29/10/2023

Artigo do mês #46 – outubro 2023 | Evolução técnica e tática das sequências ofensivas na LaLiga (2008–2021). É o futebol espanhol agora mais associativo?

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: González-Rodenas, J., Moreno-Pérez, V., López-Del Campo, R., Resta, R., & Del Coso, J.

País: Espanha

Data de publicação: 6-outubro-2023

Título: Technical and tactical evolution of the offensive team sequences in LaLiga between 2008 and 2021. Is Spanish football now a more associative game?

Referência: González-Rodenas, J., Moreno-Pérez, V., López-Del Campo, R., Resta, R., & Del Coso, J. (2023). Technical and tactical evolution of the offensive team sequences in LaLiga between 2008 and 2021. Is Spanish football now a more associative game? Biology of Sport, 40(2), 105–113. https://doi.org/10.5114/biolsport.2024.131818

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 46 – outubro de 2023.

 

Apresentação do problema

Nos últimos anos, a análise da performance no futebol evoluiu imenso, sobretudo devido ao uso de dispositivos GPS e de sistemas de rastreamento com múltiplas câmaras, o que possibilita uma recolha extensa de dados praticamente em tempo real (Link et al., 2016; Sarmento et al., 2018). Os desenvolvimentos tecnológicos têm permitido a análise cada vez mais precisa de aspetos técnicos, táticos, físicos e psicológicos do desempenho dos jogadores (Rein & Memmert, 2016). Algumas das análises efetuadas têm-se focado na evolução de competições profissionais de futebol em toda a Europa, incluindo a LaLiga espanhola (Lago-Peñas et al., 2022; Errekagorri et al., 2022), a Premier League inglesa (Barnes et al., 2014; Bradley et al., 2016), a Bundesliga alemã (Konefal et al., 2019) e a UEFA Champions League (Yi et al., 2020). Independentemente de diferenças entre os estudos, mostrou-se que indicadores de desempenho, como a distância percorrida em alta velocidade, o número de sprints e o número de passes têm aumentado, enquanto a distância total percorrida, o número de remates, cruzamentos, desarmes e alívios diminuíram progressivamente ao longo das temporadas. Em síntese, estas evidências sugerem que as equipas das ligas de futebol europeias estão atualmente a exibir um estilo de jogo mais orientado para a posse de bola, com esforços físicos mais intensos. 

Apesar das contribuições significativas dos estudos supramencionados, o foco recaiu predominantemente em parâmetros técnicos e físicos individuais, negligenciando os indicadores de performance coletivos, que são cruciais para entender a performance competitiva. Dada a necessidade de explorar parâmetros mais dinâmicos, interativos e representativos do futebol (Mackenzie & Cushion, 2013), a análise das sequências ofensivas das equipas fornece uma perspetiva global sobre o modo como os jogadores se ligam coletivamente para elaborar um ataque. Isso inclui o número de passes por sequência, a velocidade de progressão e o resultado da sequência, possibilitando captar o comportamento técnico e tático da equipa em posse de bola (Aranda et al., 2019). Embora ainda persista a discussão entre investigadores sobre o tipo de sequências de passe (curtas ou longas) que gera maior eficácia ofensiva (Reep & Benjamin, 1968; Hughes & Franks, 2005), esta análise tem vindo a expandir-se, incluindo técnicas como a análise de rede (Clemente et al., 2020) e dados posicionais (Malqui et al., 2019), para que se possa obter uma compreensão mais profunda acerca das interações coletivas no futebol. 

Contudo, apesar da constante evolução na última década dos métodos de treino (Sarmento et al., 2018b, 2018c), dos dispositivos táticos (González-Rodenas et al., 2023) e dos métodos de análise de jogo (Sarmento et al., 2018a, Forcher et al., 2022), que resultaram numa literatura científica mais abrangente e mais orientada para o que se faz no terreno, as evidências em torno da forma como o jogo de futebol tem evoluído ao longo dos anos ainda são limitadas. Portanto, parece necessário e interessante explorar como é que as sequências ofensivas das equipas estão a evoluir em termos técnicos e táticos, a fim de investigar os efeitos dos métodos de treino e de jogo. Neste âmbito, a avaliação da fase ofensiva pode detetar as variáveis técnicas e táticas chave, relacionadas com a velocidade de circulação da bola, a duração e o número de ações técnicas (e.g., passes), bem como a localização da posse de bola e os movimentos dos jogadores, e que são essenciais para avaliar os estilos de jogo (Hewitt et al., 2016) e alcançar o sucesso no futebol (Oliva-Lozano et al., 2023). 

Posto isto, o objetivo desta investigação foi estudar a evolução técnica e tática das sequências ofensivas das equipas de futebol da LaLiga espanhola numa perspetiva longitudinal, desde as temporadas 2008/09 até 2020/21.

 

Métodos

Amostra: consistiu em 4940 observações de jogos de 38 equipas profissionais de futebol da LaLiga, abrangendo um período de 13 temporadas, de 2008/09 a 2020/21. Resultou, no total, em 9880 conjuntos de dados de sequências ofensivas (2 conjuntos por jogo), executados pelas equipas em competição. Todos os dados foram recolhidos com a autorização da LaLiga, em conformidade com as respetivas diretrizes éticas e garantindo o anonimato dos jogadores. 

Procedimentos: as características técnicas e táticas de cada sequência ofensiva foram recolhidas através do sistema Mediacoach, que utiliza informação proveniente da OPTA Sportsdata. Todas as sequências coletivas produzidas em cada jogo da LaLiga foram automaticamente gravadas e analisadas pelo sistema. Em termos operacionais, uma sequência ofensiva é definida por uma passagem de jogo em que a posse de bola pertence a uma equipa, finalizando com ações defensivas adversárias, paragens naturais do jogo (e.g., bolas fora ou faltas) ou um remate. Para cada sequência ofensiva, foi analisado um total de 12 variáveis técnicas e táticas passíveis de descrever as características gerais da sequência coletiva, a performance na ação de passe e a performance ofensiva (ver Tabela 1).


Tabela 1. Descrição e definição das variáveis técnicas e táticas avaliadas no presente estudo (adaptado de González-Rodenas et al., 2023).


