventude Desportiva Monchiquense e Faculdade de Motricidade Humana) neste trabalho. Em especial, uma palavra de apreço para os professores (e coautores) Ricardo, Anna e António Paulo que, apesar de terem as suas agendas mais que preenchidas, nunca colocaram de parte a colaboração no estudo e, de forma abnegada, contribuíram com sugestões absolutamente decisivas para o produto final. É um orgulho poder partilhar esta ocasião convosco.

Espero que os leitores gostem. Para aqueles que têm um papel ativo na área do treino desportivo, em particular nos jogos desportivos coletivos, torço para que estas conclusões sejam úteis e, sobretudo, que estimulem a busca por novas respostas a outras tantas novas questões.

10/02/2016

A sombra do que fomos (2009)


«Luis Sepúlveda regressa aos romances com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores.»

O enredo de três sexagenários que esperam impacientes a chegada de um quarto homem que, na realidade, nunca chegará. Três antigos militantes de esquerda condenados ao exílio por diferenças políticas, mas que, ao contrário de outros, conseguiram sobreviver e, décadas depois, regressar ao seu próprio país.

Figura. Capa de «A sombra do que fomos» de Luis Sepúlveda.

A diferença que faz parte da condição humana, mas que essa condição não respeita e com a qual raramente convive. Censura, critica e absolve. A diferença: o nosso garante enquanto espécie. E a dor, o declínio e a compaixão retratados com mestria, como é apanágio de Luis Sepúlveda.

A foice e o martelo numa chávena de café. Uma sombra.