Análise estatística: os dados foram transferidos do Mediacoach para uma folha de dados de Microsoft Excel. Todas as análises estatísticas foram realizadas no software IBM SPSS Statistics, v. 27.0. Devido à estrutura hierárquica do desempenho das equipas no futebol (cada equipa tem o seu próprio estilo de jogo), um modelo misto multinível foi usado para agrupar o desempenho coletivo (nível 2) em equipas (nível 1). Com esta organização dos dados, foi calculado um modelo linear generalizado para explorar o efeito longitudinal da época (efeito fixo) nas variáveis técnicas e táticas, considerando o efeito de cada equipa (efeito aleatório). Foram ainda incluídas variáveis contextuais, como o local do jogo (casa vs. fora), resultado do jogo (vitória vs. empate vs. derrota), ranking do adversário em quartis (primeiro, segundo, terceiro e quarto) e ranking da equipa em quartis. A dimensão de efeito foi avaliada com base na estatística de Cohen F2, com os seguintes valores de corte: < 0.02, trivial; > 0.02, pequena; > 0.15, média; > 0.35, grande (Cohen, 1992). As comparações entre médias estimadas foram realizadas com o teste de Fisher para diferenças mínimas significativas. O nível de significância foi estabelecido em p < 0,05.


Principais resultados

 ·     Características gerais das sequências ofensivas

A Figura 2 mostra a evolução longitudinal do número, largura, comprimento e duração das sequências ofensivas por jogo. 

Figura 2. Médias preditas e intervalos de confiança a 95% para as variáveis “número de sequências” (sequences), “largura da sequência” (sequence width), “comprimento da sequência” (sequence length) e “duração da sequência” (sequence time) na LaLiga de 2008/09 a 2020/21, de acordo com o modelo linear generalizado misto. *Significativamente diferente da temporada 2008/2009 (teste de Fisher para diferenças mínimas significativas; p < 0,05) (adaptado de González-Rodenas et al., 2023).

 

Em comparação com a época 2008/09, o número de sequências ofensivas começou a decrescer na época 2016/17 e obteve os valores mais baixos nas últimas 5 temporadas investigadas. A largura das sequências ofensivas permaneceu estável ao longo das épocas, com valores médios a rondar os 34 metros. O comprimento das sequências exibiu uma tendência decrescente a partir da época 2014/15. Por sua vez, a duração média das sequências ofensivas demonstrou uma tendência crescente, particularmente, de 2014/15 em diante, quando o tempo médio das sequências ofensivas aumentou de 6,4 segundos para 8,3 (+33,3%).

 

·     Performance relativa à ação de passe

A Figura 3 mostra que o número total de passes (+18,7%), a precisão do passe (+6,8%) e o número de passes por sequência ofensiva (+34,4%) registaram uma tendência constante de incremento ao longo das épocas examinadas. Por seu turno, a velocidade de progressão direta evidenciou uma tendência decrescente, especialmente da época 2013/14 em diante.

 

Figura 3. Médias preditas e intervalos de confiança a 95% para as variáveis “número de passes” (passes), “precisão do passe” (passing accuracy), “passes por sequência” (passes per sequence) e “velocidade de progressão direta da sequência” (direct speed) na LaLiga de 2008/09 a 2020/21, de acordo com o modelo linear generalizado misto. *Significativamente diferente da temporada 2008/2009 (teste de Fisher para diferenças mínimas significativas; p < 0,05) (adaptado de González-Rodenas et al., 2023).

 

·     Performance ofensiva

O número de passes chave diminuiu significativamente a partir de 2014/15, enquanto o número de bolas (passes) penetrantes começou a decrescer significativamente a partir da época 2011/12. O número de sequências finalizadas no terço ofensivo apresentou um decréscimo gradual. Além disso, o número de sequências finalizadas com um remate também manifestou uma tendência decrescente, com diferenças significativas entre a época de referência (2008/09) e todas as épocas após 2011/12.

 

Figura 4. Médias preditas e intervalos de confiança a 95% para as variáveis “passes chave” (key passes), “bolas penetrantes” (through balls), “sequências finalizadas no terço ofensivo” (sequences that end in the attacking third) e “sequências finalizadas com um remate” (sequences that end in a shot) na LaLiga de 2008/09 a 2020/21, de acordo com o modelo linear generalizado misto. *Significativamente diferente da temporada 2008/2009 (teste de Fisher para diferenças mínimas significativas; p < 0,05) (adaptado de González-Rodenas et al., 2023).

 

Aplicações práticas

Com base nos resultados apresentados, foram extraídas 3 sugestões fundamentais para os treinadores implementarem nas suas abordagens práticas ao treino e ao jogo:

 

1. Adaptação estratégico-tática: os treinadores devem fomentar um estilo de jogo mais associativo nas suas equipas. Esse intento envolve a criação de sequências de passes mais longas, permitindo controlar o jogo de forma mais eficaz por meio do aumento da frequência e da precisão dos passes. Do ponto de vista tático-técnico, implica a realização de mais passes à largura do campo e, inclusivamente, passes para trás, levando a um controlo mais refinado da posse de bola e do ritmo de jogo. A ausência de “vertigem ofensiva” (i.e., chegar muito rapidamente à baliza adversária) possibilita que as equipas explorem os momentos mais oportunos do processo ofensivo para desequilibrar a organização defensiva adversária e finalizar o ataque, sem comprometer a organização defensiva da própria equipa.

 

2.  Organização defensiva: um maior jogo associativo terá certamente a ver com o modo como as equipas se organizam em processo defensivo. Assim, os treinadores devem considerar fortalecer a organização defensiva das suas equipas, aumentando a pressão sobre a bola e linhas de passe envolventes. Esta opção estratégico-tática, quando bem executada, tende a reduzir as chances que as equipas adversárias têm de penetrar nos diversos setores, forçando-os a depender de combinações de passe mais elaboradas para ultrapassar o bloco defensivo. Em suma, com um bloco compacto e pressionante, as equipas são capazes de limitar as ocasiões de transição defesa-ataque em profundidade dos adversários, reduzindo as oportunidades que criam para rematar à baliza.

 

3. Otimização do desempenho físico: uma organização ofensiva mais efetiva pode potencialmente rentabilizar os esforços físicos dos jogadores e atenuar o gasto energético durante os jogos. A construção de processos ofensivos mais organizados salvaguarda a condição física dos jogadores, proporcionando que conservem energia para a execução de ações mais intensas quando é necessário, aspeto que reflete uma nova característica do futebol moderno – integrar a gestão física na preparação das nuances estratégico-táticas a implementar.

 

Conclusão

As evidências do estudo demonstram que as equipas de futebol da LaLiga evoluíram técnica e taticamente para um estilo de jogo mais associativo e combinativo, incluindo sequências de passe mais longas, tanto em duração, como em quantidade. Esta evolução também acarretou a diminuição da velocidade de progressão direta no sentido da baliza oponente e a redução do número de bolas penetrantes, passes chave e remates. 

Numa perspetiva estratégico-tática, parece que as equipas profissionais estão a evoluir para um estilo de jogo mais associativo, com menos verticalidade e penetração ofensiva. Ainda assim, os técnicos não devem apenas treinar os jogadores para serem precisos nas ações de passe inerentes à manutenção da posse de bola, já que é essencial que estes adquiram competências específicas de drible, finta ou passe para desorganizar a defesa contrária. Além disso, uma vez que o número de passes penetrantes, passes chave e remates tem decrescido nos últimos anos, possuir jogadores com estes atributos pode ser vital para formar planteis bem-sucedidos. O conhecimento providenciado por este estudo desafia treinadores e analistas a refletir sobre o atual desenvolvimento técnico, tático e estratégico do jogo de futebol.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Biology of Sport.

30/09/2023

Artigo do mês #45 – setembro 2023 | O papel-chave do contexto nos desportos coletivos: O valor das atividades jogadas na conceção da prática no futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto. 

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Autores: Petiot, G. H., Vitulano, M., & Davids, K.

País: Canadá

Data de publicação: 1-agosto-2023

Título: The key role of context in team sports training: The value of played-form activities in practice designs for soccer

Referência: Petiot, G. H., Vitulano, M., & Davids, K. (2023). The key role of context in team sports training: The value of played-form activities in practice designs for soccer. International Journal of Sports Science & Coaching, 1–13. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/17479541231191077

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 45 – setembro de 2023.

 

Apresentação do problema

O treino por meio de atividades em forma de jogo (i.e., atividades jogadas) tem sido amplamente discutido no âmbito dos desportos coletivos, como o futebol, sendo também cada vez mais recomendado pelas entidades que tutelam a modalidade para todas as idades e níveis de prática (Woods et al., 2020; Ribeiro et al., 2021). As evidências sugerem que conceber estritamente exercícios com base em análises de desempenho não é suficiente para melhorar as performances individuais e coletivas (Herold et al., 2022). A prática composta por diversas variantes do jogo formal, conhecida como “prática em forma de jogo”, é essencial para aumentar a adaptabilidade e a transferibilidade das ações específicas, principalmente do treino para a competição (Araújo & Davids, 2011; Causer & Ford, 2014). 

Este tipo de atividades engloba os jogos reduzidos e condicionados, nos quais a oposição constitui um elemento nuclear da prática. As atividades jogadas contêm elementos, características e propriedades informacionais do jogo formal, mas podem ser configuradas para dar respostas mais concretas ao desenvolvimento do praticante, à preparação para o desempenho competitivo e à organização coletiva (i.e., da equipa) (Machado et al., 2019). Por isso, são situações práticas recomendadas pela literatura científica, tanto para o desenvolvimento como para o rendimento, mediante a promoção de oportunidades de ações (i.e., affordances) relevantes e motivantes para os praticantes (Petiot et al., 2021; Sannicandro & Raiola, 2021). 

Como é insinuado pela expressão “o contexto é tudo”, o contexto no qual os praticantes estão inseridos é uma variável determinante a equacionar. As atividades em forma de jogo simulam precisamente as propriedades do jogo competitivo em cenários arranjados para proporcionar as oportunidades de ação ou as sequências de jogo desejadas. Os jogadores são desafiados a envolver-se em comportamentos percetivos, tomadas de decisão, resolução de problemas e coadaptação posicional (Petiot et al., 2021), pelo que a prática em forma de jogo pode ser equacionada como uma abordagem poderosa para o desenvolvimento do jogador, se convenientemente adaptada às suas necessidades. Esta abordagem baseia-se numa estrutura teórica aplicada aos desportos coletivos, que se centra na interação entre o indivíduo e o envolvimento: a perspetiva da Dinâmica Ecológica (Araújo et al., 2006). O seu racional liga-se visceralmente aos fundamentos da Abordagem Baseada nos Constrangimentos, já que os seus conceitos e os seus princípios também promovem a manipulação de parâmetros contextuais e da tarefa (Ometto et al., 2018). Em última instância, esta estrutura teórica encoraja os treinadores e os outros profissionais do treino a trabalhar com os jogadores em jogos ou atividades contextualizadas, por forma que as habilidades específicas e o desenvolvimento da perícia possam sair enriquecidos (Button et al., 2020; Woods et al., 2020). 

As atividades em forma de jogo têm sido enquadradas na literatura associada à matriz ecológica como parte integrante de um continuum no desenvolvimento de jogadores e no treino para a obtenção de rendimento no futebol (Ribeiro et al., 2021). Os vários formatos podem ser diferenciados num espectro proposto de tarefas práticas, que vão desde atividades com enfoque técnico até às situações de jogo formal. Porém, a produção científica acerca de como integrar as diversas atividades jogadas num continuum de desenvolvimento é atualmente limitada. É necessário ter diretrizes claras sobre como as tarefas de jogo podem ser combinadas e organizadas no planeamento das sessões de treino de futebol, bem como podem ser ajustadas no terreno por meio de adaptações-chave. Neste sentido, o propósito desta revisão narrativa foi tripartido: (a) considerar os formatos típicos de atividades em forma de jogo, frequentemente organizadas como jogos contextualizados, que podem ser utilizados em sessões de treino de futebol; (b) analisar a sua finalidade e os principais parâmetros a partir da perspetiva da Dinâmica Ecológica; e (c) enfatizar como e por que podem ser úteis para os jogadores, treinadores e staff de apoio.

 

O contexto como um enquadramento

O contexto tem sido proposto como essencial para dotar os comportamentos humanos em geral (Juarrero, 2023), e os inerentes à obtenção de resultados desportivos (Jones et al., 2023), de coerência e significado. Esta noção é particularmente importante nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e preparação para a performance nos desportos coletivos, uma vez que o contexto molda as cognições, as perceções e as ações dos jogadores face a uma multiplicidade de oportunidades de ações (Gibson, 1979) e constrangimentos (Pinder et al., 2011). Em jogo, os futebolistas precisam ser capazes de ler e atuar em diferentes contextos de desempenho e adaptar as suas ações para alcançar as suas intenções táticas (e.g., intercetar um passe entre oponentes, criar uma oportunidade de remate, driblar os adversários em espaços apertados ou evitar que um remate contrário entre na sua baliza). Na perspetiva ecológica, um contexto de prática bem estruturado é aquele que recria as informações disponíveis num contexto competitivo e que os praticantes podem efetivamente explorar. Esta abordagem à prática implica que os treinadores sejam designers de contextos de aprendizagem/treino (Button et al., 2020) e facilitadores de cenários dinâmicos de oportunidades de ação que os jogadores exploram na construção de uma forma de jogar. 

Portanto, o contexto funciona como um background vital para enquadrar as ações dos principais intervenientes no jogo. Neste âmbito, a Pedagogia Não Linear sustenta que, além do contexto, a representatividade da tarefa é outro aspeto basilar para a prática e para a aquisição de habilidades, especialmente no que respeita à conceção de jogos modificados (Chow et al., 2021). Os contextos são moldados para que certas ações possam ocorrer em sessões de treino, ou no decurso de programas de treino (i.e., microciclos), em função de temáticas designadas pelos treinadores (Davids et al., 2013; Davids, 2014). Por exemplo, o jogo pode ser contextualizado para guiar as intenções dos jogadores associadas a situações de “contra-ataque com entrada no terço ofensivo, após recuperações de bola perto da própria baliza”. A representatividade das atividades em forma de jogo pode ser alcançada quando a paisagem de oportunidades de ação enfatiza o tema escolhido, ou mais precisamente quando essas affordances determinam que as habilidades relevantes sejam executadas de forma repetida e, sobretudo, quando ocorre a transferência dessas ações-alvo para situações de jogo não condicionadas (i.e., jogos competitivos) (Chow et al., 2021; Renshaw et al., 2022). 

Enquadrar o contexto requer a articulação da natureza da prática em forma de jogo com a temática a ela atribuída para que a aprendizagem ou o rendimento se manifestem. Quando as atividades são projetadas para um tema específico, a configuração e as características da tarefa não só devem permanecer fiéis à natureza do jogo proposto, mas também devem proporcionar aos jogadores oportunidades para atingirem os objetivos definidos, ponderando as necessidades de cada indivíduo e da equipa (Nunes, 2021).

 

  • Configuração das atividades

Os contextos de jogo podem ser intencionalmente modificados ou manipulados para proporcionar as oportunidades que os jogadores necessitam para adaptar os seus comportamentos tático-técnicos. A estrutura e a organização das atividades de jogo podem ser modificadas sem remover os objetivos básicos do jogo: superar a oposição para marcar golo ou impedir que a oposição marque. A existência de oposição e de balizas/alvos/portas (Headrick et al., 2012) é inegociável para que a prática de jogo mantenha um elevado grau de representatividade. Há outros constrangimentos da tarefa que são igualmente importantes: a organização estrutural, a dimensão e a forma da área de jogo e o número de participantes envolvidos. Contudo, algumas atividades são planeadas em função da seleção de alguns destes parâmetros, como os jogos de posse, i.e., sem balizas/alvos para finalizar. A conceção de um contexto de prática depende da conjugação destes parâmetros-chave. Apesar de haver um número vasto de possibilidades, a importância da representatividade da tarefa não deve ser descurada. 

Em geral, há falta de documentos internacionais suscetíveis de orientar as equipas técnicas que optem por trabalhar com abordagens pedagógicas baseadas no jogo. Sem um consenso prático sobre o uso de atividades jogadas na prática, as metodologias de treino praticamente permanecem sob a responsabilidade de cada treinador ou de cada clube. 

As atividades em forma de jogo são porções enquadradas do jogo formal que estimulam as respostas motoras pretendidas, contrariamente às ações individuais que emergem em contextos de jogo não condicionados e que, por esse motivo, podem ser divergentes (Farias et al., 2018; Mesquita et al., 2012). Os treinadores podem guiar as intenções dos jogadores através da simulação das características de um jogo formal em situações de jogo reduzidas, com uma baliza de cada lado e com constrangimentos simples. As atividades que replicam o jogo podem ainda diferir da sua estrutura original, com modificações na forma da área de jogo e na localização das balizas ou dos alvos (e.g., áreas hexagonais ou “meeinhos” ou “rondos”, com alvos nas extremidades). Estas configurações têm o condão de direcionar as ações pretendidas para dentro e para fora, ou ao redor de uma zona propícia para finalizar/pontuar (ver figura 2).


Figura 2. Comparação de formatos espaciais com diferentes direções sugeridas para as ações pretendidas (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

Por um lado, jogos em campos com formas distintas podem ampliar o espectro de ações e comportamentos específicos e apoiar a exploração de soluções práticas, precisamente porque não estão adstritas à estrutura espacial original. Por outro lado, os formatos cêntricos e circulares divergem tanto do formato original do jogo que podem afastar os jogadores da organização coletiva pretendida – designadamente, na preparação para a competição –, devido ao facto de não serem tão representativos. Deste modo, este tipo de estruturas espaciais deve ser utilizado de maneira coerente, como uma etapa no processo de descoberta de ações inovadoras (para jogadores em formação), e não como um meio de preparação antes de um compromisso competitivo iminente.

 

  • Tempo e espaço

Em contextos de treino, as circunstâncias desafiantes derivam essencialmente de restrições de tempo e espaço, tanto para tomar decisões e executar ações, como para resolver problemas situacionais com número díspar de jogadores. As dimensões do espaço de jogo e o número de participantes envolvidos são constrangimentos da tarefa que afetam o tempo e o espaço disponíveis (Ric et al., 2016), pelo que devem ser rigorosamente calculados para que as distâncias interpessoais proporcionadas convidem os jogadores a solucionar os problemas idealizados pela equipa técnica (Praça et al., 2021; Silva et al., 2016). 

O tempo e o espaço projetados para um formato de jogo fazem com que as oportunidades de ação disponíveis variem. Em situações de jogo mais reduzidas, os jogadores têm menos tempo e espaço para executar ações adquiridas (i.e., que fazem habitualmente), o que pode dificultar a autoeficácia, por exemplo, na manutenção da posse de bola. O desafio pode determinar uma redução no envolvimento direto com a bola, de modo a evitar ser desarmado ou a cometer erros que causem a perda da posse de bola. Por sua vez, espaços de maiores dimensões tendem a estimular mais movimentos sem bola (Almeida et al., 2013). As atividades devem, então, ser estruturadas para provocar intencionalidade nos comportamentos, reconhecendo que a eficácia no jogo requer tempo para a adaptação e para a sintonização a novos ritmos de movimento e a novas particularidades espaciais, antes propriamente de se atingir os resultados desejados.

 

  • Gerindo a complexidade e a dificuldade dos contextos de prática

A complexidade e a dificuldade dos contextos de prática são parâmetros significativos para os jogadores em termos de experiência, tomada de decisão e preparação para a competição. Na prática, estes conceitos devem ser ajustados de acordo com a experiência e o nível de habilidade dos jogadores (Petiot et al., 2021). A complexidade é representada pela qualidade e pela quantidade de informação disponível, resultante da configuração da tarefa. Situações mais complexas também podem levar os jogadores a pensar mais e decidir menos (Masters & Maxwell, 2004), inibindo a sua capacidade de autorregulação e o fluxo de desempenho (Morris et al., 2020). Em suma, a complexidade da tarefa está relacionada com o número de possibilidades de ação e de oponentes presentes na situação de jogo. 

A dificuldade da tarefa decorre da limitação do número de oportunidades de ação disponíveis. Em geral, uma maior dificuldade traz desafios que resultam em mais insucessos, nomeadamente em jogadores e equipas inexperientes. Enquanto jogadores experientes conseguem criar mais soluções mesmo quando há menos possibilidades, jogadores menos experientes precisam de mais tempo e espaço para criar oportunidades de ação. Ora, uma situação complexa não deve ser descrita como difícil, uma vez que os dois conceitos refletem características diferentes, como é evidenciado pela forma como são calculados (Travassos, 2014; para mais detalhes, ver texto aqui). Por exemplo, a inclusão de jogadores neutros (“jokers”) em jogos reduzidos pode contribuir para o desenvolvimento de jovens praticantes com níveis de habilidade mais baixos, pois aumenta a complexidade, devido à presença de mais jogadores (e informação) e, concomitantemente, diminui a dificuldade, tornando disponíveis mais oportunidades de ação.

 

Formatos e características-chave das atividades em forma de jogo

O fluxo do ato de jogar no contexto da temática variará sempre de acordo com a configuração escolhida para a atividade. Uma atividade de jogo bem concebida consegue relevar o contexto e a o ato de jogar no desenvolvimento dos indivíduos envolvidos. Há muitas apresentações possíveis de contextos de jogo e de paisagens de oportunidades de ação. Os formatos atuam como configurações e arranjos predefinidos, sequenciados de forma coerente, tendo em conta: (a) forma e tamanho da área de jogo (Clemente, 2016); (b) tipo e localização das balizas/alvos (Sarmento et al., 2018); (c) localização do campo na qual a situação de jogo é organizada. A combinação destes parâmetros gera contextos de desempenho distintos, nos quais a aprendizagem e o treino podem ocorrer eficazmente. Devido à sua escala crescente, os formatos expostos delineiam um continuum de 5 categorias de atividades, retratando configurações predefinidas. Segundo a perspetiva ecológica aplicada à construção da prática, os formatos são classificados em função das possibilidades de ação que proporcionam (Ribeiro et al., 2021; Woods et al., 2020) e pelo respetivo grau de representatividade da tarefa. 

Conforme exposto na tabela 1, as formas jogadas abertas implicam sequências curtas de jogo, que podem ser mais ou menos dinâmicas (i.e., defensores ativos ou passivos), pressupondo a resolução de problemas táticos básicos, com tomadas de decisão simples; os jogos reduzidos e condicionados são pequenos jogos com diferentes configurações, por vezes em espaços desproporcionais, e uma organização menos representativa comparativamente ao jogo formal; os jogos analíticos representam formas de jogo delimitadas para isolar uma subfase específica do jogo, localizadas em zonas específicas do campo; os jogos condicionados são jogos proporcionais, com configurações semelhantes ao jogo formal, embora possam conter constrangimentos adicionais não encontrados em competição (e.g., obrigatoriedade de executar um número mínimo de passes para entrar no terço ofensivo); o jogo completo corresponde ao jogo original praticado em contexto de treino, contendo as regras formais do futebol (e.g., lei do fora de jogo).

 

Tabela 1. Continuum dos formatos, do menos para o mais específico em relação ao jogo (adaptado de Petiot et al., 2023) (p.f., clique para ampliar). 


As formas jogadas estabelecem situações mais simples de jogo, oferecendo menos possibilidades de ação e uma banda mais estreita de busca e exploração de soluções táticas. Esta banda de exploração tática aumenta nos jogos reduzidos e condicionados, o que enfatiza o limitado potencial tático presente em situações de jogo 1v1. De facto, os jogos reduzidos e condicionados propõem um leque mais diversificado de oportunidades de ação porque são mais adaptáveis a formas, configurações e organizações divergentes. À medida que os formatos avançam no continuum, os jogos condicionados continuam a enquadrar oportunidades de ação específicas, em contraste com o realismo proporcionado pelo jogo completo, pois suscitam informações contextuais importantes referentes ao tema definido para a sessão ou para o microciclo. 

A representatividade das situações criadas nas atividades, a partir dos jogos analíticos em diante, direciona as intenções e a organização coletiva, restringindo, consequentemente, a gama de ações e responsabilidades passíveis de promover a adequação a um contexto circunscrito no campo. Havendo intenções mais direcionadas numa atividade significa que haverá menos oportunidades de ação divergentes a explorar pelos praticantes, uma vez que estas affordances são limitadas pelas intenções táticas a perseguir na tarefa. Assim, os formatos e as configurações possíveis resultam em diferentes implicações para a prática, mesmo que se rejam pela máxima de repetir (a resolução de um problema contextual) sem repetir (a mesma técnica) (Bernstein, 1967; Eskov et al., 2017). Em concordância com os referenciais dos cursos específicos para treinadores, os diferentes propósitos dos formatos constituem uma mensagem importante que os técnicos devem reter para contextualizar a prática e enfatizar as implicações de cada configuração. 

As atividades configuradas devem, portanto, ser planeadas de forma flexível ao longo de uma sessão de treino, com cada tarefa a contribuir gradualmente para a concretização dos objetivos específicos definidos para a sessão. Por exemplo, para praticar os princípios contenção e cobertura defensiva, podem ser usadas algumas ou todas as atividades que constam na figura 3. A sequência delineada corresponde a uma sessão tipicamente composta por quatro atividades, organizadas sequencialmente.

 

Figura 3. Exemplos de atividades em forma de jogo utilizadas para treinar ações e princípios defensivos em situações 4v4 (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

Implicações práticas

Os treinadores devem explorar um vasto espectro de recursos para enriquecer o seu conhecimento sobre o uso, o impacto e as implicações das atividades em formato de jogo. As ideias apresentadas neste artigo foram cuidadosamente elaboradas com o objetivo de esclarecer as vantagens e os desafios associados à implementação de atividades jogadas, proporcionando evidências e referências para capacitar os treinadores a utilizá-las de maneira lógica e coerente. 

Para que os treinadores possam transformar um diagnóstico em atividades em forma de jogo, devem seguir o que é sugerido na figura 4. Recomenda-se que comecem a partir do jogo completo do respetivo escalão etário (e.g., 5v5, 7v7, 9v9 e 11v11), “desmembrando-o” em frações mais reduzidas.

 

Figura 4. Comparação dos processos de conceber e praticar atividades em forma de jogo (adaptado de Petiot et al., 2023).

 

A atividade em forma de jogo permite que os treinadores enquadrem as ações ou as sequências específicas esperadas em competição, estando adstritas a um tema que favorece o transfer para os contextos de desempenho. O contexto inerente à formulação do tema orienta a conceção dos diferentes formatos reduzidos de jogo. Os temas, os formatos e os parâmetros da atividade refletem as informações com as quais os treinadores podem trabalhar para criar exercícios a partir do zero. 

Qualquer configuração de atividade em forma de jogo tem uma influência clara e direta nas possibilidades que emergem em campo e fornece, até certo ponto, contextos significativos para os jogadores, na medida em que as ações se tornam transferíveis para contextos não condicionados de jogo. Portanto, os formatos incorporam graus de complexidade, dificuldade, especificidade e integridade, em função do arranjo dos diferentes parâmetros da tarefa. Conforme é possível verificar na tabela 2, a mensagem que convém reter é que os formatos devem manipulados e orientados para cumprir o seu propósito por meio das possibilidades de ação que providenciam aos praticantes.

 

Tabela 2. Propósitos dos diferentes formatos e as suas implicações em termos de processo de treino (adaptado de Petiot et al., 2023) (p. f., clique para ampliar). 


Ao nível da “prática do treinador”, destacamos que os próprios são responsáveis por experimentar e manipular as tarefas incorporadas no continuum proposto de atividades em forma de jogo. Estes processos envolvem a leitura do jogo, a manipulação dos parâmetros-chave e a intervenção em cada atividade concebida para um grupo específico de jogadores. A vantagem que decorre de se avançar com um quadro abrangente e flexível de formatos, como é este continuum, é poder navegar entre contextos, cada qual com características e oportunidades de ação diferenciadas.

 

Conclusão

Este artigo propõe um continuum de formatos de atividades de jogo, que variam em especificidade, complexidade e representatividade para atender às necessidades de jogadores com diferentes níveis de prática. Cada atividade em forma de jogo oferece oportunidades de ação para diferentes níveis de desempenho, com estruturas, parâmetros e regras variáveis e personalizáveis. Este instrumento constitui uma contribuição científica valiosa para o treino desportivo, com potencial para ser incluído em currículos nacionais e internacionais inerentes ao desenvolvimento de jovens jogadores e à preparação para a performance em competição.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista International Journal of Sports Science & Coaching.

28/08/2023

Artigo do mês #44 – agosto 2023 | Tempo útil de jogo influencia os parâmetros técnico-táticos e físicos no futebol

Nota prévia: O artigo científico alvo da presente síntese foi selecionado em função dos seguintes critérios: (1) publicado numa revista científica internacional com revisão de pares; (2) publicado no último trimestre; (3) associado a um tema que considere pertinente no âmbito das Ciências do Desporto.

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Autores: Tojo, Ó., Spyrou, K., Teixeira, J., Pereira, P., & Ribeiro, J.

País: Portugal

Data de publicação: 8-agosto-2023

Título: Effective playing time affects technical-tactical and physical parameters in football

Referência: Tojo, Ó., Spyrou, K., Teixeira, J., Pereira, P., & Ribeiro, J. (2023). Effective playing time affects technical-tactical and physical parameters in football. Frontiers in Sports and Active Living, 5, 1229595. https://doi.org/ 10.3389/fspor.2023.1229595

  

Figura 1. Informações editoriais do artigo do mês 44 – agosto de 2023.

 

Apresentação do problema

O jogo de futebol tem sido descrito como um sistema altamente dinâmico, complexo, auto-organizado, instável e imprevisível, no qual os treinadores e os jogadores tentam manter a estabilidade das suas organizações ofensiva e defensiva, enquanto procuram desorganizar a estrutura adversária (Davids et al., 2013; Garganta, 2009). Contudo, há uma série de fatores contextuais, como a localização do jogo, o ranking das equipas, o nível de prática, o resultado corrente do jogo e os estilos de jogo, que pode influenciar os comportamentos individuais e coletivos (Eccles et al., 2009; Gómez et al., 2013; Sarmento et al., 2014), exigindo uma adaptação constante dos jogadores a essas mudanças e que se reflete nas ações técnico-táticas executadas e nos padrões que emergem em competição (Vilar et al., 2012). 

As interrupções no futebol são uma característica do jogo e contribuem para que a sua natureza prime pela intermitência (Siegle & Lames, 2012; Zhao & Liu, 2022). Recentemente, o tempo efetivo (ou útil) de jogo tem sido discutido com preocupação pelos diversos agentes envolvidos no futebol (Altmann et al., 2023; Rey et al., 2022), já que, embora os jogos oficiais durem mais de 90 minutos, as várias interrupções (i.e., substituições, faltas, lesões, golos e bolas fora de jogo), podem afetar negativamente o tempo útil de jogo (Linke et al., 2018). Por exemplo, foi evidenciado que o tempo efetivo de jogo na liga portuguesa foi em média ~49 minutos do tempo total de jogo (i.e., 90 minutos), o que é consistentemente mais baixo comparativamente a outras ligas europeias (i.e., Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália) e à UEFA Champions League (Portugal Football Observatory, 2022; ver figura 2). O tempo útil de jogo também foi equacionado numa outra investigação (Castellano et al., 2022). Ao distinguir as duas principais fases do jogo (ou seja, com e sem a posse de bola), e normalizando a distância total para metros por minuto (m/min), estes investigadores constataram que as equipas correm mais sem posse de bola, e o tempo efetivo de jogo e a quantidade de posse de bola influenciaram o desempenho de corrida dos jogadores.

 

Figura 2. Tempo útil de jogo no contexto europeu – Portugal e a Europa (fonte: https://portugalfootballobservatory.fpf.pt; imagem não publicada pelos autores).

 

No que diz respeito às exigências físicas, jogadores profissionais a atuar na Bundesliga alemã percorreram em média 10% mais de distância total, realizaram 13% mais acelerações e sprintaram 7% a 10% menos em partidas oficiais com um tempo útil de jogo longo (>65 minutos), em comparação com um tempo útil mais curto (<50 minutos) (Altmann et al., 2023). Além disso, jogadores profissionais do Championship, em Inglaterra, apresentaram menores exigências físicas, comparando o jogo completo e o período apenas com a bola em jogo (Mernagh et al., 2021). O tempo útil de jogo foi ainda ponderado em função de várias variáveis contextuais, como o nível da equipa, o resultado corrente e a localização do jogo. A distância total aumentou em jogos caseiros, quando a equipa estava em desvantagem no marcador e quando defrontou adversários mais fortes (Castellano et al., 2011). No entanto, é necessária mais investigação sobre os efeitos do tempo efetivo de jogo em parâmetros físicos e técnico-táticos no jogo de futebol. 

O futsal e o basquetebol são desportos coletivos que são uma referência relativamente ao tempo útil de jogo, uma vez que o tempo é parado quando a bola está fora. Esta pode ser uma alteração interessante para o futebol que, como foi referido, é particularmente sensível a diversas variáveis contextuais. Portanto, este estudo teve como objetivo explorar as diferenças causadas por duas condições de jogo – (1) 45 minutos de jogo sem interrupção do cronómetro quando a bola estava fora (T45) e (2) 30 minutos de jogo com paragem do cronómetro sempre que a bola estava fora (T30) – em variáveis relacionadas com o tempo de jogo (i.e., tempo total, efetivo e interrompido), parâmetros técnico-táticos (posse de bola e remates à baliza), métricas de carga externa e outros eventos do jogo (i.e., assistência médica, pontapés de baliza, cantos, lançamentos laterais, pontapés de saída e faltas). Os autores colocaram a hipótese de que o protocolo T30 apresentaria valores mais altos nas variáveis relacionadas ao tempo, nos parâmetros técnico-táticos e nas métricas de carga externa, em comparação com o T45.

 

Métodos

Desenho experimental: foram recolhidos dados de 6 jogos particulares (“amigáveis”). Os jogos foram aleatoriamente divididos em uma parte de 45 minutos (T45: 45 minutos de jogo sem paragem do cronómetro com a bola fora), ou uma parte de 30 minutos efetivos (T30: o cronómetro foi parado sempre que a bola não estava em jogo). Neste estudo foi analisado um total de 6 partes em cada condição experimentar (T45 e T30). Os jogos foram geridos por árbitros oficiais (i.e., 1 árbitro e 2 assistentes), porém, com um responsável externo para cronometrar o tempo de jogo. Entre cada parte houve um intervalo de 15 minutos. Os jogos foram realizados no final da época 2021/2022. 

Participantes: participaram na experiência 179 jogadores de futebol amadores do género masculino, altamente treinados (idade: 27.9 9 ± 5.1 anos), provenientes de 12 equipas a competir nas 4.ª e 5.ª divisões de Portugal. Todos os jogadores tinham mais de 18 anos e treinavam 3–4 vezes por semana, com um jogo oficial. Os guarda-redes foram excluídos do estudo devido às diferentes exigências físicas e técnico-táticas inerentes à respetiva posição. Os participantes assinaram o consentimento informado e o estudo foi aprovado pelo Comité de Ética da Portugal Football School. 

Procedimentos: os jogos foram gravados com uma câmara digital de 35-megapixeis (Canon XA15Hd, Japão), colocada acima do terreno de jogo para filmá-lo integralmente ao longo dos períodos considerados. Os jogos foram analisados e codificados através do software LongoMatch (Barcelona, Espanha), utilizando 3 categorias de variáveis: (1) a relacionada com o tempo, (2) os eventos relacionados com as paragens do jogo e (3) variáveis técnico-táticas ofensivas (Tabela 1).

  

Tabela 1. Variáveis do estudo, em função de cada categoria: tempo, eventos de jogo associados às paragens e variáveis técnico-táticas ofensivas (Tojo et al., 2023).


Os jogadores usaram unidades de GPS (APEX, STATSports, Irlanda do Norte), com uma frequência amostral de 10 Hz. Contudo, só foram incluídos os dados dos jogadores que disputaram as partidas por completo. As métricas de carga externa incluíram as distâncias total, em corrida de velocidade moderada (14.4–19.8 km/h), em corrida de alta velocidade (19.8–25.2 km/h), em sprint (>25.2 km/h), as atividades em alta velocidade (distância percorrida em velocidade alta e sprint), o número de sprints, o número de acelerações (>3 m/s2) e o número de desacelerações (<−3 m/s2) (Gualtieri et al., 2023; Rago et al., 2019). 

Análise estatística: foi utilizado o pacote estatístico jamovi (versão 2.3; https://www.jamovi.org) para o efeito. A estatística descritiva consistiu na apresentação da média e do desvio-padrão para todas as variáveis. Para averiguar as diferenças entre as condições T45 e T30 nas variáveis de carga externa foi utilizado o modelo linear misto, tendo em consideração medidas individuais repetidas. De modo a analisar as diferenças entre as ações e o tempo médio de paragem, entre as condições T45 e T30, foi empregue um modelo linear geral. Recorreu-se ao teste de proporção para uma amostra para comparar as variáveis técnico-táticas ofensivas entre as duas condições experimentais. As dimensões de efeito inerentes ao d de Cohen foram interpretadas da seguinte forma: <0.2 = trivial; 0.2 = pequeno; 0.5 = moderado; 0.8 = grande (Cohen, 1988). O nível de significância estabelecido foi de 5% (p ≤ 0.05).

 

Principais resultados

 

·     Variáveis relacionadas com o tempo

A condição T30 apresentou valores significativamente mais elevados no tempo total (49:30 vs. 45:00; efeito grande), tempo efetivo (28:70 vs. 26:80; efeito moderado) e tempo parado (20:60 vs. 18:20; efeito pequeno), comparativamente à condição T45.

 

·     Eventos relacionados com as paragens do jogo

A única variável que registou diferenças significativas entre T30 e T45 foi o pontapé de baliza, com valores mais elevados na condição T30 (00:46 vs. 00:30; efeito grande). Porém, embora para as outras variáveis não tenham sido evidenciadas diferenças estatisticamente significativas, os valores médios das paragens para assistência médica e para substituições foram mais elevados na condição T30: 01:32 vs. 00:59 (efeito moderado) e 01:50 vs. 00:22 (efeito grande).

 

·     Variáveis técnico-táticas ofensivas

Mais uma vez, foi na condição T30 (vs. T45) que foram detetados valores significativamente mais elevados, no caso, na posse de bola total (n = 703, 54.4% vs. n = 590, 45.6%) e na posse de bola no terço ofensivo (n = 276, 55.3% vs. n = 223, 44.7%). No que respeita à posse dentro da área de penálti e aos números de remates à baliza dentro e fora da área de penálti, não houve diferenças significativas entre as duas condições experimentais.

 

·     Variáveis de carga externa

Relativamente à condição T45, na T30 os jogadores percorreram significativamente maiores distâncias totais (4899 vs. 4481m; efeito moderado), em corrida de velocidade moderada (607 vs. 557m; efeito pequeno), em corrida de alta velocidade (202 vs. 170m; efeito pequeno) e em atividades de alta velocidade (284 vs. 245m; efeito pequeno). Os números médios de acelerações (27 vs. 24; efeito pequeno) e de desacelerações (31 vs. 28; efeito pequeno) também foram significativamente mais elevados na condição T30.

 

Aplicações práticas

Acima de tudo, este estudo indica que as entidades que tutelam o futebol internacional devem considerar seriamente a possibilidade de se cronometrar o tempo da bola em jogo no futebol, tal como sucede no futsal. Aumentar o tempo útil de jogo tem consequências nas exigências físicas e nas ações técnico-táticas que são executadas em competição. Em particular, há a destacar o aumento do número de atividades técnico-táticas no terço ofensivo do campo e o aumento da carga externa, sobretudo, da distância total percorrida e do número de ações em alta velocidade (> 19.8 km/h), de acelerações e de desacelerações. 

Na perspetiva dos adeptos e dos fãs de futebol, parar o cronometro quando a bola está fora parece ser uma estratégia que aumenta o interesse do jogo. Além de proporcionar a disputa do jogo pelo jogo durante mais tempo, tende a reduzir substancialmente situações indesejadas (e eticamente condenáveis), como é, por exemplo, a simulação de lesões. Esta medida poderá ser especialmente indicada para ligas com reduzido tempo útil de jogo, como são principais ligas portuguesas (Liga Portugal Betclic e Liga Portugal 2 SABSEG), com valores médios de tempo efetivo a rondar os 50%.

 

Conclusão

Comparando com o protocolo sem parar o cronómetro quando a bola está fora (T45), a condição T30 (com paragens do cronómetro quando a bola está fora) revelou tempos total, útil e parado mais longos. Os jogadores tiveram significativamente mais posse de bola e ações no terço ofensivo do campo, percorrendo maiores distâncias total, a velocidade moderada, a velocidade alta e registando-se mais acelerações e desacelerações. As evidências sugerem que o tempo útil de jogo pode influenciar substancialmente as componentes técnico-tática e física do jogo de futebol. Por isso, as organizações internacionais que tutelam o futebol devem ponderar a implementação do tempo cronometrado nos jogos, pois parece trazer mais benefícios do que desvantagens no que se refere ao interesse da modalidade.

 

P.S.:

1-  As ideias que constam neste texto foram originalmente escritas pelos autores do artigo e, presentemente, traduzidas para a língua portuguesa;

2-  Para melhor compreender as ideias acima referidas, recomenda-se a leitura integral do artigo em questão;

3-  As citações efetuadas nesta rúbrica foram utilizadas pelos autores do artigo, podendo o leitor encontrar as devidas referências na versão original publicada na revista Frontiers in Sports and Active Living.